1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Poesia Sempre!!! (versão 2- não fui eu quem escreveu)

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Ana Lovejoy, 16 Set 2002.

  1. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    Hai-kais

    Sabem aqueles poemas de três versos dos japoneses? Então... eu sou apaixonada... os primeiros hai-kais que eu li foram de uma poeta curitibana maravilhosa, a Alice Ruiz. Alguém conhece? Gosta? Sabe de algum site legal que tenha hai-kais????

    Da Alice Ruiz:
    "Você deixou tudo a tua cara
    Só para deixar tudo
    com cara de saudade"


    Do Cyro Armando Catta Preta:
    "Entre adeuses e ais,
    a saudade de outra idade
    que acena:jamais..."


    *nossa, essa última tem cara de assinatura do clube da nostalgia!*
    Hai-kai meu eu posto quando tiver coragem lá no clube dos escritores :mrgreen:
     
  2. V

    V Saloon Keeper

    Bom tópico, e espero que não se importe se eu cortar o clima dele com uma piada. Mas é que o único hai-kai que eu me lembro de cabeça é aquele que o Hyde fez pra Jackye no That 70's Show:

    "My heart inches with pain
    When I see you, I vomit
    Die, away from me"

    Ahahahahahah... muito cômico!!!!
     
  3. Ptah

    Ptah Usuário

    Poxa Anne eu gosto sim, ate conheço o material dessa autora... comecei a gostar aos 11 anos quando meu pai me deu uma agenda que inha um por dia. Eram maravilhosos! Mas agora estou triste porque ia postar alguns de um livro q tenho, uns japoneses otimos com boa tradução pro ingles, mas descobri q meu livrinho amado sumiu... snifffff
     
  4. Mithrellas

    Mithrellas Usuário

    Nossa, agora mesmo eu tinha pensado em abrir um tópico sobre isso, e resolvi conferir ^^ Muito legal, eu adoro Hai-kais... eu tenho um livro que tem uns muito legais, do Millôr Fernandes ^^

    Eu adoro esse:

    "Na poça da rua
    O vira-lata
    Lambe a lua."


    hehehe
     
  5. Arandelis

    Arandelis If I can dream

    Bem, a gente tava com o costume de postar poesias tto nossas como de terceiros no Poesia Sempre do CdE. Mas o V pediu q a gente passasse a fazer issu aki, jah que o Clube dos Escritores fikou mais como espaço para os poemas dos usuarios do forum.

    Fica aqui, entao, o espaço pra vcs colocarem poemas de terceiros (que eu imagino q vcs farao o favor de identificar :mrgreen: ), poemas que vc faria de td para ter escrito, poemas famosos ou naum, mas q sempre chamaram a sua atençao...

    Entao, eu mando o primeiro, ok? :wink:

    Autopsicografia

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente.
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que leêm o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só as que eles não tem

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama o coração.

    (Fernando Pessoa)
     
  6. Swanhild

    Swanhild Usuário

    Ciclo
    ------

    Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
    sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
    E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
    vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
    porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
    Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
    infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!

    Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo, e espera.
    Como o bicho espera outro bicho.
    E o furto espera o ladrão.
    E a morte espera o morto.
    E a mesma espera, sua esperança.

    De repente, sentimos um arco ligando ao céu nossa medula,
    e no fundamento do ser a hora fulgura.
    És agora, o altar está brunido
    e as alfaias cada uma tem seu brilho
    e cada brilho seu destino.
    Um antigo sacrifício já se alteia
    e no linho amarfanhado um búfalo estampou
    a sentença dos búfalos.

    As crianças crescem tanto, e continuam
    tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra.
    São eternas as crianças decepadas,
    e lá embaixo da cama seus destroços
    nem nos ferem a vista nem repugnam
    a esse outro ser blindado que desponta
    de sua própria e ingênua imolaç~çao.

    E porque subsistem, as crianças,
    e bóiam na íris madura a censurar-nos,
    e constrangem, derrotam
    a solércia dos grandes,
    há em certos amores essa distância de um a outro
    que separa, não duas cidades, mas dois corpos.

    Perturbação de entrar
    no quarto de nus,
    tristeza da nudez que se sabe julgada,
    comparação de veia antiga a pele nova,
    presença de relógio insinuada entre roupas íntimas,
    um ontem ressoando sempre,
    e ciência, entretanto, de que nada continua e nem mesmo talvez exista.

