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Processo individual ou coletivo?

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Lordpas, 28 Nov 2004.

  1. Lordpas

    Lordpas Le Pastie de la Bourgeoisie

    Segue um texto que eu achei na Net. Comprido e interessante, ok?

    A expressão Invasão Cultural , escolhida para denominar o painel de debates que ora se inicia, remete desde logo para uma idéia de luta e de poder. Alguém, baseado na superioridade de sua força, penetra em território alheio , e aí se estabelece, originando a conseqüente realidade de existência de um dominador e de um dominado. Trata-se pois de uma imagem tirada de uma experiência histórica que mostra através dos tempos a existência de povos invasores e povos subjugados e todo um corolário de conseqüências não apenas políticas e econômicas, mas humanas sociais e culturais.

    Estabelecida, pois, como aceitável essa correlação histórica e implícita na expressão Invasão Cultural, para qualquer exame que se proponha , de tal realidade , há de supor , desde logo , uma dupla alternativa de posições por parte dos observadores : a do que contempla o fenômeno enquanto dominador e a do que lhe examina as conseqüências enquanto dominado. Ora, como o tema de discussão certamente coloca o Brasil como o sujeito e aqui no mais variado sentido da palavra é preciso que os debatedores assumam de saída a posição que escolherão para o exame da questão. No meu caso particular, reconheço a posição de dominado, mas como é sabido não conformado e portanto disposto a busca da libertação. Um dos argumentos mais usados na contestação dessa disposição de luta contra a imposição cultural, apontada sempre como atitude radical, xenófoba, e etc., é de que no plano da música popular, por exemplo, as coisas não correspondem à tal dualidade de poder, porque como toda cultura e por definição dinâmica e permeável quaisquer influências, venham de onde vierem, tornam-se não apenas normais mas ainda enriquecedoras.


    A esse argumento , contraposição inconformada dos sujeitos à dominação , acrescenta-se ainda o de que mesmo quando vigorasse para a cultura de massas a relação dominador e dominado qualquer oposição à tal realidade seria inútil porque, como a moderna tecnologia de comunicações aboliu as fronteiras, nada mais natural do que as culturas urbanas de todo mundo ultrapassarem o seu estágio regional para equipararem-se a padrões internacionais . E é assim que se mergulha com inocência crítica dos conformados no conceito da Globalização, alegremente aceito como uma nova lei da natureza descoberta pela irrefutável ciência do capitalismo, pois é quando a realidade aparente recebe um nome para explicá-la, e sendo apenas um nome ganha imediatamente o consenso da aceitação como verdade. É aí que cabem algumas perguntas . A primeira delas é:

    Por que os fatos que envolvem o fenômeno da globalização apresentam-se no campo cultural como são e não de outra maneira?

    Não pretendo alcançar a extraordinária concisão da resposta do compositor pernambucano Capiba, a uma repórter que lhe pediu opinião sobre som Universal,- Desculpe moça, mas som universal para mim é peido!

    Ainda assim, algumas observações podem ser feitas e uma logo se impõe sob a forma de nova pergunta: Se a globalização prevê a universalização através da adoção pela indústria cultural de padrões médios alheios ao regional, por que a língua usada é sempre o inglês? Pergunta que leva naturalmente à outra:

    E quando se trata de música popular, por que os gêneros propostos ao mundo como universais partem sempre da cultura do país que fala aquela mesma língua? Realmente a nova realidade cultural decorrente da chamada globalização, ocorre no dia-a-dia com aparência de fatos tão naturais que dificilmente chama atenção para o que estes comportam de ideologia e essa mesma ausência de estranheza; afinal, tem uma explicação: a oferta de produtos estranhos às diversidades locais é recebida com naturalidade porque àqueles aos quais se dirige já estão preparados ideologicamente para recebê-los. É que como os produtos da indústria cultural têm como público alvo a gente das cidades com algum poder aquisitivo e essa compõe uma classe média disposta a esquecer sua recente pobreza e consciência do atraso. Tudo que surge com a chancela de novo, moderno e atual passa a constituir sinônimo de bom e desejável.

    O advento dessa espécie de lavagem cerebral exercida sobre o público consumidor no Brasil foi denunciado por este expositor há quase vinte e cinco anos atrás, através da coluna Música Popular que mantinha no Caderno B do Jornal do Brasil ao escrever sob o título de Universal é o regional de um que é imposto para todo mundo, que dizia : "Situadas, assim, diante da situação conflito de ter que escolher entre a aceitação da realidade interna pobre e bitolada e as promessas de um estilo de vida rico de alegrias , oferecidas pela indústria do consumo, as camadas mais altas da classe média não têm dúvida , optam pelo segundo modelo idealmente projetado pelos anúncios de cigarros e de refrigerantes da televisão e, dessa forma, como num passe de mágica, a realidade geral vigente para a maioria das camadas da sociedade se apaga e o real passa a ser a vida em circuito fechado dessa minoria com capacidade de valor de acesso aos valores modernos. Ora, como por motivo do próprio modelo econômico montado no país os produtores desses valores modernos só contam com o mercado das minorias o circuito de interesses de expectativas se fecha, quer dizer, as grandes massas trabalham e renunciam a sua parte na divisão do produto nacional para que os investimentos feitos pelo governo à sua custa possam realimentar o tempo todo o estreito circuito em que gira a riqueza envolvendo o comprador com poder aquisitivo de um lado e a indústria sofisticada do outro.

    O resultado cultural desse processo não se faz esperar. Assim como o veículo ideal para o anúncio das virtudes dos artigos industriais produzidos pela tecnologia mais sofisticada é a televisão e como por coincidência esses produtos são os mais caros e , portanto, só ao alcance das minorias com poder aquisitivo, a tendência da programação é atender ao gosto e às expectativas dos poucos que constituem o mercado potencial dos produtos aliciados nos intervalos comerciais e não às maiorias pobres que compram aparelhos de TVs pelo crediário.

    Ora, como a televisão precisa transmitir eventualmente shows musicais para entretenimento dos telespectadores, os espetáculos e sons escolhidos são os que projetam tal como o anúncio dos intervalos a idéia de modernidade, de bom gosto e de ligação com os modelos de aceitação unânime pelas classes médias dos países mais desenvolvidos."

    Posso concluir , então , com a lógica que a evolução dos fatos desse último quarto de século só viria ratificar, a partir daí e tomando a sua realidade como real, os componentes da classe média brasileira passaram a admitir por extensão que o seu gosto é, ou deveria ser, o gosto de todos e, ato contínuo, transformaram o particular no universal . Uma vez , porém , que os produtos culturais ligados às suas expectativas e gostos são decididos e manipulados por grandes conglomerados internacionais com matrizes nos países desenvolvidos, o que se verifica é que o universal da classe média brasileira acaba sendo o regional das classes médias dos países mais poderosos.

    Recae-se assim, como se vê, na alternância entre o poder de quem tem a força econômica para impor as suas criações culturais no mercado mundial e o que é levado a receber essa invasão disfarçada como um produto natural e desejável oferecido pelas virtudes da globalização.

    E tudo levado a concluir que afinal a última instância de qualquer discussão cultural é a discussão política. Debate necessário ao tratar-se de Invasão Cultural ao menos para o estabelecimento da responsabilidade de todos perante a alternativa da aceitação passiva ou da luta contra as imposições.

    Texto apresentado no Encontro de Pesquisadores da MPB do Museu da Imagem e do Som (outubro de 2001, na Uerj).

    E daí?

    A valorização da Cultura nacional deve ser um processo individual ou coletivo?
     

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