1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Que belos são os alpes suiços

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Franco, 24 Nov 2010.

  1. imported_Franco

    imported_Franco Usuário

    [align=justify] O título tinha de ser interessante, surpreendente, algo de visual e chamativo. Coloquei Tiros e morte na Rua Tiradentes. A aliteração foi quase espontânea. Veio bem a calhar. Então faltava o lead e as respostas para as seis perguntas que não podem, nunca, passar em branco. Afinal, é aí que o interesse do leitor é conquistado. Um jovem casal, em rua nobre da cidade, foi alvo, no último domingo, de disparos de arma de fogo efetuados por dois motoqueiros; a polícia acredita em morte ligada ao crime. Se não merecia um prêmio também não era de todo ruim. Depois, naturalmente, vinha a reportagem.

    Não passa credibilidade. Muito subjetiva. Fatos misturam-se com opiniões. Dramática demais. Não condiz com a política editorial deste jornal. Tive que ouvir calado essas coisas todas quando recusou minha matéria; isso tudo tinha lá certa razão, confesso, mas não foi o verdadeiro motivo da recusa. Não passava de um jogo de faz de conta que os ajuizados tem que jogar. E ajuizado que era, meu chefe jogou e me forçou a jogar também.

    O problema era outro, nada tinha a ver com políticas editorais. O problema verdadeiro tinha status e sobrenome: Doutor Almeida e Campos. E aí que meu estilo serviu de motivo, um pretexto conveniente. Mas vá lá, jornal de cidade pequena tem mesmo dessas coisas, não é a primeira capitulação da notícia a um nome.
    Ela era mais ou menos assim.

    A rua Tiradentes, na placidez de um domingo pela manhã, assistia, imóvel, a despedida entre Tadeu Pereira, 24, e Caroline Almeida e Campos, 20. As casas de moderna arquitetura, tal como seus bem cuidados jardins, podiam adivinhar naqueles semblantes jovens e tristes a dor de uma separação inevitável. Não uma dor qualquer, porém a dor de paixão interrompida. Algum espectador oculto que lhes dirigisse o olhar furtivo, talvez por detrás de uma janela, notaria o vento pesaroso bagunçando os cabelos da jovem enquanto que o céu cinzento ia, às sombras, conferindo um ar quase funéreo ao rosto de Tadeu. Porém, o que não se via nem adivinhava, era a história daquele casal, o antes já passado, e o depois por acontecer dali poucos minutos.

    Ninguém sabia como ou onde se conheceram. Ela, estudante de direito, filha de ilustre cidadão, coroada Miss no recente concurso de nossa cidade; ele, de origens desconhecidas e ao que tudo indica em escusas relações com o crime que cresce sem freios por nossas ruas. A improbabilidade de tão incomum casal preocupou os amigos de Carol – apelido da moça -, que logo trataram de avisá-la sobre os perigos da relação; os pais, pragmáticos, sugeriram o imediato término do romance. Contudo, ela pouco caso fez dos avisos. Quem a quisesse encontrar bastava procurar, em belas tardes ensolaradas ou pela noite, na saída da faculdade, um Opala vermelho bordô, de rodas cromadas, único e inconfundível, pertencente a Tadeu; se encontrassem o carro, encontrariam Carol. Sentada no banco do passageiro, feliz e sorridente, lembrava em beleza e satisfação uma primeira-dama no carro presidencial.

    Ninguém sabe, tampouco, quando foi que Joel Aparecido, 30, conhecido, fichado e perigoso agiota, entrou em desentendimento com Tadeu, e nem por que o jurou de morte. Este atrito, que prossegue em elucidação pela polícia, foi o que causou a cena de despedida aqui descrita - e o desfecho a seguir.

    Fontes próximas relataram que o plano era Tadeu sumir da cidade por uns tempos, despistar Joel e aguardar até que este desse por vencida aquela jura de morte. Assim, naquela manhã nublada de domingo, nas vésperas do plano, enquanto se despediam frente a iminente separação temporária, imagina-se as juras trocadas pelo casal. Tadeu dizia que sentiria muitas saudades enquanto que ela, em promessas quase sem fim, jurava uma espera dolorida e obstinada. Tadeu ainda a teria posto em tranquilidade ponderando que estaria segura; era de família conhecida, figura quase pública, nem mesmo um bandido ruim feito Joel tentaria algo contra ela como forma de vingança.

    O ritmo choroso da despedida só foi interrompido por um barulho alto, estridente, de motor. Uma motocicleta virava a esquina e vinha, a toda velocidade, na direção do casal. Ao se aproximar, o condutor reduziu a velocidade enquanto que o garupa sacava um revolver calibre 38. Foram ao todo cinco tiros. Três atingiram Tadeu, um sobrou em seu Opala e outro, feito bala perdida, foi perfurar a porta da casa de Caroline. Esta saiu ilesa. Tadeu morreu ainda na rua, hemorragia interna.

