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Um conto de horror

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Sickness-the source, 26 Jun 2004.

  1. Memória

    Já nem sei quanto tempo que estou vagando perdido nesta névoa
    maldita. Não durmo, não tenho fome, sede, frio ou necessidades
    fisiológicas normais, embora eu tenha noção que muito tempo se passou
    desde que entrei neste labirinto sem paredes.

    Às vezes me sinto cansado...Não um cansaço físico ou mental –
    é algo diferente, como um desespero inútil ou crença de que tudo isso
    não seja mais que um pesadelo. Vez ou outra, eu vejo distantes luzes
    difusas se dispersarem nas finas partículas que me envolvem. Em
    algumas ocasiões eu sou capaz de jurar que vejo vultos que fogem de
    mim desaparecendo como espectros fugidios. Minhas memórias estão se
    perdendo em algum profundo abismo de minha mente; lentamente,
    desesperadamente, inexoravelmente...

    Sei, mais ou menos, quem sou, o que fazia e como vim parar
    nessa silenciosa bruma. As minhas duas primeiras lembranças, pouco me
    importam mais, mas procuro relembrar incessantemente os meus últimos
    passos fora desta prisão infernal, na esperança de descobrir uma
    saída deste gasoso confinamento.

    Eu estava indo encontrar alguns amigos (ou parentes, não
    estou bem certo...) em uma fazenda nas proximidades da minha cidade.
    Lembro-me da estrada de asfalto, em que dirigia solitário à noite,
    iluminada pelo farol alto de meu automóvel. Não sei se me confundo,
    mas, em certo trecho do caminho, havia um carro com pisca-alertas
    ligado, parado à beira da estrada. Havia pessoas ao lado do automóvel
    sinalizando com as mãos pedidos de socorro. Não parei (disto eu tenho
    certeza). Segui em frente olhando o carro parado pelo retrovisor
    central do meu veículo. Uma aguda buzina à frente. Meu carro seguia
    na contra-mão no mesmo sentido de uma grande carreta em alta
    velocidade. Desviei.

    Depois me vem a imagem de uma precária estradinha de terra
    que seguia íngreme uma negra montanha. Devia estar frio e em altitude
    elevada, pois foi nesta estradinha que vi a cerrada neblina. Diminuí
    a minha velocidade e usei faróis baixos. De tempos em tempos a névoa
    fazia uma sonolenta dança na frente do carro, me permitindo ver o
    caminho. Houve uma batida? Creio que sim. Recordo-me de descer e ir
    ver o que acontecera, desligando o veículo com os faróis ainda acesos.

    Assim, abri a porta do carro e, banhado pela neblina, segui
    até a frente do carro. Não sei se vi algo ou alguma coisa... a
    próxima coisa que me lembro foi de ter tentado, com pressa, ligar o
    carro sem conseguir dar a partida. Mais dança da névoa. Toc, toc
    toc... Uma batida preguiçosa e cadenciada na janela à minha esquerda.
    Batendo com o dedo médio no vidro, um velho negro de cabelos e barbas
    brancas com um sorriso amarelado e o espantoso: Olhos completamente
    negros. Negros! Não havia escleróticas brancas ou íris castanhas,
    azuis ou cor natural. Negro, todo negro... – "Xô entrá mi zin fio..."-
    Dizia o velho com voz suave e vacilantemente senil. – "Abre a porta
    pro véio mi zin fio!".

    Minhas mãos saíram do apoio do volante como que agindo por
    conta própria, indo em direção à tranca para abri-la quando ouvi,
    vindo atrás de mim, uma voz de criança (menina eu acho... mas voz de
    criança não tem sexo) – "Abre não tio... Ele qué pegá nós dois!".
    Como em um pesadelo (se é que este não o seja) virei lenta e
    penosamente para ver o que estava no banco do passageiro de meu
    carro: uma menina aparentando 10 anos de idade com um boneco em seus
    braços. Seu vestidinho de babados branco estava salpicado de sangue
    que jorrava como um regato de seu rosto. O que restara de seu crânio,
    exibia uma calota esmagada à direita; órbita vazia à esquerda e um
    grande rasgo na face, que se estendia da mandíbula à orelha esquerda,
    transparecendo um jocoso sorriso avermelhado.

    Se eu senti medo? Repugnância? Nada... Senti simplesmente uma
    perplexidade idiota diante do inacreditável. Acho que fiquei mais
    chocado com o boneco que a menina-defunta trazia ao colo: Parecia ser
    eu! Houve um átimo de tempo de silêncio tenso, até que o negro
    começou a rir. Rir como um louco, um demônio; como alguém que ouvira
    a melhor piada do mundo: Eu era a piada? O velho caiu ao chão e não
    pude vê-lo. Pensei em abrir a porta para ver, correr, sei lá... A
    menininha ensangüentada começava a cantarolar uma cantiga infantil
    que eu conhecia bem, o que evitou por um momento que abrisse a porta.
    Acho que foi nessa hora que comecei a sentir um indescritível pânico
    (ou pelo o menos o sinto agora ao lembrar o fato), pois comecei,
    inutilmente, a tentar a ignição do carro novamente. – "Moço, canta
    comigo... num dexa o coisa entrar aqui não"- disse a menininha em uma
    voz infantil caricata. Meu Deus! Me lembro! Agora me lembro!

    O velho negro apareceu na frente do meu carro envolto pela
    espessa névoa. Arrastava-se sob o capô do carro como uma cobra
    peçonhenta enquanto repetia – "Abra a porta mi zin fio... eu só quero
    ela! Abre a porta seu fidaputa! Abre! Abre merda!"- O carro balançava
    loucamente enquanto o velho esmurrava repetidamente o parabrisas do
    meu carro; lambia o vidro como quem lambe um doce, deixando marcas
    nojentas de baba pelo vidro. A menina cantava ainda, não parecendo se
    importar com a grotesca cena que eu presenciava. Eu já não podia
    suportar mais nada. Gritei como um louco, salivando abundantemente;
    Gritei com cara de desafio cara a cara com o velho de olhos
    diabólicos, separado dele por uma fina lâmina de vidro temperado;
    Gritei mais alto que o cântico sinistro da criança morta no banco de
    passageiros; Gritei até perder os sentidos...

    Acordei nesta neblina vagando perdido no mar etéreo. Não vi
    meu carro, o velho ou a menina. Parece que cada vez que tento me
    recordar de como vim parar aqui na bruma, eu lembro de algo a mais em
    detrimento de alguma memória pessoal. Já não sei se tinha filhos, se
    eu era casado, meu sobrenome... Não me lembro nem se vale a pena sair
    daqui para viver como um homem sem memória. Já nem sei quanto tempo
    que estou vagando perdido nesta névoa maldita. Não durmo, não tenho
    fome, sede, frio ou necessidades fisiológicas normais, embora eu
    tenha noção que muito tempo se passou desde que entrei neste
    labirinto sem paredes.

    FIM
     
  2. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    Eu adoro esse tipo de historia... :)
    Muito legal...massss isso eh de sua autoria, certo?? acho q o lugar certo para publicar eh o clube dos escritores :wink:
     
  3. Daniel Rezende

    Daniel Rezende Usuário

    Não... não é da autoria deste senhor. Este conto foi escrito por mim em 1995 e encontra-se registrado na BPN. Como o autor do post não se identificou como o verdadeiro autor medidas judiciais não serão tomadas.
     
  4. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    Opa! E eu tinha colocado lá que "gostei". :dente:

    Se é você o autor, Daniel, parabéns.
     

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