• Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

O mal de se sentir inteligente lendo... livros

Eriadan

Usuário
Usuário Premium
Hehehehe

O título do tópico é uma referência óbvia a este tópico polêmico. E eu queria ir um pouco além na provocação. Não quero sustentar ponto algum, apenas fomentar uma discussão.

O artigo defende a existência de "níveis" de literatura [e eu vou sempre aspear esse termo aqui]. Os leitores que ficam estagnados na cultura pop estariam se contentando com um "nível" literário inferior. Só aqueles que escalam para obras mais consagradas pela academia podem se dar ao luxo de se sentir "mais inteligentes" como consumidores de literatura.

Em vez de questionar essa conclusão, eu quero partir dela e mudar a pergunta. Vamos tomar esse leitor que tem na bagagem milhares de obras literárias, das mais vulgares às mais complexas; que lê de tudo e com frequência. Ele necessariamente leva vantagem sobre o consumidor assíduo de outras artes, ou de outros canais de conhecimento e comunicação?

Por que a gente costuma achar que há mais mérito (ou resultado) intelectual em ler um livro do que em, por exemplo, assistir a um filme que tem a mesma abordagem?

1650034588329.png

Vou tomar Hemingway como exemplo. Adeus às Armas é um clássico celebrado, e é bastante provável que o autor do famigerado artigo o considere literatura de alto "nível". Mas o que o livro te entrega mais do que o filme? Em que ele te desafia mais do que o filme? São basicamente diálogos, tão objetivos quanto de um roteiro de cinema, assim como são as passagens de cena. Eu deveria me sentir mais inteligente porque li o livro?

Existe algum processo cognitivo que só acontece quando lidamos com a narrativa impressa?

Ou será que a diferença está nas sensações? Há algo de profundamente intrínseco nas palavras, na ausência de apelo visual ou sonoro, que não pode ser reproduzido em outros formatos? É a ausência total de outros estímulos que faz a gente sentir aquela coisa que só a leitura de um livro nos proporciona?

E, se há, determinados formatos não podem ser considerados literatura autêntica? Há uma perda irreparável quando acrescentamos outros estímulos? Quadrinhos são literatura? Audiobooks?

Quero opiniões!
 
Não é que ler te faz mais inteligente. Mas saber ler te faz mais inteligente, e o único jeito de aprender a ler é lendo.
E só se desenvolve a capacidade de leitura lendo coisas que te desafiem.

Não vou entrar no mérito do "nível" de literatura nem do estilo. Pode ser texto literário, didático, jornalístico, manual, etc. Tanto faz, mas é desejável que as pessoas saibam ler e entender algo com mais de 2 linhas.

Infelizmente minha experiência como professor diz o contrário. Vivemos uma epidemia de analfabetismo funcional. É algo bem grave.
Pra quem vive em um nicho alfabetizado talvez não se dê conta da gravidade da situação.

O buraco é bem mais embaixo do que o que você lê. Tanto faz. A questão é quão capaz de ler você é.
O que você vai querer ler é problema seu, mas é preciso que você saiba ler a ponto de ter autonomia de escolher livremente o que quer ler e não se contentar apenas com o que consegue, ou pior, simplesmente não ler porque não é capaz.
 
Marmanjo de 40 anos usando Harry Potter como referência política válida.
:lol:

Não é que ler te faz mais inteligente. Mas saber ler te faz mais inteligente, e o único jeito de aprender a ler é lendo.
E só se desenvolve a capacidade de leitura lendo coisas que te desafiem.
Estou lendo vários artigos acadêmicos de direito, filosofia e psicologia, para começar a ler Crítica da Razão Pura, e as outras Críticas do Kant.
Para só então começar a ler Hegel :lol:
 
Estou quase saindo de casa, então vou só ampliar um pouquinho o ponto bem apresentado do @Finarfin

Acho que foge um tanto da proposta inicial do tópico, mas pelo que observo há, junto da falta de saber ler (não o ler em si, como ler que “uma casa é verde” e saber de que objetos e características estamos falando, mas da interpretação, do saber enxergar o que um objeto artístico está propondo fazer, em que contexto está inserido, e, dentro desses parâmetros próprios, averiguar se tal proposta foi bem executada ou não - isso mesmo vindo de gente “bem lida”, porque:), vejo uma crescente ênfase no leitor (leitor aqui como qualquer um lidando com qualquer tipo de arte), no que ele busca de uma obra em oposição ao que a obra quer ser, quer entregar; então disso gera uma grande insatisfação, e uma visão crítica pobre (e isso mesmo dentro do âmbito profissional, não só nos skoobs e goodreads da vida); é aquele “esse livro/filme/album/etc não é pra mim”, quando nunca é, mesmo as obras mais populares, pensadas em atingir o maior número de pessoas possível não pode (ainda não, ainda bem) calcular certinho o que um indivíduo quer e/ou precisa o mais imediatamente sem mesmo saber disso e sanar essa falta - não é a obra artística que deve se adequar a você, mas o contrário.

