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Poesias favoritas

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Anica, 26 Nov 2007.

  1. Anica

    Anica Usuário

    Vamos compartilhar nossas poesias preferidas aqui neste tópico. Não esqueçam de citar o autor, é claro. :mrpurple:

    "ACHAVA QUE NÃO PODIA SER MAGOADA" (Sylvia Plath)

    Achava que não podia ser magoada;
    achava que com certeza era
    imune ao sofrimento —
    imune às dores do espírito
    ou à agonia.

    Meu mundo tinha o calor do sol de abril
    Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
    Minha alma em êxtase, ainda assim
    conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
    pode conter.

    Minha alma planava sobre as gaivotas
    que, ofegantes, tão alto se lançando,
    lá no topo pareciam roçar suas asas
    farfalhantes no teto azul
    do céu.

    (Como é frágil o coração humano —
    um latejar, um frêmito —
    um frágil, luzente instrumento
    de cristal que chora
    ou canta.)

    Então de súbito meu mundo escureceu
    E as trevas encobriram minha alegria.
    Restou uma ausência triste e doída
    Onde mãos sem cuidado tocaram
    e destruíram

    minha teia prateada de felicidade.
    As mãos estacaram, atônitas.
    Mãos que me amavam, choraram ao ver
    os destroços do meu firma-
    mento.

    (Como é frágil o coração humano —
    espelhado poço de pensamentos.
    Tão profundo e trêmulo instrumento
    de vidro, que canta
    ou chora.)

    (tradução de Mônica Magnani Monte)
     
  2. Skywalker

    Skywalker Great Old One

    O Corvo, do Poe, tradução do Fernando Pessoa

    O CORVO *
    (de Edgar Allan Poe)

    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
    É só isto, e nada mais."

    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!

    Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais".

    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
    Isso só e nada mais.

    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
    "É o vento, e nada mais."

    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
    Foi, pousou, e nada mais.

    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
    Com o nome "Nunca mais".

    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
    Era este "Nunca mais".

    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Com aquele "Nunca mais".

    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
    Reclinar-se-á nunca mais!

    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á... nunca mais!
     
  3. imported_Arien

    imported_Arien Usuário

    Poema XX

    Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

    Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
    e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

    O vento da noite gira no céu e canta.

    Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
    Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

    Em noites como esta tive-a em meus braços.
    Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

    Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
    Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

    Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
    Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

    Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
    E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

    Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
    A noite está estrelada e ela não está comigo.

    Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
    A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

    Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
    O meu coração procura-a, ela não está comigo.

    A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
    Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

    Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
    Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

    De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
    A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

    Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
    É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

    Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
    a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

    Embora seja a última dor que ela me causa,
    e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


    Pablo Neruda (Vinte Poemas de Amor)
     
  4. Anica

    Anica Usuário

    The Loch Ness Monster’s Song (Edwin Morgan)

    Sssnnnwhuffffll?
    Hnwhuffl hhnnwfl hnfl hfl?
    Gdroblboblhobngbl gbl gl g g g g glbgl.
    Drublhaflablhaflubhafgabhaflhafl fl fl -
    gm grawwwww grf grawf awfgm graw gm.
    Hovoplodok - doplodovok - plovodokot - doplodokosh?
    Splgraw fok fok splgrafhatchgabrlgabrl fok splfok!
    Zgra kra gka fok!
    Grof grawff gahf?
    Gombl mbl bl -
    blm plm,
    blm plm,
    blm plm,
    blp
     
  5. Bagrong

    Bagrong RaG

    Final de "Morte e Vida Severina", João Cabral de Melo Neto:

    - Severino, retirante,
    deixe agora que lhe diga:
    eu não sei bem a resposta
    da pergunta que fazia,
    se não vale mais saltar
    fora da ponte e da vida;
    nem conheço essa resposta,
    se quer mesmo que lhe diga
    é difícil defender,
    só com palavras, a vida,
    ainda mais quando ela é
    esta que vê, severina
    mas se responder não pude
    à pergunta que fazia,
    ela, a vida, a respondeu
    com sua presença viva.
    E não há melhor resposta
    que o espetáculo da vida:
    vê-la desfiar seu fio,
    que também se chama vida,
    ver a fábrica que ela mesma,
    teimosamente, se fabrica,
    vê-la brotar como há pouco
    em nova vida explodida;
    mesmo quando é assim pequena
    a explosão, como a ocorrida;
    como a de há pouco, franzina;
    mesmo quando é a explosão
    de uma vida severina.

