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O sifu, o Pasquim e os 40 anos do AI-5

Tópico em 'Quadrinhos' iniciado por Breno C., 14 Dez 2008.

  1. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Este sábado, 13, marca os 40 anos da implantação do Ato Institucional número 5, o mais duro do regime militar brasileiro (1964-1985).

    O AI-5 ampliava os poderes dos militares no poder ao mesmo tempo em que limitava a liberdade democrática e individual.

    Meses depois, já em 1969, surgiu no Rio de Janeiro o "Pasquim".

    O jornal alternativo -berço de escritos, cartunistas e quadrinistas- tornou-se uma das vozes mais contundentes de resistência à ditadura.

    A convite do blog, o desenhista e doutorando em ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense) Márcio Malta preparou um artigo articulando todas essas datas.

    Autor de uma biografia sobre Henfil, um dos integrantes do "Pasquim", Malta viu nas datas elos com o "sifu" dito em público pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início do mês.

    Segue a análise dele, que deve ser publicada de forma mais detalhada em revista científica.

    ***
    Em discurso para uma platéia de artistas no último dia 4, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se valeu do termo "sifu" para manifestar a sua concepção otimista diante da crise econômica que ameaça invadir o país. A reação da imprensa e de setores da oposição foi a de criticar o discurso e o qualificar o "Você (como médico) diria ao paciente: Meu, sifu? " como extravagante. Ao ser transcrito e publicado pelo órgão governamental responsável, o discurso foi editado e onde entraria o suposto palavrão foi inserido o termo "inaudível".

    Buscamos situar a fala do presidente em um contexto mais amplo e localizar as origens da expressão sifu, associadas ao surgimento de uma nova forma de se falar, proporcionada principalmente pelo jornal alternativo "Pasquim". Aproveitamos desta forma para relembrar duas datas significativas de nossa história nacional: os 40 anos da edição do Ato Institucional de número 5 -marcados neste sábado- e os 40 anos de publicação do primeiro número do jornal "Pasquim", a acontecer no dia 26 de junho de 2009.

    A título de contextualização, podemos definir o regime militar brasileiro como um dos momentos mais dramáticos da história nacional, no que pese o não-reconhecimento dos direitos mais elementares do cidadão. A marca de tal regime foi o rompimento da legalidade jurídica, suprimindo direitos por meio da promulgação de diversas leis de exceção denominadas Atos Institucionais (AI).

    O Ato Institucional número 5 foi baixado no dia 13 de dezembro de 1968. A edição do AI-5 foi caracterizada pelos estudiosos do período como um golpe dentro do golpe. Representou um fechamento do regime, especialmente em termos de censura e controle da imprensa.

    Como foi editado no fim de 1968, o ano de 1969 foi o primeiro sob o signo do AI-5. Apenas seis meses após sua edição, surgia o jornal O Pasquim. Em princípio mais voltado para o humor, com o tempo o jornal foi se politizando, principalmente por conta das pressões que culminaram na prisão de boa parte da redação.

    A publicação se enquadra em um tipo de imprensa que ficou conhecida como "alternativa". Durante a ditadura esses jornais cumpriram destacada função ao permitir que - mesmo sob censura - os descontentes dessem vazão aos seus anseios. O Pasquim permitia a seus leitores um sopro de esperança, servindo de porta-voz para aqueles que tinham a fala embargada pelas limitações impostas.

    Um dos responsáveis por introduzir um comportamento que se tornaria anos depois a marca do jornal Pasquim, o cartunista Henfil usava e abusava de palavras estigmatizadas pela sociedade, como cocô, meleca, além de criar novas, que se tornaram nacionalmente conhecidas, como o indefectível gesto obsceno (o top-top) do fradim Baixim.

    Na redação do jornal, existia uma espécie de competição interna para ver quem inventava mais expressões a partir de junções ou corruptelas de palavrões que, suavizados, poderiam ser assim publicados, dando um "chapéu" na censura. O historiador Lincoln de Abreu Penna, em "Auto História - A Intervenção no Social", credita o sifu como uma "expressão cunhada pelo Pasquim para ludibriar a censura, que não admitia palavrões. Sendo assim, essa expressão sintetiza o se fodeu".

    Apontamos em termos de colaboração, os indícios e conversas com pessoas mais velhas demonstram ser o termo mais antigo, encontrando-se em uso há bastante tempo nas rodas de conversa cariocas. Aliás, nem sequer no âmbito do "Pasquim" temos o poder de definir exatamente o criador do sifu, pois, como relatado, existia uma espécie de competição interna ao jornal para ver quem inventava mais expressões desse tipo.

