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Platônico

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por mandah, 15 Mai 2009.

  1. mandah

    mandah Usuário

    Entre minha casa e a dele há uma ponte de estrelas. Estrelas essas que me acompanham e me levam até ele. Nosso amor começou ao acaso, uma história estranha e intensa.
    Vivia na biblioteca. Tanto eu, quanto ele. Nunca nos faláramos. Nos sentávamos lado a lado, frente a frente, sempre cada um com um livro sobre o colo. Às vezes eu parava de ler e o olhava, e sabia que ele também fazia o mesmo. Tinha a impressão que éramos parecidos, sempre tão sós, tão calados, tão apaixonados por livros. Eles eram meu refúgio, fugir dos problemas era do que eu precisava. Mas mesmo assim eu me sentia mal. Só e deprimida, não tinha amigos, não tinha amor. Não, isso é mentira, eu o amava, mas nem sabia o seu nome nem conhecia o som da sua voz.
    Como é que se pode amar alguém que não se conhece? Imaginava-o de um jeito, mas não sabia como ele era, o que pensava, o que sentia. Tudo era tão confuso em minha mente, eu pensava demais, era racional demais, tinha medo de mostrar o que eu sentia, medo de dizer palavras que desejavam atravessar a minha garganta, mas que sempre ficavam presas.
    Queria parar e falar com ele. Gostaria de conhecê-lo, de conversar com ele. Mas os dias e as semanas passavam sem que eu ao menos notasse, meu único desejo era vê-lo, era saber quem era. Tinha dias em que eu decidia lhe falar, mas quando eu tentava me aproximar algo me impedia, algo que eu não consigo descrever.
    Quando minhas esperanças já se davam por vencidas, algo inesperado aconteceu. Tentava pegar um livro numa prateleira que não alcançava. Poderia desistir, mas meu desejo de lê-lo, de tocá-lo era mais forte. E eu não tinha coragem de pedir para alguém pegá-lo para mim. Foi quando ele se aproximou. Pensei que fosse pegar algum livro para ele, mas não, ele chegou perto de mim e perguntou:
    - Precisa de ajuda?
    Eu mal podia acreditar. Ele falara comigo, ele me notara. É claro que sim, ele percebeu que eu precisava de ajuda, ele decidira me ajudar. E como sua voz era linda. Era tão doce e calma, sentia vontade de ouvi-la eternamente...
    - Então, você precisa de ajuda?
    - Se não for muito incômodo.
    Ele pegou o livro, também não era muito alto e o esforço que fez era incrível, talvez eu esteja exagerando, mas é assim que os olhos apaixonados funcionam, sempre vêem as melhores qualidades no outro...
    - Aqui está. Eu já li este livro. É um dos meus preferidos.
    - Obrigada. Eu estava louca para lê-lo.
    E ficamos nos olhando por um longo tempo. Que lindos olhos ele tinha. Era de um verde intenso, que me puxava, que me fazia sentir vontade de olhá-los eternamente. Não queria me afastar, queria continuar olhando-o, precisava manter um diálogo, eu tinha essa necessidade, mas não sabia o que dizer, só sabia olhar, precisava olhá-lo, queria senti-lo ao meu lado.
    - Hum, eu não sei o seu nome.
    Claro, porque eu não pensei antes, eu também não sabia o nome dele, e tinha muita vontade de sabê-lo.
    - Clarice. E o seu?
    - William... Clarice seria em homenagem a Lispector?
    - Sim. Minha mãe adora ela. Na verdade, eu também. É uma das melhores escritoras que já li.
    - Uma das melhores não, a melhor. Qual o livro dela que você mais gosta?
    - Felicidade Clandestina. É um dos que mais gosto. “Não era mais uma menina com seu livro, mas uma mulher com seu amante.” Isso me definiria muito bem.
    - É, notei que você sempre está por aqui, lendo... Livros têm uma importância muito grande na minha vida. Sou completamente fascinado por eles.
    - São meus melhores amigos, meus mais fiéis companheiros.
    - Aqueles que me levam aos lugares mais inusitados e fascinantes.
    - Que me mostram os mais belos sentimentos, a vida.
    - Impossível ser feliz sem eles.
    - Impossível viver sem eles.
    E assim continuamos a conversar. Sobre livros, sobre coisas que nos fascinavam, que gostávamos. Nunca encontrei alguém tão parecido comigo. Nunca senti antes o que sentia naquele momento. Nunca amei ninguém como o amava, sim, é possível amar alguém sem conhecer essa pessoa, ao conversar com ele, notava que era exatamente como eu o imaginava.