    Então nos pungimos em nossa delícia.
    O amor atinge raso, e fere tanto.
    Nu a nu,
    fome a fome,
    não confiscamos nada r nos vertemos.
    E é terrivelmente adulto esse animal
    a espreitar-nos, sorrindo,
    como quem a si mesmo se revela.

    As crianças estão vingadas no arrepio
    com que vamos à caça; no abandono
    de nós, em que se esfuma nossa posse.
    (Que possuímos de ninguém, e em que nenhuma região nios sabemos pensados,
    sequer admitidos como coisas vivendo
    salvo no rasto de outras coisas, agressivas?)

    Voltamos a nós mesmos, destroçados.
    Ai, batalha do tempo contra a luz,
    vitória do pequeno sobre o muito,
    quem te previu na graça do desejo
    a pular de cabrito sobre a relva
    súbito incendiada em línguas de ira?
    Quem te compôs de sábia timidez
    e de suplicazinhas infantis
    tão logo ouvidas como desdenhadas?
    De impossíveis, de risos e de nadas
    tu te formaste, só, em meio aos fortes;
    cresceste em véu e risco; disfarçaste
    de ti mesma esse núcleo monstruoso
    que faz sofrer os máximos guerreiros
    e compaixão infunde às mesmas pedras
    e a crótalos de bronze nos jardins.
    Ei-los prostrados, sim e nos seus rostos
    poluídos de chuva e de excremento
    uma formiga escreve, contra o vento,
    a notícia dos erros cometidos;
    e um cavalo relincha, galopando;
    e um desespero sem amar, e amando,
    tinge o espaço de um vinho episcopal,
    tão roxo é o sangue borrifado a esmo,
    de feridas expostas em vitrinas,
    jóias comuns em suas formas raras
    de tarântula
    cobra
    touro
    verme
    feridas latejando sem os corpos
    deslembrados de tudo na corrente.

    Noturno e ambíguo esse sorriso em nosso rumo.
    Sorrimos também - mas sem interesse - para as mulheres bojudas que passam,
    cargueiros adernando em mar de promessa contínua.

    ----

    Isso é Drummond.
     
  7. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    meus amigos
    quando me dão a mão
    sempre deixam
    outra coisa

    presença
    olhar
    lembrança calor

    meus amigos
    quando me dão
    deixam na minha
    a sua mão


    É do Leminski :mrgreen:
     
  8. Vilya

    Vilya Pai curuja, marido apaixonado

    Xi, vou ter que tomar cuidado para não me empolgar (vou tentar postar no máximo um poema por semana, se eu conseguir).

    Para ser GRANDE, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda
    brilha, porque alta vive.

    Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
     
  9. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    Ihh.. idem... bom, vai essa da Alice Ruiz e semana que vem eu posto de novo :mrgreen:

    Se

    se por acaso
    a gente se cruzasse
    ia ser um caso sério
    você ia rir até amanhecer
    eu ia ir até acontecer
    de dia um improviso
    de noite uma farra
    a gente ia viver
    com garra
    eu ia tirar de ouvido
    todos os sentidos
    ia ser tão divertido
    tocar um solo em dueto
    ia ser um riso
    ia ser um gozo
    ia ser todo dia
    a mesma folia
    até deixar de ser poesia
    e virar tédio
    e nem o meu melhor vestido
    era remédio
    daí vá ficando por aí
    eu vou ficando por aqui
    evitando
    desviando
    sempre pensando
    se por acaso
    a gente se cruzasse...
     
  10. Faram¡r

    Faram¡r Dr. Benway

    Essa poesia eu li ontem e resolvi por aqui. Foi a primeira poesia de Carlos Drummond que realmente me emocionou.

