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[Paganus] Romão[L]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Paganus, 19 Jul 2013.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    I

    Tinha muito medo naquele tempo de coisas que se dispersam pelo ar, de gases venenosos a acessos de flatulência, e temia igualmente o cheiro de enxofre como o da fábrica onde trabalhava o pai. Não sabia se detestava mais o homem que a fedentina exalada e conspurcadora de oxigênio. Lembrava de certas lembranças onde o homem nunca estava onde deveria estar e detestava lembrar do que lembrara e preferia pensar em nada. Assim viveria se o esforço para não pensar não lhe doesse a cabeça e lhe tornasse mais insuportáveis os cheiros diversos que compõe o mundo, nem haveria como realizar seu intento, ao pensar nas moças, em nenhuma em especial mas em algumas, com suas saias curtas andando pelas ruas, com as pernas longas e altas como andaimes convidando olhares e pensamentos tais que... que eram suadas tais pernas e havia suor mais para cima. Assim era Romão.

    O que o assustava no mundo não era o efeito dos cheiros sobre si, mas o fato de existirem cheiros e deles serem tão importantes e melhores que a vodka barata do pai para fazê-lo sonhar. Alguns cheiros eram especiais, como a roupa de baixo de Anna, a filha da vizinha, moradores do quarto da frente e que penduravam suas vestes a secar no mesmo varal conjunto, comunitário, coletivo da povoação cortiça e pensionata. Ele temia o mundo assim pelo porquê dos cheiros e vivia andando e pensando, era um romântico, tinha tanta fé na impessoalidade maligna dos odores quanto na ascese do caminhar e se sentia purificado do mundo quando o mundo corria pelos seus pés, mesmo que o tal mundo se restringisse a ruas meio asfaltadas, estradas de terra e chão de lama e madeira da sua casa e de algumas outras. Pensava em coisas profundas nosso Romão, nosso heroi, como na cor do céu em dias de chuva e a relação desta com seus humores, pensando onde e como se alterara a vida do espírito de modo a infundir tamanha complacência nos céus. Poeta.

    Eu adoraria ficar a descrever os finos traços psicológicos de Romão mas isso seria banal, visto que muito se escreve sobre o assunto de modo científico e defasam minhas pesquisas informais esses ases da investigação mental. É pena. Mas não estou cá de passagem, visto ter algo a narrar, algo que aconteceu na vida de Romão, que merece nota. O fato, não o heroi. Embora também o heroi, creio, ou não... bom, isso fica a cargo de vós que me leem. Pois bem, aconteceu em uma segunda-feira, sem sinais portentosos, onde já se desenrolava um drama cotidiano, que a vida de Romão mudou ao receber uma sova do pai, na verdade, uma senhora surra de cabo de vassoura nos glúteos inconscientemente culpados e vermelhos, onde se deitava de bruços e nu como Adão antes de se sujar, para receber a paga de algo de que não se recordava e que coincidiam com um cheiro característico de álcool exalado pela carranca do pai. Desde muito cedo Romão aprendeu a achar normal o acompanhamento do cheiro de cachaça com o de dor e humilhação. O moço era um compêndio de nasalogia moral. Quando cria que não aguentaria mais e todo seu corpo se avermelhava todo, e as cordas apertavam suas carnes de forma por demais tenra para ser menos que delicioso, ouviu bater na porta.

    - Porra! - berrou o pai, revoltado mais com a interrupção do brinquedo que com a visita por si mesma, saiu a atender a porta. Viu-se diante da cara enrugada da rameira da casa em frente, que cobrava caro demais para ser preferida à companhia soturna do taberneiro, dona Lourdes, senhora digníssima. Vinha com um vestido vermelho, amarronzado em partes, ensebado de suor velho e com uma bolsa enorme de couro velho e desbotado, com um chapéu antigo e velho semi-carcomido e um batom muito apreciável e gostável, conforme as preferências gerais, concretas e observáveis.

    O velho olhou pra ela, descamisado, com as calças do uniforme preto desbraguilhado e cheio de tons e sugestões mas não parece ter tocado a velha, que o intimou em sua voz e modos violentos:

    -Cadê o moleque? Traz ele cá. - O velho não entendeu o que lhe dizia, desacostumado a se sentir contrariado em própria casa e perguntou:
    - Pra quê?
    - Vou levar ele daqui. A rua toda tá ouvindo e sabe o que você faz com ele, seu velho cuzeiro. Quero ele na minha casa, com as trouxas de roupa e documento que tiver. - intimou a mulher.
    Você é louca?
    - O filho é meu! - retorquiu o velho, descabelado e feio como a morte, e raivoso e teso.
    - Seu uma rola! Traz ele logo antes que eu chame os meninos para te desancar de pancada, velho safado. - ameaçou a dona.