    Lindo. :grinlove:
     
  6. Anica

    Anica Usuário

    Uma arte (Elizabeth Bishop)

    A arte de perder não é nenhum mistério;
    Tantas coisas contém em si o acidente
    De perdê-las, que perder não é nada sério.

    Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
    A chave perdida, a hora gasta bestamente.
    A arte de perder não é nenhum mistério.

    Depois perca mais rápido, com mais critério:
    Lugares, nomes, a escala subseqüente
    Da viagem não feita. Nada disso é sério.

    Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
    Lembrar a perda de três casas excelentes.
    A arte de perder não é nenhum mistério.

    Perdi duas cidades lindas. E um império
    Que era meu, dois rios, e mais um continente.
    Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

    - Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo)
    não muda nada. Pois é evidente
    que a arte de perder não chega a ser mistério
    por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
     
  7. né(comoemsonho)voa

    torna
    grande cada dim
    inuti

    vo faz o óbv

    io e
    str
    anho

    a

    té que
    nósmes
    mos vi

    remos mun

    (magic
    a
    mente)

    dos

    e.e.cummings
    ( tradução: Augusto de Campos )
     
  8. Ronzi

    Ronzi Oh, Crap!

    Um Beijo - Ana Cristina César

    Um Beijo
    que tivesse um blue.
    Isto é
    imitasse feliz a delicadeza, a sua,
    assim como um tropeço
    que mergulha surdamente
    no reino expresso
    do prazer.
    Espio sem um ai
    as evoluções do teu confronto
    à minha sombra
    desde a escolha
    debruçada no menu;
    um peixe grelhado
    um namorado
    uma água
    sem gás
    de decolagem:
    leitor embevecido
    talvez ensurdecido
    "ao sucesso"
    diria meu censor
    "à escuta"
    diria meu amor
     
  9. *Delirium*

    *Delirium* Usuário

    Pensei em tantas poesias, tantos poetas. Versos, versos ,versos...tem que ser "Fernando Pessoa" pelo mesnos pra começar!!

    Lisbon Revisited **Fernando Pessoa**

    Não: Não quero nada.
    Já disse que não quero nada.

    Não me venham com conclusões!
    A única conclusão é morrer.

    Não me tragam estéticas!
    Não me fallem em moral!
    Tirem-me daqui a metafísica!
    Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
    Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
    Das ciências, das artes, da civilização moderna!(*)

    Que mal fiz eu aos deuses todos?

    Se têm a verdade, guardem-na!

    Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
    Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
    Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

    Não me macem, por amor de Deus!

    Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
    Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
    Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
    Assim, como sou, tenham paciência!
    Vão para o diabo sem mim,
    Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
    Para que havemos de ir juntos?

    Não me peguem no braço!
    Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
    Já disse que sou sozinho!
    Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

    Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
    Eterna verdade vazia e perfeita!
    Ó macio Tejo ancestral e mudo,
    Pequena verdade onde o céu se reflete!
    Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
    Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

    Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
    E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
     
  10. Anica

    Anica Usuário

    Lembrei desta do Catulo:

    Odi et amo. Quare id faciam fortasse requiris.
    Nescio, sed fieri sentio, et excrucior.


    Que fica algo tipo (tradução de memória :dente: ):

    Odeio e amo. Talvez me pergunte por que faço isso.
    Não sei, mas sinto e me torturo.
     
  11. imported_Amélie

    imported_Amélie Usuário

    Aqui Eu Te Amo - Pablo Neruda

    "Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
    Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
    Andam dias iguais a perseguir-se.

    Define-se a névoa em dançantes figuras.
    Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
    As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.

