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Os Dois Irmãos (ADULTO)

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Vinnie, 27 Fev 2011.

  1. Vinnie

    Vinnie Usuário

    +++++++++++++++++++++++

    "O hábito não é força a ser menosprezada. Saiba que até Satanás só é o Diabo por ser sempre o Diabo".
    Pe. Ítalo de Milano



    1

    Eram dois os espíritos que habitavam uma casa de vila no subúrbio. Haviam desencarnado de corpos insepultos e criado o hábito de visitar suas ossadas abandonadas à beira de uma estrada entre duas cidades. Ignoravam detalhes de suas vidas e até de como foram parar naquele matagal, mas impelidos por uma força estranha, ficavam olhando seus restos, que em meio a tantos outros davam a impressão de um estranho pega-varetas. Sentados ao lado de suas carcaças, imperturbáveis, viam as luzes dos caminhões que cruzavam a rodovia, feixes tristonhos que rompiam a quietude, iluminando carros há muito queimados e esquecidos. Esses momentos passavam como um transe de onde por vezes surgiam vagas lembranças, reminiscências frágeis: uma sala imensa, recheada de estantes e arquivos; uma mão branca que fere as cordas de um violão; e os dois, hoje mortos, à sombra de uma mangueira florida. A essa sensação, a esse lembrar desmaiado, estavam acorrentados, e dela retiravam sua única certeza, a de serem irmãos.

    Entretanto, a casa era sua prisão e sua morada, seu Ka e seu Ka-tet. Lá morava uma mulher, uma jovem arquiteta, e os dois espíritos se alimentavam dela. Saboreavam seus projetos sobre a prancheta e liam seus livros, lhe fazendo companhia um de cada lado do sofá, comportados e silenciosos, esperando que ela virasse a página com a ajuda de saliva.

    Quando chegava sexta-feira os irmãos mortos sopravam "CO-CA-Í-NA" no ouvido da moça. Ela sempre aceitava o toque e eles escoltavam o motoqueiro que trazia a droga, flutuando com um sorriso gêmeo, ímpio e ansioso, experimentando através da moça a vontade de vomitar que precede a cocaína. A violenta convulsão do vômito, os músculos da moça se contraindo, era o mais próximo que eles chegavam de viver. Cheiravam com ela - um ménage-, aproveitando a tão costumaz e apreciada quentura no rosto. Quase toda sexta tinha "festa" e os irmãos ficavam assistindo às ideias de depravação que a cocaína emprestava à moça, quase da mesma maneira que os vivos veem um desenho animado antigo e bom. Ela então se divertia com um travesseiro entre as pernas. Gozava rápido, tão louca e lindamente que, por um instante, eles criam que ela os via quando girava sua cabeça com os olhos abertos e vidrados pelo quarto.

    Sempre que ia ao matagal cumprir esse estranho ritual, essa aparente impossibilidade de visitar a si próprio, o mais novo perguntava:

    - O que é que nós somos agora? Somos demônios?

    Ao que o outro respondia sem tirar os olhos das luzes dos caminhões:

    - Sim, somos. Nós somos dois demônios.




    2


    Foi uma decisão insegura. Mas depois de muita conversa ficou decidido: queriam que ela os visse. Logo, porém, a certeza de que a tarefa era coisa impossível deslizou para sepultar seus planos. Como não era fato raro acontecer com os irmãos, eles esqueceram essas conversas, e, esquecidos, tornavam a falar da mesma coisa adiante, fosse no matagal ou empoleirados no encosto da cama, de onde olhavam a moça dormir.


    Já outros moradores tinham-lhes feito companhia nesse tempo que eles percebiam com a mesma apreensão movediça de ginasianos se acotovelando para ver uma gota de mercúrio dançar sobre uma lâmina. Será que a moça se aborreceria se soubesse que eles a acompanham no chuveiro? Como reagiria vendo o irmão mais velho sentado à mesa, lamentando os planos desmoronados que a mulher traz consigo das reuniões de quinta?


    O escritório da arquiteta ficava no último andar de um prédio do centro da cidade, e ela só o alcançava se esquivando de pessoas armadas com papeizinhos cheios de anúncios de financeiras duvidosas, restaurantes e casas de massagem. As pessoas esgrimindo esses papéis lembravam à moça o trabalho de um churrasqueiro, amolando um espeto no outro, em um estranho frenesi. Mas o trabalho na firma ia bem. Os primeiros treze meses já tinham parido a chefia de um importante projeto, que em seu bojo trazia viagens mensais e teleconferências solenes, bem como abortado as duas férias planejadas pelo namorado. Agora, emparedados por esse longo contrato, o namorado e a casa de praia, já por duas vezes alugada, vinham tomando a feição de coisa quase incomunicável, formas distantes de contornos pouco a pouco borrados, que para serem vistas é preciso apertar olhos. Ainda se falavam ao telefone para tramar passeios que sabiam que nunca iriam realizar. Passado algum tempo, esse planejar deixou de ser fruto de uma esperança para se tornar apenas um exercício conjunto de imaginação. Chegavam aos detalhes. Mas os encontros eram cada vez mais obstinadamente derrotados por compromissos famintos, apoiados por um amor estúpido a se ver ocupado com coisas inúteis.

