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Pegadas no Orvalho

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    De acordo com as lendas européias não escritas, anteriores a Shakespeare e ao próprio cristianismo, aquele que, numa noite enluarada visse uma filha dos Elfos dançando numa clareira, se deixaria fascinar e estaria perdido para sempre a partir de quando se juntasse ao bailado; em geral, porém, as danças não tinham testemunhas; de manhã percebia-se, apenas, na erva úmida o traço ligeiro de suas pegadas. Tolkien talvez tenha sido o último homem que se deixou atrair e seduzir sem resistência. </P>


    Ele era apaixonado por histórias antigas e perseguiu as pegadas suaves dos elfos pela vida toda. Seu apetite por tal espécie de literatura era tão voraz que mesmo o domínio de várias línguas, que lhe franqueava acesso a um muito vasto repertório de lendas germânicas, não era um leito suficientemente profundo a ponto de canalizar toda a sua avidez pelo belo, ingênuo e melancólico legendário europeu.</P>


    E o irônico é que talvez o cristianismo (religião à qual o Professor era tão apegado) tenha sido o principal responsável por isso.</P>


    As lendas européias antigas chegaram à Idade Média através da tradição oral. Foram vertidas para a linguagem escrita apenas por estrangeiros ou evangelizadores. E nesse processo, os olhos civilizados viram apenas o que quiseram.</P>


    Quem procura mitologia européia encontra-a soterrada pela filosofia católica. Lendas como os grandes poemas de Eldar Edda (onde o escritor cristão Snorri Sturluson, através de várias fontes, reconstituiu ou recriou o folclore escandinavo) ou o romance de Tristão e Isolda (lenda celta cuja versão mais aceita é a reconstituída pelo francês Joseph Bédier, no final do século XIX) são histórias recontadas. </P>


    Encantado por tais ecos de uma Europa Antiga, subjacente ao cristianismo, Tolkien ambicionava sobretudo encontrar um conjunto de lendas a respeito da Grã-bretanha, o seu País. Mas, retirando-se as histórias sobre o Rei Arthur (que são um produto relativamente recente do imaginário britânico, já profundamente influenciado pela moral cristã) pouco pode-se encontrar de lendas britânicas.</P>


    O que Tolkien estava procurando era uma mitologia ao estilo dos contos de fadas germânicos, escrita em inglês antigo. Mas o pouco que existia na Inglaterra era apenas o eco de vozes distantes que haviam há séculos atravessado o Mar, vindas do Leste, antes de quando o cristianismo penetrou na Inglaterra, e aterrissou como um pesado monólito, por sobre a mitologia nativa, esmagando-a.</P>


    Haviam nomes, idéias, mitos..., mas não uma mitologia organizada. Algo mais ou menos parecido com o emaranhado incoerente de crendices populares a partir do qual Monteiro Lobato reconstruiu o folclore brasileiro, à sua própria época e lugar.</P>


    Quando Tolkien começou a escrever suas próprias histórias (para suprir, a princípio para si mesmo, aquela lacuna que a cristianização da Europa criou no imaginário europeu), não se importava em apropriar-se de termos comuns do lendário popular, tais como duendes, anões ou gnomos.</P>


    Mas com o tempo, passou a preferir nomes inventados: hobbits, orcs e ents, por exemplo. Em alguns casos, inclusive, o Professor chegou cogitar a possibilidade de alterar nomes que já havia utilizado. Foi o que aconteceu com os orcs (que antes eram duendes, no legendarium tolkieniano) e quase ocorreu com os elfos.</P>


    Conforme a carta 239 (Letters of JRRT), quando Tolkien começou a escrever sobre os elfos, chamava-os de gnomos. O primeiro título provisório dos esboços do Silmarillion era A História dos Gnomos. Esse era um termo concebido por Tolkien, a partir da palavra gnome (pensamento ou inteligência, em grego).</P>


    No entanto, como Tolkien veio posteriormente a descobrir (ele trabalhou no dicionário de Oxford), o termo gnomos já havia sido inventado antes, por um outro autor: Paracelso, um escritor do século XVI que o usava com o significado de habitantes da terra; com o que se referia a seres (também denominados pygmaeus) para quem a terra era seu elemento, tal como a água é para os peixes e o ar é para as aves e animais, de modo que podiam mover-se livremente através dela.</P>


    A partir de então, Tolkien passou a referir-se a elfos no lugar de gnomos. Mas, tempos depois, arrependeu-se mais uma vez.</P>


    Conforme Tolkien esclarece na carta 236, não há nenhuma canção ou história preservada sobre elfos ou anões em inglês antigo, e apenas um pouco em outras línguas germânicas. Tudo o que restou foram palavras e alguns nomes.</P>


    Nessa mesma carta, Tolkien ressalta não conhecer nenhuma história em houvessem papéis desempenhados por elfos ou anões, exceto Andvari nas versões norueguesas de Nibelung. No inglês antigo, se não fosse por umas pouquíssimas exceções, a partícula elf jamais é encontrada em palavras com o significado a que Tolkien se referia. Segundo ele próprio afirma (ainda na carta 236), em toda poesia antiga inglesa elves (ylte) ocorre apenas uma vez, em Beowulf: associada com trolls, gigantes e mortos-vivos, como a prole amaldiçoada de Cain.</P>


