1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Ressonância

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Jacques Austerlitz, 9 Jun 2012.

  1. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

    (Fragmento francamente inspirado pelo Chamadas telefônicas, do Bolaño)


    Liguei para R aquela noite, eu enlouquecida, sozinha, liguei de um orelhão quase à beira-mar, o vento forte e o mar revolto me enchendo os ouvidos, eu fui colocando fichas e fui falando. Não lembro o que falava, contava do final de semana, contava que J tinha me deixado e tinha sumido, assim como eu tinha deixado D e tinha sumido, eu tinha abandonado alguém em um dia e tinha sido abandonada no dia seguinte, R me ouvia, fazia hm, dizia bá, dizia que merda, como eu tava, pedia que eu explicasse melhor uma parte ou outra, e eu explicava, falava com calma e então com atropelo, acho que ele perdia algumas palavras mas de todo acho que me entendia. Eu às vezes gritava quando o vento me enchia os ouvidos e eu pedia que ele falasse mais alto, ele quase monossilábico. Falamos por um bom tempo, quase meia-hora, talvez, eu tinha muitas fichas, tinha comprado no flíper, de noititinha, sabia que quando falasse queria falar muito. Com certeza não podemos ter falado meia-hora, eu não fiquei tanto tempo lá de pé naquele vento, ou não tinha tantas fichas, ou se tinha não usei todas, mas vinte minutos pelo menos, ou talvez quinze, sem dúvidas no mínimo dez ou doze nos falamos. Ele me disse que D também tinha sumido, que na noite passada eles tinham atropelado um cachorro e D tinha brigado com os guris e tinha sumido. Os guris tinham sumido, tinham saído na noite passada também e não tinham voltado, ele estava sozinho, era quase quatro da manhã, e eu, louca, no orelhão. Às vezes ficávamos em silêncio, quando eu terminava um assunto e não começava outro, ele nunca começava os assuntos, sempre quieto, ele disse que gostava dos nossos silêncios, e eu disse que bonito, ele disse meus ouvidos são teu ombro, e eu disse vou ter que voltar, eu passo a vida assim, presa a lugares em que eu não quero mais ficar mas de onde não posso mais sair, e ele ficou em silêncio por um tempo, e eu fiquei também, comecei a chorar, mas não funguei, não queria que ele soubesse, e quando as minhas fichas terminaram, nem percebi, nem nos demos tchau.
     

Compartilhar