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Notícias Prêmios literários por Marcelino Freire e Ricardo Lísias

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Zzeugma, 10 Out 2011.

  1. Zzeugma

    Zzeugma Usuário

    Via Prosa Online, do Globo:
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    "Marcelino Freire e Ricardo Lisias escrevem sobre prêmios literários

    No momento em que chega ao Brasil o livro de memórias ‘Meus prêmios’, de Thomas Bernhard (veja resenha no post abaixo), dois autores já laureados refletem sobre o papel das premiações na vida literária nacional hoje.

    MARCELINO FREIRE

    Um pobre escritor

    Tem um amigo meu que não escreve romances. É poeta. Mas ele me disse que vai preparar um épico até o final deste ano: só para inscrever o calhamaço no Prêmio São Paulo de Literatura. Quem sabe, Marcelino, com os duzentos mil reais eu salde as minhas dívidas, enfim, compre um buraco de apartamento?

    Já tem um outro amigo meu que é romancista. Aliás, ele não é mais romancista. Aliás, ele morreu. Tragicamente assassinado no ano passado. Falo do Wilson Bueno, lembram? Ele desapareceu no mesmo dia da minha mãe, em 30 de maio de 2010.

    Também em 2010 perdemos Roberto Piva. E perdemos Alberto Guzik. E perdemos José Mindlin. E perdemos o cartunista Glauco (brutalmente assassinado idem), etc. E o meio literário, na verdade, estava àquela época discutindo outras perdas e ganhos. A questão mais relevante era: quem ganhou e quem perdeu o Prêmio Jabuti — Chico Buarque ou Edney Silvestre?

    Minha Santa Periquita!

    Fui ficando cansado. Deu-me uma preguiça. Uma desesperança. Sei que não é de hoje que a corrida é mesmo esta. Importantíssima para a editora. Para o prestígio nacional e internacional dos autores. Mas me diga: a coisa não está ficando histérica demais ou é impressão minha?

    Não sei.

    Sei lá...

    Ah! Mas não foi você, Marcelino, quem ganhou em 2006 um Jabuti, meu bem? Por que está agora cagando na cabeça do cágado, hein?

    Ora, não tenho do que reclamar.

    Não pedi prêmio para ninguém.

    Fiz dois belos livros pela Record, amém. E agradecerei aos queridos amigos da editora sempiternamente por isto.

    Mas minha questão aqui é outra. Estou tentando entender essa caça ao tesouro. Esse alvoroço que atinge as grandes e médias e pequenas editoras. Atinge os grandes e médios e pequenos autores.

    Ave!

    Há quem coloque uma estatueta na mão e se sinta o dono da palavra. Meu livro em outras línguas, publicado. Não viu? Assim: a literatura do laureado pode até não falar ao Brasil, não ter leitor, não circular pelas periferias, pô, mas é colocado na estante mais alta do mercado. Na gôndola de Frankfurt. Eta danado!

    Por favor. Não me acusem de mal agradecido. Não me interpretem mal. Repito: é só um cansaço que me deu. A angústia de ter enfrentado no ano passado verdadeiras perdas na minha vida. De minha saudosa heroína materna a alguns heróis literários.

    Gente que, de fato, revolucionou o meu lar e o meu juízo. Quando eu era ainda um adolescente, vivendo no Recife, querendo ser escritor. Almejando escrever meus contos, apostando no sangue dos meus parágrafos.

    Não.

    Não posso esquecer. Não posso perder este meu lado apaixonado e amador. Sempre ligado que estou no exemplo do Piva. Quantos prêmios ganhou o Piva em vida? Deram algum tostão para ele pelo conjunto da obra?

    Foi por essas e outras que o meu último livro de contos, o “Amar é crime”, saiu pelo coletivo Edith (<visiteedith.com>), do qual faço parte. Fiz isto porque quis respirar outros ares, confesso. Quis partir da estaca zero. Ficar um pouco longe do circuito do vinho branco, do patê de fígado. Distante do lero-lero.

    Pobre, mas feliz, podem apostar.

    Aí se a coisa por acaso piorar, ora essa, aconselha o meu amigo poeta: é só tirar aquele seu romance da gaveta.

    Não vale nada.