    Aquela última ameaça ecoou em seus ouvidos e parece que lhe revirou a bílis. Os 'meninos' era conhecidos na vila, eram seres musculosos, fortes como touros, campeões de rinhas humanas, frequentadores de defuntos causados por eles mesmos e dados a negócios de natureza moralmente duvidosa. Eram filhos da velha puta com pais desconhecidos e achaques violentos conhecidíssimos, herdeiros da virulência marcial de sua mãe e que tinham grande autoridade, embora dela fizessem pouco. Ofender os meninos era caso de insânia, de grave natureza, e só visto em naturezas mais ousadas e vigorosas que a de Romualdo e nem isso os salvara de costelas e pescoços quebrados.

    Mesmo não querendo perder o gozo, o prazer de seus dias de velhice, depois que a mulher vagabunda fugira com um gatuno do povoado, Romualdo sabia que chegaria a hora que teria de pagar por tanto prazer que sua mãe lhe ensinara desde sempre ser coisa de homens-mulheres e maricas, e que merecia ser punido com a degola de membros viris. Suspirava interiormente e se cagava de medo. Foi aprontar o moleque.

    Assim Romão foi adotado por dona Lourdes, a puta-mor do povoado, e se estabeleceu na casa cheia e palaciosa de idas e vindas de muitas pernas lisas e suadas e de outras crianças como ele, de passado como o dele, e de homens, e de intercalações de elementos.
     
    Última edição por um moderador: 5 Ago 2013
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  2. Paganus

    Paganus Visitante

    II

    Dona Lourdes Gonçalves era descendente de ilustres operários assentados em miseráveis cortiços, o que um dia fora os rudimentos de sua afamada casa, uma residência que foi crescendo conforme os barracos se acortiçaram, os cortiços se favelizaram, e a favelinha se foi urbanizando de maneira tosca, incompleta e moral, como ensinava a insigne avó de Lourdes, dona Celeste Gonçalves, matriarca do amor em um buraco onde a caridade cristã era apenas praticada, mas não crida religiosamente. Não que faltasse Deus, mas abundavam tentações. A velha fora uma visionária que não apenas descobrira o aspecto plutocrático do amor como o transformara em alicerce de uma verdadeira cultura semi-urbana de operários e em desafogo de frustrações e sofrimentos em alcovas iluminadas por algumas velas e acesas pela paixão e pela necessidade, que é também uma forma de amor puro, por ser ascético. Ocorre que o lance era tanto econômico quanto existencial, o que é belo e moral.

    Lourdes não se lembrava da mãe que a abandonara logo ao lhe dar à luz, mas se conta que era uma putarda de primeira classe, que selecionava suas vítimas a dedo, primeiro entre o proletariado mais aburguesado da vila, depois diretamente dentre a burguesia comercial da cidade que já se dava a circundar o cortiço. Tinha visão e tino para o negócio, lhe dizia sua mãe, a Celeste, mas não tinha muito juízo no coração sôfrego e abandonou seus planos de ampliação dos negócios da família por amor. Sim! Que as rameiras também amam e isso não deveria consternar ninguém. O fato, porém, é que Lourdes era uma das poucas ‘que a erva cospe de volta’ e não conheceu o destino de seus irmãos e irmãs natimortos, e acabou saindo viva e protegida pela avó. Mas não cessava a pequena de inquirir ao seu pai, o ínclito Bonifácio, sobre o paradeiro de sua mãe:

    - Foi pro caralho.

    O caralho em questão não era tanto um autêntico membro viril quanto seu dono, o camisoleiro Jesuíno das Aflições, embora a primeira razão talvez tenha sido mais eloqüente inicialmente. Adriana (tal era o nome daquela empreendedora) foi com o tal Jesuíno, rapaz raquítico e dado a namoros e curiosamente pouco dado aos bordeis e alcovas celestiais. Quedo de amores pela grande vadia quis lhe desvadiar e caíram a serem vadios pelo mundo. O amor tem dessas contradições. Logo, o Bonifácio de careca lustrosa e barba por fazer deu a resmungar pelos cantos, vandalizar as caras da filha e da sogra, como é típico. Embora típico, descrevo tais atitudes para que não se surpreenda o leitor saber que desde cedo Lourdes era uma mulher forte como poucas e isso também se diz no aspecto físico, mulher que pegava touro à unha como aprendeu a descer o cacete no pai que não era nenhum touro.