    O namorado também tinha um emprego que todos achavam bom. Conquistá-lo foi motivo de tamanha comoção, que sua mãe achou por bem passar mal para atrair as vizinhas e contar a novidade. O pai fez surgir café e um bolo de fubá para as amigas ocupadas com a enferma. Quando acabou o futebol, posto que era domingo, os maridos, dando falta de suas patroas, descolaram os ouvidos dos rádios e foram atrás delas. Primeiro surgiram cabeças sobre o muro; seguiu-se um burburinho que vingou; logo uma mão mais íntima tratou de puxar o arame e abrir o portão: estavam dentro. Como não podiam deixar os pequenos sozinhos, os maridos arrastaram as crianças consigo. A valsa de todo esse reboliço acabou por puxar pelas orelhas a moçada que jogava sinuca no bar da frente. O esposo da doente se viu forçado a abrir uma bagaceira, mas falava do emprego do filho (e do piripaque da esposa) com solicitude, uma, outra e outra vez.

    "Desafio" - está aí uma palavra que os embotados usam quando nada mais têm a dizer. Por causa dela, o namorado havia marcado um encontro com a arquiteta na sua agenda, armado com as mesmas caneta e determinação com que aceitava (e batia) suas metas no escritório. Acreditava, na superfície, que seu esforço em encontrar a moça era filho do seu amor, sem perceber que o mecânico e simples prazer da vitória descansava dentro dele. Mas não foi tão fácil. Goradas as primeiras tentativas, obteve um reforço de um casal, amigos em comum. Recebendo a afirmativa, completou na sua agenda, à observação da moça: levar vinho.

    A arquiteta ficou perturbada com sua própria decisão. Depois que se conheceram - numa feira de peixes exóticos –, ela procurando um peixe-beta, ele representando uma distribuidora de aquários, a moça teve medo de não amá-lo, um gelo na barriga ante a possibilidade de lhe escapar o que acabou sendo seu primeiro amor. Agora, olhando o telefone que acabara de por no gancho, ela pensava nos sete meses escoados, via a paixão excitante e grávida de expectativas alongar-se, enfraquecer e passar a esta comodidade morna, a este ponto de interrogação que ela tinha diante de si.







    ++++++++++++
     
  2. aces4r

    aces4r Usuário

    RE: Sexta-feira (ADULTO)

    Espero pela sexta-feira agora...
     
  3. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    RE: Sexta-feira (ADULTO)

    She don't lie, she don't lie , she don't lie; cocaine.:cool:
     
  4. Vinnie

    Vinnie Usuário

    RE: Sexta-feira (ADULTO)

    Obrigado pela leitura, Paulinha e Aces. :tchauzim:


    Fiz algumas alterações depois de reler o continho. Senti que não consegui passar a ideia que tinha em mente e acabei dando margem a uma interpretação "meio evangélica", segundo uma amiga que também leu. Essas mudanças mexeram com o texto completamente. Saíram algumas referências a "espírito impuro e diabo". Achei que a troca de foco deixava o título estranho, mudei para "Os Dois Irmãos".
    :lily:

    As partes que adicionei estão em negrito.


    mais uma vez, obrigado.
     
  5. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    antes d ler o seu comentário eu já ia falar sobre o tom bíblico. talvez seja pelo uso das palavras q remetem a este ambiente: satanás, diabo, espírito, desencarnado. vc já pensou em tirar do texto essas palavras (colocando sinônimos) para ver se ele tem 1 efeito diferente nos leitores? talvez essa impressão mude.
     
  6. imported_Sun

    imported_Sun Usuário

  7. Vinnie

    Vinnie Usuário

    JLM & Sun, valeu pelos comentários. :tchauzim:


    Jota, você está correto. O texto tem sido alterado constantemente, de modo que toda a ideia original foi mudada; restam ainda "destroços" da outra encarnação dele. Um exemplo disso é a parte da cocaína, eu não queira mantê-la, mas preciso mudar o foco. Essa parte está deslocada do texto e pretendo reescrevê-la. Obrigado.
     
  8. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Continuei minha historinha amoral, esta dos dois espíritos morando com uma moça. Agora pus o namorado dela em cena. Espero que gostem.
     

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