    Mas quem sabe valerá?

    MARCELINO FREIRE é autor de “Angu de sangue” (Ateliê Editorial) e do recém-lançado “Amar é crime” (Edith), entre outros. Ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas em 2006 por “Contos negreiros” (Record). Mantém o blog <marcelinofreire.wordpress.com>.

    * * *

    RICARDO LISIAS

    Reflexo do país

    Apesar de me faltarem alguns anos para os 40, já vivi o suicídio de um grande amigo, um divórcio cuja crueldade roubou-me a pele e um par de cerimônias de entrega de prêmios literários. As três circunstâncias carregam o explosivo potencial de revelar a verdade. Todas precisam virar literatura, portanto.

    No Brasil, os prêmios literários são o reflexo do país. De vez em quando, protagonizamos eleições em que o melhor candidato é eleito; outras vezes permitimos que gente como Tiririca ou Clodovil (in memoriam) nos representem. Na literatura é a mesma coisa: em alguns prêmios os melhores livros são contemplados; em outros, lá vai o Tiririca, lépido e faceiro, buscar seu troféu.

    O reconhecimento crítico é fundamental para que uma obra literária se fortaleça e cumpra o percurso histórico que a arte mais relevante deve atravessar. Além disso, sem hipocrisia nem assombro, o dinheiro que alguns prêmios oferecem ajuda. A literatura de peso exige tempo e um investimento que muitas vezes só o autor percebe. O Brasil tem melhorado bastante nas ofertas de financiamento para escritores, o que talvez redunde em obras mais consistentes no futuro.

    Mas ainda não conseguimos enfrentar a mistura de pitoresco e glamour que cerca a literatura brasileira e a afasta de uma das mais imperativas missões da arte: dizer a verdade ao poder e desafiá-lo sem cessar.

    Autores de terno e escritoras de vestido longo sorriem uns para os outros, todos se sentam próximos, as autoridades ou os executivos das grandes empresas patrocinadoras falam, anuncia-se o nome do vencedor, os outros ficam irritados — algumas vezes é inevitável — e normalmente se mandam enquanto alguém toca a musiquinha do 007 ou algum clássico mais ou menos batido. Uma vez uma poetisa elegantíssima, furiosa por não ter sido contemplada, chutou a cadeira e acertou a canela da minha irmã...

    Com exceção desses detalhes que ninguém vê, perder a pose publicamente como fazem alguns cineastas heróicos (por exemplo, o brilhante Lars Von Trier) ou fazer um protesto a favor de alguma coisa, mesmo que seja o décimo terceiro salário das prostitutas, nossos bem comportados autores não se atrevem a fazer. Todo mundo no Brasil tem uma facilidade enorme de sair bem na foto para não estragar as chances de o próximo livro ser contemplado.

    Por que não exigir que o autor premiado grave uma conferência sobre um clássico para a internet? Além disso, talvez fosse interessante pagar um valor considerável para que um crítico, ou um pequeno grupo deles, redija um texto, longo e bem justificado, explicando as razões de sua escolha. Esse texto poderia valer o mesmo que recebe o autor premiado. A crítica assumiria um papel público e os organizadores seriam obrigados a escolher júris criticamente relevantes.

    De vez em quando fico me perguntando por que esses grandes ganhadores de prêmios no Brasil são sempre senhores tão simpáticos? Não quero ficar velho assim... Alguns escrevem textos que atingem rapidamente o consenso, mas o motivo é óbvio: estão fazendo o discurso que a classe média consumidora de livros quer ouvir. O resultado de tanto asseio é uma literatura organizada, limpa, de fácil digestão e nenhum incômodo.

    Reconhecimento e dinheiro para pagar as contas são importantes, mas se for para agradar a todos e perder a força em nome das boas maneiras, não vale a pena. A literatura precisa enfrentar a hipocrisia brasileira e não sorrir para a classe média extasiada com a simpatia e graça de seus autores oficiais, simpáticos e bonzinhos.

    RICARDO LISIAS é autor de “O Livro dos Mandarins” (Alfaguara), entre outros. Recebeu o terceiro lugar do Prêmio Portugal Telecom em 2006 por “Duas praças” (Globo)"
     

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