E isso parte para um outro ponto, esse ainda mais debatido e esgotado, o da fragmentação contemporânea, a falta de atenção. É muito mais fácil ler um livro e deixar o verdadeiro sentido dele passar batido por uma leitura superficial, corrida, encaixada no meio de um sem fim de tarefas diárias, de preocupações; assistir a um filme uma vez só e cansado ou com a mente não disposta praquela exibição específica e criticá-lo precipitada e erroneamente; isso para não falar de música, em que cada vez mais a experiência do álbum, e o ouvi-lo várias vezes para o apreende-lo no seu todo em todos os seus mínimos detalhes, está sendo substituído pela degustação rápida das playlists com os maiores hits da estação...

O que quero dizer é que falta um senso de humildade, e de maior devoção à arte, por mais esnobe que isso possa soar... isso não quer dizer presumir que toda obra em si é melhor que você, mas se colocar no lugar em que se entende que se um artista trabalhou por horas, por anos, para apresentar algo ao público, talvez você deva dar mais atenção do inicialmente pensa, e no processo potencialmente sair enriquecido...

E isso acontece com os melhores de nós... ontem estava lendo nos diários de Woolf aquelas famosas passagens em que primeiro ela critica Ulysses de Joyce, por achar uma obra imatura e pretensiosa; depois ao conversar com um amigo e admirador do livro e que achava que esse seria lembrado como uma das maiores obras do século, ela, mesmo não negando o poder de sua primeira impressão, se pega pensando em reler alguns capítulos da obra para ter uma nova impressão, possivelmente.

No final é isso a ideia de humildade que quis passar. Não importa o quão grande você talvez seja ou ache ser; é sempre bom estar disposto a enxergar algo novo com olhos sempre renovados.
 
São muitas questões num mesmo tópico e estou com preguiça de escrever muito no celular, de modo que tentarei voltar aqui durante a semana que vem para ver se contribuo com alguma coisa num post mais organizado. Por ora já marco o @Mavericco pra falar sobre o processo cognitivo da leitura impressa (e sim, é uma puta vantagem em relação a ouvir audiobook ou ver um filme).

Mas o título do tópico ainda, ao falar de livros e não só de literatura stricto sensu, abre margem para incluirmos aí os demais livros: de ciências, política, sociologia, filosofia, história etc. etc. De forma que já podemos adiantar que, sim, ler, nesse sentido, ainda é a melhor maneira de expandir o conhecimento e se tornar "mais inteligente" (se ignorarmos por um momento que a inteligência é a "capacidade de compreender e resolver novos problemas e conflitos e de adaptar-se a novas situações" e não está necessariamente ligada com erudição e conhecimentos gerais). Num sentido leigo, costuma-se chamar de inteligente a pessoa que detém vasto saber, confundindo-a portanto com erudição.

Agora, se a questão era só falar de literatura (romance, poesia, conto etc.) e opô-la a filmes e outras artes, daí esclareça aí para reelaborarmos os argumentos.

Não, quadrinhos não são literatura. Quadrinhos são arte sequencial e se utilizam do elemento literário (texto) tanto quanto um roteiro de cinema, ou um filme legendado. É uma arte híbrida. Tanto mais porque você ainda pode ter quadrinhos sem nenhum balão, mas o texto deles, desprovido das imagens, raramente fará sentido sozinho. É uma outra forma de arte, distinta. Na contagem das artes tradicional, que põe o cinema como a sétima, já houve tentativas de inserir os quadrinhos como oitava, ou nona, ou décima... Não há consenso quanto a posições, o que no fundo é irrelevante. A única arte com uma alcunha numérica será mesmo apenas o cinema rs.
 