    Cabe destacar que ainda no primeiro ano de publicação do jornal, o cartunista Ziraldo já catalogava em suas páginas um novo dialeto, o Spasquinglish. Por meio de ilustrações, o cartunista definiu em 15 quadros o significado de cada síntese de palavrão. Na compilação já constam variantes do sifu: o sifo, o mifo e o nosfu.

    Com o título de "Abaixo o palavrão!!!", o texto de Ziraldo - uma defesa do uso do palavrão através de eufemismos - é sucinto e vai direto ao ponto: "O palavrão é tão vital que é o único substantivo (ou interjeição) que já contém ponto-de-exclamação. Nós reconhecemos que uma boa empolgação ou uma emoção maior não pode viver sem um palavrão adequado."

    Segundo o método da Análise de Discurso, corrente ligada à área da Lingüística, um dizer é elaborado pelo sujeito a partir de sua expectativa construída em relação a seu interlocutor. Nestes termos, o presidente Lula possuía perfeita ciência de quem era a sua platéia ao proferir o sifu: artistas, que em geral costumam ter um comportamento mais despojado e liberalizante.

    De acordo com o historiador Carlo Ginzburg, a investigação científica deve ser focada em resíduos e dados marginais que a princípio poderiam soar irrelevantes, mas seriam dotados de grande valor na interpretação dos contextos analisados.

    Sustentamos que a fala do presidente está ancorada na transformação dos costumes proporcionada pelo O Pasquim. O semanário se caracterizou pela resistência à ditadura militar, transformando-se em uma referência obrigatória para os oposicionistas ao regime, seja por seu posicionamento ousado no campo do comportamento, seja pelo combate permanente à censura.

    Assim, localizamos algumas pistas da identificação de Lula com o jornal O Pasquim. Por meio de um silogismo, podemos inferir que o presidente Lula, enquanto membro da oposição ao regime militar, era leitor do tablóide. Da categoria de simples leitor, Lula chegou a ser entrevistado em março de 1978, como sindicalista, denominado na capa como "o líder metalúrgico".

    Na entrevista ao semanário, em resposta à pergunta de Ziraldo de quantos anos de batalha tinha, Lula afirmou que iniciou a sua militância no mesmo ano de criação do jornal O Pasquim: "Comecei no sindicato em 69, levado por meu irmão".

    Somado à coincidência de datas, está o reconhecimento do próprio presidente na contribuição em sua formação política de um dos colaboradores de primeira hora de O Pasquim, Henfil.

    Em entrevista, Lula utilizou-se de outros palavrões - desta vez sem eufemismos - para declarar a importância de um dos membros do Pasquim em sua trajetória: "Eu achava o Henfil do cacete! As páginas dele eram um sarro! (...) em 74, 75, em plena repressão, ler as críticas do Henfil nos desenhos era uma coisa fantástica. Contribuíram para a minha formação política."

    A imprensa se posicionou de forma contrária ao uso do termo por parte do presidente Lula, tendo jornal O Globo (05/12/08) creditado a ele a utilização de uso de expressão de baixo calão. No campo da política, os setores da oposição, capitaneados pelos partidos PSDB e DEM, receberam a notícia com acusações, sendo até mesmo ventilada a hipótese da criação de uma CPI do Sifu.

    Destacamos que o próprio Ziraldo em seu texto citado vaticinou que o uso do dialeto criado pelo Pasquim servia justamente para evitar constrangimentos e permitir o diálogo entre diferentes: "Entretanto há que se respeitar aqueles a quem o palavrão choca ou confunde. Somos a favor da convivência pacífica e aqui estamos para propor uma solução para o impasse: acabe-se o palavrão mas que a língua adote palavras novas tão precisas quanto necessitem a exteriorização de nossas emoções mais vigorosas."

    Longe de fazer apologia ao governo em questão, refletimos que os altos índices de popularidade do presidente Lula podem ser creditados em parte aos seus pronunciamentos coloquiais, tirando - assim como fez o "Pasquim" com o jornalismo - o paletó e a gravata dos discursos presidenciais.

    Mesmo tendo superado os tempos negros da censura ditatorial, o que assistimos por ora é uma censura moral, que insiste em tradicionalismos e artificialismos que não reproduzem os verdadeiros movimentos e costumes da sociedade nacional.

    Fonte:
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    Eu não sou da época do Pasquin, mas sei que ele foi importante não só para a política.
     

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