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Trechos em prosa da minha peça de teatro

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Matheus Spier, 18 Out 2012.

  1. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    Olá.

    Nos tópicos que postei no espaço "Poesia" comentei que terminei recentemente uma peça de teatro, e que gostaria da opinião dos leitores deste fórum sobre alguns trechos da mesma. A peça foi escrita em versos (sobretudo versos brancos: sem rima, mas com 10 sílabas métricas) e em prosa. Já citei muitos trechos em verso, e agora gostaria de fazer o mesmo com uma passagem em prosa.

    A passagem que vou citar estará fora de contexto. Para poder situar um pouco os leitores, começo dizendo que quem monologa na ocasião é um escravo (um guardião de harém da época das Mil e Uma Noites) chamado Babalouk (tirei esse nome de um personagem da novela Vathek, de William Beckford, porém no livro de Beckford o nome é ainda mais estranho: Bababalouk). Ele foi encarregado pelo califa (que é o vilão da peça) de vasculhar o reino de Bagdá, na companhia de um velho Vizir, em busca das mais belas mulheres, para que estas fossem trazidas para o leito califa. Quando Babalouk e o vizir encontram duas moças (Badura e Gulnara) e propõem trazer Gulnara para o palácio, Badura se interpõe (ela tem o pressentimento de que o califa é um homem vulgar egocêntrico, que só quer recolher para si noivas e mais noivas, apenas para saciar sua fome carnal). Babalouk, então, rompe num grande monólogo, dizendo que a chance de Gulnara (tornar-se uma das esposas do califa) é tão grande que não aproveitá-la seria o mesmo que negar ir para os braços da divindade quando o juízo final enfim ocorresse.

    A fala se caracteriza por um enorme exagero retórico. Babalouk, quando era criança, tinha a permissão do pai do califa (já falecido) para passar seus dias na biblioteca, lendo. Dessa forma, Babalouk adquiriu vários conhecimentos que sua situação social (de escravo) jamais lhe permitiria obter. Quando o velho califa morreu, seu filho logo forçou Babalouk a trabalhar, e passou a trata-lo como a um cão. Dessa forma, Babalouk é um msito de alta cultura, ressentimento, vulgaridades, medo, ódio e amor. É um personagem bastante interessante.

    Eis as falas de Babalouk (o monólogo está dividido por pequenas falas de outros personagens):




    BABALOUK: Por que nos belisca com sarcasmo, menina?

    BADURA: Por que algo me diz que o senhor está semeando armadilhas de mentira para nós duas.

    BABALOUK: Tu vês, Gulnara, tu vês, pombinha, o quanto te ama, o quanto te quer bem a tua amiguinha? A mim parece que ela tudo faria para fechar as portas do palácio da felicidade para ti, batendo seus portões em teu nariz; ao menos é assim que me cheiram as ações dela: e o meu faro é preciso, é um faro faminto por verdade, que tudo desvenda. Eu gostaria de te explicar o pensamento de tua amiga, mas preciso fazê-lo de forma criativa: pensamentos complexos gostam de passear vestidos com imagens, símiles, metáforas e alegorias; é por isso que os discursos dos profetas parecem o próprio carnaval do verbo. Mas chega disso! Chega disso! Vamos ver... preciso pensar um pouco... Ah! Já sei! Preste atenção em mim, Gulnara; fique comigo, fique comigo. Eis o que quero que imagine: tu te encontras no último dia de todos os dias, o temido dia do juízo final. Sei que exige um esforço de imaginação, mas peço-te que faças derreter em suor e esforço os neurônios de teu cérebrozinho; isso, muito bem: tuas sobrancelhas afundando e tua testa enrugando é sinal de que há gente trabalhando na fábrica e oficina de teu crânio. Vamos continuar. Agora, peço que te imagines no meio da incontável multidão de mortos vomitados pela terra e pelo mar, todos aguardando, em silêncio, com rostos mortos e faces de zumbis o seu destino ser lido pelos anjos, esses funcionários celestes, empregados dos registros e cartórios do céu. Imagine-se nessa situação: estás em meio aos mortos, a ansiedade aperta teu coração, esmaga teus pulmões... Não mais suportando a tensão, tu fechas os olhos. Após algum tempo, quando tu abrisses as pálpebras novamente, te verias sozinha, circundada por uma vasta planície de branco e gélido nada. Enquanto estarias a perguntar a ti mesma, espantada, o que havia acontecido com as legiões de mortos, Deus surgiria em tua frente. Ele apareceria em tua frente, sem qualquer pedido ou explicação, abrindo a concha de luz que o envolvia, para expor-se inteiramente a ti, revelando-te a beleza suprema e ilimitada que todos nós sabemos, em nosso íntimo, nos becos mais profundos da alma, no centro dos labirintos obscuros do espírito, que existe em algum lugar, mas que nenhum de nós jamais viu. Assim ele surgiria, ofertando sua majestade, sem produzir com seu suave desvelar som algum. Seus olhos, suas córneas, oceanos de ternura e amor, estariam fixados fixamente nos teus: tua alma sentiria o conforto do recém-nascido que é envolvido pela primeira vez pelos braços mornos da mãe. Mas o que será que tu verias nos olhos do criador do universo? Tu verias, nadando no cristal de suas córneas, desenhadas em suas retinas, brotando de suas pupilas, todas as formas que o cosmo já ostentou: da dança dos átomos até a construção das moléculas, da sopa ardente do caos até os aglomerados de espuma brilhante das nebulosas; verias incontáveis estrelas nascendo e morrendo. A geografia dos planetas seria desnudada para ti: lagos, mares, montanhas solitárias, cordilheiras, desertos, pedreiras, vulcões, praias e selvas, todos visitariam teus olhos. A vida em sua totalidade, em suas muitas gerações orgânicas, iria desfilar frente a tua compreensão: bactérias e protozoários se tornariam gigantescas formigas, que cresceriam até se tornarem colossais elefantes, que depois se metamorfoseariam em baleias: os livros da existência, em minúsculos segundos, seriam lidos por teu olhar maravilhado.

