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Autor da Semana Stanislaw Ponte Preta / Sérgio Porto

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Cantona, 7 Abr 2013.

  1. Cantona

    Cantona Tudo é História

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    Stanislaw Ponte Preta / SÉRGIO Marcos Rangel PORTO
    (11.01.1923 - 29.09.1968)
    Esse é um tópico duplo. Aqui, vocês terão dois autores: Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta. A biografia é semelhante: ambos nasceram no Rio de Janeiro, em 1923 e pelas ruas e praias cariocas viveram intensamente. Jogaram futebol com Heleno de Freitas, beberam de tudo, cantaram madrugada adentro e amaram mais mulheres do que podemos lembrar. Foram “jornalista, radialista, televisista (o termo não existe, mas a profissão sim), teatrólogo, humorista, publicista e bancário”.

    Eles se gostavam. “Stanislaw Ponte Preta foi criado junto comigo e, praticamente, é meu irmão de criação”, dizia Sérgio Porto sobre o pseudônimo famoso que terminou por ser uma personalidade autônoma, só faltando RG e CPF próprio.

    Numa análise rasa, dá pra distinguir as crônicas de um e do outro pelo tom: a de Sérgio era pontuada por nostalgia. Esta aí a coletânea “A casa demolida” que não me deixa mentir. A de Stanislaw transbordava humor, seja para relatar casos cotidianos, seja para expor as mazelas de um país excludente e de uma elite fodida como a nossa.

    Vamos passear pelos dois. Primeiro pelo mais famoso, que Sérgio Porto “brincava falando sério quando dizia que seu primo Stanislaw Ponte Preta lhe roubara todos os empregos”.

    Stanislaw Ponte Preta:

    É perigoso, mas vou arriscar: todos nós, em algum momento da nossa vida de leitores, já nos deparamos com algum texto de Stanislaw Ponte Preta. Esse senhor que apagou a luz jovem, aos 45 anos, foi e continua sendo o responsável, quando não pela iniciação, pela pavimentação do caminho literário de muita gente. Vou dar um exemplo que me é importante e caro: o meu.

    Eu não adquiri o hábito de ler na escola, como inúmeros brasileirinhos. Foi em casa que a coisa se deu. Dentre as primeiras leituras que me lembro, destacam-se a da velhinha e sua lambreta, no contrabando por algum ponto de nossas fronteiras, e a de um padre, todo disciplinador, que num término de recreio se esquece da batina e sai driblando adversários imaginários e comemora como ídolo da seleção seu gol fantasioso. Tudo com muita graça, como é a tônica Ponte Pretana. Ambas encontravam-se numa série, se não engano da Editora Ática, intitulada Pra gostar de ler. Impossível ser indiferente ao universo que os livros iam abrindo e agora com um novo ingrediente: o humor. Evidente que à época muito da sutileza do Stanislaw passava ao largo, pois inexistia a vivência e por consequência a malícia, necessárias para risos não palermas. Cito, também, a ausência da capacidade de contextualização, mas com ressalvas: embora as crônicas do Stanislaw ainda pipoquem atualíssimas por aqui, principalmente o FEBEAPÁ, já que esse país tem aquele raro dom do “quanto mais muda, mais igual fica”, a situação no momento histórico permite conhecer pedaços da nossa História cujos personagens principais somos nós mesmos, não os heróis que ditam destinos.

    Apaixonei-me por livros via Stanislaw (tudo bem que tive o Paulo Coelho desempenhando um papel fundamental nesse processo. Foi o mago das letras que me solidificou como leitor. Numa analogia entre a descoberta da literatura e a descoberta do sexo oposto, posso dizer que o primeiro beijo foi Stanislaw Ponte Preta e a primeira transa foi Paulo Coelho). E que coincidência é o amor, não é verdade? Na graduação, numa aula de Educação, FEBEAPÁ foi assunto como uma boa forma de se iniciar a abordagem do período militar brasileiro. Eu, que me casei com a História, e que sempre que posso pulo a cerca com Letras, encontrei a situação perfeita.