    Feito aí o livro do gênesis de dona Lourdes não é de se espantar com o grau das transformações pelas quais passou o cortiço e toda a vila de Garaba na época da morte da velha Celeste. Como era dito lá atrás, ou acima, pode se ficar com a impressão de que o desenvolvimento da vila era uma coisa autônoma e desarranjada, que ia paralela e mesmo ignorante e intocada diante de tudo que acontecia à sua volta. E de fato era assim mesmo. O povo ali se fixara por conta da fábrica de papel e ali permanecera ao cabo de algumas dezenas de anos e jamais houvera uma aldeia fabril, mas apenas barracos desconjuntados crescendo como gramíneas brotando inclementes da terra enlameada. Uma vila se foi formando com os esforços da Associação dos Proletários Unidos, e a coletividade toda junto do povo garabaiense. Como a fábrica crescesse de forma demoníaca, sempre para acima e nunca para os lados, enchendo os bolsos do finado Sorriso Delgado e afundando os operários em uma miséria de lama e expectorações sangrentas, a vila se foi aferrando cada vez mais em si mesma e confiando pouco no mundo de fora. Era muito mais cômodo se utilizar de contínuas depredações das instalações fabris como contenção de opressões que sonhar com alguma forma de representação e o Delgado não precisava de polícia, tinha seus capangas bem à mão para responder de forma truculenta ou só para causar medo. Foi nesse estado de hostilidade ora aberta, ora tímida que se definiram as relações empregatícias para maior glória do reino de Garaba.

    Isso é o que dizem os historiadores ‘oficiais’. Como se vê ignoram completamente a importância social e civilizacional dos quartos úmidos e apertados por onde escorria dinheiro e suor e seiva divina. Crianças como Romão eram testemunhas constantes da miríade de cheiros pestilentos e excitantes que era Garaba. Não havia igrejas no povoado, nem seitas, apenas a fábrica, os valentões e as putas. Eis aí, exigente leitor, a sociologia de nossa excelsa vila. Mas caminhemos.

    Quando tomou as rédeas do próspero negócio, Lourdes tratou de realizar sua obra, a saber, a demolição das casas de sua propriedade e a edificação de um grande casarão de tijolos e telhado de madeira, para congregar as funcionárias todas em um mesmo local, com maiores atrativos, e maior centralização administrativa. A construção se deu em meio a inúmeros fatos isolados, porém significativos, como a busca por asilo de um conhecido deputado que conheceu Garaba e não quis mais voltar à mulher, aos filhos, à Câmara, tudo por causa de Anita, uma irmã perdida de dona Lourdes que escravizou o pobre parlamentar com suas tetas descomunais e apetite voraz por mimos de todo tipo, de tapetes persas a mobílias caras, passando por infinidades de jóias que circulavam por entre todas as meninas. Calcula-se que a fortuna de uma vida de Suzardo Arlindo foi essencial para dar um ar mais aristocrático à casa de dona Lourdes, data daí a formação de certo patrimônio e bom gosto, embora no geral, qualquer torneiro mecânico ou fosseiro, mesmo fedendo a óleo e a merda, podia encontrar boa acolhida, uma gruta quente e aconchegante para se aliviar, sem se preocupar com etiqueta.

    Houve também a história do orfanato que teve de fechar e Garaba se viu invadida por tropéis de diabretes que causaram furor ao povo. O estado de desolação das boas maneiras cortesãs, as quais nunca foram mais que um babado bonito e inútil na casa famosa, só piorou quando a matriarca decidiu acolher e educar por si mesma as crianças em sua mansão. Não havia escola também, mas havia uma acolhedora residência onde as moças saíam experimentadas e os rapazes, prontos para dar conta de toda obra. Esse foi o ato mais magnânimo, nobre, desinteressado da nossa heroína por mais que as más línguas insistam em lhe reputar terceiras intenções. Tudo calúnia.

    Assim se acabaram os enjeitamentos de meninas em camas de gente velha e os furtos e arrastões em lojas e casas de família e prosperou Garaba por metade de meio século.

    Os próximos anos viram os filhos de Lourdes se transformando em uma perigosa chusma de arruaceiros, eram de briga, viviam a provocarem os moradores antigos. Depois vieram os torneios de boxe, de rinhas de galos, as partidas truculentas de diversos jogos de azar envolvendo sempre orgias desenfreadas que duravam dias inteiros, as queimas de barracos velhos, de velhos, de uma criança. Com a maturidade vieram os negócios e as vantagens ganhas neles superavam suas expectativas: venda de coisas perigosas para os habitantes, manutenção de quartos para meninas de 8 a 12 anos exercerem seus dotes a troco de alguma mixaria, um cassino muito concorrido, contatos escusos com o novo dono da fábrica e uma série de negócios sujos com criaturas estranhas à vila, gente da cidade, recebimento de certos carregamentos e a gradual piora da vida garabesa.

    Esse foi o ambiente no qual foi recebido o pequeno Romão, não desinteressado das coisas do mundo pecador embora tivesse do mundo uma imagem ainda muito infantil, a saber, a de uma sucessão de simplicidades que ora se fixavam em alguns olhares ora seguiam a maré do devir do labirinto de odores peculiares em uma casa onde não havia segredo sobre o amor. Talvez o amor tivesse mesmo algo a ver com álcool e uma dor gostosa no baixo ventre e talvez até fosse normal que houvesse mais ódio pelo pai que amor em meio às suas carícias, mas o pequeno Romão, de cabelos crespos e castanhos e olhos cor de mel e lambíveis, pouco podia duvidar de suas certezas infantis até retirado de sua cama aos 13 anos de idade por uma Piedade de 22 anos, e metido em sua cama.

