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The Fifth Head of Cerberus, Gene Wolfe

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por Gigio, 19 Jan 2012.

  1. Gigio

    Gigio Usuário

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    O Gene Wolfe é mais conhecido pela série "The Book of New Sun", que foi traduzida como "O Livro do Sol Novo" pela Europa-América. Pelo que conheço, as obras dele tem um tom mais "tradicional", que foge daquele estereótipo pulp da ficção científica, de ideias estranhas e
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    . Ele se concentra bastante na construção do cenário, em criar uma estrutura densa, em que os elementos se sustentem e se comuniquem entre si. Claro que, por outro lado, pode parecer algo meio tedioso para quem procura leituras mais rápidas...

    O "Fifth Head of Cerberus" é uma obra bem famosa dele também, composta por três novelas, que são semi-independentes: fazem sentido separadamente, mas adquirem algo mais quando reunidas (no sentido daquele tópico sobre
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    ). As três histórias têm formatos bem diferentes: (a) a primeira é espécie de "romance de formação" de um garoto em um planeta distante e em uma época futura; (b) a segunda é uma novela escrita por alguém desse planeta, sobre um passado (ou futuro) mítico; (c) a terceira é uma reunião de documentos ligados ao caso de um prisioneiro que viveu neste planeta. Ainda falta ler mais algumas páginas, mas uma ligação imediata está em um personagem chamado Marsch que: (a) faz uma ponta na primeira novela; (b) é o autor fictício da segunda; (c) é central na terceira. Mas dá para perceber que em um nível mais profundo a preocupação do Wolfe era construir um panorama do planeta, cada pedaço ajuda a compreender melhor esse cenário exótico.

    Bem, desculpem a correria, foi só uma apresentação resumida. Será que mais alguém conhece? Infelizmente não há tradução ainda...

    Lucas, você que está lendo também, o que está achando? Já está começando a ver o padrão que envolve as três novelas?
     
  2. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Empaquei na segunda novela Gigio, mas estou gostando mais do que a primeira. Estou um pouco enrolado com a escrita da dissertação, por isso é que estou parado na leitura, mas vou levá-la a cabo, não se preocupe.

    Vou ficar restrito à primeira novela: não entendi muito bem qual é o plot central da história, a meu ver parece que gira tudo em torno da Hipótese de Veil, sobre os aborígenes terem copiado tão bem os seres do outro planeta (humanos ou humanóides, pelo menos) que perderam sua capacidade de metamorfosearem-se, tornando-se, pois, a própria raça.

    Junto disso temos ainda o fato de que o pai dos dois rapazes que iniciam a história clonou-se inúmeras vezes mas falhou em várias deles, de modo que existam vários seres parecidos com ele vagando pelo planeta. Pensando nesses dois feixes de história me parece que o Wolfe quer mesmo é nos confundir, porque assim como os humanos (ou humanóides) do planeta, não sabemos o que é de fato e o que pode ter sido. Tudo o que temos são hipóteses.

    Não entendi o que a estátua de Cérbero estava fazendo lá na frente da casa e onde o Wolfe quis realmente chegar. Talvez isso fique mais claro quando acabar de ler as outras duas histórias.
     
  3. Gigio

    Gigio Usuário

    Essas questões dos aborígenes e da clonagem que você citou acho que são muito importantes mesmo, Lucas. Mas eu vejo assim: não é que o Wolfe queira nos confundir, ele só quer explorar o assunto de um ponto de vista um pouco mais complexo. No caso dos aborígenes, por exemplo, ele não escolhe fazer uma raça de monstros que querem devorar os colonizadores terráqueos ou coisa assim. Não, ele representa um povo cuja cultura se perdeu, cujo passado é uma mistura de lendas e hipóteses científicas, uma matéria para antropólogos e não para exércitos de astronautas. É uma maneira de imaginar as coisas diferente do comum, por isso mais estimulante, na minha opinião.

    Você conhece o "Crônicas Marcianas", do Bradbury? Tem umas reflexões semelhantes, é tipo um ancestral de FHC.

