1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Um Estranho na Ilha - Parte II (continuação)

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Espanhol, 28 Jun 2011.

  1. O ar condicionado da sala devia estar desregulado, pensou Carlos fechando o zíper do casado. Rita estava sentada, ao seu lado, contando uma história de amor:

    “Era uma vez um homem de rabo de cavalo e sorriso carismático. Um dia, ele e uma linda moça do povoado de pescadores se apaixonaram. Eles viveram uma história de amor, com noites tórridas de sexo e intrigas com os pais da moça. Um dia, ela ficou enciumada por que o moço tinha uma outra paixão: a pintura. A linda moça ficou enciumada e exigiu que o moço escolhesse ela ou a pintura. Acuado, o moço sumiu e nunca mais foi visto.

    Fim”

    Marcos J. estava sentado do outro lado da mesa. Ele deu um longo trago no cigarro e perguntou: - É isso?

    - Bom - disse Rita com empolgação – tem mais, mas não quero te incomodar com os detalhes.

    - De fato – sorriu Marcos enquanto espremia o cigarro no cinzeiro – você pode me poupar dos detalhes, querida.

    Ele levantou e disse pausadamente:

    - Fofos, me deixa contar uma coisa: não podemos colocar na pauta do programa toda história que nos contam...

    Marcos seguiu contando as razões; elas incluíam patrocinadores, custos, audiência etc. e etc. Carlos previa que a rejeição aconteceria. Apesar da boa vontade de Rita, a história era melosa e sem apelo. Ele sabia disso no momento em que ela inventou a história; mas preferiu ficar em silêncio até conhecer o apresentador e confirmar o que desconfiava: que a história precisava de um tempero forte e um incentivo financeiro.

    - A história de vocês não tem nada de especial – continuou o apresentador em tom de reclamação – falta algo de excitante. Que prenda a atenção dos nossos ouvintes.

    - Parece novela mexicana, não é? – perguntou Carlos ignorando o olhar de reprovação de Rita.

    - Isso, você pegou o espírito!

    - Tem alguns detalhes que não contamos. O lugar onde moramos é um pouco conservador, sabe, e tivemos receio de contar algumas coisas pouco religiosas – disse Carlos sentando-se próximo de Marcos - Mas agora me sinto confortável em falar sobre essas coisas.

    Marcos sentou e acendeu outro cigarro: Então me conta os detalhes. Eu quero saber de tudo.

    * * *

    Eram nove da noite e estava quase na hora do My Lost Love. A pequena lâmpada do estúdio projetava as sombras dos técnicos que andavam de um lado para outro, ocupados com os preparativos do programa; e sombras que cochichavam sobre um roteiro que não se adequava aos planos delas.

    Insatisfeitas, as sombras fizeram alterações no script com as quais Marcos certamente não se incomodaria; afinal, ele tinha outros assuntos mais urgentes a tratar.

    O apresentador entrou no estúdio e sentou-se à mesa com o casal. Carlos reparou que Marcos roia as unhas enquanto relia o roteiro - os patrocinadores tinham comprado a idéia e queriam o programa no ar naquela noite; com a pressão, o apresentador derreteria junto com seus quilos de maquiagem. Era uma questão estão de tempo, pensou Carlos.

    Marcos esperou os técnicos sinalizarem: e três, e dois, e um...

    - Boa noite, babyyy!

    - Estamos de volta com mais um My Lost Love. Se você perdeu seu love, não se preocupe, nós encontraremos ele pra você, mas se você não pegar ele... Eu o tomo de você!

    Marcos fez uma pausa enquanto uma canção de amor tocava.

    - Hoje temos uma história imperdível. Imperdível não: “A História”. Aqui do meu lado estão Carlos e Rita, e bem...

    Ele acenou para Rita:

    - Oi gente, aqui é Rita... O que vou contar é mais do que uma história de amor. É sobre o homem da minha vida.

    - Ele era um líder entre homens... Respeitado, amado e admirado. Mas um dia, – disse olhando para Carlos com tristeza - ele ficou orgulhoso e passou acreditar que poderia resolver qualquer coisa sozinho.

    Marcos arregalou os olhos e cochichou: – Isso não está no script!

    Rita ignorou: - Um dia, meu homem encontrou alguém mais forte. Alguém que tornava seus poderes pequenos. E daí, seu orgulho foi pra lona.

    - Gente, o nome do bofe é Roberto Lamp – interrompeu Marcos - Rita, conta pra gente, por que esse bofe te deixou?

    - Senti que fui posta de fora da vida dele. Ele foi se distanciando aos poucos, até me deixar.

    - Mas Rita, pelo que você contou pra a gente, está claro que o Roberto não se interessa mais por você. Pra que insistir?

    - Por que ele está de volta.

    - E você acha que ele veio por você, não é fofa?

    - Babies: a história não para por aí. Acontece que Rita não se apaixonou por um homem só.

    - Isso mesmo, pessoal, - disse Carlos tentando descontrair o tom de voz - algum tempo depois que Roberto se foi, Rita e eu nos conhecemos.

    Ele abaixou a cabeça e continuou:

    - E somos apaixonados até hoje – completou segurando as mãos dela, e sem soltá-las disse sussurrando: vamos encontrar esse homem, eu prometo.

    Marcos sorriu:

    - Vocês acreditam nisso, babies? Rita é uma mulher de dois homens!

    - E Rita, porque você nos procurou?