    A polícia já deteve I. D. S (17), o autor confesso dos disparos, e permanece no encalço de Joel, denunciado pelo menor como o condutor da moto e responsável pela ação toda.

    A despedida do casal, no melhor estilo hollywoodiano, acabou, no ápice de sua tragédia, ainda mais cinematográfica.

    (...)

    Está certo, admito, não é exatamente um texto jornalístico em seu estilo clássico. Mas para um jornaleco desses, para uma cidadezinha dessas, estava ótimo. Venderia, aposto. Ficasse como crônica se melhor se ajustasse.

    O problema é que o pai de Caroline, o imponente Doutor Almeida e Campos, que não falta nunca à coluna social, não gostou muito da possibilidade de ver o nome de sua filha – e de seu próprio nome, por consequência – assim, tão exposto. O que foi pior, não sei: se a publicidade em torno do seu nome ou a anunciação das preferências incomodas de sua filha ao escolher um namorado. E existem tantos filhos de outros doutores em nossa cidade! O velho deve ter se mordido todo.

    O delegado, num gesto de enorme boa vontade, assegurou que nenhum nome ligado a tão notável família seria registrado na papelada da investigação policial. Nem mesmo a rua do ocorrido. Eu, que já sabia de tudo e tinha minhas fontes seguras – alguns policiais e conhecidos do casal -, já escrevera a história e mandara, animado, para meu chefe... ingênuo feito um estagiário. Veio então todo aquele papo sobre subjetividade e mistura capciosa de fatos e opiniões. No fundo, o chefe só estava sendo tão benevolente quanto tinha sido o delegado; é isso que significa dizer que nas cidades pequenas as pessoas são mais bondosas e simpáticas.

    Mas eu fui bondoso também. Quase tanto quanto o delegado e o chefe. Não registrei a opinião das amigas de Caroline, sobre como esta adorava estar ao lado de Tadeu, talvez o mais popular pária de nossa cidade; uma adoração mais pelos suspeitos ares de marginal do que pela pessoa que ele era. Talvez a pessoa não estimulasse tanto a vaidade de Carol quanto o fazia a fama de bandido. Ignorei provas concretas de que Tadeu era, na verdade, trabalhador, possivelmente sério como qualquer outro, e que se uma dia fez besteira foi a de ter pego um empréstimo com Joel, um agiota metido a gangster. Empréstimo para quê, ignoro igualmente, pois seria ofensa para alguns meter Tadeu, Caroline e casamento na mesma frase. Sequer mencionei infinidade de presente e mimos que o rapaz a oferecia, sabe-se lá se não fruto de outros empréstimos com outros agiotas. Isso poderia, de repente, desvirtuar em algo a imagem de nossa Miss, fineza abastada de nossa sociedade.

    E fui tão benevolente que contive o comichão de trazer o relato de outras testemunhas que asseguraram ter visto, no mesmo domingo do assassinato de Tadeu, Carol em uma festinha, animada como era naqueles dias em que o namorado ainda vivia; e observaram que ela sorriu, meio cheia de si e meio cheia da sombra do morto namorado, quando alguém comentou, de canto de boca, ao vê-la passar, lá vai a viúva do bandido!. Bom cristão que sou, deixei passar essas coisas todas.

    Já sobre os comentários de um furtivo encontro entre Joel e um sujeito de meia-idade que lembrava, de longe, o Doutor Almeida e Campos, isso a gente deixa passar não por bondade. É o jogo do faz de contas que quem é ajuizado joga, em silêncio.

    Como consolação o chefe me deu espaço para outra reportagem sobre o mesmo fato. Afinal, a história é fato, então o fato precisa ser contado. Mesmo que com alguns dias de atraso e certas restrições. Saiu assim, é só pegar o jornal para conferir.

    Semana passada uma rixa entre bandidos levou terror às ruas pacatas de nossa cidade. Tadeu Pereira, suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas, 24, foi executado a tiros por I.D.S, menor, 17, a mando de Joel Aparecido, 30, conhecido desafeto da vítima, ainda foragido. A polícia prossegue com as investigações.

    Caso não encontre a notinha no jornal procure com atenção lá na última página, é um quadrinho quase que espremido no rodapé; está no verso da coluna social. Se tiver tempo dê uma olhada nessa coluna também; em sorrisos e em rosadas bochechas verás Doutor Almeida e Campos, com esposa e a filha Carol, todos juntos numa recente e súbita viagem para a Europa. Você certamente pensará o que eu pensei: que belos são os alpes suíços![/align]
     
  2. Haleth

    Haleth Call me Bolga #CdLXI

    Franco, assim que eu tiver meu próprio jornal te chamo pra editor-chefe, ok?
     
  3. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Realmente, que belos são os Alpes suíços!
     
  4. imported_Franco

    imported_Franco Usuário

    Opa! Fico no aguardo XD

    Lindos, né? :sim:
     

Compartilhar