Última edição:
Vou tomar Hemingway como exemplo. Adeus às Armas é um clássico celebrado, e é bastante provável que o autor do famigerado artigo o considere literatura de alto "nível". Mas o que o livro te entrega mais do que o filme? Em que ele te desafia mais do que o filme? São basicamente diálogos, tão objetivos quanto de um roteiro de cinema, assim como são as passagens de cena. Eu deveria me sentir mais inteligente porque li o livro?

Existe algum processo cognitivo que só acontece quando lidamos com a narrativa impressa?

Ou será que a diferença está nas sensações? Há algo de profundamente intrínseco nas palavras, na ausência de apelo visual ou sonoro, que não pode ser reproduzido em outros formatos? É a ausência total de outros estímulos que faz a gente sentir aquela coisa que só a leitura de um livro nos proporciona?

Nessas horas eu sempre lembro de um dos meus livros e filmes favoritos: respectivamente, Os resquícios/vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro/James Ivory. Quem lê o livro prestando à voz do mordomo, percebe que o livro é uma comédia; quem assistiu a adaptação, viu um drama. A mesma coisa ocorre quando você pega algumas obras cinematográficas — Rede de mentiras, de Sidney Lumet, por exemplo, é um filme absurdo que inspira muita gente a ser reativa... não fosse o fato de ser uma sátira que critica como o ato de protestar pode ser capitalizado. Nesse sentido eu questiono a ideia de que seja apenas uma questão de "basicamente diálogos" porque toda leitura — ou releitura — traz consigo uma interpretação. Daí que eu penso que ou o autor procura deixar o mais claro possível o que quer ou sugere a ambiguidade e pronto — vide como volta e meia surgem discussões sobre Dom Casmurro, Lolita, Watchmen e Fahrenheit 451.

O @Finarfin comentou algo interessante acima sobre a era do analfabetismo funcional. Chega a parecer paradoxal que numa era em que tantos leem, o sentido ou sua multiplicidade escape, e o @Bartleby sabe bem, pelas nossas conversas sobre cinema, o quanto isso também fica claro até para quem consome o audiovisual. Eu sinto que há uma sede de conteúdo, não de conhecimento. É tratar arte como um dado qualquer, e creio que isso é um problema sério da nossa era de constante fluxo informacional, que pede reações quase imediatas ou até mesmo antecipadas a qualquer evento que seja. Só que é desgastante. Infelizmente as pessoas não têm tido tempo ou sido estimuladas a pensar em possibilidades ao ler, enxergar o mundo no geral, a entenderem que vai além do que elas creem saber como e do que ele é composto — o que, aliás, é o material da criação artística.
 
Pra mim o Teatro sempre foi o meu maior alicerce principalmente pra ter lido depois várias obras clássicas que a princípio nunca me despertaram o meu interesse imediato. Até hoje ainda tenho várias outras pra ler, mas nem por isso me preocupo pelo fato que se ainda não li a versão impressa de uma determinada obra, isso seja muito ruim. Com Cinema, aí sim eu admito ter isso.

Os áudiolivros sempre terão a minha imensa e ampla preferência, por ter sido a meu primeiro contato através de contação de histórias que a minha mãe fazia logo cedo e também por eu sempre ter gostado muito de ouvir histórias narradas no rádio. A impostação de quem está narrando e sabendo fazer isso com real desenvoltura e emoção, pra mim dá uma sensação muito mais ampla e profunda que a leitura normal nem sempre é capaz de fazer.
 
Frequentemente eu me vejo pensando neste tópico, inclusive ontem mesmo. Obrigado. :g:

Mas então, vocês trouxeram abordagens interessantes, e que valeriam aprofundamentos próprios, mas que tangenciam a minha provocação inicial. A ideia aqui é perguntar se, e por quê, a literatura apresenta vantagens intelectuais em relação a outras artes - e aqui já te respondendo, @Béla van Tesma: a intenção é contrapor o formato escrito aos outros. Inicialmente pensei na literatura, mas entendo que o mesmo raciocínio é válido para divulgação científica, por exemplo (ler um artigo é "melhor" do que assistir ao respectivo documentário?).

Colocando de outra forma: um mesmo objeto apresentado pelo melhor escritor, pelo melhor cineasta, pelo melhor pintor, pelo melhor compositor... o produto literário sempre será aquele com o maior potencial de atiçar e estimular intelectualmente o seu público? Para não entrar no que Finarfin e Bartleby destacaram, consideremos desse mesmo público níveis de assimilação altos e semelhantes para todas as artes.