    OS BENS E O SANGUE


    I

    Às duas da tarde deste nove de agosto de 1847
    nesta fazenda do Tanque em dez outras casas de rei,
    [q não vale de valete,
    em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanésia Capão
    diante do estrume em q se movem nossos escravos e da
    [viração
    perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
    fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins
    [primeiros,
    deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo
    [posse jus e domínio
    e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o
    [ouro mais fino
    nossas lavras mto. nossas por herança de nossos pais e
    [sogros bem amados
    q dormem na paz de Deus entre santas e santos
    [martirizados
    Por isso neste papel azul Bath escrevemos com o a nossa
    [melhor letra
    estes nomes q em qualquer tempo desafiarão tramóia
    [trapaça e treta:

    Esmeril Pissarão
    Candonga Conceição

    E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
    [o snr. Raimundo Procópio
    e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não for vendido,
    [por alborque
    de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
    lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas
    [e arriatas,
    q trocar é o nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique
    [esclarecido:
    somos levados menos por gosto do sempre negócio q no
    [sentido
    de nossa remota descendência ainda mal debuxada no
    [longe dos serros.
    De nossa mente lavamos o ouro como nossa alma um
    [dia de erros
    se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
    tataranetos despojados dos bens mais sólidos e rutilantes
    [portanto os mais completos
    irão tomando a pouco e pouco desapegode toda fortuna
    e concentrandoseu fervor numa riqueza só, abastrata
    [e uma.

    Lavra da Paciência
    Lavrinha de Cubais
    Itabiraçu

    II

    Mais que todos que deserdamos
    deste nosso oblíquo modo
    um menino inda não nado
    (e melhor inda não nado)
    que se parte de nonada
    e que nada, porém nada
    o há de ter desenganado.

    E nossa rica fazenda
    já presto se desfazendo
    vai-se em sal cristalizando
    na porta de sua casa
    ou até na ponta da asa
    de seu nariz fino e frágil,
    de sua alma fina e frágil,
    de sua certeza frágil
    frágil frágil frágil frágil

    Mas que por frágil é ágil
    e na sua mala-sorte
    se rirá ele da morte.

    III

    Este figura em nosso
    pensamento secreto.
    Num magoado alvoreço
    e queremos marcado
    a nos negar; depois
    de sua negação
    nos buscará. Em tudo
    será pelo contrário
    seu fado extra-ordinário.
    Vergonha da família.
    que de nobre se humilha
    na sua malincônica
    tristura meio cômica,
    dulciamara nux-vômica.

    IV

    Este hemos por bem
    reduzir à simples
    condição de ninguém.
    Não lavrará campo.
    Tirará sustento
    de algum mel nojento.
    Há de ser violento
    sem ter movimento.
    Sofrerá tormenta
    no melhor momento.
    Não se sujeitando
    a um poder celeste
    ei-lo senão quando
    de nudez se veste,
    roga à escuridão
    abrir-se um clarão
    Este será tonto
    e amara no vinho
    um novo equilíbrio
    a seu passo tíbio
    sairá na cola
    de nenhum caminho.

    V

    -Não judie com o menino,
    compadre.
    -não torça tanto o pepino
    major.
    -Assim vai crescer mofino
    sinhô!

    -Pedimos pelo menino porque pedir é nosso destino.
    Pedimos pelo menino porque vamos acalenta-lo.
    Pedimos pelo menino porque já se ouve planger o sino
    do tombo que ele vai levar quando montar a cavalo.

    Vai cair do cavalo
    de cabeça no valo
    Vai ter catapora
    amarelão e gálico
    vai errar o caminho
    vai quebrar o pescoço
    vai deitar-se no espinho
    fazer tanta besteira
    e dar tanto desgosto
    que nem a vida inteira
    dava para contar.
    E vai muito chorar.
    (A praga que te rogo
    para teu bem será.)

    VI

    Os urubus no telhado:

    E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo
    e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada
    e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro
    taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios,
    e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros
    [camaradas;
    e a besta Belissa renderá os arrogantes corcéis da
    [monarquia,
    e a vaca Belissa dará leite no curral vazio para o menino
    [doentio,
    e o menino crescerá sombrio, e os antepassados no
    [cemitério
    se rirão se rirão porque os mortos não choram.

    VII

    Ó monstros lajos e andridos que me perseguis com vossas
    [barganhas
    sobre meu berço imaturo e de minha minas me expulsais.
    Os parentes que eu amo expiraram solteiros.
    Os parentes que eu tenho não circulam e mim.
    Meu sangue é dos que não negociaram a terra, minha alma é dos
    [pretos,
    minha carne dos palhaços, minha fome nas nuvens,
    e não tenho outro amor a não ser o dos doidos.