    VIZIR: (À parte) Alá, meu bom Alá, quantas besteiras. E ainda teremos mais. Que tempestades de lixo ainda pendem no horizonte? O maldito escravo não consegue controlar a sua língua.

    BABALOUK: Ainda não chegamos ao fim, não, não chegamos ao fim. Preciso que tuas células cerebrais trabalhem mais um pouco seus músculos elétricos. Após a revelação de todas as formas tu verias toda a história de uma só forma, toda a história de uma das espécies do grupo da vida: tu verias toda a marcha dos seres humanos através da existência. Nos olhos de Deus transitariam todas as vidas, todas as almas que já habitaram o universo: tu verias a encenação de todas as vidas se desfraldando em tua frente; todos os nascimentos e todas as mortes seriam ofertados para teus olhos. Então... Então tu verias, tu verias... Tu verias o recém-nascido sair do útero, enrugado e vermelho de sangue, para ser posto em panos quentes e verias o soldado cair, com as entranhas cuspindo sangue, na terra seca; verias a juventude bela e sadia correr pelos campos para depois mofar na velhice, deitada na cama aguardando a morte; verias todos os amantes da história, torcendo seus corpos nus, entre suor e suspiros e verias todos os assassinatos, as facas perfurando a carne; verias os primeiros homens, desesperados, tentarem manter uma pequena fogueira viva dentro de uma caverna e verias a colocação do último bloco de pedra da grande pirâmide; verias uns poucos homens lambuzando-se com delícias enquanto muitos se estendiam para morrer na lama da miséria; verias povos inteiros celebrando e dançando para depois serem destruídos por nuvens de lâminas e fogo; verias um jovem casal ver seus filhos pequenos brincarem ao sol, enquanto juravam um ao outro amor eterno e depois verias as crianças, já idosas, paradas, com rosto severo e triste, frente ao caixão dos pais; verias o deslumbramento de todos os olhos quando pela primeira vez foram beijados pelo sol e as córneas leitosas e opacas do cadáver; verias todos os juramentos dos namorados feitos sob a lua evoluírem em palavras carinhosas trocadas sob os lençóis, nas noites frias, que seriam seguidas por beijos e o abraço dos peitos nus, que enfim desaguariam em separação, ou em casais de idosos caminhando, de mãos dadas, para a morte; verias o bebê chutar a barriga da mãe para depois chutar convulsamente o vento, na febre e agonia do leito de morte; verias nascimentos e falecimentos, paz e guerra, prazer e dor, alegria e tristeza, incontáveis noites e incontáveis dias: a história te presentearia com todos os segredos que as rugas de sua face contém: a ignorância e a sabedoria de todos os homens e mulheres te seriam reveladas. A consciência de todas as mentes que existiram te alimentariam, como grãos de feijão de incalculável valor.

    VIZIR: (À parte para Babalouk) Estou zonzo após ser esmagado por tantas besteiras. Quando vais terminar, Babalouk?