Eu gostaria de ler este post do Mavericco, porque tem tudo a ver com a discussão:
Por ora já marco o @Mavericco pra falar sobre o processo cognitivo da leitura impressa (e sim, é uma puta vantagem em relação a ouvir audiobook ou ver um filme).

É bem isso: existe alguma coisa que acontece no nosso cérebro que é exclusiva do processo de leitura impressa, de juntar um signo com outro, formar palavras e elas produzirem um resultado visual que não foi entregue pela retina?

Ou, sem precisar ir tão fundo em neuroquímica, existem raciocínios ou sensações que a gente só faz/tem quando lê?

No post original, eu citei Hemingway. Poderia ter sido até mais óbvio: Shakespeare. Se eu assisto a uma peça shakesperiana com roteiro literal, com os melhores atores (e apreendo tudo), ler a peça poderá ainda ser uma experiência enriquecedora - ou mais enriquecedora?
 
Grosso modo, porque ver imagens em movimento (cinema, teatro) e escutar (audiobook, música, cinema) são duas atividades manjadíssimas para as quais evoluímos como os outros animais. Ler, por outro lado, é uma invenção nossa que remonta a 5 mil anos — evolutivamente, isso é um peidinho, e por muito tempo ainda nem era tarefa cotidiana e popularizada. A leitura só se tornou massificada há... o quê? Duzentos anos? Não nos adaptamos a ela como espécie.


Existem livros por aí que podem entrar em minúcias; eu mesmo ainda não os li, mas tenho uma wishlist rs. Tenho uma noção mais vaga do assunto, de pinçar aqui e ali uns artigos e tal.

Por exemplo:

513rn49cLdL._SX346_BO1,204,203,200_.jpg
Na Amazon, tem uma resenha bastante elucidativa sobre esse livro, que dá uma ideia do que trata:
O livro Os Neurônios da Leitura (como a ciência explica nossa capacidade de ler) poderia também ter o título Evidências Científicas a Respeito da Leitura e da Alfabetização. Este livro, quando do seu lançamento, foi considerado, pelo Washington Post, como o melhor livro científico do ano.

[...]

Embora se trate de um assunto árido, Stanislas Dehaene consegue explicar de forma didática e atraente como, nos últimos trinta anos, os “progressos das neurociências e da psicologia cognitiva (explicada logo no 1º capítulo - COMO LEMOS?) conduziram a evidências a respeito do ato de ler.”

Logo na introdução menciona aquilo que chama de O ENIGMA DO PRIMATA QUE SABE LER: “a escrita nasceu há aproximadamente 5.400 anos entre os babilônios e o alfabeto propriamente dito não tem mais de 3.800 anos.” Nesse pequeno período o nosso genoma não se alterou e, portanto, “nada, em nossa evolução, nos preparou para receber as informações da escrita pela via do olhar”.

Ao falar da UNIDADE BIOLÓGICA E A DIVERSIDADE DAS CULTURAS afirma ainda, que “são raros os pesquisadores em ciências sociais que consideram pertinentes ao seu domínio de estudo a biologia do cérebro e a teoria da evolução” e que isso implica a adesão da maioria deles a um modelo implícito do cérebro que Dehaene denomina de “plasticidade generalizada e relativismo cultural” e que PRETENDE MOSTRAR “a que ponto os dados recentes da tecnologia de imagens cerebrais e da neuropsicologia recusam esse modelo simplista das relações entre o cérebro e a cultura”.

Embora o “cérebro seja capaz de aprendizagem, sem o que não poderia incorporar as regras própria da escrita latina, japonesa ou árabe, no entanto, esta aprendizagem é limitada e para aprender novas competências, reciclamos nossos antigos circuitos cerebrais de primatas – na medida em que tolerem um mínimo de mudança”.
A forma de Dehaene explica as evidências é bastante simples.

Tomando como exemplo o primeiro capítulo: COMO LEMOS? Explica como funciona a leitura mostrando que começa no olho
1.º exemplo
Ele inicia mostrando que o olho é um captor imperfeito e que somente a região central da retina, denominada fóvea, que ocupa 1,5º do campo visual é realmente útil para a leitura e se essa área sofrer uma lesão a leitura se torna impossível e logo em seguida faz menção a uma obra que mostra evidências relativas a essa afirmação ( RAYNER, K. & BERTERA, J. H. (1979). Reading withouta fovea. Science, 206(4417), pp. 468-469.)

