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[Paganus][Memórias do sótão][L]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Paganus, 4 Jul 2014.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    Capítulo 1

    Eu gostaria de escrever algo aqui, algo que não fosse inédito, inaudito, interdito, picante ou vergonhoso, nada grotesco mas gostaria também de fugir do excessivamente simplório, simploriamente popularesco, e cheio de intenções segundas e terceiras carregadas do ‘belo e sublime’. Não se trata de um subsolo. É o meu sótão.

    Talvez o leitor estranhe esse pensamento, talvez atribua o termo ‘sotão’ a alguma concepção arquitetônica, talvez pense em um reduto supra-consciente, em esferas superiores da existência mental, em uma beatitude espiritual ou em um verdadeiro estado psíquico determinado. Não é nada disso. Tampouco se trata de uma vida vivida em sonhos, fantasias, devaneios, delírios conscientes, poluções celestiais... bem, aqui já se aproxima mais da verdade. O fato é que não sou um homem do subsolo.

    Falta-me coragem. Sobra-me frivolidade. De fato, a minha vida pode ser definida como uma estrada de autoconhecimento, de abnegação das doutrinas facilmente assumidas, amadas, cridas, beijadas à luz do luar que não vi, uma jornada rumo à descoberta de novos horizontes morais e espirituais, mas de uma seriedade... como direi? Limitada? Sim, limitada, pois seja limitada. A seriedade é coisa de que se abusa, como se abusa da sua falta, da frivolidade, exatamente porque nunca os limites entre esses dois tenham sido tão diluídos como atualmente. Já não é mais uma questão de belo e sublime, antes de feio e torpe. Ama-se o feio e o torpe, mas jamais em si mesmos, apenas como símbolos da desconstrução. Ou seja, é nossa a época de uma grande desonestidade.

    Mas falava do feio e do torpe. Dizia, pensava comigo esses dias que existe um grande abismo entre o subsolo e o meu sótão, apesar de sua consubstancialidade. Ambos são o habitat de dois tipos muito similares de indivíduos, vivendo em épocas muito similares, em jornadas e em ambientes espirituais muito semelhantes, mas extremamente díspares, ao mesmo tempo. É sutil, mas existe uma diferença entre a era das grandes certezas e a das grandes dúvidas. Entre o sótão e o subsolo.

    Gostaria de me deter nessas diferenças mais detidamente, agora penso ser útil pensarmos um pouco na nossa época. Nunca se teve tão pouca certeza das coisas como na nossa época caótica, nunca se amou tão perdidamente a desordem e a destruição como hoje, nunca se buscou tanto matar o sentido das coisas. Não é mais falta de fé, mas uma regressão supersticiosa às formas mais selvagens, primitivas de crença nos maiores absurdos. Não, não pensem em absurdos em sentido profundo, existencial, algo que, exatamente por ser um vácuo árduamente inteligido, é repleto de significação, mas em um absurdo plebeu, um absurdo ignorante, imanente, feio, um Quasímodo de absurdo.

    Eu lembro da minha infância muito vagamente, exceto por alguns quadros, uns quadrinhos e isso é muito absurdo também. Mas talvez faça algum sentido, não sei. Lembro de estar em um daqueles brinquedos giratórios, aquelas rodas à qual você se senta como à uma mesa e se diverte e ri, com os amigos. Eu absolutamente não me divertia e sequer tinha algo parecido com amigos: era a primeira semana de escola, longe dos braços protetores da minha mãe e da severidade bonachona de meu pai. Não me divertia, apenas me aterrorizava. De tudo tinha medo: das tias, das lições, da rotina e da disciplina, tinha um medo abjeto e torturante (chegava a doer) dos coleguinhas, de seus rostos hediondos, suas brincadeiras cínicas, suas críticas mordazes ao lugar em que eu morava, à minha cara de choro, meus modos silenciosos e temerosos, e acima de tudo, temia as meninas: criaturas terríveis que se congregavam em sociedades secretas, cheias de segredos que só compartilhavam com suas correligionárias, desdenhavam dos meninos, lhes detestavam quando não se lhes apresentavam em sua fase menos infantiloide, efeminada, servil, viscosamente repugnante, enfim, seres de pesadelos que, naquela época, pouco poderiam me inspirar além de uma negra desconfiança, um medo abissal de ser mirado pelos seus olhos risonhos e cruéis, seus dedos impiedosos...
    Não me divertia absolutamente. Tremia de medo e é engraçado como tão poucas coisas se gravaram nitidamente na minha memória daqueles dias, mas a lembrança do medo que senti daquele brinquedo ficou, permaneceu viva, vívida. Um medo físico, medo de ser arremessado para fora e me machucar, medo de enjoar e vomitar, medo de que alguma circunstância imprevista... um medo escatológico, e um medo moral, sim: medo das risadas, do deboche, da humilhação, medo das zombarias que já me fustigavam decorrentes da crueldade inata das crianças, um terror que não se amenizava com minhas respostas infantilmente condescendentes e timidamente cínicas, defensivas.