    No outro caso,

    a clonagem serve para explorar umas ideias bem excêntricas também. O pai dos garotos é obcecado por analisar a maneira como "ele" evolui ou poderia evoluir, mas é uma ideia de identidade genética. É muito curioso que o "filho" dele venha a matá-lo. É um paricídio ou um suicídio parcial? A novela relata o processo de crescimento do garoto, que se torna também a história de como um clone veio a desejar a morte do seu próprio criador. Dá para tirar muita coisa dessa cartola... rs

    Um ponto importante do final dessa história é quando o garoto acusa o Marsch de ser um abo e então mata o pai. Como ele chegou a essa conclusão é meio obscuro, mas acho que dá para aceitar como dado que o tal Marsch realmente é um abo disfarçado. Por isso, ele não é ninguém, quer dizer, como não humando, ele não possui uma identidade reconhecida. Foi assim que você entendeu também?

    Sobre o Cerberus, acho que é apenas um detalhe da história. Quando criança, o garoto criara a ideia de que o cão, tendo três cabeças, representava os três moradores da casa. Mas vejo como uma dessas associações espontâneas que as crianças fazem. Por acaso, ele está meio certo. Nem a própria tia, a Madame Veil, sabia exatamente quantas "identidades" existem ali, lembra? Ela fica tentando entender por que o irmão chama o filho de "quinto". Mas como ela deduz (ou é explicado mais para frente, não lembro agora), são 4: o robô, que é uma simulação do patriarca da família; o filho desse patriarca, que se estende em uma linhagem de clones; a filha desse patriarca, que é uma outra linhagem, na qual está a Madame Veil; e o David, que é um "outcrossing", um híbrido dos genes do filho com a de uma das "garotas" da casa.

    Tem uma coisa que estava reparando que acho que ainda vai ser crucial para o entendimento do conjunto: as histórias não se passam no mesmo planeta. A primeira é em Saint Croix, a última em Sainte Anne. A segunda acabei deixando passar. Se descobrir, me avise. =D
     
  4. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Pois é, a questão dos abos é interessante porque, apesar da idéia dominante de que se tratam de culturas primitivas, nada impede que eles tenham dominado os humanos de Saint Croix (quiçá até os exterminado e tomado seu lugar). De certo modo, se tomarmos como ponto de partida que as duas características principais dos abos eram serem arcaicos (ou pelo menos essa é a opinião predominante) e podem se transformar em algo a seu bel prazer, então o patriarca estava buscando uma coisa similar a que um abo era capaz de fazer: transmutar-se.

    OK, ele provavelmente não fazia isso inconscientemente, e certamente não do mesmo modo, mas as experiências genéticas dele eram sempre voltadas à reproduzir sua própria imagem através da clonagem. Mas porque cargas d'água ele fazia clones? Era uma forma de preservar sua linhagem? Pela curiosidade e prazer de querer ser um criador? Pelo narcisismo?
     
  5. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Buenas Gigio, eu terminei a leitura por aqui. Algumas questões para abrirmos a discussão:

    1. você disse no primeiro post, mas para reforçar: a primeira história nos introduz naquele planeta que parece a Terra, a segunda seria sobre o passado (em que os abos aparecem, estou certo?); e a terceira, onde os documentos referentes a um prisioneiro são mostrados e amarram um bocado de pontas soltas das duas primeiras histórias. O que eu não saquei muito bem é aonde o Wolfe quis ir com essas histórias, o plot central me pareceu muito obscuro, ele está contando a história de St. Anne e St. Croix através da evolução dos abos (uma das hipóteses) ou não (outra hipótese), é isso? Fiquei meio confuso com relação a isso, pois não há introdução, somos atirados dentro da história, só com o tempo é que começamos a nos situar diante do que está acontecendo.

    2. meadowmeres, wetlanders, Annese e abos são a mesma coisa? A segunda história é sobre os abos, né? O sandwalker e os outros personagens de nomes peculiares são todos criaturas que habitavam St. Anne (ou é St. Croix?) antes dos eventos que se passam na primeira novela, né?

