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Produção científica e lixo acadêmico no Brasil

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Bruce Torres, 7 Jan 2015.

  1. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Produção científica e lixo acadêmico no Brasil
    A resistência dos medíocres e a falta de coragem política das autoridades impedem o crescimento da ciência de alta qualidade no nosso país

    Dois artigos publicados recentemente pela revista britânica "Nature", especializada em ciência, deixam o Brasil e, em especial, a comunidade acadêmica brasileira, profundamente envergonhados.

    A "Nature" nos acusa, em primeiro lugar, de produzir mais lixo do que conhecimento em ciência. Nas revistas mais severas quanto à qualidade de ciência, selecionadas como de excelência pelo periódico, cientistas brasileiros preenchem apenas 1% das publicações.

    Quando se incluem revistas menos qualificadas, porém, ainda incluídas dentre as indexadas, o Brasil se responsabiliza por 2,5%. O que a "Nature" generosamente omite são as publicações em revistas não indexadas, que contêm número significativo de publicações brasileiras, um verdadeiro lixo acadêmico.

    O segundo golpe humilhante para a ciência brasileira exposto pela revista se refere à eficiência no uso de recursos aplicados à pesquisa. Dentre 53 países analisados, o Brasil está em 50º lugar. Melhor apenas que Egito, Turquia e Malásia.

    Tomemos um exemplo. O Brasil publicou 670 artigos em revistas de grande prestígio, enquanto no mesmo período o Chile publicou 717, nessas mesmas revistas. O dado profundamente inquietante é que enquanto o Brasil despendeu em ciência US$ 30 bilhões, o Chile gastou apenas US$ 2 bilhões.

    Quer dizer, o Chile, que aliás não está entre os primeiros em eficiência no mundo científico, é 15 vezes mais eficiente que o Brasil. Alguma coisa está errada, profundamente errada. A academia brasileira, isto é, universidades e institutos de pesquisas produzem mais pesquisa de baixa do que de boa qualidade e as produz a custos muito elevados. Há certamente causas, talvez muitas, para essa inadequação.

    A primeira decorre de um "distributivismo" demagógico. É evidente que seria desejável que novos centros de pesquisas se desenvolvessem em regiões ainda não desenvolvidas do país. Mas é um erro crasso esperar que uma atividade de pesquisas qualquer venha a desenvolver economicamente uma região sem cultura adequada para conviver com essa pesquisa.

    Seria desejável que investimentos maciços fossem aplicados em pesquisas em instituições localizadas em regiões pouco desenvolvidas, mas cujo meio ambiente é capaz de absorver os benefícios dessa inserção.

    O segundo mal que é causa inquestionável da diminuta e dispendiosa produção de conhecimento é o obsoleto regime de trabalho que regula a mão de obra do setor de pesquisas em universidades públicas e na maioria dos institutos.

    O pesquisador faz um concurso --frequentemente falsificado-- no começo de sua carreira. Torna-se vitalício. Quase sempre não precisa trabalhar para ter aumento de salário e galgar postos em sua carreira. Ora, qual seria, então, a motivação para fazer pesquisas?

    O terceiro problema é o sistema de gestão de universidades públicas e instituições de pesquisa, cuja burocracia soterra qualquer iniciativa dos poucos bem-intencionados professores e pesquisadores que ainda não esmoreceram.

    Pois bem. Há uma fórmula que evita todos esses males e que já foi experimentada com sucesso em algumas das instituições científicas do Brasil: a organização social. A resistência dos medíocres e parasitas e a falta de coragem política de algumas de nossas autoridades impedem a solução desse problema.

    ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha

    Fonte:
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  2. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    É a fome com a vontade de comer.

    No que pese os próprios cientistas americanos estarem questionando os critérios das revistas atuais de ciência na hora de escolherem o conteúdo também existe muito lixo no Brasil que visa o QI e dá pouco valor ao resultado final de uma pesquisa de impacto (a famosa panelinha). Então acho que é verdade o que um escritor uma vez disse que os sucessos assim como os insucessos acontecem por vários fatores juntos.

    É necessário uma autocrítica também mas eu não deixaria de graça e falaria o que me incomoda na postura das divulgações atualmente.
     