    Aquele deve ter sido o momento de maior terror na vida da pobre criança, lentamente desnudada pelas mãos magras de dedos longos e unhas compridas de esmalte vermelho e quente como a brisa do verão que acabava sufocante, entontecido pelo movimento fugaz de braços magros e brancos que se agitavam e se enlaçavam em seu pescoço, aquelas pernas delgadas e lisas que se enroscavam nos seus quadris, a bunda massiva que se assentava sobre seu membro juvenil e atemorizado, uma bunda de delírio, mole e meio pelancuda de carnes tenras mas que se movia com fúria e ardor no combate, uma bunda que mal escondia um sexo de fraca penugem que bebia a largos e profundos goles asmáticos o ardor temeroso de Romão, lhe arrancando o ar a ponto de se aproximar da morte, sorvendo tudo. Assim aprendeu Romão que o amor era uma coisa ainda mais intricadamente inexplicável, um misto de terror e prazer contínuos substanciais, era muita culpa e muita dor também, mas ele aprendeu naquela noite que amar nada mais era que se afogar em lodo e lagos fétidos de carnes macias e movimentos inebriantes, e sabia de certa forma que não viveria quem daquilo experimentasse mas que uma vida sem esse mergulho deveria ser, por força, uma vida desprezível de ser vivida, mas tão somente suportada.

    Naqueles dias eram freqüentes cenas desse tipo por mais que dona Lourdes se compadecesse dos meninos e lhes segurasse a curiosidade e ardor na virilha mas era difícil controlar suas moças que sentiam uma vontade incontrolável de seqüestrar os meninos mais bonitinhos de suas camas e lhes darem uma amostra gratuita e vulcânica, uma iniciação nos mistérios do Eros que tornava a paixão em vício. Mas não afetou Romão da forma como se haveria de esperar. Pelo contrário, o nosso herói se tornava cada vez mais taciturno e pensativo, mais facilmente encontrado sentado às escadarias a sonhar e meditar que a vagar pelos corredores perfumados de Éden dos quartos. Pensava e tornava a pensar na vida mas refletia mais com o nariz, como digo insistentemente, pensava e cheirava e pensava em como sua vida lhe pegava em tal estado de prostração e medo e ânsia de mergulhar novamente na lama mas o que mais lhe falava ao coração era sentir como poderia existir felicidade para ele, em um lugar onde seu ventre doesse tanto e onde havia grande probabilidade de sentir tanto prazer e tanta dor que poderia morrer, por compensação metafísica.
     
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  3. Paganus

    Paganus Visitante

    III

    Se havia algo de temeroso na vida eram os dias nublados e o azedo no coração que lhes acompanhava como um acólito silencioso, meio gordo e com manchas de vinho na toga, um sacristão bêbado é coisa que só os mais fortes podem aguentar dentro de si. Lépido não podia ser Romão, e o era ainda menos vivendo tão cercado de amor por todos os lados e arrumando seus pequenos prazeres. Ele tinha mais o que enfrentar. Começara a tomar aulas com dona Lourdes, pela luz da manhã ao declínio da mesma e decorava fórmulas históricas, crônicas matemáticas, ciências e alguma metafísica, animado pelo medo puramente físico da palmatória da matriarca. Diga-se que era física e se insisto é por uma boa razão, não haveria como não ter pelo menos respeito e gratidão para com aquela idosa que os recolhera das fossas mais nojentas das ruas e cantos piores de Garaba para lhes restituir algo de dignidade natural. Ela era amada por essas crianças e as amava, o que não a impedia de lhes usar para certos fins que não convém repetir, como não impedia os diabretes de lhes roubar jóias e vender nos becos escuros, contrabandear bebidas e cigarros às escondidas se utilizando da despensa da casa, de frequentar as garotas da casa, e nesse último caso as meninas não ficavam excluídas.

    Romão não deixava de pensar com seu sangue em Piedade e rememorar a sensação também física de pântano que supunha ser a forma mais mística de amor e os traços de brejo deixados em si, mas ao se encontrar com ela, esta lhe deixava não mais que um beijo casto no rosto e ele lhe respondia com uma aversão insuportável, um estremecimento incontrolável e um gelo inesperado na virilha. Um ventre gelado é coisa horrível que ocorre a um homem apaixonado, está a levar a ele a prova de que amar não tem nada a ver com puro instinto simplesmente, mas ao mesmo tempo deixa ao homem dúvida sobre quem reina ali, se Deus ou Satanás. Nada é muito certo nesse vale de lágrimas.

