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O Sol Também se Levanta-Hemingway

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por Pveti, 23 Mai 2008.

  1. Pveti

    Pveti Usuário

    Alguém já leu???? O que achou ?????
    Pois é, eu acabei de terminar, e curti...
    Muito bom...Recomendado aos que não leram ainda...
    :D
    Abraço
     
  2. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Acabo de ler o romance de estreia do Hemingway. Digo "ler", mesmo o tendo feito há muitos anos. Tudo que eu me lembrava era de um camarada que gostava de uma mulher, e não podia amá-la, uma impossibilidade física. Hoje, passando os olhos na última página e fechando o livro, dá pra perceber muito mais.

    Ele é frequentemente referido como registro absoluto da "Geração Perdida", grupo de expatriados americanos que vivia na Paris dos anos 20 - quem viu Meia-noite em Paris está por dentro;uma obra de estreia que recebeu recepção calorosa e catapultou Hemingway para a fama; um livro misógino sobre bebedeiras....

    O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi a coragem de Hemingway. Eu explico e especulo: como deve ter sido difícil descrever o modo de vida daquele grupo, tendo como críticos Fitzgerald e Stein! A escolha do autor, a de retratar seus amigos, autores do renome de James Joyce, embora muito natural, o expõe ao imediato escrutínio do grupo. Acredito que o romance, por tratar de algo tão próximo a todos, de suas vidas, em vez de tornar as coisas mais simples, agravou-as, na medida em que qualquer artificialidade seria flagrante.

    Mas, das descrições das touradas às ressacas homéricas, passando por Brett (talvez a personagem feminina mais singular do Papa) nada é falso. O romance, como eu disse no início, é narrado por Jake Barnes (o tal do problema físico). Ele, o pugilista Cohn, o amigo Bill, o falido Michael e Brett partem de Paris para apreciar a Fiesta em Pamplona. E vão os homens, como planetas, orbitar Brett, cortejá-la, desejá-la e ser confundidos por ela, que com eles "joga", os manipula e os ama. Barnes, que lhe tem amor, mas não o pode dar; Mike alimentando ódio e repulsa e Cohn, que nutre um desejo masoquista se respeitam e se agridem, vivendo como se fossem morrer no dia seguinte, aproveitando tudo.

    "Os únicos que vivem com a intensidade que desejam são os toureiros" - disse Barnes em resposta a uma crise existencialista de John Cohn.
     
  3. Lu Eire

    Lu Eire Usuário

    Que bacana, estou interessada! Será que é mais interessante ler no original mesmo?
     
  4. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Lu, a prosa direta de Hemingway torna as coisas fáceis no inglês... vá de original, é sempre melhor.
     
  5. Raphael_Dias

    Raphael_Dias Usuário

    É um livro fantástico, estou no último capítulo. Hemingway mostra que não é necessário fugir da realidade para contar uma boa história, além de descrever muito bem o cenário a Paris da década de 20 com os escritores e jornalistas bêbados, expatriados após a primeira guerra.
     
  6. Haleth

    Haleth There's no such a thing as a mere mortal

    Esse livro me fez ser a favor das touradas. Hihihi
     
  7. Raphael_Dias

    Raphael_Dias Usuário

    Verdade Manu, Hemingway faz isso com as pessoas. Depois dele passei a me interessar por touradas, caça, boxe, pescaria...
     
  8. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Aconteceu tudo isso comigo, Rapha. Hemingway é um verdadeiro estilo de vida. (Viu o trocadilho no nome,, hhhahaaha)

    Não sei se a galera sabe, mas o Papá escreveu mais sobre touradas. "Verão Perigoso" é uma bela e longa reportagem sobre o tema, com foco na disputa entre Ordonez e Dominguin.. os maiores matadores da época.
     
  9. chumaco

    chumaco Usuário

    Concordo com tua fala, mas a tradução que saiu pela Bertrand Brasil alguns anos atrás é bastante aceitável também. Não gosto muito das traduções antigas, de Monteiro Lobato - os palavrões são trocados "..."
     
  10. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Maneiro seu comentário Vinnie. Estou na metade de O Sol Também se Levanta e devo dizer que há algo de melancólico por detrás de cada aventura que o Hemingway descreve. É bem velado, discreto mesmo, mas está lá. Acho que isso é reflexo do sentimento que ficou conhecido como 'Geração Perdida', né? São jovens que foram atingidos pela guerra ou pelo choque de serem expatriados e agora não possuem necessariamente um sentimento de pertença a algum lugar específico.