    Isso fica, mas... coisa curiosa: não fica da mesma forma ao longo dos anos. Na minha infância essa lembrança andava de mãos dadas com outras, igualmente humilhantes, e todas dançavam juntas no grande baile da vida moral, zombando de mim, como zombavam seus atores, meus antagonistas, como estes zombavam de mim. A adolescência viu a dissociação dessas lembranças, como é dissociativo tudo na adolescência, sua fragmentação, sua diluição mesmo, a abstração do sentimento de ofensa e vergonha desses acontecimentos e sua impregnação viral na minha carne, na minha alma. Isso foi muito antes da minha ressurreição, antes de começar a enfrentar meus medos, principalmente o medo de ser humilhado por parecer ridículo, de ser rejeitado e ainda mais o de ser amado, antes de perceber que o meu imenso amor-próprio não era nada mais que uma masturbação desagradavelmente prolongada com a qual me deleitava no sofrimento da impotência... mas estou me adiantando.

    Eu falava de como certas lembranças, mesmo após sua volatilização em determinado momento, aparecem de volta, não para nos assombrar, nos encher de culpa e remorso, mas para nos fazer refletir, nos encher de maravilhamento, de surpresa e encanto. É como se nos passasse um vento frio e gostoso, aquele vento de outono, a esfriar as carnes e músculos quentes após uma corrida na praia, que acalma as energias tensas... não é só reflexão, não sei se me explico bem. Uma lembrança que costuma nos visitar de forma torturante e, de repente, após tais e tais acontecimentos, após certa transformação, aparece inofensivo, algo com que se possa deleitar, com uma curiosidade mórbida e estranha, algo que nos causa estranhamento pelo tempo passado e a distância daquele sentimento que antes nos visitava e o que se passa agora, essa calmaria indiferente que se vai transformando, de estranheza vira curiosidade, de curiosidade se torna em alegria jocosa, e, quando nos aprofundamos... redenção.

    Talvez seja isso a maturidade, a passagem de sentimentos infantis a sentimentos nobres diante dos mesmos fatos lembrados. As memórias são as mesmas, elas não mudam de forma alguma, só nós que mudamos nossa apreciação delas, mesmo que essa mudança por vezes seja tão radical, tão abrupta que... bom, isso não quer dizer que tenhamos mudado tanto assim, talvez só signifique que as mudanças espirituais pelas quais passamos sejam mais ou menos intensas, abruptas, revolucionárias, caóticas.
    Termina aqui esse capítulo, uma reflexão sobre as lembranças.

    E sobre o sótão. Bom, é por isso que é um sótão. Um sótão é como um lugar muito nosso, secreto, mas não sordidamente secreto, não um lugar de recreio das paixões baixas, das vontades imorais, não há nele nada além da inocência mais virginal, ou seja, uma inocência inexistente, que precede a existência, a inocência do ser simplesmente. Associe o que é uma lembrança com o sótão e entenderá porque não apenas não sou um homem do subsolo, não tenho um subsolo e não creio nele, de jeito nenhum! Talvez eu tenha tido muita sorte em nunca ter enfrentado crises muito intensas, sofrimentos por demais agudos, ou talvez a minha frivolidade, a minha jovialidade, sejam algo natural da minha personalidade, algo que pouco se deixa tocar pelos sofrimentos que são facilmente purgados e, se a dor não é perdoada,é esquecida. Não sei se tive, se tenho uma vida fácil, não sei se a facilidade de viver, o desejo de viver suplanta minha hiper-sensibilidade com alguma resistência narcótica perante a dor, mas o fato é que se não a tolero nos outros, se tenho dificuldade em alimentar ódios e rixas, eu elimino, curo, muito levianamente, a minha própria dor. Ela simplesmente passa, seja com uma brusca mudança de interesses, seja com uma letargia jovial que me é peculiar, é esquecida e, para isso, nem precisa de muitas justificativas morais e religiosas: estas não passam de uma capa com a qual cubro a falta de profundidades das minhas dores, a dificuldade com a qual... bom, estou me adiantando novamente. Basta dizer o porquê: o sótão é aquele lugar do qual nunca nos lembramos, raramente dele temos consciência, onde guardamos alguns pertences e objetos de valor relativo, dos quais nos esquecemos mas que ao serem redescobertos e reexaminados, nos despertam todo um novo mundo de sensações, sentimentos e pensamentos sobre o passado, um passado que se desdobra diante de nós, que, permanecendo sempre o mesmo, é experimentado das formas mais variadas, com os cheiros, gostos, aparência, imagens mais variadas, contraditórias, dolorosamente nítidas, verdadeiras drogas psíquicas e, ocasionalmente, epifanias. O sótão é um lugar para almas frívolas, que tem pouca ou nenhuma experiência da auto-demolição causada pelos sentimentos por demais profundos, da auto-consciência exagerada, de um amor-próprio exagerado, da propensão mística ao sofrimento, à uma transcendência violenta e desconfortável. É um lugar de almas corajosas, viris, firmes, mas que tem um coração feminil, compassivo, sensível até o paroxismo, um lugar separado para aqueles espíritos perdidos que não se enquadram nem no quadro das almas olímpicas, guerreiras nem no mundo inférnico dos seres amantes dos prazeres imundos, escravos das vontades e desejos egoístas, verdadeiros demônios da gula e da avareza, da luxúria e da vaidade, a comunidade amplíssima dos maus e dos fracos, dos cruéis e impiedosos e dos vermes, dos bêbados, dos devassos, dos ignóbeis e covardes. Somos, nós, homens do sótão, aquele meio-termo, aquela coisa que vaga, que plana por sobre o abismo. Você certamente conhece vários desses, talvez você mesmo pertença a esse grupo, ou conheça alguém, algum escritor ou poeta famoso, ou até algum tirano ou o mais reles canalha, quem sabe?
     
    • Ótimo Ótimo x 1

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