    Aqui eu te amo
    Ou a cruz negra de um barco.
    Só.
    As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
    Soa, ressoa o mar distante.
    Isto é um porto.
    Aqui eu te amo.

    Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
    Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
    As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
    que correm pelo mar rumo a onde não chegam.

    Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
    São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
    Cansa-se minha vida inutilmente faminta..
    Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

    Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
    Mas a noite enche e começa a cantar-me.
    A lua faz girar sua arruela de sonho.

    Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
    E como eu te amo, os pinheiros no vento,
    querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre."
     
  12. É um dos meus favoritos... Como sempre, toda a lista é injusta


    Poema da gare de Astapovo


    O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
    E foi morrer na gare de Astapovo!
    Com certeza sentou-se a um velho banco,
    Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
    Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
    Contra uma parede nua...
    Sentou-se ... e sorriu amargamente
    Pensando que
    Em toda a sua vida
    Apenas restava de seu a Gloria,
    Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
    Coloridas
    Nas mãos esclerosadas de um caduco!
    E então a Morte,
    Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
    Na estação deserta,
    Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
    Quando apenas sentara para descansar um pouco!
    A morte chegou na sua antiga locomotiva
    (Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
    Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
    E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...
    Ele fugiu de casa...
    Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
    Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

    (Mario Quintana)
     
  13. Tenho um da Plath que está na minha injusta lista

    Não sei se vc conhece, Anica...

    The Arrival of The Bee Box

    I ordered this, clean wood box
    Square as a chair and almost too heavy to lift.
    I would say it was the coffin of a midget
    Or a square baby
    Were there not such a din in it.

    The box is locked, it is dangerous.
    I have to live with it overnight
    And I can't keep away from it.
    There are no windows, so I can't see what is in there.
    There is only a little grid, no exit.

    I put my eye to the grid.
    It is dark, dark,
    With the swarmy feeling of African hands
    Minute and shrunk for export,
    Black on black, angrily clambering.

    How can I let them out?
    It is the noise that appalls me most of all,
    The unintelligible syllables.
    It is like a Roman mob,
    Small, taken one by one, but my god, together!

    I lay my ear to furious Latin.
    I am not a Caesar.
    I have simply ordered a box of maniacs.
    They can be sent back.
    They can die, I need feed them nothing, I am the owner.

    I wonder how hungry they are.
    I wonder if they would forget me
    If I just undid the locks and stood back and turned into a tree.
    There is the laburnum, its blond colonnades,
    And the petticoats of the cherry.

    They might ignore me immediately
    In my moon suit and funeral veil.
    I am no source of honey
    So why should they turn on me?
    Tomorrow I will be sweet God, I will set them free.

    The box is only temporary.
     
  14. Zuleica

    Zuleica Usuário

    Uma só, não é possível... Começo com Quintana

    Esperança
    Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
    Vive uma louca chamada Esperança
    E ela pensa que quando todas as sirenas
    Todas as buzinas
    Todos os reco-recos tocarem
    Atira-se
    E
    - ó delicioso vôo!
    Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
    Outra vez criança...
    E em torno dela indagará o povo:
    - Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
    E ela lhes dirá
    (É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
    Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
    - O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

    [Mario Quintana; Nova Antologia Poética, 1998][/b]
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  15. imported_Amélie

    imported_Amélie Usuário

    Boa Kuinzytao!!!!

    Mario Quintana é muito bom!!!!!!

    Mais uma dele... simples, mas gosto muito!

    DA FELICIDADE

    "Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
    Procede tal e qual o avozinho infeliz:
    Em vão, por toda parte, os óculos procura
    Tendo-os na ponta do nariz!"
     
  16. Fadiga - Cecília Meireles

    Estou cansada, tão cansada,
    estou tão cansada! Que fiz eu?
    Estive embalando, noite e dia,
    um coração que não dormia
    desde que seu amor morreu.

    Eu lhe dizia: "Deixa a morte
    levar teu amor! Não faz mal,
    É mais belo esse heroísmo triste
    de amar uma coisa que existe
    só para morrer, afinal!"