    Enquanto isso as coisas começavam a esquentar fora do casarão de madame Lourdes, conforme seus filhos iam dando o ar de sua desgraça pelo povoado. Dessa vez foi encontrada na cama de Macário Gonçalves, em uma água-furtada mais escondida que as economias do velho quitandeiro, uma menina. Em meio ao poço de sangue e vísceras moles que conspurcavam um leito já imundo em um quarto imundo localizado em uma rua imunda, se podia identificar mal e mal as feições descarnadas de olhos vidrados e faces inchadas da pequerrucha Adelaide Sá-Maria da Silva, filha do Silva, um dos chefes da Associação dos Proletários Unidos, os zangões. O Silva liderara já vários assaltos às instalações da fábrica e arranjara violentos piquetes que se transformaram nos episódios mais sangrentos da história garabaiesa, como o degolamento de cinco capangas do velho Salgado, realizados pelas próprias mãos do terrorista-mor, dotado de uma musculatura blasfêmica e de um vigor homérico além de uma fúria satânica e um ativismo político deveras cristão. Possuía fama titânica e era temido por todos e respeitado pelos demais zangões. Cabe acrescentar que se cria que a menina fora violada antes de ser picada de forma quase esquartéjica por uma profusão de punhais vorazes e apaixonados, movidos certamente por uma mão só.

    - Vai dar merda. – disse o comissário Dutra, ao observar aquela cena.

    O homem mal podia imaginar o sentido profético daquelas suas palavras, ele que dizia pouco e pausadamente. Cumpre notar que o comissário e seus guardinhas eram zangões subalternos escolhidos para policiar o povoado, prevenir os crimes e prender os trombadinhas em geral, se fazendo de cegos às traquinagens mais violentas das crianças de Lourdes. Dito isso, digamos também que a obra de arte sangrenta e violatória fora um dos trabalhos mais requintados de Macário Gonçalves, o filho caçula de dona Lourdes e tramoiento rapaz, de olhos verdes e intenções desconfiáveis ao se dar por infiltrado na casa do ínclito Silva com fins de cortejamento inquestionáveis e totalmente questionáveis no conjunto e na essência.

    A obra lenta e de refinamento estético insigne na verdade apenas se esboçava nos olhares longos e ardentes do jovem Macário para a pequena Adelaide nas saídas ocasionais para a missa na cidade e nas idas aos mercados e à quitanda para sua mãe. Os olhares, inicialmente solitários, começaram a se acostumar a serem olhados de volta, a serem acompanhados por pequenos e curtos raios de luz de retorno e cumpre dizer que o retorno era morno mas foi se amiudando e se aquecendo. Há muito que se dizer sobre o lento cozinhamento do olhar pelo fogo de olhares apaixonados. Só o que posso dizer também é que não é preciso muito esforço para se passar dos olhares para a mui conhecida valsa do corpo caminhante e gestual, culminando nas mãos que se juntam, nas mãos que escrevem cartas onde é visível o sentimento fervido, até a erupção abrasante de braços que se tocam, se enroscam, se tateiam com as pontas dos dedos e as palmas e a vermelhidão nas faces, e a noção, perigosíssima, de que certas carícias são interditas aos olhos das demais pessoas. Certo moralista diria que toda clandestinidade no sentimento é prenúncio de tragédia.

    Não sei se há de ser sempre assim, sei, porém, e de fonte segura, que os encontros privados entre os dois amantes nunca foram tão privados como estes desejavam visto que a particularidade de seu amor era a de se tornarem um abalo sísmico que transtornava as estruturas do mundo, abalava as paredes de madeira do barracão de ferramentas do velho Ananias, recanto de seus contínuos e exaustivos pecados, abalava a morosidade sonora da comum algazarra dos pássaros de várias cores e tipos que adornavam a vila como adornavam aquele antro por onde escorria o sangue virginal de Adelaide, sangue que continuaria a escorrer ainda por vários dias, enchendo o solo duro e seco de uma umidade lúgubre e excitante, que fez germinar gramíneas e pequenas flores vermelhas e que ninguém conseguia identificar a origem e o nome mesmo pelos jardineiros da Casa Lourdes. As flores se espalharam por todo o solo do povoado, por todo seu chão de terra, pelas casas, nas paredes e caibros, nas portas e nos vidros das janelas, espalhavam-se incontrolavelmente pelos chãos das residências e nas latrinas, enchendo os poços de merda de uma fragrância equívoca e desconfiada e, no entanto, doce, como preenchiam outros pontos das casas com seu cheiro e uma gradual destruição das estruturas humanas que faziam pressupor o fim do mundo e sugeriam temas propícios a sermões de pregadores, se estesp or acaso ali existissem. Na falta deles, as senhoras se fartavam de admoestar umas às outras e às filhas e netas para não destruírem a terra com o pecado das carnes esfogueadas.