    3. Qual é a relação de St. Anne e St. Croix com a Terra? Os humanos que encontramos na primeira novela (supondo que sejam humanos e não abos transformados) surgiram em um processo de evolução análogo ao que ocorreu na Terra?

    Confesso que fiquei bastante confuso com uma porção de coisas, mas o balanço final é muito bom. A última história amarra umas pontas (supostamente todas, eu acho), mas não consegui pegar todas elas. O legal é que as três histórias quando juntas formam um mosaico interessante sobre uma porção de tempo bem grande da história dos dois planetas. Afinal, os abos viraram ou não viraram os humanos? A hipótese de Veil está ou não certa?

    Vamos lá.
     
  6. Gigio

    Gigio Usuário

    Muito bom, Lucas! Vamos lá! (A quem mais interessar: spoilers violentos à frente.)

    1. A segunda história parece mesmo ser sobre o passado (e não sobre o futuro, como chega a ser cogitado), mas ainda existem algumas coisas enigmáticas a respeito dela. Não sei se você reparou, mas ela é construída a partir de fragmentos da conversa entre o Marsch e o VRT na última história. Em um momento, por exemplo, o VRT fala sobre o nome das constelações como vista de St. Anne, que estão justamente entre aquelas citadas na segunda novela. Minha grande dúvida então: "A Story" foi escrita por Marsch ou por VRT? Não sei se vai concordar, mas tudo indica que o VRT matou o Marsch (na verdade, Marsch já estava ferido pela mordida da criatura carniceira, só não é possível saber se VRT deu um empurrãozinho ou não) e assumiu o lugar do antropologista. E pensando melhor, a segunda história é até um indício disso, já que o nível de detalhamento daquele passado mítico exigiria um conhecimento mais profundo, que faria mais sentindo vindo diretamente do VRT. Agora, aonde o Wolfe quis chegar com isso é difícil dizer né, essa pergunta é muito indecorosa para a literatura... :hahano: Me parece que o que se poderia chamar de plot central é a história do VRT, de meio-abo, como ele se considera na terceira história, passando por antropologista disfarçado nas outras duas, até ser aprisionado (injustamente) por suspeita de espionagem. Mas é verdade que a história de St. Anne e St. Croix também se descortina bem a partir das três novelas...

    2. Meadowmeres e wetlanders acho que são a mesma coisa. Naquela região de St. Anne, os abos se dividiam em duas comunidades: os que moravam nas terras alagadas próximas ao mar e os que viviam nas regiões mais montanhosas. Não tenho certeza se "annesse" é utilizado apenas para os abos ou para qualquer habitante de St. Anne. Não fica claro se haviam abos em St. Croix também. Pelo que parece, as criaturas da segunda história são sim de St. Anne. Mas não fica claro o que seriam algumas delas, como os shadow children. (Não vejo problema em que as histórias tenham várias coisas que não fiquem claras, acho que é uma questão até de verossimilhança, você que é historiador diga aí, se é sempre moleza descobrir a verdade das coisas... XD )

    3. Minha impressão é de que esses humanos de St. Croix (primeira e parte da terceira história em que "Marsch" está preso) e St. Anne (segunda e resto da terceira) vieram em uma onda de colonização. Mas eles têm governo independente. Como o Marsch comenta, são necessárias décadas de viagem entre os planetas gêmeos e a Terra (ou seja, não há tecnologia FTL, faster-than-light), seria impossível manter algum tipo de controle político assim.

    Sobre a hipótese de Veil, me parece que é falsa. Acho que os abos tinham mesmo a capacidade de se transformarem, como se conta a respeito da mãe do VRT, só que, ao mesmo tempo, parece que eles não se adaptavam tão bem à cultura humana. Com o VRT é outra história, ele é um meio-abo, pode não se disfarçar fisicamente tão bem, mas pelo menos não está tão distante do pensamento dos humanos.

    Acho que o balanço final é mesmo muito bom. Lembra um pouco aquela coisa do Borges, em que você acaba saindo com um monte de dúvidas, mas dúvidas boas, que levam a outras especulações interessantes.
     

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