    Quando eles flanam pela Europa, a meu ver, tanto estão em busca de aventuras e boa vida quanto estão também em busca de algum rumo, algum sentido para encaminhar suas vidas. Pescar, assistir às touradas, ter uma vida boêmia, enfim, ser um bon vivant tem algo de estar meio sem direção em O Sol também se Levanta. Ou estou exagerando?
     
  11. Raphael_Dias

    Raphael_Dias Usuário

    Tive a mesma impressão Lucas. Como se todos os excessos fossem um disfarce, mas não acho que a expatriação tenha tido um papel tão forte, a não ser que o fato de eles parecem mais à vontade com a cultura européia que a americana (pelo menos Jake dava essa impressão) seja um disfarce também. Eu imagino que o pior foi a guerra, ter passado, tão jovem, por tantos horrores que aparentemente não resolveram nenhum problema ou trouxeram consequências diretas. É contra esse vazio, essa impressão de ter sofrido por nada (novamente, principalmente Jake que "perdeu a masculinidade" na guerra), que eles lutam.
    Essa foi a minha impressão, não sei se ficou claro.
     
  12. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Pode ser, pode muito bem ser, Raphael. Conforme avanço na leitura, cada vez mais me lembro do livro de Erich Maria Remarque, Nada de novo no front. O protagonista desse livro, Paul Baumer, foi muito cedo posto no front de batalha, de modo que, quando a guerra terminou e eles foram dispensados, não havia nada que soubessem fazer. A não ser serem soldados. A profissão deles era militar, matadores, dependendo de quem a eles se referir. Por isso há um sentimento de inadaptabilidade irreconciliável com a vida pós-guerra, atrás do front.

    Tem uma citação do livro, inclusive, que me chama muito a atenção e que parece contemplar a situação dos boêmios da geração perdida. Remarque diz que seu livro "(...) procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra.”

    Não sei muito bem qual é o papel que a guerra possui para os viandantes de O Sol também se Levanta, não há muitas referências nesse sentido, mas certamente há neles um sentimento de inaptabilidade, que eles conciliam melhor com a Europa do que com os Estados Unidos, é o que me parece. O velho continente tem mais espaço para os romantismos que vemos no livro, os Estados Unidos estão mais focados numa racionalidade exagerada, típico do que Max Weber chama de "espírito" do capitalismo, que não oferece a mesma flexibilidade subjetiva.

    Alguém sabe me dizer qual a relação da Primeira Guerra Mundial com os personagens de O Sol também se Levanta e com Hemingway, em específico?

    Ah, outra coisa: haverá uma explicação mais direta com relação ao título? Ainda não cheguei a uma parte que se refira diretamente a ele, então pode ser que ainda vá encontrá-la.
     
  13. Raphael_Dias

    Raphael_Dias Usuário

    Exatamente, não li "Nada de novo no fronte", mas a ideia é essa, mas em "O sol também se levanta" eles escondem a inaptidão com superficialidades.

    Quanto a relação dos personagens com a guerra, grande parte deles esteve lá, incluindo Brett que foi enfermeira. Já Hemingway em si, esteve na primeira guerra, mas se feriu muito cedo e voltou para casa. Esteve também na segunda guerra, por causa disso é visível em seus livros e citações a crítica as guerras de qualquer espécie.
     
  14. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Não acho que vc esteja viajando não, cara. Penso que é por aí mesmo... Razão pela qual "O Sol também se Levante" ficou com a alcunha de livro da geração perdida... por funcionar como simulacro pra tudo que aconteceu com eles nesse "entre guerras". No livro, Hemingway inicia um tema que marcaria toda sua obra: a urgência, a proximidade da morte; daí o hedonismo do Papá...


    Lucas, pelo que sei, Hemingway foi recusado no alistamento... então se ofereceu como voluntário. Acabou participando na guerra como motorista de ambulância. Ele conta isso em "Adeus às Armas".

    Nisso de todos irem pra europa está a ideia de que lá seria mais livre.. "ser jovem num lugar muito velho e livre".... Fitzgerald (Belos e Malditos)
     
  15. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Massa! Já estou com Por quem os Sinos Dobram.

    Maneiro ver como não sou o único que penso a respeito dessa forma em relação à assim chamada 'geração perdida'. Não acha que devamos exagerar e tratá-los como sujeitos completamente à deriva, alienados por não saber nadica de nada do que fazer da vida, mas acho que precisamos ter em mente que eram sujeitos cuja experiência com a guerra havia transformado sua maneira de ver a vida, o universo e tudo o mais.