    Por conta dessa imprecisão terminológica, após falar sobre a questão da substituição da nomenclatura duendes por orcs, na carta 151, Tolkien lamenta profundamente nunca ter descartado a denominação elfos.
    A justificativa dentro da obra para a manutenção do termo baseia-se na idéia de que uma vez que as histórias tratavam de uma época esquecida em que se usavam línguas incompreensíveis no tempo presente, a utilização de palavras como dwarf, goblin, troll ou elf seria apenas uma maneira (bastante imprecisa) de se referir a tais criaturas na língua inglesa moderna. Os elfos, por si mesmos, se chamavam quendi.</P>


    No entanto, é inafastável a evidência de que o termo elfo (também emprestado do imaginário popular europeu), embora fosse, em sua acepção original, em muito maior medida compatível com os predicados atribuídos aos primeiros filhos de Eru, do legendarium tolkieniano, ainda não era um termo que se pudesse considerar seguro contra interferência de outros significados populares.</P>


    E com efeito, no Ensayo de un Dicionario Mitologico Universal (Madrid: Aguilar, 1958, p. 255) o verbete Elfos se refere a todas as divindades subalternas da mitologia escandinava. Tais divindades (os álfar), segundo Johannes Brondsted em Os Vikings (São Paulo: Hemus, 1987), eram cultuadas pelos escandinavos dentro de casa, por causa de seus poderes protetivos. Como se vê, o termo é ambíguo e seu significado é vago. Um esforço de sistematização moderno somente poderia definir um significado principal.</P>


    Por outro lado, conforme Félix Guirand (Mitologia General. Barcelona: Larousse, 1962, p. 369), a palavra Elfo tem, em todas as línguas germânicas - assim como naquelas em que se adotou o termo - um significado mais restrito do que já teve em outras épocas, e serve para designar todo espírito ou demônio que está associado à vida da Natureza e reside, segundo se acredita, nas águas, bosques e montanhas, às vezes se demonstrando prestativo; às vezes maligno. Costumava-se imaginar os elfos como mais bonitos e melhor formados do que os humanos, se bem que de estatura um pouco menor. Teriam uma organização social como a dos homens, e, como estes, obedeceriam à autoridade de um rei, a quem prestavam juramento de fidelidade e obediência. Os Elfos seriam seres sutis e sábios ao ponto de conhecer o futuro.</P>


    Segundo o Dicionário das Mitologias Européias e Orientais, de Spalding (Editora Cultrix, 1973, p. 52), chamavam-se Elfos, no uso antigo das línguas germânicas, seres associados à natureza e que o povo julgava residir nas águas, nos bosques, nas montanhas e, mesmo, no seio das flores. Suas relações com os homens são diversamente descritas: A poesia inglesa da Idade Média os mostra como criaturas aéreas e luminosas, cheias de doçura e bondade; já os alemães da Germânia deles tinham receio, bem como o povo do extremo norte (Dinamarca), pois acreditavam que eles podiam se irritar; às vezes sem motivo ou causa aparente. Os Elfos viviam em sociedade, como os homens; possuíam reis, que eram sumamente respeitados; amavam o jogo e a dança; comumente passavam a noite inteira em bailados infatigáveis que só cessavam com o canto do galo, pois temiam a luz e evitavam ser vistos por humanos.</P>


    O trabalho de Tolkien seguiu as leves pegadas deixadas há séculos no chão orvalhado dos bosques ingleses pelas danças noturnas de um povo fugidio, os elfos. O que principiou como um hobby e depois converteu-se num esforço sobre-humano de sistematização do folclore, equivalente aos de um Sturluson ou um Bédier, acabou por transforma-se em um genial exercício de criatividade (como o de Lobato), que transcendeu o academicismo e virou arte.</P>


    Os ecos viraram gnomos e os gnomos viraram elfos, e assim os ecos ganharam vida, chegando até nós como um monumento ao espírito europeu ancestral, reescrito pelas mãos de um homem do século XX.
    </P>
     
    • Ótimo Ótimo x 1
  2. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    Preciso marcar esse texto para depois. Tem algumas implicações interessantes da definição de elfo que vai direto em personagens como Bombadil e Fruta d'Ouro. Destaque para o trecho que me faz especular que não parece mais tão impossível que criaturas como a Fruta pudesse "respirar água" em uma realidade ou dimensão paralela enquanto fala da possibilidade vista por Tolkien de criaturas que pudessem respirar e andar em reinos adormecidos de rocha sólida.

    Quer dizer, o rio que Goldberry habitava e onde fora encontrada por Tom podia mesmo não ser o mesmo rio nosso, mas o rio dos heróis e seres mágicos da antigüidade, em um plano diferente de existência igual o antigo oeste.

    Inclusive o tipo de "sono" em que a natureza parece ser colocada na obra faz parte do abandono dos elfos na terceira era em diante (Havia até mesmo Valar para esse mundo mais suave e discreto)

    Marcado para refletir adiante.
     
    Última edição: 22 Mai 2013

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