    É lendo Garoto Linha Dura e FEBEAPÁ 1, 2 e 3, publicados por Stanislaw pós golpe de 64, que a gente tem a certeza de que Deus é Brasileiro (vá lá, vendo a Ísis Valverde, também). Etâ povinho sortudo, esse nosso! Afinal, foram tantos os mandos e desmandos da "REDENTORA" - também conhecida como Ditadura - que isso daqui era pra ser muito mais bagunçado do que já é.

    Li muita coisa sobre o Regime Militar Brasileiro. Muita obra historiográfica, carregada de linguagem acadêmica, que de certa forma limita a função do historiador aos muros universitários e terminam por abrir o mercado para jornalistas, alguns com livros apenas ruins, como o Laurentino Gomes e seu 1808, outros com livros escrotos do começo ao fim, como a série Guia do Politicamente Incorreto da História do Brasil, da América Latina e da Puta que os Pariu... enfim, divaguei. Deixa eu retomar o raciocínio. Como ia dizendo, li muitos historiadores que tratam do período, de modo que Stanislaw complementou a visão metodológica: ali, nas páginas Ponte Pretanas, beirando a ficção, o cotidiano dos comuns - o meu, o seu e o do dono da banca de jornal. Nada da investigação acadêmica, apenas estórias revelando a história. Até no inventado, a mentalidade do período transborda, como na crônica que batiza Garoto Linha Dura:

    Sobre Febeapá, Stanislaw começa:

    E de muitas besteiras, mais algumas para atiçar a vontade:

    E quem não se lembra da família Ponte Preta? Tia Zulmira, a sábia da Boca do Mato, Rosamundo, o distraído Rosamundo, e Primo Altamirando, o canalha:

    Em tempo, Sérgio Porto batizou-se Stanislaw Ponte Preta inspirado pelo personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade.

    Sérgio Porto

    Sérgio Porto foi um cronista da cidade. Com o nome de batismo publicou “A casa demolida”, onde suas lembranças dão o tom à mudança urbanística no Rio de Janeiro, com suas casas de pomares e varandas dando lugar aos “feios edifícios”. Temos também a boêmia, as relações de amor e amizade e a convivência com personalidades, como Heleno de Freitas, Dolores Duran, o palhaço Benjamim.

    É dele um conjunto de novelas, “As cariocas” que a Rede Globo recentemente levou às telas. Destaque para “A desinibida do Grajaú”, tanto no livro quanto na série televisiva, uma vez que é a boazuda da Grazi Massafera quem interpreta a personagem.

    Publicou, também, Pequena História do Jazz.

    Muito ainda pode ser dito. Apesar de viver apenas 45 anos, Sérgio teve uma grande produção. Cobriu, como Stanislaw, a Copa de 62, mandando do Chile crônicas impagáveis sobre os jogos do Brasil. Bolou As Certinhas do Lalau, uma variedade de boas mulheres que encantavam seus leitores, polemizou com o colunista social Ibrahim Sued – a quem dizia ser “a ignorância mais bem paga do pais” e deixou “O Transplante”, um romance incompleto.

    Eis os homens que até hoje fazem o país rir das suas misérias. Porém, não um riso tonto, imbecil. Mas um riso fruto do humor que foi sua arma para sacudir algumas estruturas arcaicas que ainda estão aí, nos subjugando.

    Bibliografia:

    Sérgio Porto

    Pequena história do jazz, 1953
    A Casa Demolida, 1963
    As Cariocas, 1967

    Stanislaw Ponte Preta

    Tia Zulmira e eu, 1961
    Primo Altamirando e elas, 1962
    Rosamundo e os outros, 1963
    Garoto Linha Dura, 1964
    Febeapá 1, 1966
    Febeapá 2, 1967
    Febeapá 3 / Na terra do crioulo doido / A máquina de fazer doido, 1968

    Póstumo:

    A Revista do Lalau, 2008 - organização de inéditos por Luís Pimentel, incluindo o romance inacabado "O Transplante".
     
    Última edição: 4 Mar 2014
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  2. Cantona

    Cantona Tudo é História

    Uma crônicazinha de Paulo Mendes de Campos, truta aí, do nosso Stanislaw, na ocasião do seu falecimento:

    E um trecho do posfácio de Febeapá, pela historiadora Beatriz Cavalcante:

     
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