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OS GIRASSÓIS CEGOS, de Alberto Méndez

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por JLM, 13 Dez 2008.

  1. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

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    A memória da maioria dos brasileiros relacionada às guerras históricas não é lá grande coisa. Lembra-se das duas Grandes Mundiais, das recentes e divulgadas na mídia, como a do Golfo e a do Vietnã, algumas estudadas na escola, como a Civil Americana, a do Paraguai, a de Canudos e, fora outras poucas a mais, não saberá muito sobre outras que não só influenciaram e transformaram locais, épocas e pessoas, mas também culturas e modos de pensar completamente. Uma destas foi a Guerra Civil Espanhola, ocorrida entre 1936 e 1939.

    Historiadores acreditam, inclusive, que ela foi o estopim para a Segunda Guerra Mundial, pois não só os espanhóis, republicanos e franquistas (nacionalistas), combatiam entre si, mas tinham apoio com armas, soldados e estratégias militares da Alemanha, Itália, Portugal, Irlanda, Vaticano e URSS. Intelectuais se engajaram na luta ao lado dos republicanos, como Ernest Hemingway, George Orwell e Saint-Exupéry, entre outros. Apesar disso, venceu o Movimento Nacional do general Francisco Franco, mas perderam todos os espanhóis: mais de 400 mil mortos (ou 2 milhões pelos cálculos mais pessimistas), e mais da metade das residências, lavouras e criações foram destruídas, havendo uma queda na economia que duraria décadas. Mas, um lado da guerra que não é muito mostrado, apesar de estar lá, é o dos que não estão nos campos de batalha: a dona de casa, o poeta, o intelectual, o padre, a criança, e que refletem até hoje no inconsciente espanhol. Foi isso que o escritor Alberto Méndez (1941-2004) procurou resgatar no livro Os Girassóis Cegos.

    Talvez você, como um leitor seletivo, não goste de guerra, talvez prefira ler sobre algo mais próximo no tempo e no espaço, algo que fale sobe o Brasil neste final de 2008, algo que fale sobre a sua vida. Pois esta é a principal vantagem da boa literatura: ela é universal e atemporal. Os Girassóis Cegos é exatamente esse tipo de literatura. Basicamente, o livro traz 4 contos, com personagens diferentes, mas que se entrelaçam no mesmo ideal: passar a sensação ao leitor do desespero frente à algo brutal, algo que vemos em qualquer lugar. O livro consegue desenterrar o desespero, a melancolia, a desesperança que marcaram gerações. O próprio autor comentou que o personagem principal é a derrota. Quem ler o livro verá que Méndez foi modesto na sua afirmação. São vários protagonistas, entre eles a solidão, a paixão, a amizade e a cumplicidade. Todos velhos conhecidos dos leitores brasileiros, bem como os de qualquer país.

    Cada conto possui dois títulos. O primeiro conto se chama “A primeira derrota: 1939 ou Se o coração pensasse, deixaria de bater”. Conta a história do capitão Carlos Alegria, que, integrando as tropas que estão prestes a vencer a guerra, ao saber disso, rende-se aos inimigos. Vira um vencido entre os vencidos. Mas quem em sã consciência faria uma idiotice dessas? Talvez as pistas sutis no conto revelem: ele passou alguns dias enterrado em uma cova pública e saiu com vida, foi maltratado pelos que recusavam dar-lhe água e pão e tratar das suas feridas porque estava maltrapilho em suas portas, e saiu gratuita e deliberadamente de uma posição superior, vitoriosa, para sofrer entre os desgraçados, sendo maltratado por e com estes. Não é difícil ver a semelhança do capitão Alegria com outro personagem histórico mais famoso do que ele. Mas o seu fim definitivo só é revelado no terceiro conto do livro.

    Em “A segunda derrota: 1940 ou Manuscrito encontrado no esquecimento”, é encontrado um diário em uma cabana abandonada, ao lado de dois esqueletos, um adulto e um bebê. O diário narra a tragédia que houve ali. A história começa tensa e o desespero aflora em conta-gotas até transbordar toda a alma do leitor. Nunca a morte foi aguardada de uma maneira tão dolorosa e esperançosa. As páginas datadas, as descrições do que havia em cada folha além das palavras tornam a narrativa dramática muito mais vívida.

    A terceira derrota: 1941 ou O idioma dos mortos” traz a história de um condenado que tem a pena de morte adiada por contar uma mentira ao seu executor, o coronel Eymar. Por que uma mentira que cura uma ferida é melhor aceita? O coronel sabe que é mentira, então, quem estaria enganando a quem? “Quando alguma coisa é inexplicável, aventurar uma razão plausível é o mesmo que mentir, porque os que precisam administrar verdades costumam chamar a confusão de mentira” (pg. 67). A rotina dos presos aguardando a morte enquanto ela insiste em transformar a espera em tortura é alongada até que não restar mais nenhuma forma de esperança. Ou, a esperança passa a ser fatiada em dias, em horas, em gestos, para ser usada temporariamente como uma manta contra a gélida e sombria desilusão.

