1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Quem pode fazer literatura, afinal?

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Mavericco, 4 Jun 2015.

  1. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Este conteúdo é limitado a Usuários. Por favor, cadastre-se para poder ver o conteúdo e participar (não demora e não possui custos)

    Regina Dalcastagnè
    Este conteúdo é limitado a Usuários. Por favor, cadastre-se para poder ver o conteúdo e participar (não demora e não possui custos)


    É muito comum, ao se falar de literatura, pensar em um campo de liberdade, lugar frequentado por qualquer um que tenha algo a expressar sobre o mundo e sua experiência nele. Das teorias que afirmam a literatura como um espaço aberto à diversidade àquelas que a prescrevem como remédio para todas as mazelas sociais (da desinformação à ausência de cidadania), podemos acompanhar o processo de idealização de um meio expressivo que é tão contaminado ideologicamente quanto qualquer outro, pelo simples fato de ser construído, avaliado e legitimado em meio a disputas por reconhecimento e poder. Ao contrário do que apregoam os defensores da arte como algo acima e além de suas circunstâncias, o discurso literário não está livre das injunções de seu tempo e tampouco pode prescindir dele – o que não o faz pior nem melhor do que o resto.

    Mas é preciso reconhecer que o campo literário brasileiro ainda é extremamente homogêneo. Houve, é claro, uma ampliação de espaços de publicação, seja nas grandes editoras comerciais, seja a partir de pequenas casas editoriais, em edições pagas, blogs, sites etc. Isso não quer dizer que esses espaços sejam valorados da mesma forma. Afinal, publicar um livro – um conjunto de páginas impressas e encadernadas – não transforma ninguém em escritor, ou seja, alguém que está nas livrarias, nas resenhas de jornais e revistas, nas listas dos premiados dos concursos literários, nos programas das disciplinas das universidades e escolas, nas prateleiras das bibliotecas. Basta observar quem são os autores contemplados em vários dos itens citados acima, como são parecidos entre si, como pertencem a uma mesma classe social, quando não têm as mesmas profissões, vivem nas mesmas cidades, tem a mesma cor e, em geral, o mesmo sexo…

    Números não esgotam a situação, mas ajudam a indicar algumas de suas características. Em todos os principais prêmios literários brasileiros (Portugal Telecom, Jabuti, Machado de Assis, São Paulo de Literatura, Passo Fundo Zaffari & Bourbon), entre os anos de 2000 e 2014, foram premiados 39 autores homens e apenas três mulheres. Outra pesquisa, mais extensa, mostra que de todos os romances publicados pelas principais editoras brasileiras, em um período de 25 anos (de 1990 a 2014), 71% dos escritores são homens e 96% são brancos. As personagens não são diferentes: 60% são homens, 79% são brancas, 80% pertencem às camadas economicamente privilegiadas – e os percentuais sobem significativamente quando são isolados narradores e protagonistas. É significativo, também, que mais de 60% dos autores vivam no Rio de Janeiro e em São Paulo e que quase todos estejam em profissões que abarcam espaços já privilegiados de produção de discurso: os meios jornalístico e acadêmico.

    Por isso, a entrada em cena de autores, ou autoras, que destoam desse perfil causa desconforto quase imediato. A taxista da esquina, o senhor que conserta geladeiras, o cabelereiro do shopping, a faxineira do prédio – são pessoas que certamente têm muitas histórias para contar. No entanto, quem visualizaria seus retratos na orelha de um livro, quem pensaria neles como escritores? A imagem não combina, simplesmente porque não é esse o retrato que estamos acostumados a ver, não é esse o retrato que eles estão acostumados a ver, não é esse o retrato que muitos defensores da Língua e da Literatura (tudo com L maiúsculo, é claro) querem ver. Afinal, nos dizem eles, essas pessoas têm pouca educação formal, pouco domínio da língua portuguesa, pouca experiência de leitura, pouco tempo para se dedicar à escrita.

    E, ainda assim, alguns deles escrevem e publicam e tanto insistem que acabam atraindo nossa atenção, porque, como diz o rapper Emicida,uma frase bonita escrita com a grafia errada continua bonita”. O que não significa que a ideia seja plenamente aceita. Afinal, o domínio da norma culta serve como fator primário de exclusão e há, é claro, quem se beneficie com isso. Aqueles que valorizam a si próprios por saberem usar a norma culta da língua não têm interesse em desvalorizar essa vantagem, conquistada, às vezes, com muito esforço. Não é raro ouvir, em sala de aula ou em eventos acadêmicos, alguém se referindo a Carolina Maria de Jesus, por exemplo, como “escritora semianalfabeta”, como se uma autora capaz de escrever livros com a força e a beleza de Quarto de despejo ou Diário de Bitita fosse ser analfabeta só por escapar, vez ou outra, daquilo que é determinado pelo Vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras.

    Dá para imaginar o quanto é grande o desejo de escrever para que essas pessoas se submetam a isso – a fazer o que “não lhes cabe”, aquilo para o que “não foram talhadas”. Vivem, assim, o constante desconforto de se querer escritor, ou escritora, em um meio que lhe diz o tempo inteiro que isso é “muita pretensão”. Daí as suas obras serem marcadas, desde que surgem, por uma espécie de tensão, que se evidencia, especialmente, pela necessidade de se contrapor a representações já fixadas na tradição literária e, ao mesmo tempo, de reafirmar a legitimidade de sua própria construção. E isso aparece de diferentes modos. Às vezes, está no interior da própria narrativa: “É preciso conhecer a fome para descrevê-la”, dizia Carolina Maria de Jesus. Às vezes está em prefácios, como os de Ferréz, que defende a importância de deixar de ser um retrato feito pelos outros e assumir de vez a construção da própria imagem. Ou então em manifestos, como o de Sérgio Vaz, que diz que “a arte que liberta não pode vir da mão que escraviza”. E há ainda as apresentações dos livros, as orelhas e os textos da quarta de capa que reforçam isso, ressaltando a legitimidade do lugar de fala do escritor.