    Onde estás capitão, onde estás, João Francisco,
    do alto de tua serra eu te sinto sozinho
    e sem filhos e netos interrompes a linha
    que veio dar a mim nesse chão esgotado.
    Salva-me, capitão, de um passado voraz.
    Livra-me, capitão, da conjura dos mortos.
    Inclui-me entre os que não são, sendo filhos de ti.
    E no fundo da minha, ó capitão, me esconde.

    VIII

    -Ó meu, ó nosso filho de cem anos depois,
    que não sabes viver nem conheces os bois
    pelos seus nomes tradicionais... nem suas cores
    marcadas em padrões eternos desde o Egito.
    Ó filho pobre, e descorçoado, e finito
    ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais
    com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos
    para a tristeza nossa a consumação de eras,
    para o fim de tudo o que foi grande!
    Ó desejado
    ó poeta de uma poesia que se furta e se expande
    à maneira de um lago de pez e resíduos letais...
    És nosso fim natural e somos teu adubo,
    tua explicação e tua mais singela virtude...
    pois carecia que um de nós nos recusasse
    para melhor servir-nos. Face a face
    te comtemplarmos, e é teu esse primeiro
    e úmido beijo em nossa boca de barro e sarro.
     
  11. Faram¡r

    Faram¡r Dr. Benway

    Eu tive de postar essa poesia aqui, ela foi declamada em sala de aula ontem e eu tive de me controlar um pouco, porque me emocionou de uma forma que eu não esperava, não estava preparado.

    Vou postar muitas outras coisas aqui, mas como foi já foi dito, tenho que me controlar ... he he he
     
  12. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    Hum... já foi uma semana? Bem... esse é do W. H. Auden (tradução obscura, mas tudo bem)

    Funeral Blues

    Pare os relógios, cale o telefone
    Evite o latido do cão com um osso
    Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie
    a vinda do caixão, seguida pelo cortejo.
    Que os aviões voem em círculos, gemendo
    e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu
    Ponham laços pretos nos pescoços
    brancos das pombas na rua
    e que guardas de trânsito usem finas
    luvas de breu.

    Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste
    Meus dias úteis, meus finais de semana,
    meu meio dia, meia noite,
    minha conversa, minha canção
    Eu pensava que o amor era eterno; estava errado


    As estrelas não são mais necessárias
    apague-as uma a uma
    Guarde a lua, desmantele o sol
    Despeje o mar e livre-se da floresta
    pois nada mais poderá ser bom
    como antes era.
     
  13. Dharma K

    Dharma K Usuário

    Oba! Também vou contribuir:

    Há poesia
    Na dor
    Na flor
    No beija-flor
    No elevador


    Oswald de Andrade :lily:
     
  14. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    Bom, eu falei ali no CdA que postaria aqui a versão completa dessa poesia do Vinícius de Moraes... então lá vai:

    Para Viver um Grande Amor

    Para viver um grande amor
    Precisa muita concentração e muito siso
    Muita seriedade e pouco riso
    Para viver um grande amor
    Para viver um grande amor
    O mistério é ser um homem e uma só mulher
    Pois ter muitas, pôxa, é prá quem quer
    Não tem nenhum valor
    Para viver um grande amor
    Primeiro é preciso sagrar-se um cavalheiro
    Ser de sua dama por inteiro
    Seja lá como for
    Há de fazer do corpo uma morada
    Onde enclausure-se a mulher amada
    Postar-se de fora como espada
    Para viver um grande amor
    Para viver um grande amor
    Não basta apenas ser um bom sujeito
    É preciso também ter muito peito
    Peito de remador
    É sempre necessário, pelo visto,
    Um crédito de rosas num florista
    E mais, muito mais que um modista
    Para viver um grande amor
    E tampouco saber fazer cozinhais
    Ovos mexidos com arroz, sozinhas, molhos
    Filés com fritas, comezinhas para depois do amor,
    E o que há de melhor que ir prá cozinha
    E preparar com amor uma galinha e uma gostosa farinha
    Para o seu grande amor
    Para viver um grande amor,
    É muito, muito importante viver sempre junto
    E até ser, se possível, um só defunto
    Para não morrer de dor
    É preciso um cuidado permanente,
    Não só com o corpo mas também com a mente
    Pois qualquer baixo seu a amada sente
    E esfria um pouco o amor
    Há que ser bem cortês, sem cortesia
    Grosso e conciliador, sem covardia
    Saber ganhar dinheiro com poesia,
    Não ser um ganhador
    Mas tudo isso não adianta nada
    Se nessa selva escura e desvairada
    Não se souber achar a grande amada
    Para viver um grande amor


