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[Paganus] Noite [L]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Paganus, 7 Jun 2013.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    Há que se rever um dia em nossas vidas não? A vida é coisa tão idealmente fabricada como a idéia de humanidade, lei, justiça... são garras humanas deformadas tentando roubar ao divino aquilo que não lhes pertence e está demasiado distante de seu estado atual. E se vê como certas pessoas transferem mitologias a sentimentos, mesmo a pessoas! Alexandre pensava nessas coisas, nesses e em outros grandes mistérios do Universo enquanto contemplava o mar da janela do apartamento, do cubículo onde morava, onde o cheiro de mofo e de fossa não o impediam de se concentrar em questões tão sublimes como a morte de Deus e o despertar das subconsciências mitologizantes. Era noite e o escuro ainda o amedrontava.

    Quando foi a primeira vez que sentiu tanto medo do escuro? Deve fazer muito tempo que nele se manifestava esse medo ancestral, primordial, das infinitas potencialidades da Noite e suas mais remotas lembranças nada mais eram que a sensação de um medo gigantesco diante de uma grande tela escura, um buraco negro de escuridão mais real que os medos mais imediatos que lhe sucederiam na vida, todos mais artificiais que este. E ele tremia também por não poder explicar esse escuro e por não poder explicar como uma existência tão independente e madura como a sua sentia falta de alguns braços agora que não havia mais pais nem família ou amores que o tivessem seguido no exílio do ódio de si mesmo, do corte de qualquer relação com o mundo exterior e o martírio interior da apatia, do ócio nada filosófico, da contemplação sem objeto...

    As longas noites de Alexandre eram literalmente longas visto que o sono não vinha, mas as lembranças sempre vinham, sempre haveria o som dos cacos das janelas quebradas em um dia de sábado e calor e muito frio no peito, sempre haveriam gritos mais ou menos estridentes e uma vaga sensação de água descendo pelos olhos como desciam pelo seu rabo de forma menos vaga e bem nítida mas não tão nítida a ponto de a sentir mais fortemente que um enorme buraco que se abria no seu peito, crescia, se alargava e dilacerava seu coração com um ácido viscoso de uma textura menos física que propriamente de um líquido que ia derretendo todos os sentimentos atrelados a rostos que choravam, gritavam, os próprios rostos que flutuavam e se materializavam de alguma forma grotesca e doentia diante dos seus olhos e olhavam concentradamente para o poço de merda, vômito e remorso vago e indistinto a que se reduziam suas longas noites...

    E os dias não eram melhores. Alexandre poderia estar em qualquer emprego do mundo, em qualquer lugar, situação, companhia (pagas, quase sempre) e nunca se livraria do imenso nojo de si mesmo, do vazio que se agitava no seu peito, do monstro que ali crescia se alimentando de sua carne tão gasta pelo vício, vício que nada apaziguava, amortecia, só fazia aliviar a dor de que se afligia sempre e assim mesmo um alívio que não propiciava um retorno lento da dor, mas súbito e excruciante. Sentia remorso de algo que não sabia mais o que era e suas lembranças não só não se juntavam coerentemente como perdia o senso da realidade e o senso de si mesmo, das experiências passadas e do próprio nexo do que já lhe ocorrera e conduzira a esse estado sonambúlico. Sentia forte a dor, mas as lembranças começaram a se esvanecer e sua vida diária se regulava pelo regime noturno do espírito e tudo que não fosse a maior fonte de prazer súbito e autoflagelação expiatória sabe-Deus-do-quê era não apenas ignorado por sua consciência como banido da sua sensibilidade.

    Aos poucos o jovem Alexandre deixou de pensar e não se concentrava mais em leituras na madrugada, tudo ele esquecia, confundia e isso lhe trazia desgosto e uma ira contra si mesmo e todos. Mais dois espelhos quebrados e explicações difusas a vizinhos assustados, como era difusa sua inteligência, sua noção de tudo o que o cercava e se indiferenciava para ele do nada que crescia. Parou de trabalhar. Seus rendimentos de um mês deveriam bastar para continuar a viver no regime da Noite, deusa voluntariosa a quem entregava sua vontade, liberdade e vida, e que os cobradores, como tudo o que mais lhe ligava a alguma humanidade mais ou menos ilusória, que se fodessem! Não saía que o barulho do mar não era diferente do dos carros e nem lhe provocava pensamento ou sensação alguma, exceto enfado e mesmo alguma angústia, nada lá fora era diferente do seu quarto e fedia tanto quanto a merda líquida na cama e os restos expelidos pelo chão. O cheiro o acompanhava sempre, no trabalho, na rua, todo lugar e até na sua cabeça, no seu corpo, e por mais banhos que tomasse, o cheiro imundo persistia. Demorou ainda menos a interromper banhos e qualquer higiene. Isso era luxo, para que haveria de isso lhe incomodar? Passava o tempo sempre acordado, sentado no sofá olhando o mar da janela. Logo, não se levantaria, não haveria mais tempo nem noção de se estar verdadeiramente acordado e de estar sentado, perdeu a noção, a sensação de espaço. Vagava por um nada sem objeto e realidade, sem sensação de nada e mesmo de seu eu.

    Percebeu que não podia ficar mais longe do quarto, de seus excrementos mais antigos (que os novos lhe aborreciam) e se deitou nos lençóis marrons, podres de bosta, mofo, antiguidade e sujeira. Movia as mãos pela imundície do chão e mais expelia pela boca, e mais se esvaía em sangue e em mais bosta, começou a amar esse cheiro e esse estado de sujeira hedionda permanente, nele se comprazia até perder de todo o movimento exceto o do peito que ainda se agarrava à terra. Parou de amar e de pensar, e mesmo de sentir por vários dias. Durante uma semana sentiu novamente, sentiu desespero. Sentiu o mais negro desespero de sua alma, foi acometido dos piores remorsos, das maiores lembranças e lágrimas lhe banhavam o rosto, descendo em torrentes indo se encontrar com outros fluidos que se iam desprendendo da carne. Isso durou várias e longuíssimas noites que lhe pareciam eons, eternidades, eras inteiras. Por fim, passou, e viu claramente o buraco no peito devorando o próprio quarto e o mundo, deixando tudo escuro, tenebrosamente escuro.

    Encontrado morto em seu apartamento no dia 4 de agosto de 2005, em meio a uma orgia terrível de punições físicas, sangue pelas paredes e um quarto com o chão e a cama cheios de sangue, excrementos líquidos e alimentos apodrecidos e se dissolvendo como ocorria com sua própria mente, Alexandre Silveira da Costa morreu de tristeza.
     
    Última edição por um moderador: 5 Ago 2013
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