  3. fcm

    fcm Visitante

    Não tenho experiência alguma na área de pesquisas acadêmicas mas namorei uma mestranda que morava com outras duas doutorandas e uma outra mestranda e elas levavam uma vida de invejar muitas pessoas.
    Ganhavam suas bolsas para praticamente dormir, beber e amar.
    Vez ou outra iam ao laboratório e tinham que frequentar algumas disciplinas. Ganhavam bolsas da FAPESP e compravam alguns aparelhos bem caros para coletar e analisar dados.
    O projeto de algumas delas que cheguei a conversar pareciam muitíssimo abstratos, o orientador era mais um galanteador do que um próprio orientador. As doutorandas só sabiam elogiar e puxar o saco do carinha.
    No meu micro-cosmo realmente era só desperdício de verbas mesmo. Lendo essa matéria, parece que no Brasil todo é bem por aí, pois o investimento não está gerando o resultado esperado.
    Pra mim esse é um ponto que levou a nossa estagnação econômica, pois nosso país não cria e não inova. Isso tem que mudar o mais breve possível.
     
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  4. Calib

    Calib Visitante

    Isso me lembra bastante este outro texto aqui que sempre gosto de compartilhar XD :

    Darwin e a prática da 'Salami Science'

    FERNANDO REINACH

    Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a expressão "Salami Science". Um de nós estava com uma pilha de trabalhos científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou: "Salami Science, espero que não chegue aqui". Mas a praga se espalhou pelo mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.

    "Salami Science" é a prática de fatiar uma única descoberta, como um salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil. Apesar disso, a "Salami Science" se espalhou, induzido pela busca obsessiva de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.

    No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu... Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.

    Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano - e onde. Querem saber como serão classificados. "Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto impacto no ano passado, não poderia ser diferente." "O departamento de beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto..." Não que os olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.

    Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein, Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil. O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos tenham sido aceitos para publicação.

    Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual escondida por trás de algoritmos matemáticos.

    Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano. Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar "Salami Science". É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E, aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele descobriu...

    Fonte:
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  5. [F*U*S*A*|KåMµ§]

    [F*U*S*A*|KåMµ§] Who will define me?

    Belo texto e era boa parte do que eu iria comentar.

    No cenário brasileiro o CNPq possui uma classificação que leva em conta pesadamente o número total de publicações, número de orientandos, etc. E essa classificação pesa muito na avaliação da distribuição dos financiamentos públicos.

    Adicione-se a isso o fato de que no Brasil praticamente não há centros de pesquisa sejam públicos ou privados em muitas áreas de atuação científica (existem mais nas áreas em que o Brasil possui uma matéria prima de exploração vasta como agropecuária, biologia, etc). A pesquisa do professor acaba sendo a sua última prioridade por força do seu contexto, diferentemente do que ocorre numa Bell Labs ou num Forschungszentrum. E muitas vezes projetos de pesquisa inteiros acabam caindo nos ombros de alunos de mestrado e doutorado, que por mais que possam ser bons, ainda não possuem experiência pra coordenar algo do tipo tendo eles acabado de entrar no sistema.
    A própria classificação do CNPq reflete isso. Um pesquisador que fosse apenas pesquisador, seria muito mal classificado pois não teria pontuação em horas-aula, alunos orientados, etc.

    Some-se a isso também o fato do Brasil focar muito do seu contingente em trabalhos teóricos e pouco em experimental. Usualmente trabalhos experimentais além de papers também geram patentes, o que muitas vezes são mais rentáveis e criam um entrada de recursos paralelo que retiram o pesquisador da saia do governo e sua burocracia para conseguir recursos.
     
  6. Fúria da cidade

    Fúria da cidade ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ

    É um cenário muito precário, mas é o proporcional ao baixíssimo investimento que o país faz em Educação. Então não adianta reclamar muito, porque é o máximo que dá pra colher do pouquíssimo que é investido.

    E mesmo que se comece a investir de forma pesada ainda assim levaríamos algumas décadas pra que sejamos um país com uma expressiva produção científica em quantidade e qualidade, mas do jeito que está não vejo esse quadro mudando tão cedo.
     
  7. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Mas será que mais investimento em educação não seria absorvido pela estrutura esterilizante que temos hoje?

    Outro texto que considero bacana é a entrevista com o Nicolelis (picotei pra chegar direto na questão):

    O manifesto que ele escreveu pode ser lido aqui:

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