2.º exemplo
“A estreiteza da fóvea é a razão principal pela qual movemos incessan¬temente os olhos no curso da leitura. Ao orientar o olhar, nós "escaneamos" o texto a ser lido...... mas não percorremos o texto de forma contínua pois nossos olhos se deslocam em pequenos movimentos discretos, por “sacadas”” e imediatamente faz uma referência a uma obra que mostra evidências a essa afirmação (RAYNER, K. (1998). Eye movements in reading and information processing: 20 years of research. Psychol Buli, 124(3), pp. 372-422.)

No capítulo 2 mostra quais são as regiões do cérebro que contribuem para a leitura e como são organizadas.

No capítulo 3, que tem o mesmo título do livro, é que é, na minha opinião, o capítulo mais técnico do livro, explica como as palavras escritas são representadas a nível neuronal.

O capítulo 4 que tem o título de A Invenção da Leitura mostra, através da história, a evolução da escrita, sempre à busca de uma notação escrita que se a dapte melhor à nossa organização cerebral. Segundo Dehaene, “não foi nosso cérebro que evoluiu para a escrita, mas, sim, a escrita que se adaptou a nosso cérebro”.

O capítulo 5 – Aprender a Ler – “procura mostrar como a aprendizagem da leitura modifica o cérebro da criança e aprender a ler consiste em colocar em conexão dois sistemas cerebrais presentes na criança bem pequena: o sistema visual de reconhecimento das formas e as áreas da linguagem, e isto ocorre em três fases:”
• “A etapa pictórica, breve período quando a criança “fotografa” algumas palavras;
• A etapa fonológica, quando ela aprende a decodificar os grafemas em classes de sons;
• A etapa ortográfica, quando ela automatiza o reconhecimento das palavras.”

O capítulo 6 – O cérebro Disléxico – trata das crianças que, a despeito de terem uma inteligência e uma educação normal, apresentam grandes dificuldades na leitura.

O capítulo 7 trata da Leitura e Simetria que em parte tem relação com o capítulo 6

Há ainda o capítulo 8 cujo título é “Em direção a uma cultura dos neurônios”. Dehaene abre esse capítulo fazendo uma afirmação e uma pergunta: “A leitura uma janela para as interações entre a cultura e o cérebro. O modelo de reciclagem neuronal pode ser estendido a invenções culturais outras que a leitura?”

Há um outro livro que faz uma referência direta à obra de Dehaene, aplicada à realidade brasileira.

Trata-se do livro A FALÁCIA SOCIOCONSTRUTIVISTA, de autoria da professora Kátia Simone Benedetti, que mostra a situação do ensino no Brasil e explica por que os alunos brasileiros deixaram de aprender a ler e escrever, tomando essencialmente por base as obras de Stanislas Dehaene e do psicólogo brasileiro Fernando César Capovilla, e mostrando as “principais ideias e pressupostos pedagógicos que fundamentaram as diretrizes educacionais no país a partir da década de 80, no que se refere à língua portuguesa, elucidando as falácias dos socioconstrutivistas e seus efeitos nefastos sobre a qualidade da nossa educação, principalmente porque tais pressupostos têm sido adotados pelo MEC e, por conseguinte pela maioria maciça das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, há três décadas e, continuarão a ser adotados com a “nova” BNCC (Base Nacional Comum Curricular).” [Deu uma olavizada no final]

— Aldemar Parola, 2/10/2020

41M+9jaIuYL.jpg

Outro que me interessaria, e cujo texto de divulgação é o seguinte:
Nunca se leu tanto como hoje. Com alguns toques no smartphone, temos na palma da mão um universo de informações. Mas será que estamos lendo de verdade, apreendendo esses dados, analisando-os criticamente, ampliando nossos conhecimentos a partir deles, transformando tudo isso em sabedoria? A professora Maryanne Wolf responde a essas perguntas, mostrando neste livro os efeitos da leitura nas mídias digitais para o cérebro leitor, principalmente dos jovens. A partir das pesquisas mais modernas, muitos exemplos literários e de sua própria experiência como pesquisadora e mãe, a autora apresenta uma discussão impressionante sobre o impacto da tecnologia para a maneira como estamos lendo, consequentemente, para a nossa cognição, e o que isso pode acarretar para o futuro da humanidade. Surpreendente e necessária para os tempos de hoje, esta obra é, acima de tudo, uma defesa da leitura.
 