    "Deixa a morte...não chores...dorme!"
    Noite e dia eu cantava assim.
    Mas o coração não falava;
    chorava baixinho, chorava,
    mesmo como dentro de mim.

    Era um coração de incertezas,
    feito para não ser feliz;
    querendo sempre mais que a vida -
    sem termo, limite, medida,
    como poucas vezes se quis.

    O tempo era ríspido e amargo.
    Vinha um negro vento do mar.
    Tudo gritava, noite e dia,
    e nunca ninguém ouviria
    aquele coração chorar.

    Uma noite, dentro da sombra,
    dentro do choro, a sua voz
    disse uma coisa inesperada,
    que logo correu, derramada
    num silêncio fino e veloz.

    "Meu amor não morreu: perdeu-se.
    Ele existe. Eu não o quero mais".
    O choro foi levando o resto
    Eu nem pude fazer um gesto,
    e achei as horas desiguais.

    E achei que o vento era mais forte,
    que o frio causava aflição;
    quis cantar, mas não foi preciso.
    E o ar estava muito indeciso
    para dar a vida a uma canção.

    A sorte virara no tempo
    como um navio sobre o mar.
    O choro parou pela treva.
    E agora não sei quem me leva
    daqui para qualquer lugar,

    onde eu não escute mais nada,
    onde eu não saiba de niguém,
    onde deite minha fadiga
    e onde murmure uma cantiga
    para ver se durmo também
     
  17. imported_Amélie

    imported_Amélie Usuário

    Se tu viesses ver-me... - Florbela Espanca

    Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
    A essa hora dos mágicos cansaços,
    Quando a noite de manso se avizinha,
    E me prendesses toda nos teus braços...

    Quando me lembra: esse sabor que tinha
    A tua boca... o eco dos teus passos...
    O teu riso de fonte... os teus abraços...
    Os teus beijos... a tua mão na minha...

    Se tu viesses quando, linda e louca,
    Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
    E é de seda vermelha e canta e ri

    E é como um cravo ao sol a minha boca...
    Quando os olhos se me cerram de desejo...
    E os meus braços se estendem para ti...
     
  18. Hérmia

    Hérmia Usuário

    Canção

    Pus o meu sonho num navio
    e o navio em cima do mar;
    depois, abri o mar com as mãos,
    para o meu sonho naufragar.

    Minhas mãos ainda estão molhadas
    do azul das ondas entreabertas,
    e a cor que escorre de meus dedos
    colore as areias desertas.

    O vento vem vindo de longe,
    a noite se curva de frio;
    debaixo da água vai morrendo
    meu sonho, dentro de um navio...

    Chorarei quanto for preciso,
    para fazer com que o mar cresça,
    e o meu navio chegue ao fundo
    e o meu sonho desapareça.

    Depois, tudo estará perfeito;
    praia lisa, águas ordenadas,
    meus olhos secos como pedras
    e as minhas duas mãos quebradas.

    Autora: Cecília Meireles
     
  19. lipecosta

    lipecosta Usuário

    Veio na minha cabeça essa, que tem um dos mais conhecidos versos do Fernando Pessoa:

    Autopsicografia

    O poeta é um fingidor
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que leêm o que escreve,
    Na dor lida se sentem bem.
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda,
    Que se chama o coração.
     
  20. Bel

    Bel Moderador Usuário Premium

    Fado de Fada - Pedro Rocha

    "Essa fada, essa fada
    Se ela voa onde andaria ou se não anda onde ela pensa
    Eu apenas acho
    Que ela pensa e voa em mim
    Ou se apenas anda eu acho fácil
    Essa fada, essa fada
    Se não fosse essa fada quem é que se safaria
    Só uma ponte sobre a baía que separa
    Com esse papo que eu já sabia que não dava no pé
    E acaba ficando por aí
    Nesse papo barroquinho, beijinho e Icaraí
    Com esse cara aí que te diz que sabe tudo de 100 anos de cinema
    Esse cara é cabeludo mas não te leva à nada
    Eu sim
    Te cato por esse lado, foco na cama e te afogo fada
    Na minha coleção de fotograma..."


    :hihihi:
     

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