    VÊÊÊÊÊÊÊ!!!! Fixa esse aqui, vaiiiiii :lily:
     
  15. Arandelis

    Arandelis If I can dream

    Ok... ressussitando o topico...
    Eu tava remexendo nas minhas coisas e achei um poema do Carlos Drummond de Andrade, de que eu sempre gostei bastante:

    Amar

    Que pode uma criatura senão,
    entre criaturas, amar?
    amar e esquecer,
    amar e malamar,
    amar, desamar, amar?
    sempre, e até de olhos vidrados, amar?

    Que pode, pergunto, o ser amoroso,
    sozinho em rotação universal, senão
    rodar também, e amar?
    amar o que o mar traz à praia,
    o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
    é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

    Amar solenemente as palmas do deserto,
    o que é a entrega ou adoração expectante,
    e amar o inóspito, o áspero,
    um vaso sem flor, um chão de ferro,
    e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

    Este o nosso destino: amor sem conta,
    distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
    doação ilimitada a uma completa ingratidão,
    e na concha vazia do amor a procura medrosa,
    paciente, de mais e mais amor.


    Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
    amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



    Obs: a parte em negrito (não o titulo!!!) é a que eu, particularmente, acho mais bonita :D
     
  16. Faram¡r

    Faram¡r Dr. Benway

    Engraçado ... alguns dias atrás eu havia pensado nesse tópico, como ele é legal e como foi esquecido, ate havia pensando em ressucita-lo, mas me esqueci. Bom trabalho Lis :D

    Eu já devo ter escrito isso no Fórum

    Quando eu vejo a cotovia bater suas asas
    de alegria contra o raio de sol,
    até que se deixa cair, esquecida de voar,
    devido à docura que lhe vai no coração
    ai, tão grande inveja me vem
    daqueles que vejo cheio de alegria
    que me assombro que meu coração
    não derreta imediatamente de desejo

    Ai, tanto cuidava eu saber do amor
    e tão pouco sei
    pois não posso me conter de amar
    aquela de quem não terei favor.
    Ela roubou de mim meu coração,
    e todo o meu ser, e todo o meu mundo.
    e quando se retirou de mim
    não me deixou nada
    além de desejo e um coração vazio


    (primeira e segunda estrofe de Can vei la lauzeta mover de Benart de Ventadorn)

    A velha imagem do que se deixa morrer pelo amor, sob a imagem de uma cotovia que inebriada pela felicidade de voar contra o raio de sol se deixa cair, na primeira estrofe. Mesmo sob um entendimento diferente, essas palavras ainda significam muito para as pessoas dos dias atuais, para mim. Isso é um clássico.
     
  17. V

    V Saloon Keeper

    Não é novidade que eu não sou muito chegado em poesia... mas essa detona:

    O Navio Negreiro


    'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
    Brinca o luar — dourada borboleta;
    E as vagas após ele correm... cansam
    Como turba de infantes inquieta.


    'Stamos em pleno mar... Do firmamento
    Os astros saltam como espumas de ouro...
    O mar em troca acende as ardentias,
    — Constelações do líquido tesouro...


    'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
    Ali se estreitam num abraço insano,
    Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
    Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...


    'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
    Ao quente arfar das virações marinhas,
    Veleiro brigue corre à flor dos mares,
    Como roçam na vaga as andorinhas...


    Donde vem? onde vai? Das naus errantes
    Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
    Neste saara os corcéis o pó levantam,
    Galopam, voam, mas não deixam traço.


    Bem feliz quem ali pode nest'hora
    Sentir deste painel a majestade!
    Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
    E no mar e no céu — a imensidade!


    Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
    Que música suave ao longe soa!
    Meu Deus! como é sublime um canto ardente
    Pelas vagas sem fim boiando à toa!


    Homens do mar! ó rudes marinheiros,
    Tostados pelo sol dos quatro mundos!
    Crianças que a procela acalentara
    No berço destes pélagos profundos!


    Esperai! esperai! deixai que eu beba
    Esta selvagem, livre poesia,
    Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
    E o vento, que nas cordas assobia...
    ..........................................................


