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Se eu escrevesse um livro de sonetos

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Matheus Spier, 19 Out 2012.

  1. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    Se eu escrevesse um livro de sonetos, acho que iria abrir o volume com o seguinte poema:

    A terra, do dilúvio despertando,
    Floriu num arco-íris sobre a lama;
    Suando orvalho, ao sol orou, rasgando
    Do limo a pele morta em verde grama.

    Como o renascer do mundo afogado
    Despertando ao teu lado eu me senti:
    Meu corpo em teus carinhos foi banhado,
    A alma limpei provando o amor em ti.

    Um boneco de barro da luxúria
    Eu fui: buscava em corpos alimento,
    Desnutrindo a alma na física fúria,

    Afogando em saliva o pensamento.
    Mas me salvaste de viver com fome:
    Tens na alma o pólen que meu ser consome.


    A primeira estrofe foi inspirada pelo primeiro poema das Iluminações de Rimbaud, "Depois do Dilúvio"=D. Gosto muito de Rimbaud (um dos poucos poetas modernos que me agradam).
     
  2. Calib

    Calib Visitante

    Que te impede de escrever um livro de sonetos?
     
  3. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    O que me impede?

    Falta de sonetos::rofl:

    Na verdade eu escrevo sonetos raramente...eu tenho uma enorme dificuldade para me refrear...sempre escrevo falas enormes em minhas peças.. Mas o soneto requer muita concentração (muita concisão), de forma que passo muito trabalho para entupir cada verso com toda a quantidade de significado que desejo (tenho muita inveja dos inglêses, com suas muitas palavras monossilábicas, que conseguem entulhar os 14 versos com várias imagens e pensamentos).

    Sempre que tenho alguma ideia para um possível soneto eu anoto, e, depois de coletar bastante material, finalmente me sento e escrevo o maldito poema. Também costumo usar o soneto para coisas muito íntimas (já nas peças eu invento um monte de personagens, e adoro escrever besteiras por suas bocas, coisas nas quais não acredito, um monte de opiniões contrárias: é um enorme prazer não falar com nossas própria voz), e tenho vergonha de me expor.

    Mas talvez um dia, quando eu tiver cerca de 100, 120, 150 sonetos, eu procure um editor (:hahano: e vou ter que procurar muito, pois as editoras odeiam publicar poetas).

    Não acho que eu seja um bom escritor de sonetos...ainda vou ter que melhorar muito.
     
  4. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    Um exemplo da vantagem dos inglêses. Vamos considerar este soneto de Wordsworth:

    With ships the sea was sprinkled far and nigh,
    Like stars in heaven, and joyously it showed;
    Some lying fast at anchor in the road,
    Some veering up and down, one knew not why.
    A goodly vessel did I then espy
    Come like a giant from a haven broad;
    And lustily along the bay she strode,
    Her tackling rich, and of apparel high.
    The ship was nought to me, nor I to her,
    Yet I pursued her with a lover's look;
    This ship to all the rest did I prefer:
    When will she turn, and whither? She will brook
    No tarrying; where she comes the winds must stir:
    On went she, and due north her journey took.


    Pois bem, vejamos o primeiro verso: "With ships the sea was sprinkled far and nigh,"; qual seria a tradução disso em português? Algo como:

    Com barcos o mar estava belamente salpicado e a noite,

    Veja só quantas sílabas poéticas isso teria: Com/ bar/cos/ o /mar/ es/ta/va/ be/la/men/te/ sal/pi/ca/do/ e a /noi/te,....quantas dão, 18, se não me engano (e o decassílabo permite só dez!!!) Mesmo fazendo um contorcionismo (para aproveitar os hiatos), usando palavras sinônimas mais curtas...mesmo assim não teria como acomodar todo o significado dessa primeira linha em um decassílado (e todos os críticos costumam encher o saco que o verso de 12 sílabas, o alexandrino, não se acomoda bem à poesia portuguêsa...ou seja, não somos encorajados a criar poemas com o valioso auxílio dessas duas silabazinhas a mais¬¬)

    Que raiva dos inglêses!!! :rofl: É covardia essa vantagem que eles tem sobre nós só em razão das suas monossílbas.
     