    O último conto, “A quarta derrota: 1942 ou Os girassóis cegos”, ganhou o prêmio Setenil de contos e, postumamente, o Prêmio Nacional de Narrativa e o da Crítica. É o conto que dá nome ao livro e consiste em 3 narrações simultâneas, uma carta (escrita em itálico), uma lembrança (em negrito) e a história que une as duas anteriores, girando ao redor das relações entre um padre, um menino e os seus pais. Os sentimentos, desejos e medos de um personagem dissimulado e/ou mal interpretado em uma narrativa, fica evidente em outra, dando o efeito literário do leitor conseguir captar enganos e intenções ocultas. Um destaque especial fica com a virtuosa cena de sexo entre o casal, altamente poética e nem um pouco vulgar. Neste conto tríplice que o título “girassóis cegos” é explicado, embora através da reflexão se consiga chegar até a sua interpretação. Em 2008, o conto virou filme com direção de José Luiz Cuerda e provavelmente será o concorrente espanhol ao Oscar de melhor filme estrangeiro, sendo um grande candidato a ganhador, se transmitir na tela as mesmas sensações que conseguiu nas páginas.

    Esqueça se a capa do livro foi produzida por um webdesigner com cores berrantes para chamar a atenção. Esqueça que o livro no Brasil foi publicado por uma editora desconhecida, sem ter divulgação na mídia. Esqueça se há alguns “equívocos de tradução” e “erros de revisão”. Esqueça que o autor imitou o estilo de outros escritores. Esqueça que o assunto é sobre outro país e outra época, e que o livro já vendeu mais de 120.000 exemplares no mundo todo. Esqueça tudo isso. Você só precisa lembrar que é um livro vai mexer contigo, entregando você em casa diferente de quando partiu. E tem mais, além de ser recomendado para os leitores exigentes, é uma ótima fonte de idéias para os escritores, praticamente uma aula literária e lingüística.

    Méndez usou personagens reais mesclados com a ficção literária. Ele admitiu que são histórias que ele ouviu desde criança (ele nasceu em 1941) de seus pais e tios e amigos da família, e as adquiriu como uma memória por osmose. Alberto Méndez trabalhou como editor durante muitos anos e, infelizmente, escreveu só este livro, pois veio a falecer em 2004 de câncer. Ao morrer, deixou um romance incompleto, que se passava na Espanha socialista. Mas deixou uma obra-prima pela qual será lembrado por décadas. É descrito como “Lector tenaz y exigente, escritor inteligente y sensible, con un respeto inusual hacia las palabras y los rigores del lenguaje”. Ele consegue juntar história, estilo literário, dramaticidade e originalidade em doses certas, aquelas que viciam o leitor já no primeiro parágrafo. Melhor para ele, que será lembrado como um grande escritor, pior para nós, os que tiveram a sorte de se apaixonar pelas suas palavras.

    Ficha técnica
    obra: Os girassóis cegos (Los girasoles ciegos), de Alberto Méndez
    tradução: José Feres Sabino
    edição: 1ª, Mundo Editorial (2007), 154 pgs
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  2. Excluído01

    Excluído01 Banned

    Parece ser legal . Mas acho que não é meu tipo de livro ...


    Mesmo assim , valeu , ótimo post !





    :tchauzim:
     
  3. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    Eu também pensava assim, LonelyPirate, antes de ler o livro.
     
  4. Excluído01

    Excluído01 Banned

    Mas depois que você leu , o que você achou ? Valeu a pena ?





    :tchauzim:
     
  5. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    Uai, eu escrevi a resenha acima depois de ler.
     
  6. Artanis Léralondë

    Artanis Léralondë Ano de vestibular dA

    bah não sabia que o Saint-Exupéry tb participou da Guerra Civil Espanhola

    isso me deixa super angustiada, lembrou-me Kil Bill xD

    esse livro deve ser muito fo*&%!

    Esse é o conto que mais me chamou a atenção, eu gosto do tema morte e como os escritores a descrevem, parece que ganha mais vida ^^

    Bom, também aprecio histórias sobre guerra e, particularmente, Guerra Civil Espanhola eu não tenho muito conhecimento não, e esse é do tipo do livro que merece ser comprado.
    Normalmente narram a história de uma guerra com soldados, armas,bombas, etc.
    E está não, é através de pessoas comuns as quais são os telespectadores, bem curioso =D

    Esses contos são ótimas para serem discutidos lah no clube tb :joy:

    Ótimo tópico JLM ^_^
     
  7. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    ñ é atoa q elegi esse livro como minha melhor leitura de 2008... ganhei ele da editora para resenhar e me pegou de surpresa.
     
  8. Artanis Léralondë

    Artanis Léralondë Ano de vestibular dA

    Melhor livro de 2008, puxa =D
    merece respeito :sim:
    eu vou votar nele na enquete, fiquei com muita vontade de ler, gosto do tema.
     
  9. Marcileia

    Marcileia Usuário

    Ótima dica JLM e parabéns pela resenha, muito bem feita (e convincente).
    Vou pôr o livro na lista!
     
  10. clandestini

    clandestini Cylon ou

    Mas bah, veio na hora certa essa sugestão. Estou com mue projeto de TCC sobre as narrativas da GUerra Civil espanhola.

    De desconhecido o livro se tornou leitura obrigatória!

    Muitíssimo obrigada!
     
  11. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    veja o filme também, recomendadíssimo e facilmente encontrável na internet.
     

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