    Por que foges assim, barco ligeiro?
    Por que foges do pávido poeta?
    Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
    Que semelha no mar — doudo cometa!


    Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
    Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
    Sacode as penas, Leviathan do espaço,
    Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.



    II

    Que importa do nauta o berço,
    Donde é filho, qual seu lar?
    Ama a cadência do verso
    Que lhe ensina o velho mar!
    Cantai! que a morte é divina!
    Resvala o brigue à bolina
    Como golfinho veloz.
    Presa ao mastro da mezena
    Saudosa bandeira acena
    As vagas que deixa após.


    Do Espanhol as cantilenas
    Requebradas de langor,
    Lembram as moças morenas,
    As andaluzas em flor!
    Da Itália o filho indolente
    Canta Veneza dormente,
    — Terra de amor e traição,
    Ou do golfo no regaço
    Relembra os versos de Tasso,
    Junto às lavas do vulcão!


    O Inglês — marinheiro frio,
    Que ao nascer no mar se achou,
    (Porque a Inglaterra é um navio,
    Que Deus na Mancha ancorou),
    Rijo entoa pátrias glórias,
    Lembrando, orgulhoso, histórias
    De Nelson e de Aboukir.. .
    O Francês — predestinado —
    Canta os louros do passado
    E os loureiros do porvir!


    Os marinheiros Helenos,
    Que a vaga jônia criou,
    Belos piratas morenos
    Do mar que Ulisses cortou,
    Homens que Fídias talhara,
    Vão cantando em noite clara
    Versos que Homero gemeu...
    Nautas de todas as plagas,
    Vós sabeis achar nas vagas
    As melodias do céu!...



    III

    Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
    Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
    Como o teu mergulhar no brigue voador!
    Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
    É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
    Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!



    IV

    Era um sonho dantesco... o tombadilho
    Que das luzernas avermelha o brilho.
    Em sangue a se banhar.
    Tinir de ferros... estalar de açoite...
    Legiões de homens negros como a noite,
    Horrendos a dançar...


    Negras mulheres, suspendendo às tetas
    Magras crianças, cujas bocas pretas
    Rega o sangue das mães:
    Outras moças, mas nuas e espantadas,
    No turbilhão de espectros arrastadas,
    Em ânsia e mágoa vãs!


    E ri-se a orquestra irônica, estridente...
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais ...
    Se o velho arqueja, se no chão resvala,
    Ouvem-se gritos... o chicote estala.
    E voam mais e mais...


    Presa nos elos de uma só cadeia,
    A multidão faminta cambaleia,
    E chora e dança ali!
    Um de raiva delira, outro enlouquece,
    Outro, que martírios embrutece,
    Cantando, geme e ri!


    No entanto o capitão manda a manobra,
    E após fitando o céu que se desdobra,
    Tão puro sobre o mar,
    Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
    "Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
    Fazei-os mais dançar!..."


    E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais...
    Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
    Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
    E ri-se Satanás!...


    V

    Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus!
    Se é loucura... se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!
    Ó mar, por que não apagas
    Co'a esponja de tuas vagas
    De teu manto este borrão?...
    Astros! noites! tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, tufão!


    Quem são estes desgraçados
    Que não encontram em vós
    Mais que o rir calmo da turba
    Que excita a fúria do algoz?
    Quem são? Se a estrela se cala,
    Se a vaga à pressa resvala
    Como um cúmplice fugaz,
    Perante a noite confusa...
    Dize-o tu, severa Musa,
    Musa libérrima, audaz!...


    São os filhos do deserto,
    Onde a terra esposa a luz.
    Onde vive em campo aberto
    A tribo dos homens nus...
    São os guerreiros ousados
    Que com os tigres mosqueados
    Combatem na solidão.
    Ontem simples, fortes, bravos.
    Hoje míseros escravos,
    Sem luz, sem ar, sem razão...


    São mulheres desgraçadas,
    Como Agar o foi também.
    Que sedentas, alquebradas,
    De longe... bem longe vêm...
    Trazendo com tíbios passos,
    Filhos e algemas nos braços,
    N'alma — lágrimas e fel...
    Como Agar sofrendo tanto,
    Que nem o leite de pranto
    Têm que dar para Ismael.