    - Preciso da ajuda dos seus... Babies... – disse ela torcendo o nariz – pra encontrar Roberto.

    - Vamos dar uma força para Rita! My Lost Love abre temporada de caça ao Roberto! Para descrição física do bofe e outros detalhes entrem no nosso web site.

    - E o melhor – disse Marcos olhando para Carlos.

    - Quem encontrar Roberto até o sol nascer – disse Carlos - vai ganhar um prêmio de vinte mil reais em dinheiro!

    Marcos soltou o head set da cabeça e cochichou para Carlos: O que você está fazendo? O período de busca é de uma semana, seu louco!

    Carlos ignorou:

    - Quanto? Perguntou fingindo-se de surdo.

    - Vinte mil! Respondeu Rita.

    Vinte mil reais e uma história de amor: Carlos e Rita não poderiam imaginar o que acontece quando se mistura dinheiro e amor. A história tocou o coração de alguns; e o dinheiro, o coração de outros. Como resultado, o pedido de ajuda viajou de boca em boca pelos vilarejos e cidades nos arredores, tornando Roberto Lamp o homem mais procurado da região.

    Três da manhã. Marcos estava deitado no sofá, ao fundo do estúdio, limpando o suor com um lenço. Ele olhava repetidas vezes para a cabine dos técnicos. Bastaria um sinal com a mão, e o programa (e seu sofrimento) estariam terminados.

    Ele começou a derreter, pensou Carlos escondendo-se nas sombras. Marcos levantou lentamente e nas pontas dos pés avançou para a cabina...

    - Ai, que susto!

    Carlos emergiu das sombras colocando-se entre o apresentador e os técnicos.

    - Fofo... – disse Marcos se recuperando do susto - eu adoro vocês, mas acho que o Roberto não aparece não – disse enquanto tentava encontrar o técnico com os olhos – Se é que ele existe, né?

    - Esse programa só termina quando eu disser, caboclo.

    - Não termina não, seu pescador de merda! – disse ele com o rosto vermelho - Quem manda aqui sou eu!

    Segundos depois, dois tabefes marcaram as bochechas do apresentador. Ele desandou a chorar:

    - Eu não agüento mais! Disse jogando-se no sofá. – O que vocês querem de mim?

    - Que volte pra mesa e faça seu trabalho.

    Rita entrou no estúdio, acompanhada de um sujeito baixinho, com cabelo grisalho.

    - Quem é você? Gritou Marcos.

    - Credo, Marcos – protestou Rita – o nome dele é Júlio e trabalha no posto de gasolina há duas horas daqui.

    - Ele me disse que viu Roberto.

    - Como ele é? Perguntou Carlos.

    - Tinha cabelo de mulher, cara de boa-vida... – respondeu Júlio - tava lá no posto pra abastecer a motocicleta.

    Ele fez uma cara séria.

    - Mas tava bem mau-humorado, sabe, disse que tava fugindo de umas pessoas que o perseguiam por causa de mulher.

    - É ele – pensou Roberto – só pode ser.

    - E como encontramos ele? – perguntou Marcos.

    - Ah, ele queria pagar a gasolina com cartão. Disse que a máquina tava quebrada e ele ofereceu cheque. Normalmente não aceitamos... É contra as regras da firma, mas abri uma exceção e pedi o telefone dele.

    - Pedi o celular – disse mostrando uma fileira de dentes amarelos – Cadê meus vinte mil?

    - Depois que a gente comprovar – disse Marcos com ar de desprezo.

    Todos correram para a mesa do estúdio. Marcos acenou para a cabine.

    E três, e dois, e um:

    - Olá, meus Babies, estamos de volta com o programa. Temos aqui uma pista do amore de Rita. Vamos cruzar os dedos.

    O telefone tocou.

    - Quem é?

    - Olá bo...

    - Olá Roberto – cortou Carlos – Larson está atrás de nós. Se 18 de Abril significa alguma coisa, por favor nos ajude.

    O outro lado da linha ficou em silêncio.

    - Não conheço nenhum Larson e essa data não significa nada pra mim. Sinto muito.

    O telefone desligou.

    * * *
    O casal caminhava pelo píer, em direção ao barco de Carlos. Não tinham trocado uma palavra desde que foram expulsos pelo histérico Marcos. A passarela de madeira rangia a cada passada que davam. Resignados, assistiam os raios vermelhos de sol avançarem do horizonte pelo mar.
    Sem que percebessem, uma névoa se esgueirou abaixo do píer e avançou pelas frestas da madeira. No céu, a bola vermelha se escondeu atrás das montanhas e a escuridão avançou pelo horizonte até alcançar Carlos. Ele sentiu Rita segurar seu braço com força.

    Era tarde de mais. A névoa já os tinha envolvido.

    Sussurros entraram na cabeça de Carlos.

    “Caarlosss...”

    “Caarlosss... O que você quer de Larson?”


    Carlos girou o corpo como um tigre acuado:

    A névoa avançou.

    “O que você quer de Roberto Lamp?”

    - Nós encontramos seu desenho na cabana de Larson. Se for nos matar, faça de uma vez!

    A névoa dissipou e a escuridão deu lugar à luz. Na frente do casal, aonde havia névoa, estava um homem alto, com rabo de cavalo.

    Ele sorriu:

    - Nesse caso, meu amigo, são dois que Larson quer mortos.

    - Me encontre amanhã na biblioteca dos Corais, às oito da manhã.

    * * *
     

Compartilhar