    Este conteúdo é limitado a Usuários. Por favor, cadastre-se para poder ver o conteúdo e participar (não demora e não possui custos)

    Por isso é tão importante a presença de autores e autoras provenientes de diferentes espaços sociais, com diferentes cores, interesses, profissões, desejos, conhecimentos, razões. Autores e autoras que façam barulho, causem dissonâncias, firam as belas letras, desmontem as regras do jogo. Eles, e elas, estão por aí, publicando por conta própria, criando coletivos, apostando na internet e no boca-a-boca para vender seus livros. Alguns até conseguem se projetar em editoras de maior fôlego, a maioria batalha junto de pequenas (algumas já históricas) casas editoriais, mas com circulação muito restrita. Há ainda aqueles que se dão por satisfeitos ao recitar seus poemas em um dos vários saraus literários que se espalham e se fortalecem nas periferias das grandes cidades brasileiras, só “curtindo o barato”. Há até os que já começaram a produzir uma reflexão própria sobre literatura, e certamente têm muito o que dizer. Mas nós, enquanto críticos e enquanto leitores, precisamos ter como alcançá-los, e isso ainda depende, em grande medida, de seu acesso ao campo literário – às editoras e livrarias, às páginas dos jornais e bibliotecas, aos prêmios literários e às traduções, aos programas de disciplinas e aos eventos acadêmicos. Deixá-los falar sozinhos é perder a oportunidade de ampliar nossas referências sobre o mundo.

    (1º de junho de 2015.)
     
    • Gostei! Gostei! x 4
    • Ótimo Ótimo x 1
  2. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    Curiosamente foi em torno desse assunto que saiu no NewGeography esses dias um texto interessante sobre como as paisagens urbanas vem sofrendo num tipo específico de "standardização ou padronização desenfreada" ao produzirem áreas rígidas e extremamente homogêneas ainda que pobres culturalmente falando.

    Este conteúdo é limitado a Usuários. Por favor, cadastre-se para poder ver o conteúdo e participar (não demora e não possui custos)


    Lembro que no passado um outro texto a respeito de pressão de forças foi abordado num tópico do Paganus sobre o problema de perder o aspecto orgânico nas construções de igrejas recentes em favor de designs e cenários industrializados vazios de significado histórico ou espiritual. Da diferença que é uma igreja comprar móveis num atacado da IKEA ao invés de produzir os próprios móveis.

    De fato, o problema parece ser amplo e profundo indo a raiz da luta que a sociedade atual encontra e que todos os países enfrentam para alcançarem o nível "pós-padronização".

    Sem filtrar muito a população absorve o lado mais visível e nocivo do pós-modernismo e não transcende a consciência que depende da padronização. E que os limites ou se transformam no vilão demonizado do alvo a ser totalmente eliminado-destruído ou então criam pessoas totalmente engessadas neles.

    Ao abordar as especificidades arquitetônicas para construções de casas e prédios em cada local há cidades que cobram estruturas reforçadas para terremotos, outras cidades que exigem construções preparadas para tufões e em comum elas todas dependem de fatores como um sistema pesadamente dependente de vias automotivas, que deixam tudo eficiente do ponto de vista financeiro mas deixam a paisagem feia e morta de oportunidades.

    E então que surge uma massa que se veste igual, fala igual, sem nenhuma fé ou confiança no outro mas que tem tolerância baixa a inovações ou estilos diferentes. Afinal o baixo custo financeiro para se manter a estrutura automática rígida ainda é imbatível e as soluções ainda são mais lentas, de custos maiores e com poucas pessoas treinadas para implementá-las.

    Indubitavelmente para ingressar e integrar todos numa sociedade futura "eficientemente pós-moderna" o nível de consciência teria que subir muito ainda, e a ideia do domínio total da flexibilidade anárquica dos rebeldes atuais da educação deve ser substituída pela convivência de tantos espaços tão diferentes entre si tanto quanto as áreas quadriculadas urbanas em que vivemos dando o devido valor ao recurso dos limites e da flexibilidade.

    No fundo são sintomas do que os autores afirmam sobre a revolução da informação (ou da presente revolução industrial) ainda estar em curso. Na época da primeira revolução industrial ocorreu a estratificação entre países e pessoas e demorou muitas décadas até a sociedade acomodar a nova disposição da cada uma das partes, houve inclusive o estouro de 2 guerras mundais.

    Em uma dessas guerras mundiais se criou na França uma área restrita chamada Floresta Proibida, um lugar aonde existem tantas bombas que as pessoas mal podem se mover. Nela já morreram centenas de técnicos desarmadores. O nosso cenário urbano nacional caminha para esse nível de imobilidade "minada" se nada for feito ou se a psicologia das pessoas não for elevada. O tempo pra isso é mais curto do que imaginamos.
     
    • Ótimo Ótimo x 1
  3. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Gostei muito desse texto. De fato há essa exclusão linguística. Sempre se vê uma crítica baseada não no conteúdo, mas na forma. Se critica alguém pela maneira errada de se expressar, não na expressão dele/dela. E esse conceito de literatura remete sempre a uma aristocracia, a que define quem pode fazer Literatura.
     

Compartilhar