Só pra esclarecer, minha resposta acima era a esta pergunta do Eriadan:
É bem isso: existe alguma coisa que acontece no nosso cérebro que é exclusiva do processo de leitura impressa, de juntar um signo com outro, formar palavras e elas produzirem um resultado visual que não foi entregue pela retina?

Para esta outra
Se eu assisto a uma peça shakesperiana com roteiro literal, com os melhores atores (e apreendo tudo), ler a peça poderá ainda ser uma experiência enriquecedora - ou mais enriquecedora?
eu diria que já não podemos falar só em termos de operação cerebral, que era o foco da questão anterior. Aqui a experiência estética vai muito além dessa questão. Certamente a leitura da peça teatral traz consigo os benefícios de qualquer leitura (e a possibilidade de você ler, reler, tresler os trechos e meditar neles, que a audição do espetáculo não te dá); e embora seja reconhecido desde Aristóteles que a leitura da tragédia pode trazer em si mesmo grande deleite, a experiência do teatro só é completa com a encenação. Qual das duas é mais enriquecedora? Isso já uma questão subjetiva, me parece. Em que sentido se está falando em enriquecer, aqui? É como comparar a leitura com a audição de uma sinfonia ou com a fruição de uma pintura.
 
Nossa, o Calib me marcou há tanto tempo e eu esqueci de comentar!

Um texto muito interessante, publicado há 10 anos na Scientific American, faz uma espécie de compilado de estudos mostrando que a leitura de livros impressos tem benefícios que a leitura em dispositivos eletrônicos, até mesmo e-readers, não tem:

Não conheço algum estudo que aponte para algo específico que ocorre na nossa cabeça com a leitura, mas acho plausível pensarmos que possa existir algo sim. A leitura é um convite, de um lado, a que visualizemos cenas e nos coloquemos nos sentimentos conflitantes do personagem, mas, de outro, é também um convite a que completemos as lacunas do texto. É como se o texto nos desse diretrizes para imaginar de maneira muito detalhada uma situação, mas, ao mesmo tempo, e principalmente nas mãos de bons escritores, ele deixasse espaços em branco em posições estratégicas para dar asas a nossa imaginação.

Esse caminho de via dupla foi muito bem descrito pelos estudos de teoria ou estética da recepção, uma área de estudos já com meio século de atividade. Diferente de teorias literárias tradicionais, que se ocupam da construção interna do texto, os estudos de teoria da recepção se concentram no papel do leitor para a construção do sentido. São herdeiros de correntes teóricas importantes como a hermenêutica moderna alemã e a semiótica.

Por exemplo: há um conto de Flaubert em que ele descreve uma sala com um piano, umas caixas empilhadas e um barômetro. Esse barômetro se tornou meio famoso depois de um texto do crítico literário francês Roland Barthes em que ele diz que a função do barômetro é criar um efeito de realidade, algo como fazer com que o texto soe mais realista. No entanto, por mais que a descrição de Flaubert seja precisa, ele não informa, por exemplo, quantas caixas foram empilhadas. Detalhes assim precisam ser imaginados pelo leitor, guiado por diretrizes dadas pelo próprio texto.

Esse tipo de jogo ocorre em toda ficção, de um jeito ou de outro. Quando assistimos um filme, muitas vezes ficamos sem saber o que houve entre uma cena e outra; no entanto, como o filme retrata uma ficção por meio de imagens, muitos detalhes já se encontram preenchidos - ou, pelo menos, preenchidos com mais exatidão do que comumente ocorre com textos literários. Daí, por exemplo, a decepção de muitos leitores quando veem que a imagem que tinham do personagem em sua cabeça não corresponde em nada à adaptação vista no cinema.

Quem tiver se interessado pelos estudos de teoria da recepção, um dos livros fundamentais dessa escola é O Ato da Leitura, de Wolfgang Iser, publicado pela 34 há alguns anos e hoje infelizmente esgotado. Não vou mentir: é um livro desafiador em alguns momentos, mas muito instigante; sem dúvidas, um dos grandes livros de teoria literária dos últimos 50 anos.
 

Valinor 2023

Total arrecadado
R$2.404,79
Termina em:
Back
Topo