    BABALOUK: Além de ignorante esse meu velho é impaciente; pois escuta com atenção tu também. Muito bem, agora te imagines em frente a tamanho colosso, e imagine ainda que ele te sussurrasse: “Venha, minha querida, minha filha, venha, e nada temas...”, estendendo para ti as suas ternas mãos, mais ternas, macias e cálidas que o útero materno. Olhando atentamente, tu verias os calos em suas palmas, ganhos quando ele moldava as galáxias, e verias as cicatrizes que o caos cortante lhe fizera quando Deus o teve de trabalhar; verias as bolhas geradas quando as rochas eram modeladas: as mãos divinas conteriam em si toda a história do universo. Pois seriam essas as mãos que estariam estendidas para ti, buscando trazer-te para dormir no coração da divindade; imagine uma onda de luz te envolvendo, mornamente, enquanto que tu suavemente ascenderias para o absoluto... Mas então, de repente, uma mão firme e gelada te agarraria o tornozelo! Que horror! Que horror! Uma mão gelada te agarraria o tornozelo e, ao virares teu pescoço, verias a tua amiguinha, espumando, furiosa, e gritando: “Desapareça, emplumado monstro de hálito de incenso! Leva de volta tua carcaça adocicada para o chiqueiro de lama de mel de onde ela provém!” Após esses uivos, se faria silêncio, e, após o silêncio, o cosmo se desconstruiria em tua frente, em tua frente morreria (como uma criação ao inverso): toda sua maravilha sumiria, fugiria para longe de ti, regredindo a uma pequena, a uma ínfima, a uma minúscula gotinha de luz. E então, e então... Então tu cairias, sentada, desnorteada, e, ao olhar ao teu redor, verias um mundo de cinzas e pó, um mundo de nada mais do que cinzas e pó. Pois é exatamente isso, Gulnara! É exatamente isso que tua amiga está fazendo ao nos criticar, ao zombar de nós, de mim e do bom vizir. Ela quer evitar que toda uma delícia divina, semelhante a essa que te narrei, possa ser teu novo lar, tua nova vida. Ela quer, meu doce, minha pequenina, ela quer que tu fiques aí, no pó, na imundície, junto com ela, para escutá-la reclamar eternamente. Ora, não é pelo fato de que o estômago dela ronca que o seu também tem de roncar, não é mesmo, minha macaquinha?

    BADURA: Tantas palavras para chegar a tão pouco. O senhor gasta em demasia sua língua, e, pior do que isso, os nossos ouvidos. És um carrasco para qualquer paciência.

    GULNARA: Estou confusa, senhor. O senhor disse tantas coisas que acabei por não captar o que o senhor realmente quis dizer.

    BADURA: Para falar a verdade, eu também. Retira tuas intenções do escuro, mestre de cerimônias.

    BABALOUK: Deve ser maravilhoso ter dentro de si todas as vidas que já foram vividas... Muitas vezes eu sinto saudade, sinto uma esmagadora nostalgia por todas as infinitas crianças que já nasceram e por todos os infinitos adultos que se tornaram. Se meus anseios, meus medos, meus amores, meus prazeres: se o que eu sou é algo tão interessante para mim; se todos os meus pensamentos, dos meus gaguejos de bebê até os suspiros do velho moribundo que haverei de me tornar, condensados em palavras e contidos em um livro seriam, para mim próprio, um documento tão curioso e intrigante... Em resumo: se eu próprio, que não sou nada especial, apenas um pedaço de carne humana defumada, se eu sou, em mim mesmo, tão surpreendente, o que dizer de todos os outros seres humanos? Somos todos interessantes, tenho certeza, e me pergunto quantas maravilhas não nascem, todos os dias, a todo o momento, nas convulsões das almas da população do mundo, apenas para morrerem, logo após seu advento, no silêncio de seus criadores? Não, nós não somos morangos, os simples e semelhantes morangos, e mereceríamos, todos nós, ser lidos e conhecidos inteiramente. É por isso que tenho saudade de todos aqueles que existiram, de todos aqueles que existem e de todos aqueles que haverão de existir: queria poder conhecer a todos, abraçar a todos, rir e chorar com todos... Queria conhecer o mais mísero e simples segundo de todas as suas existências. Mas chega disso! Vou logo ao assunto: primeiramente tenho que analisar Gulnara, e depois explicarei para vocês duas o que nós viemos fazer aqui. O importante, Gulnara, é não dar ouvidos aos temores de sua amiga, e confiar em mim.


    Eis o material. Espero que gostem, e perdoem-me mais uma vez por um post muito grande.

    Abraços.

    Matheus.
    :traça:
     

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