    O abalo também ia além do som, do sangue e dos estremeções, conta-se que estes coincidiam com um tremor de pernas nas moças do povoado, com um sanguinolice em seus ventres e uma vontade irresistível destas irem esfregar as coxas em algum lugar, em postes, vigas de suas casas, pedaços de madeira e tacos toscos de bilhar, embora com isso jamais ficando satisfeitas e tentando se consolar com leques, substituindo os vestidos paramentados por camisolas e vivendo em dias mais quentes que realmente eram sem roupas íntimas e dormindo nuas enquanto os rapazes passavam dias insuportáveis de suadouros inexplicáveis, dores inferiores agudas, olhos vidrados e pensamentos jamais fixos em alguma coisa, obcecados por alguém ou alguma coisa que não se sabia o que era, se esquecendo de seus ofícios e indo varar suas noites em oceanos de suor dentre as pernas incandescentes e magmáticas das moças de dona Lourdes que nessa época não se deixavam ficavam na casa apenas mas vagavam pelo povoado, nuas em pelo, desvairadas, perdidas,com olhos e cabelos desalinhados de dar dó, e de dar mais coisas. As coisas estavam nesse pé e as mães não as conseguiram resolver por estarem igualmente prostradas e envergonhadas demais para ir buscar no antro de putas da vaca velha da Lourdes’ embora indo se aliviard o calor, de uma forma ou de outra. O uso de surras constantes, palmatórias e chicotes, posto que freqüente e abundante, não resolvia o problema ainda que o aliviasse, fazendo as pobres crianças ansiarem por mais cacetes e pedindo, em lágrimas luxurientas, que se batesse aqui, ali e acolá para equilibrar as ardências, e gemiam de forma nada penitencial com as porradas que levavam nas coxas, braços, costas, e faces, lambendo com gozo seus próprios fluidos corporais, o sangue etc.

    Nesse estado caótico de frenesi vadio e indecente, em que Romão observava a vida se desmantelando em um inferno delicioso que não lhe deixava em paz, presenciou quando certos munícipes de saco cheio de viverem com o saco cheio em dor polvorosa, suspeitaram das ausências misteriosas e cada vez mais longas de Adelaide e da falta dos distúrbios de bebedeira freqüentes do jovem Macário e somando dois mais dois, tentaram principiar por pôr ordem nas coisas tentando resolver aquele mistério. Mas chegaram tarde.

    As ardências que assolavam o povoado eram apenas um reflexo fantasmagórico do abismo de amor em que se havia transformado o cubículo de madeira. Imaginemos que as trocas de contato entre as pontas dos dedos se transportaram aos dedos dos pés, que os contatos das palmas dos pés e das mãos se deram parte a parte ao consórcio das coxas e braços e pernas, que esse monstro alucinado de mil braços e pernas se deram um ao outro ao cabo de várias semanas, atos divididos em cenas de horas e mais horas de terremotos que envergonhavam e orgulhavam céus e purgatórios, de tapetes estragados e lençóis encharcados de suor menos que do sangue virginal gorgolejante da moça, entre arquejos demoníacos, berros estridentes de ursos se estrangulando, gemidos febris e endoidecedores de divindades babilônias. Todo um carnaval lodoso e mesmo asqueroso de desejos contidos antes em olhares amarelos e doentes e em pensamentos guardados para noites quentes onde a mãe ainda cria que a filha se molhava de xixi e não do suco do amor guardado, mordido, remordido e gozado antecipadamente, tudo isso, todo o universo de sensações contraditórias, apaixonadas, de queimações, de sonhos de uma bela face endurecida pelo vício e cheia de cabelos ondulados como a face de Deus, de umas mãos calosas e com alguns pelos loiros e uns braços magros e fortes como os de um touro que lhe envolvia a cintura fina como um dedo, como seu dedo longo que passava por suas costelas que se viam de suas costas nuas e vermelhas, e suadas, um dedo que arrepiava os pelos das costas, da barriga, do sexo e fremia de êxtase ali embaixo, beijada pelo monstro que lhe vinha devorar e explorar com uma curiosidade e uma doçura e uma languidez no beber, no escavar e uma repentina e contínua fúria de mirmidão sedento. Um dedo que passava pelas costas, pela nuca, pelo pescocinho fino, pela boca brilhante, como os lábios que eram sugados pelos seus, engolidos por aquela bocarra gigantesca, por onde escorria o amor mais profundo, mais belo que uma rapariga já provou: o sangue da dinastia dos Gonçalves, o mesmo sangue que percorria suas entranhas, enchia seu ser desse mesmo amor, dessa força musculosa que ganhava vida dentro de si, forte como a vida e, no entanto, se aproximando cada vez mais e mais da morte:

    -Me come, filho da puta!

