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Por que você deveria ler W. G. Sebald

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Jacques Austerlitz, 4 Dez 2012.

  1. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

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    (Adaptado de
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    , por Mike O'Connell)

    Na semana que vem fará 11 anos da morte de W.G. Sebald, uma das figuras mais transformadoras da literatura contemporânea. Em 14 de dezembro de 2001, o escritor alemão sofreu um aneurisma enquanto dirigia e foi morto instantaneamente em uma colisão com um caminhão. Ele tinha 57 anos, tendo vivido e trabalhado como professor universitário na Inglaterra desde os vinte e poucos anos, e apenas nos cinco anos anteriores a sua morte tinha começado a ser amplamente reconhecido pela sua extraordinária contribuição à literatura. Naquele mesmo ano, seu livro “Austerlitz” (sobre um homem judeu enviado para a Inglaterra quando criança através do Kindertransporte, em 1939, cuja memória desse passado se perdeu) foi publicado recebendo grande aclamação, e a perspectiva de um prêmio Nobel já começava a parecer inevitável.

    O peso da perda para a literatura com a sua morte precoce - de todos os livros que ele poderia ter escrito - é contrabalanceado apenas pela enigmática pressão do trabalho que ele deixou. Seus quatro romances de ficção, “Vertigem”, “Os emigrantes”, “Os anéis de Saturno” e “Austerlitz” são absolutamente únicos. Eles combinam memória, ficção, diário de viagem, história e biografia no crisol de seu assombroso estilo de prosa para criar uma estranha nova composição literária. É provavelmente muito cedo para prever a extensão da influência que os livros híbridos de Sebald terão na forma do romance, mas não é exagero dizer que ele apagou e redesenhou as fronteiras da narração ficcional tão radicalmente quanto ninguém desde Borges.

    Mais de dez anos após sua morte, entretanto, o trabalho de Sebald permanece mais ou menos inteiramente sui generis. Lê-lo é uma experiência maravilhosamente desorientadora, não menos por causa da estranha e revigorante incerteza quanto ao que é, precisamente, que estamos lendo. Seus livros ocupam um território instável e disputado, na fronteira da ficção e da realidade, e essa ambivalência gênero é espelhada nos movimentos multiformes de sua prosa. Muitas vezes o que está na página, a escrita em si, dá a impressão de ser apenas a débil, oscilante sombra de seu referente real. Frequentemente, não é sobre aquilo que Sebald parece estar escrevendo, em outras palavras, que ele quer que nós estejamos pensando.

    Era convicção de Sebald de que não se poderia escrever sobre a história recente de seu país diretamente, não se poderia aproximar dela frontalmente, porque a enormidade de seus horrores paralisaram a nossa habilidade de pensar sobre eles moral e racionalmente. Esses horrores precisavam ser abordados obliquamente. O efeito de uma passagem essencialmente sebaldiana, por exemplo, é o de um sonho em que um professor está falando de sericultura, mas também, de alguma forma, sobre Auschwitz. Aquele lugar e o que ele passou a representar é uma vasta e pálida presença na periferia - e, de alguma forma, no centro - da visão narrativa do trabalho de Sebald. Ele nasceu na Bavária, em 1944, e cresceu nas imediatas consequências da guerra. Seu pai, ele descobriu muito depois, havia servido o exército e participado da invasão da Polônia em 1939. Como muitos alemães da sua geração, o pai de Sebald se recusava a falar de suas experiências na guerra, e essa reticência, somada ao que era a Alemanha pós-guerra, é o que impulsiona as narrativas de Sebald com pudor e oclusão histórica.

    Seu trabalho é fantasmagórico em diversos sentidos: tematicamente, ele é perturbado pelos espectros da história recente da Europa e, estilisticamente, ele é entregue em um tom assustadoramente impassível. Independentemente do fato contingente de sua morte, os livros de Sebald são lidos muitas vezes como se estivessem sendo narrados do além-túmulo. O passado torna-se subitamente presente, e o presente parece mediado pela longa passagem dos anos. “Não me parece”, Sebald escreve através de Austerlitz, “que compreendemos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mais me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos dos mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera”.