  5. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Mas se você tiver necessidade de escrever mais, escreva em versos bárbaros, ora essa. Se eles ficarem bem feitos, não tem problema algum...

    Agora isso que você mesmo disse é verdade: o Soneto tem, digamos, um "limite" de quatorze versos por um motivo. Mesmo os sonetos que ultrapassam isso acabam o ultrapassando de forma comedida... Soneto não é bem um espaço para se ficar esmiuçando muito, pois ele costuma encerrar um conceito silogisticamente empacotado. E eu inclusive acho que o soneto em língua inglesa dificilmente é tão natural quando o de língua portuguesa, pois essa vantagem dos ingleses é uma faca de dois legumes... Mas enfim.

    Acho que no seu caso o problema é que você tornou o "far" em "belamente"... Uma tradução alternativa, retirando o "far", seria algo do tipo: "À noite o mar de barcos salpicava-se". Quer dizer: acho que seria...
     
  6. Calib

    Calib Visitante

    Não é necessário ter 150 sonetos para publicar um livro.
    Aliás, seria um exagero.
    Só se publicam tantos assim em antologias ou obras completas.
    Seu livro assim dificilmente teria uma unidade (não sei se é bem o termo que procuro, mas é um quê que dá um certo tom à obra, como um álbum de música conceitual, ou os sonetos da "Via Láctea", etc.)

    E, gente...
    "Nigh" não é "noite".
     
  7. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    "E, gente...
    "Nigh" não é "noite"."

    Meus deus!!!! Como sou burro!!!

    Eu lembrei desse soneto por que o Borges tinha usado ele para demonstrar a dificuldade de traduzir o inglês; li por cima e nem percebi que a palagra era nigh!!

    Perdoem a burrice, falha nostra! (resta agora a vergonha para me torturar:envergonhado:)

    Sobre o comentário do Mavericco "o soneto em língua inglesa dificilmente é tão natural quanto o de língua portuguesa", devo dizer que muitas vezes tenho a mesma impressão...as vezes me parece que o inglês não tem muita melodia...mas é só impressão mesmo, nada técnico.
     
  8. Calib

    Calib Visitante

    Bah. Estava aqui brincando de traduzir esse soneto aí, mas fiquei cansado.
    Quem sabe outra hora continuo como exercício de versificação...

    Por ora, estava assim (mas é claro que muito coisa pode, e talvez mesmo deva, mudar antes de ser definitivo):


    De barcos salpicado o mar estava,
    qual céu 'stelante, e alegre se exibia;
    alguns fundeados quedos pela via,
    uns indo e vindo; a causa se ignorava.


    E então ũa bela nave espiei: chegava
    qual de ampla gruta um gigante saía
    [...]
     
  9. Calib

    Calib Visitante

    E agora traduzindo isso aí de brincadeira, vejo que, se alguns versos em inglês se beneficiam das palavras curtas para acumular sentidos, outros parecem carecer de informação útil e o poeta obriga-se a encher linguiça. Uma faca de dois (le)gumes como disse o Mavericco.
     
  10. Fernando Giacon

    Fernando Giacon [[[ ÚLTIMO CAPÍTULO ]]]

    Eu admiro muito quem tem a facilidade e também criatividade em criar sonetos e mais sonetos, pois confesso ser péssimo pra esse esse tipo de formato. Gostei muito da sua escrita, e também de saber que você usa de inspirações mas sempre deixando o seu lado fluir mais. Quer lançar um livro? Vá em frente cara! É um ramo bem complicado quando se trata de lançamentos, e digo isso por experiência própria, mas vale cada ganho.
     

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