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Pais e Filhos - Ivan Turguêniev (contém spoilers!)

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por Koalla, 2 Out 2011.

  1. Koalla

    Koalla Usuário

    Primeiramente gostaria de alertar que o tópico contém SPOILERS da obra!! Tentei colocá-los em branco ou escondê-los por meio de algum recurso do fórum, mas não achei nenhuma opção pra isso!

    Acabei de terminar o Pais e Filhos de Tuguêniev e gostaria de debatê-lo ^^

    Confesso que do início à metade eu não estava gostando e me perguntava o que o livro tinha que tanta gente falava bem, achava que o autor escrevia mal e fazia o leitor se perder em alguns diálogos e descrições imprecisas.
    Da metade até o final mudei completamente de opinião =p, creio que seja pelo fato dos personagens começarem a encarar fatos que não os deixavam em posição tão...."superior" perante os demais, quem leu deve entender.

    Algumas coisas em especial me impressionaram bastante no livro, primeiro é que depois de tanto criticar a forma "atrapalhada" de escrever do autor ao apresentar algumas linhas de diálogo, percebi que na verdade ele deixa várias coisas subentendidas ou sem respostas precisas cabendo a interpretação do leitor (como a suspeita se Pável amava "alguém"), além da singela citação à Dom Quixote quando o autor fala algo do tipo "a verdade e o azeite vem a tona"

    Interessante como o tema do livro é o tempo todo acerca da dinâmica entre gerações diferentes, onde os mais velhos ou se submetem aos mais novos e assim os contemplam, ou os repudiam (como Pável).

    E vocês, o que acharam?
     
  2. Spartaco

    Spartaco James West

    Koalla,

    Faz muito tempo que eu li este livro, mas lembro-me que gostei muito; para mim uma das grandes obras literárias russas.

    O foco principal é, realmente, o choque de gerações, tendo com mote o niilismo.

    Quem não leu, procure ler, pois vale muito a pena.
     
  3. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Boa Koalla, legal tem alguém para discutir Pais e Filhos.

    Toca aí, também não conseguia enxergar o motivo pelo qual tanta gente achava esse livro muiiiito bom, mas acho que só olhando de forma panorâmica é que dá para ter noção do porque de tal status. Como você bem disse, o livro gira bastante em torno do conflito de gerações, o Bazárov (acho que esse é o nome do personagem principal, né?) encara a vida de forma bem mais crítica e niilista do que o pai de seu colega, fruto de outra geração.

    Acho que além dessa mudança de visão, que amadurece em diversos sentidos apesar do peso de encarar o mundo dessa forma, está em jogo algo bem mais abrangente. A história se passa em meados do século XIX, um momento histórico bastante significativo para a Rússia, terra do autor. A sociedade russa vivia um momento de lenta transição (que mais parecia estagnação, na verdade) no que diz respeito a estrutura social e econômica, que estava ainda baseada no sistema feudal, que virá a ser posto em cheque em definitivo com a revolução de Outubro de 1917.

    Pais e Filhos mostra não somente o abismo entre gerações de forma hipotética, mas na sua forma histórica difícil e resistente que se deu na Rússia, onde não só a base econômica e as relações e estrutura social eram 'arcaicas' (feudais, no caso), mas também porque junto com essa constatação da separação e distinção de gerações estava um feixe de questões bem mais amplo, que dizia respeito aos valores, tradições, projetos e reivindicações que começavam a aflorar cada vez mais no país. A geração que faria a revolução em 1917 tem suas raízes nesse tipo de questionamento, Bazárov provavelmente seria um dos que estaria a frente de buscar mudanças, pleitear transformações e ir para a frente dos movimentos e buscar a revolução.

    Turgueniev consegue matizar isso o suficiente para não se tornar panfletário, ele enxerga dilemas e dúvidas nessa mudança, vê as múltiplas dialéticas que condicionam essa 'mudança de horizonte', tanto que o próprio Bazárov, que parece às vezes refletir o homem ideal, entre em um turbilhão de dúvidas, se pergunta se o que pensa faz sentido, se as tradições e a forma como vem sendo as coisas não é 'natural' ou se 'inexorável'.

    Esse tipo de conflito é que embalou toda uma geração (obviamente que não por si próprio, até porque a situação de miséria das populações camponesas e mesmo dos não-tão numerosos operários era suficientemente dramática para pressioná-los a tomar atitudes e agirem conscientemente como classe ou grupo mais ou menos coeso e unido), preparando o terreno para as profundas mudanças que viriam a acontecer na Rússia e que a levariam a ser conhecida como União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
     
  4. Koalla

    Koalla Usuário

    Excelente post sobre o livro!

    De fato, o livro é um embate constante entre gerações, não se restringindo apenas aos diálogos, mas aos comentários dos personagens e as descrições do narrador sobre como eles observavam os mujiques por exemplo.

    Enquanto lia sobre o sofrimento do Bazaróv ao passar a amar a Ortindsova (acho que é assim), me lembrei da relação que Nietzche tinha com a mulher que ele amava em "Quando Nietzche Chorou". Não sei até que ponto esta obra é fiel sobre esse assunto, mas se for verdade, é interessante notar como tanto na ficção, como na realidade, os niilistas não controlaram a crença no amor, ficando completamente perdidos.

    Interessante notar como há também no pai do Bazaróv uma certa figura de "Dom Quixote", um sujeito bondoso e que por medo de perturbar e desagradar o filho, começava a imaginar e a crer que ele era muito maior, um verdadeiro gênio, um homem que fazia verdadeira diferença na Rússia.
    Há também na figura do Pável (tio do Arkádi) uma certa semelhança com Hamlet, pois ele sempre suspeitava de uma traição de sua cunhada e ao descobrir resolve propor um duelo xD
    Aliás, ele parecia gostar dela, inclusive o último diálogo entre os dois deixa isso bem aberto, alguém mais ficou com essa impressão tb?
     
  5. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Koalla, não me lembro do último diálogo, você poderia refrescar minha memória aqui?

    ------------

    Para dar continuidade a essa discussão, queria saber a opinião de vocês a respeito de uma das questões que me chamou a atenção no livro: o embate entre as gerações dá visibilidade a dois "zeitgeists" distintos, sendo que o segundo, o de Bázarov parece muito mais desprovido de "inocência", muito mais descrente quanto aos rumos da humanidade. O niilismo de Bázarov é a manifestação de alinhamento filosófico para expressar essa mudança de horizonte. Enquanto o pai, como você bem notou, tem ares quixotescos (o que por si só já expressa uma espécie de "ideal de nobreza condenado ou decadente") e é fruto de uma geração cuja visão de mundo e cujas condições materiais de existência lhe permitiam pensar desse modo; o filho encontra-se em cada vez maior distância, chegando passo a passo, a uma constatação bem mais próxima de Bázarov do que de seu pai.

    Isso, porém, não é algo 100% delineado na obra de Turguêniev, porque mesmo Bázarov se digladia contra suas próprias crenças hora ou outra do livro. Por isso que penso que a obra não é nem somente sobre pais nem somente sobre filhos, mas do abismo existente entre as duas gerações, que se manifesta justamente nas distâncias e proximidades, idas e vindas entre pais e filhos.

    O que acham disso?
     

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