    Geoff Dyer, em um ensaio sobre Sebald e Thomas Bernhard, comenta sobre o estranho aspecto espectral da escrita de Sebald: “a primeira coisa a se dizer sobre os livros de W. G. Sebald é que eles têm uma qualidade póstuma. Ele escreveu - como muito já se observou - como um fantasma. Ele foi um dos mais inovadores escritores do século XX, e ainda assim parte de sua originalidade derivava da forma com que sua prosa parecia exumada do século XIX”.

    A alegação do pscianalista Adam Phillips de que “Sebald é mais como um novo tipo de historiador do que um novo tipo de romancista” pode ser provocativa demais, mas é uma indicação de como seu trabalho ainda pode ser alocado dentro de um nicho canônico seguro. Seus livros são fascinantes pela maneira com que habitam seu próprio gênero auto-determinado, mas não é por isso que eles são uma leitura essencial. Há uma grandeza moral e uma cansada e melancólica sabedoria na escrita de Sebald que transcende o literário e alcança algo como um registo oracular. Lê-lo dá a impressão de estarem falando conosco em um sonho. Ele acaba com os procedimentos normais de caracterização narrativa de ficção - enredo, eventos que levam a outros eventos -, de modo que o que temos é a expressão sem mediação de uma voz pura e aparentemente sem corpo. Essa voz é uma extraordinária presença na literatura contemporânea, e pode passar mais uma década antes que a magnitude e a precisa natureza de suas declarações e de seus silêncios sejam plenamente entendidas.
    _____




    Trechos de Austerlitz:

    "O que me lembro é das roupas que me deixavam muito infeliz, e também do sumiço inexplicável da mochilinha verde, e recentemente até imaginei ser capaz de recordar algo do processo de perda da minha língua materna, dos seus rumores que mês após mês se tornavam cada vez mais débeis e que, imagino, sobreviveram dentro de mim ao menos durantes uns tempos, como uma espécie de rascar ou bater de alguma coisa presa, que, de medo, sempre fica quieta e se cala quando alguém tenta escutá-la."
    (pg. 139)

    "Não me parece, disse Austerlitz, que compreendamos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que se imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mais me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos dos mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera."
    (pg. 182)

    "De fato, nunca na minha vida eu adormeci tão bem quanto nessa primeira noite que passei com Marie. Eu escutava a sua respiração regular. No relâmpago que de vez em quando riscava o céu, seu belo rosto aparecia ao meu lado por uma fração de segundo, e então a chuva desabou lá fora com o seu ruído uniforme, as cortinas brancas sopravam para dentro do quarto, e ao adormecer eu senti, como uma ligeira descompressão atrás da testa, a crença ou a esperança de estar finalmente salvo."
    (pgs. 206-207)


    Livros em português:

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    (sem trecho disponível no site da Cia)


    Leia mais:

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    ____
    Pensei em postar no subfórum dos autores, mas depois vi outras reportagens aqui no generalidades, e achei que ficava melhor aqui mesmo. Se preferirem mover, à vontade.
     
    Última edição: 5 Dez 2012
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  2. Calib

    Calib Visitante

    Olha, é o Jacques!

    :roll:



    Tá, a sério agora:
    digamos que alguém queira dar uma oportunidades ao cara,
    qual seria assim o livro ideal para conquistar de prima um leitor novo?
     
  3. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

    O consenso é que Austerlitz é a obra-prima dele. É também o livro que mais conta uma história, e acho que um bom ponto de partida, mas eu acho que gosto mais de Os anéis de Saturno. Eu comecei pelo Guerra aérea e literatura, que trata dos bombardeios das cidades alemãs na segunda guerra, como os próprios alemães trataram isso com silêncio e humilhação e como os escritores alemães se omitiram de tratar do tema. É um livro que tu vai ver repercutir em todos os outros, então também poderia ser um ponto de início.
     
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  4. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

    Primeiro vídeo que eu encontro em que o Sebald aparece em carne e osso. Ele primeiro fala um pouco sobre o último livro que ele viria a publicar em vida (Austerlitz), depois lê um trecho do livro (na edição brasileira, pgs. 203 a 212), e segue um Q&A bem interessante, com ele e a Susan Sontag respondendo perguntas enviadas pela plateia. Dois meses depois, ele viria a morrer.

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  5. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

  6. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Fala sério, o Austerlitz é inachável! =(
     
  7. Calib

    Calib Visitante

    Tem só 1 exemplar na Estante Virtual, e o maluco quer 100 dilmas nele.
    haha.
    No cu dele.
     
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