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O Inconveniente

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Jacques Austerlitz, 16 Dez 2010.

  1. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

    [align=justify]O INCONVENIENTE




    14:58

    O homem de terno foi o primeiro a chegar, após o anúncio do médico: familiares do ____? Familiares do ____? Aquele sem os dois dentes da frente? Ah, sim, vocês, vocês. Sinto informar, o médico disse, fizemos de tudo mas o coração não resistiu, fez uma careta de consolo, desta vez ele se foi mesmo, fez outra careta; foi embora. A família chorou: a mãe, que tinha em mãos uma imagem de Santo Expedito, a que ela havia acorrido tão logo, pela primeira de duas vezes naquele início de tarde, anunciavam a morte do pai, seu esposo, nos braços da irmã; os dois filhos abraçando um ao outro, as demais famílias dizendo palavras de conforto. O homem de terno aguardou pacientemente, o caderno de veludo às mãos, que os abraços cessassem e então, no momento oportuno, fez a abordagem: bom dia, senhora, sei que o momento é delicado, e deixo claro desde já que estou aqui para ajudá-la -- a todos vocês, na verdade. Senhora, quando saio de casa pela manhã e sei que vou tratar com familiares que acabaram de perder um ente querido, me entristeço, mas esta manhã, esta manhã específica, saí de casa com a possibilidade de fazer uma oferta irrecusável, e isso, a senhora me compreende, é sempre uma satisfação profissional. Se a senhora puder olhar este modelo, e ele foi abrindo o livro de veludo e apontando uma página, enquanto ajudava a mãe, esposa, a se sentar, a senhora vai perceber do que estou falando. Vejo bem, é um modelo clássico, madeira de boa qualidade, e eu posso oferecê-lo à senhora hoje e apenas hoje, veja a senhora que sorte, pelo valor de ____, e ainda ofereço essa coroa de flores, ele apontou para uma coroa de flores em uma das páginas finais, de cortesia. A mãe havia cessado de chorar por um instante e, após pensar brevemente, aceitou. Ele saiu satisfeito, dizendo: vou providenciar tudo, a senhora não se preocupe.


    16:58

    O homem de terno novamente se aproximou consternado dos familiares abalados e disse: senhora, dirigiu-se à mãe, nós temos um problema, o coração do seu marido voltou a bater, crê-se que não esteja vivo, mas como o coração bate, não podemos levá-lo à funerária para darmos início aos cuidados, sendo necessário que aguardemos que o coração cesse de bater. Não se preocupem, ele disse, dessa vez dirigindo-se aos demais familiares também, em um gesto expansivo que denotava apreço por igual por cada um deles e consolo necessário para aquele momento, já falei com o médico dele, continuou, não vão retorná-lo à UTI, ele será mantido na salinha separada, as enfermeiras já lhe haviam limpado o corpo do sangue que abundava e lhe cobria principalmente a barriga, ouvi inclusive que fizeram já um bonito trabalho, tendo em vista que o sangue já havia endurecido nos pêlos da sua barriga, e a barriga dele é grande, não é mesmo? e ele é bastante peludo, ele continuou, agora com um sorriso de afeição, mas está já com a pele limpa e quase não se vê traços de sangue, sendo que tomei a liberdade, tendo em vista as nossas tratativas para o funeral, julguei adequado, mais ainda levando-se em conta o estado da senhora e dos seus filhos e da sua irmã, todos muito abalados, noto e me compadeço, julgo ainda agora ter tomado a decisão mais acertada, pedi aos médicos que não tivessem o trabalho de levá-lo novamente à UTI, tampouco o levassem à sala de cirurgia, mas que aguardassem o curso natural, que agora, admito, se vê interrompido por esse pequeno inconveniente, mas deixemos o curso natural seguir e aguardemos com o corpo mesmo à salinha separada, ele disse segurando a mão da mãe, aguardemos que o incidente se resolva naturalmente, o que há de acontecer com brevidade e talvez agora mesmo já se tenha resolvido.


    23:58

    Senhora, retornou o homem de terno, tinha a pele oleosa do dia estafante que havia passado, provavelmente por dentro do paletó seus sovacos estivessem ensopados e possivelmente, acreditemos, tenha passado três ou quatro vezes, pelo menos, no banheiro, para tirar a camisa e secar os sovacos, e, claro, os braços e as costas igualmente, para manter o corpo o mais limpo possível, sinto informar que a situação não se modificou. Tentei convencer o médico que liberasse o corpo assim mesmo, ele falava cansado agora somente para a mãe, esposa, já que sua irmã havia saído com a menina, filha mais nova da mãe, porque a menina tinha hoje um dia muito importante em sua vida, já que hoje, justo hoje, havia tido a sua primeira menstruação; é por causa do estresse, disse a irmã, já li a respeito, o estresse desencadeou a menstruação, disse ela para a mãe que se sentia aliviada, já que vinha, finalmente, a longamente aguardada primeira menstruação da menina que já ia se encaminhando aos quinze anos e ainda não havia se tornado mocinha; e o menino, mais velho, dezessete, dormia recostado no ombro da mãe; com o coração batendo mesmo, a senhora não iria se importar, tenho certeza, ou na verdade a senhora ainda se sentiria aliviada, e nós poderíamos começar os cuidados com o corpo enquanto aguardávamos que o coração parasse naturalmente e se se demorasse ainda demais, poderíamos dar pequenos choques e tenho certeza de que tudo estaria resolvido pela manhã, mas ele disse que não poderia, que haviam trâmites e, enfim, toda aquela burocracia que eu e a senhora conhecemos bem e que sempre nos atravanca, não é mesmo? Ele agachou frente à mãe, pegou as duas mãos dela com as suas mãos e olhou sincero para ela; senhora, sinto informar que aquela oferta que eu havia conseguido para a senhora não poderá ser mantida; nós temos regras muito claras e a oferta só durava até o final do dia e nós, agora, ah, sim, isso mesmo, passamos já da meia-noite, sendo que a oferta não é mais válida; posso negociar uma outra boa oferta para a senhora, mas os valores já não serão os mesmos. Eu sinto muito, ele disse sinceramente consternado, sinto que após este dia eu não vou poder cumprir com o que eu havia prometido, e a senhora não poderá fazer aquele negócio irrecusável que havíamos arranjado pela tarde, ele dizia para a esposa, mãe, que agarrava as mãos dele em súplica com tanta sinceridade que ele não teve alternativa senão levantar-se e com firme resolução, decidido a fazer o que deveria fazer, sem se prender àquelas burocracias todas, decidido a passar por cima disso desta vez, pensando: o que faz de um homem um homem de verdade se ele não pode, em um caso excepcional, passar por cima de tais amarras burocráticas pelo bem de uma mãe e esposa e, ainda mais, de uma família inteira, e ele disse, agora ele próprio comovido pela sua resolução: senhora, eu sei que não deveria, mas não posso aguentar vê-la assim tão entristecida, senhora, uma última chance, o que me diz?, vou agora até a salinha separada e confiro uma última vez se o coração não parou de bater, e se tiver parado, esquecemos que já passou da meia-noite, esquecemos que a oferta expirou e eu cumpro para com a senhora a oferta que fiz pela manhã; está bem, senhora?, que lhe parece?, ah, sim, sim, vou e retorno com brevidade e, torçamos, senhora, quando eu retornar terá tudo se resolvido da melhor forma.[/align]
     

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