    Lá nas areias infindas,
    Das palmeiras no país,
    Nasceram crianças lindas,
    Viveram moças gentis...
    Passa um dia a caravana,
    Quando a virgem na cabana
    Cisma da noite nos véus ...
    ...Adeus, ó choça do monte,
    ...Adeus, palmeiras da fonte!...
    ...Adeus, amores... adeus!...


    Depois, o areal extenso...
    Depois, o oceano de pó.
    Depois no horizonte imenso
    Desertos... desertos só...
    E a fome, o cansaço, a sede...
    Ai! quanto infeliz que cede,
    E cai p'ra não mais s'erguer!...
    Vaga um lugar na cadeia,
    Mas o chacal sobre a areia
    Acha um corpo que roer.


    Ontem a Serra Leoa,
    A guerra, a caça ao leão,
    O sono dormido à toa
    Sob as tendas d'amplidão!
    Hoje... o porão negro, fundo,
    Infecto, apertado, imundo,
    Tendo a peste por jaguar...
    E o sono sempre cortado
    Pelo arranco de um finado,
    E o baque de um corpo ao mar...


    Ontem plena liberdade,
    A vontade por poder...
    Hoje... cúm'lo de maldade,
    Nem são livres p'ra morrer. .
    Prende-os a mesma corrente
    — Férrea, lúgubre serpente —
    Nas roscas da escravidão.
    E assim zombando da morte,
    Dança a lúgubre coorte
    Ao som do açoute... Irrisão!...


    Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus,
    Se eu deliro... ou se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!...
    Ó mar, por que não apagas
    Co'a esponja de tuas vagas
    Do teu manto este borrão?
    Astros! noites! tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, tufão!...




    VI

    Existe um povo que a bandeira empresta
    P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
    E deixa-a transformar-se nessa festa
    Em manto impuro de bacante fria!...
    Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
    Que impudente na gávea tripudia?
    Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
    Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
    Auriverde pendão de minha terra,
    Que a brisa do Brasil beija e balança,
    Estandarte que a luz do sol encerra
    E as promessas divinas da esperança...
    Tu que, da liberdade após a guerra,
    Foste hasteado dos heróis na lança
    Antes te houvessem roto na batalha,
    Que servires a um povo de mortalha!...

    Fatalidade atroz que a mente esmaga!
    Extingue nesta hora o brigue imundo
    O trilho que Colombo abriu nas vagas,
    Como um íris no pélago profundo!
    Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
    Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
    Andrada! arranca esse pendão dos ares!
    Colombo! fecha a porta dos teus mares!

    -Castro Alves, aos 22 anos de idade
     
  18. Green Arrow

    Green Arrow Usuário

    Ai! laurië lantar lassi súrinen,
    Yéni únótimë ve rámar aldaron!
    Yéni ve lintë yuldar avánier
    mi oromardi lisse-miruvóreva
    Andunë pella, Vardo tellumar
    nu luini yassen tintilar i eleni
    ómaryo airetári-lírinen.

    Sí man i yulma nin enquantuva?

    An si Tintallë Varda Oiolossëo
    ve fanyar máryat Elentári ortanë
    ar ilyë tier undulávë lumbulë
    ar sindanóriello caita mornië
    i falmalinnar imbë met, ar hísië
    untúpa Calaciryo míri oialë.
    Sí vanwä ná, Rómello vanwa, Valimar!

    Namarië! Nai hiruvalyë Valimar.
    Nai elyë hiruva. Namarië!


    Isso é Tolkien, amigos!
    NAMARIË - J.R.R.TOLKIEN
     
  19. Megara

    Megara Princesa do Figo Bichado

    Gosto bastante deste poema aqui:

    Ismália

    "Quando Ismália enlouqueceu,
    Põs-se na torre a sonhar...
    Viu uma lua no céu,
    Viu outra lua no mar...

    No sonho em que se perdeu,
    Banhou-se toda em luar...
    Queria subir ao céu,
    Queria descer ao mar...

    E, no desvario seu,
    Na torre pôs-se a cantar...
    Estava perto do céu,
    Estava longe do mar...

    E como um anjo pendeu
    As asas para voar...
    Queria a lua do céu,
    Queria a lua do mar...

    As asas que Deus lhe deu
    Ruflaram de par em par...
    Sua alma subiu ao céu,
    Seu corpo desceu ao mar."

    Alphonsus de Guimaraens :clap:
     
  20. Kementari

    Kementari É só marca do fogão!

Compartilhar