    Levando mais e mais a sério os desejos irrefletidos e selvagens da pequena moça que trepa em seu corpo enorme e moreno e de pelos loiros, inclinando-se e se agarrando cada vez mais e mais forte no limite absurdo entre a vida e a morte, imerso na lama mais gostosa desse universo, o rapaz não deixou de lhe preencher naquela última noite, continuou enquanto lhe apertava as coxas e quebrava os braços, enquanto rasgava sua pele com os dentes, enquanto arrancava pedaços de sua carne a dentadas e beliscões animalescos em uma volúpia de sangue, até seu coração parar de bater, continuou metendo até sua cabeça descair, seus lábios embranquecerem, sem perceber que os gritos de prazer eram gritos de dor e que essa dor já não mais gritava, que em vez de gemidos que lhe enlouqueciam só ouviu um último suspiro de satisfação derradeira. Ainda nela amava a sombra de uma vida que não mais existia, ainda se deleitava naquele corpo quebrado, destroçado, rasgado, apertando aquelas pernas finas, sentindo o sexo gelado enquanto ele se aquecia, aquecia, aquecia, até cair da cama, quase inconsciente, mas ainda se esfregando lascivamente nos restos de sangue e tripas soltas em um amor de desastre que abalou o mundo por uns breves segundos da vida de Deus.

    Como ter pena de Adelaide Sá-Maria da Silva? A moça viveu toda a curta vida esperando o amor acontecer em meio a bamboleios, febricitações de todo tipo e quando o encontrou, morreu de amor. Não só se saciou da vida do mundo como sua própria vida e até mesmo sua morte foram consumidas pelo homem que foi seu Deus por um curto verão de febre, sem planos, esperanças, futuro. Só amor.

    Romão pensava em tudo aquilo quando foi dormir. Não se preocupava com o que aconteceria com Macário, ele já estava morto em vida mesmo, que importava os zangões terem lhe esfaqueado diversas vezes, desfigurado sua existência, arrastado seu cadáver enrolado nos intestinos, sujo, cheio de feridas abertas e tendo sangue até na alma? Ele morrera muito antes disso. Romão se lembrava. Como era querer morrer? Querer não morrendo? Não era entre aquelas pernas que vivia, que sentia a vida exatamente por nunca ter estado tão perto da morte?

    Pensava assim, mas levantou-se no meio da noite e foi para o quarto de Piedade. Lá entrou por debaixo dos lençóis, se aninhou entre seus braços, apertou seu peito contra os dela e dormiu, murmurando, enquanto ela acordava:

    -Quero dormir aqui coma senhora.

    Ela lhe beijou a testa e ambos dormiram, reconciliados com todos os deuses e com o mundo.
     
    Última edição por um moderador: 5 Ago 2013
  4. Paganus

    Paganus Visitante

    IV

    Romão sentia saudade das pernas de Piedade, de seu segredo escondido debaixo dos lençois, do que havia de esotérico e inflamado nas noites longas e pavorosas que passava com ela. Sua partida algumas semanas depois do incidente de amor das famílias rivais de Garaba arrancou um pedaço do coração de Romão ao mesmo tempo em que lhe deixava na virilha um misto de emoção e ansiedade, que pedia para ser satisfeita a todo o momento. Lembrava de Piedade debaixo de outros lençois, se tornava bruto, e foi crescendo como um rapaz de grandes paixões e temperamento cada vez mais agressivo.

    A alma, porém, no seu interior, permanecia imaculada, livre das necessidades e inquietações da idade e da época. Percebia num átimo que o mundo mudara à sua volta, sem ele mesmo, no entanto, ter mudado. A vida em Garaba sofria reviravoltas imensas, crescia e se tornava cada vez menos parecida com o conjunto de vielas onde se acostumara a se encontrar com sua Anninha, lhe tocar demorada e longamente todas as partes do corpinho de enguia morena. Agora se via em um vilarejo mais e mais urbanizado, com ruas melhores dispostas, aterros se transformando em casas de alvenaria, barracos que eram derrubados e no lugar deles e das vendinhas e quitandas, alguns bares e uma miríade de mercearias e pequenos mercados se aglomeravam em proporções maiores. Logo, a vila foi crescendo tanto que começou a engolir a mansão de dona Lourdes e para piorar novos bordeis começaram a surgir, a despontar no horizonte. Inicialmente apenas algumas poucas casas ousaram desafiar a supremacia, algo desgastada, é verdade, das meninas de Lourdes, porém, logo cresceram, foram preferidas à velha e tradicional mansão, se multiplicaram e casas novas e maiores e, para coroar, mais da metade das meninas de dona Lourdes se mudaram para outras casas, sob novos patrões. A velha mansão decaía e a velha Lourdes se viu à beira da falência.

    A velha mulher sempre foi uma fortaleza mas já se via que a se manter naquela situação, suas minguadas forças seriam logo consumidas e a grande patrona do entretenimento adulto do pequeno município de Garaba se viu cercada de dívidas, ameaças de penhor e de linchamento público. Conforme crescia a pequena vila, esta se tornava mais respeitável, mais permeada por instituições religiosas e morais, como a cadeia pública, já sem a supervisão clandestina dos zangões e a igreja do Pe. Nicanor Madeiras, grande pregador e homem dado às fortes emoções teológicas, estudioso de Santo Agostinho e de Escrivá. Já não se admitiam tantas afrontas à moralidade cristã, e os policiais nomeados para sua tarefa insigne não eram muito sensíveis às necessidades da população, apenas às suas.

