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Reconhecimento de padrões - William Gibson

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por imported_Wilson, 27 Fev 2010.

  1. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    Um livro interessante. Um retrato fragmentado da era em que vivemos. As peripécias de uma publicitária em busca do criador de um filme disseminado em partes na internet a leva de Londres a Tóquio à Rússia. Mafiosos, empresários, banqueiros, marketeiros, diretores de video-clipes, colecionadores de calculadoras, ex-membros da inteligência, otakus, programadores, vendedoras de chapéu, cada um tem sua parte nesse nosso mundo cada vez mais fragmentado e especializado. Mas quando todos tem, de repente, o mesmo objetivo, aí as coisas podem ficar perigosas.

    Com um olho sempre aguçado para as novas tendências da tecnologia e da cultura desse novo século e um tato para a criação de personagens reais, William Gibson sempre faz suas leituras valerem à pena. Mas, para quem já leu a trilogia do Sprawl (Neuromancer, Count Zero, Mona Lisa Overdriva), obra-prima do autor e marco da ficção-científica, Reconhecimento de padrões se sai um livro menor. Primeiro pela ação ser transferida do futuro para o presente, restringindo o autor de expressar toda sua criatividade como fez quando criou o gênero do cyberpunk; e, segundo, justamente por não ser um livro de cyberpunk, faltam aqui as transgressões e a violência e aquela sensação única que seus outros livros passavam, de estar o leitor imerso em tramas sombrias, perigosas e metafísicas, onde não apenas a vida de seus personagens, mas a própria definição de realidade parecia estar em jogo. No entanto, ainda que esmaeça perto de seus antecessores, Reconhecimento de padrões guarda seus méritos, e um dos aspectos mais interessantes de sua construção é a maneira como Gibson trabalha no livro o modo como nos relacionamos hoje. Uma boa parte da trama é detalhada por transcrições dos emails que os personagens trocam entre si, e no centro do mistério, um misterioso e inquietante filme que vem sendo difundido anonimamente na rede, está um fórum na internet em que pessoas do mundo inteiro se reúnem para compartilhar seu fascínio pelo filme e trocar impressões acerca de seus significados e sua origem. Sendo ainda a protagonista uma especialista em publicidade, alérgica a marcas registradas e, assim como o próprio Gibson, uma reconhecedora de tendências, o livro é recheado de observações sobre a natureza do marketing e como ele está cada vez mais moldando a imagem do mundo que nos cerca, para o bem ou para o mal, e como a enxurrada de informações a que todos estamos expostos hoje em dia torna o nosso presente cada vez mais fugaz, resumido ao gerenciamento de riscos, reconhecimento de padrões. A paranóia tecnológica não se refere mais sobre que monstruosidade estaríamos construindo para o futuro mas que monstruosidades poderiam estar em ação neste exato instante. Sim, aqui, teorias da conspiração são um dos motes propulsores da ação.

    Uma leitura leve. Reconhecimento de padrões parece ter nascido como um livro para se ler no saguão de espera de um aeroporto, ou recostado na poltrona, em pleno vôo. Questionamentos pertinentes à parte, o livro é de uma fluência agradável, e mesmo o suspense construído através de suas páginas não é mais que uma maneira de segurar o leitor. Sem o peso de uma narrativa densa, o atrativo passa a ser as divagações do autor sobre pequenos detalhes do novo cotidiano que nos abrange, da solidão inerente às grandes cidades, da forma como a mesma tecnologia que nos ameaça com o desconhecido facilita o nosso dia-a-dia profissional e pessoal e nos põe em contato com novas formas de arte e com novas formas de contato humano. O livro por final se mostra, através do olhar humano e nostálgico da protagonista Cayce Pollard, cujo desaparecimento do pai no 11 de Setembro transforma seu presente numa constante rememoração do passado, uma simples e poderosa ode à capacidade humana para criar o mistério e se maravilhar com ele.
     

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