    A Primeira Guerra Mundial passou a ser o estigma sob o qual suas vidas passaram a existir. A guerra e a morte (ou a finitude da vida) estão muito próximas nesse sentido. Pelo menos essa é a impressão que me passa O Sol também se Levanta. O hedonismo que o Vinnie falou é tanto o medo da morte quanto o resultado da experiência de ser um soldado na guerra, ainda que não tenha estado exatamente no front (se estivesse lá, é muito provável que não saberíamos quem é Hemingway).

    Creio que há algo mais presente na obra da 'geração perdida' do que a presença constante do fantasma da guerra. Peguemos Fitzgerald, por exemplo. O Grande Gatsby, tanto quanto alguém que fora afetado pela guerra, é alguém atormentado pelas suas posses, pois, através de seu romance do passado, ele percebe o quanto sua ascensão material foi inversamente proporcional ao crescimento espiritual. O Grande Gatsby é um grande lamento acerca do preço da riqueza, de como as posses acabam possuindo o homem e transformando-o num ser duro, distante e frio.

    Vários dos livros de Fitzgerald parecem ser melancólicos não necessariamente por causa da guerra, mas por conta dessa pequenez espiritual, esse solapamento do romantismo aventuroso e idealista, que foi sendo varrido dos corações e das mentes das pessoas fortemente depois do início do século XX. A década de 20 foi um acontecimento boêmio sem igual, mas ao mesmo tempo atormentou Fitzgerald pelo seu hedonismo exacerbado. Os esbanjos e o carpe diem acabaram por fazê-lo pensar sobre a fugacidade da vida e sobre os objetivos de sua obra.

    Quem sabe a preocupação de Fitzgerald a respeito do estreitamento espiritual do "mundo" não fosse o motivo pelo qual Hemingway tão obstinadamente se empenhava em viver suas aventuras? Talvez essa fosse sua maneira de não se deixar engolir pela sisudez e mesquinhez de um mundo devotado ao dinheiro...
     
  16. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Tem uma passagem na página 158 (minha edição é a da Coleção Imortais da Literatura Universal, publicada pela Abril Cultural em 1972 com tradução de Berenice Xavier) que parece exprimir o que a boêmia representava para a geração perdida e os personagens de O Sol também se Levanta:

    Parece que antes de um engajamento mais direcionado ou de uma crítica elaborada, a geração perdida buscou 'esquecer' dos traumas através da boemia, da bebida, das festas, das aventuras românticas etc.
     
  17. Spartaco

    Spartaco James West

    Essa é a mesma edição que eu tenho. Realmente essa foi uma ótima coleção; com ela, praticamente, me iniciei nos clássicos.
     
  18. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    O Jake é o mais emblemático personagem do romance no que diz respeito a representar a 'geração perdida', pois foi a guerra - através de um ferimento de explosão de granada muito similar àquele do qual foi vítima Hemingway - que fez com que ele se tornasse incapaz de "amar fisicamente" a Lady Ashley Brett. A não consumação desse amor só faz aumentar a ferida deixada pela guerra, tanto em nível físico quanto espiritual e torna seu sofrimento ainda mais melancólico.

    O Sol também se Levanta às vezes parece uma compilação de quimeras do tipo 'se', em que a guerra tem papel primoridla como elemento que impede os sujeitos de serem plenos, de realizerem-se. As quimeras são os últimos lampejos de esperança deles, sua tentativa ao mesmo tempo patética e admirável de contornar suas próprias chagas e romper os laços espirituais pungentes que a guerra os legou. O trecho final do livro, uma conversa entre Ashley Brett e Jake Barnes, exprime bem esse sonhos aparentemente irrealizável de subtrair-se a essa condição:

    Parece Casablanca, quando eles dizem que sempre terão Paris. No caso eles não tem nada concreto, mas uma quimera.
     
  19. Estou lendo esse livro, bem o estilo do Hemingway, direto e objetivo com dialogos cheios de significado, deu a maior vontade de conhecer Pamplona e andar pela avenida Hemingway. Essa geração ¨perdida¨é de um charme e um glamour fascinantes.
     
  20. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Interessante ver como essa visão inspirou toda uma geração de autores, que a traduziu a seu modo. Os beats exploraram isso tudo com benzedrina e maconha.
     

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