    Mas antes de prosseguirmos no nosso relato, no ponto onde a casa de Lourdes fecha as portas e Romão atinge a maioridade, talvez seja melhor retrocedermos, explicar como tais mudanças profundas se deram em pouco menos de 10 anos. O leitor talvez esteja perplexo por mudanças tão repentinas, ou por um guinada tão repentina de dez anos no tempo. É fato que em 10 anos muito pode mudar, mas é um tempo muito curto para um lugar como aquele sair da obscuridade edênica e suja em que sempre se encontrou.

    Quando a jovem Adelaide morreu de amor oito anos antes, a celeuma que ficou entre os Gonçalves e os Silva atingiu um ponto crítico, que a morte de Macário só fez piorar. Os irmãos Gonçalves, Adelmo, Luís e Diomedes, pretendiam exercer sua vingança contra os Silva, inundar a vila de sangue, se fosse preciso, para lavar a honra de sua família, vingar seu falecido irmão que nada havia feito de errado. Afinal, quem nunca antes havia se enamorado? Quem nunca se empolgou na cópula? Quem nunca exagerou na dose? Era injusto, enfim.

    Quando esses planos fervilhavam nas cabeças dos Gonçalves, Lourdes apenas tentava se proteger do caos que se seguiria: proibiu a entrada de seus filhos no casarão, reforçou a segurança da casa, impediu os moleques enjeitados de saírem de casa por semanas. Previa o pior. E o pior aconteceu.

    Algumas semanas depois do plano maligno ser bravatamente proferido em uma mesa imunda de um bar imundo por Adelmo, este foi encontrado boiando, inchado, afogado no fundo do leito do rio Garabense, pescado por uns molecotes que viviam no arredor, no bairro do cais. No mesmo dia, Luís foi baleado enquanto bebia no mesmo bar da bravata, por alguém desconhecido, que escapuliu das vistas. Uma semana depois, em meio ao desespero nervoso de quem sabe que vai morrer, possuído de um medo que nunca tivera e que achara impossível existir, Diomedes foi esfaqueado, rasgado da barriga à virilha pela puta que comia em um bordel da cidade vizinha. O fedor e a sujeira hedionda de tripas derramadas por um cadáver rasgado ao meio, em meio a um lago de sangue e dejetos, também levou a rameira assassina a óbito.

    Mil teorias surgiram na vila sobre esses ataques mas sua procedência era inequívoca, todos concordaram que se tratavam de atentados de zangões, em uma vingança mais ampla e preventiva. Salvavam a pele eliminando todos os irmãos e se sentiam justificados. Os Silva negaram, bem como todos os zangões. Dona Lourdes, para surpresa geral, nada mais fez que encomendar uma missa pela memória dos filhos e correr atrás de seus cadáveres e dos procedimentos para seu sepultamento cristão, mas não culpou os Silva. Dizia a quem quisesse ouvir que os zangões não se comportam dessa forma, não agem assim. Ninguém entendeu.

    Os ânimos estavam longe de serem aplacados pela complacência monástica de dona Lourdes e o estranho silêncio de suas meninas. As crianças ouviam muita coisa, muito fofocavam e traquinavam mas mesmo elas se assustaram quando a população fabril, cansada dos abusos de Sorriso Delgado e suas punições por capangas, insatisfeitos com a burocratização da força dos zangões e sua ineficiência, bem como a miséria geral de sua situação e a percepção de que viviam sob a tirania dupla dos Silva e dos Delgados, transformaram a questão improvável de defender os Gonçalves assassinados em questão de honra e invadiram a casa dos Silva, uma multidão inebriante de vozes zangadas, tochas, paus e algumas carabinas e enxadas. Desmontaram toda a casa, espancaram a mulher e as filhas do Silva, e o mataram a enxadadas.

    Nos dias que se seguiram, a loucura imprevista que tomara conta dos moradores se espalhava por toda a vila. Diversas casas de zangões foram saqueadas, e muitos mortos, até que esses ataque isolados se organizaram em torno de uma força cega e irracional que perseguiu e exterminou toda a força dos zangões, suas famílias e casas. Algo como uma sanha 'revolucionária' informe, sem ideias nem projetos, mas muita ira, paixão pela violência e por gritos e toda sorte de abusos tomou conta do vilarejo.

    As coisas se encaminhavam para um fim trágico para Lourdes que já adivinhava que os revolucionários viriam até ela, trancou a casa, com as moças e seus moleques, e os impediu de saírem. Entrincheiraram-se lá dentro e nada, nem tiros e ameaças de morte de uma multidão em fúria conseguiu demovê-los, ou invadir o lugar. Com a casa muito devastada pelos ataques, janelas quebradas, portas meio soltas e a fome beirando, todos lá temiam pelo pior.

    Foi então que Garaba estremeceu sob os pés canhestros de um exército de pistoleiros de Sorriso Delgado, para restaurar a paz no local. O cerco havia terminado.
     
    Última edição por um moderador: 11 Dez 2014

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