    Conversamos por horas a fio, até sermos praticamente expulsos da biblioteca. Já ficara tarde. O Sol já desaparecia no horizonte. Fomos para o jardim. Era um lindo lugar com muitas flores, muito verde, podíamos ver o pôr-do-sol.
    - O crepúsculo é tão lindo, ele me fascina.
    - É um dos fenômenos mais lindos da natureza.
    Ficamos em silencia, nos olhávamos. Meu coração começou a bater mais forte. Minhas pernas estavam bambas. Não sabia o porquê, mas tinha muito medo...
    - Clarice...
    Ele pegou minhas mãos e ficamos frente a frente. Ele ia dizer algo, o que eu não sabia. Só sabia que temia, não entendia o porquê, mas tinha muito medo...
    - Clarice, meu tempo é curto, tenho uma doença muito rara, posso morrer a qualquer momento.
    Eu malo podia acreditar. Quando enfim começáramos a nos conhecer... Porque a vida precisava ser tão cruel comigo? Não sabia o que dizer, não sabia o que fazer, pra onde olhar. Decidi fixar-me em seus olhos. Eles me fitavam esperando alguma reação. Agora eram tristes, me deprimiam, me faziam sentir vontade de chorar. As lágrimas insistiam por romper os seus olhos. Não podia aguentar. Chorava. Sofria. Tudo era tão estranho e novo para mim. Tudo era tão triste, tão terrível de imaginar. Não queria que isso acontecesse, por quê? Eu não entendia.
    - Não chore, minha querida. Isso não quer dizer que eu vá morrer amanhã. Só quer dizer que não podemos mais perder tempo, pois ele é muito curto, não sei quanto vai durar... Ah, não sabes a quanto tempo eu tenho vontade de me aproximar, de tocar-lhe, de dizer o quanto me fascina, o quanto te amo...
    Eu ouvia aquelas palavras em estado de choque. Tanto tempo, tantos meses que eu passei com medo de me aproximar, de não ser correspondida e ouvir um não. E agora descobria que fora tudo uma tolice, que, ah, se eu tivesse dito antes. Se tivesse me aproximado. Mas agora o tempo era curto, ele poderia morrer a qualquer instante. Aquilo me indignava, me estarrecia, me deixava sem palavras, somente com vontade de chorar, de voltar no tempo e mudar tudo...
    - Clarice?
    - Eu...
    - Não diga nada.
    E ele me beijou. Foi tão doce, tão lindo, me sentia no céu, esqueci todos os problemas que me cercavam, todas as dores que me abalavam, não queria nunca mais me separa dele, queria tornar-nos um só...
    - Eu te amo.
    - Eu também.
    - É tão pouco tempo que me resta. Não quero que sofras.
    - Não pode ser, tem que ter alguma saída, alguma maneira de mudar isso.
    - Não, não há. Mas isso não importa. Precisamos viver intensamente esse pouco tempo que nos resta.
    E nos beijamos novamente. E conversamos, conversamos tudo que queríamos há muitos meses, observamos as estrelas, ficamos juntos até o sol nascer.
    Ele estava pálido. Estranho. Diferente.
    - Algum problema?
    - Eu não queria que você estivesse por perto... A dor me rompe a alma por saber que você me verá morrer.
    - Não, você não vai morrer, não agora.
    - Não, os médicos me descreveram como seria. Agora, me escute com atenção. Nunca mais nos veremos. Por mais que tudo tenha durado tão pouco, por mais rápido que tenha sido, peço-lhe que não me esqueça. Quero que saiba que tudo foi real, que o meu amor por você durará a eternidade. Não se esqueça, sempre restarão as estrelas para guiar um ao outro.
    E dizendo essas palavras ele se foi. Aquilo me machucava, a dor causada em mim era a maior que já sentira. Ele era o grande amor da minha vida, sem ele não poderia mais viver, precisava tê-lo perto de mim. Tudo acontecera tão rápido, fora tão intenso, era como se nos conhecêssemos a vida inteira.
    E agora ele se fora. E agora estava só novamente. E agora que eu precisava dele, agora que o conhecera não podia mais viver sem ele. E a dor que invadia meu coração era tão forte, a vontade de acompanhá-lo era cada vez maior. Meu coração se partira. Depois dele não haveria mais nada. Nada mais fazia sentido. E nada mais me prendia ao mundo. E enquanto escrevo essas palavras, as minhas lágrimas molham o papel e o desejo de estar perto dele aumenta.
    Está na hora de atravessar a ponte de estrelas que nos separa. Está na hora de enfim unir-me a ele.
     

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