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O Homem Universal - René Guénon

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Paganus, 9 Out 2013.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    Do livro 'O simbolismo da Cruz'
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    A realização efetiva dos estados múltiplos do ser se refere à concepção do que diferentes doutrinas tradicionais, e concretamente o esoterismo islâmico, designam como o ''Homem Universal'' [1], concepção que, como temos dito em outra parte, estabelece a analogia constitutiva da manifestação universal e de sua modalidade individual humana, ou, para empregar a linguagem do hermetismo ocidental, do ''macrocosmo'' e do ''microcosmo'' [2]. Além do mais, esta noção pode ser considerada em diferentes graus e com extensões diversas, posto que a mesma analogia permanece válida em todos os casos [3]; assim, ela pode restringir-se à humanidade mesma, considerada seja em sua natureza específica, seja inclusive em sua organização social, já que é sobre esta analogia que repousa essencialmente, entre outras aplicações, a instituição das castas [4].

    Em outro grau, já mais extenso, a mesma noção pode abarcar o domínio da existência correspondente a todo o o conjunto de um estado de ser determinado, qualquer que seja esse estado [5]; mas este significado, sobre tudo se tratamos do estado humano, inclusive tomado no desenvolvimento integral de todas as suas modalidades, ou de outro estado individual, não é todavia propriamente mais do que ''cosmológico'', e o que devemos considerar aqui essencialmente é uma transposição metafísica da noção do homem individual, transposição que deve efetuar-se no domínio extra-individual e supra-individual. Neste sentido, e se nos referirmos ao que recordamos há pouco, a concepção do ''Homem Universal'' se aplicará primeiro, e mais ordinariamente, ao conjunto dos estados de manifestação; mas podemos torná-la ainda mais universal, na plenitude da verdadeira acepção desta palavra, extendendo-a igualmente aos estados de não manifestação, e por conseguinte à realização completa e perfeita do ser total, entendendo-a no sentido superior que indicamos precedentemente, e sempre com a reserva de que o próprio termo ''ser'' já não pode ser tomado mais do que em um significado puramente analógico.

    É essencial destacar aqui que toda transposição metafísica do gênero da que acabamos de citar deve ser considerada como a expressão de uma analogia no sentido próprio desta palavra; e recordaremos, para precisar o que é importante entender por isto, que toda verdadeira analogia deve ser aplicada em sentido inverso; é o que representa a figura conhecida do ''selo de Salomão'', formado da união de dois triângulos opostos [6]. Assim, por exemplo, do mesmo modo que a imagem em um espelho está invertida em relação ao objeto, o que é o primeiro ou o maior na ordem principial é, ao menos em aparência, o último ou o menor na ordem da manifestação [7]. Para usar termos de comparação no domínio matemático, como temos feito a este propósito a fim de torna a coisa mais facilmente compreensível, é assim que o ponto geométrico é nulo quantitativamente e não ocupa nenhum espaço, ainda que seja (e isto se explicará mais completamente depois), o princípio pelo qual é produzido o espaço inteiro, que não é mais do que o desenvolvimento ou a expansão das suas próprias virtualidades. É assim igualmente que a unidade aritmética é o menor dos números se lhe consideramos como situado em sua multiplicidade, ainda que seja o maior no princípio, posto que os contém a todos virtualmente e produz toda sua série pela repetição indefinida de si mesmo.

    Há pois analogia, mas não similitude, entre o homem individual, ser relativo e incompleto, que se toma aqui como tipo de um certo modo de existência, ou inclusive de toda a existência condicionada, e o ser total, incondicionado e transcendente em relação a todos os modos particulares e determinados de existência, e inclusive em relação à Existência pura e simples, ser total que designamos simbolicamente como o ''Homem Universal''. Em razão desta analogia, e para aplicar aqui, sempre a título de exemplo, o que acabamos de indicar, se poderia dizer que, se o ''Homem Universal'' é o princípio de toda a manifestação, o homem individual deverá ser de alguma maneira, em sua ordem, seu resultante e sua conclusão; e é por isso que todas as tradições concordam em considerá-lo como formado pela síntese de todos os elementos e de todos os reinos da natureza [8]. É importante que seja assim para que a analogia seja exata, e o é efetivamente; mas, para justificá-la completamente, e com ela a designação mesma do ''Homem Universal'', seria importante expor o papel cosmogônio que é próprio do ser humano, considerações que, se quisermos dar-lhes todo o desenvolvimento que possuem, se distanciariam muito do tema que nos propomos tratar mais especialmente agora, e que quiçá encontrarão melhor lugar em alguma outra ocasião. Assim pois, no momento, nos limitaremos a dizer que o ser humano tem, no domínio da existência individual que é o seu, um papel que se pode qualificar verdadeiramente de ''central'' em relação a todos os demais seres que se situam igualmente neste domínio; este papel faz do homem a expressão mais completa do estado individual considerado, cujas possibilidades se integram todas, por assim dizer, nele, ao menos sob uma certa relação, e com a condição de tomar-lhe não somente na modalidade corporal, senão no conjunto de todas as suas modalidades, com a extensão indefinida de que são suscetíveis [9]. É aqui onde residem as razões mais profundas entre todas aquelas sobre as quais pode basear-se a analogia que consideramos; e esta situação particular é que permite-nos transpor validamente a noção mesma de homem melhor do que a de todo outro ser manifestado no mesmo estado, para transformá-la na concepção do ''Homem Universal'' [10].

    Acrescentariamos ainda uma precisão que é das mais importantes: é que o ''Homem Universal'' não existe mais do que virtualmente e em certo modo negativamente, à maneira de uma arquétipo ideal, enquanto que a realização efetiva do ser total não lhe tenha dado a existência atual e positiva; e isso é verdadeiro para todo ser, qualquer que seja, considerado como efetuando ou devendo efetuar uma tal realização [11]. Além do mais, para dissipar todo mal-entendido, dizemos que uma tal maneira de falar, que apresenta como sucessivo o que é essencialmente simultâneo em si, não é válida senão se nos colocarmos no ponto de vista especial de um estado de manifestação do ser, estado que se toma como ponto de partida da realização. Por outro lado, é evidente que expressões como as de ''existência negativa'' e de ''existência positiva'' não devem ser tomadas ao pé da letra, ali onde a noção mesma de ''existência'' não se aplica propriamente mais do que em uma certa medida e até certo ponto; mas as imperfeições que são inerentes à linguagem, pelo fato mesmo de que está ligada às condições do estado humano e inclusive mais particularamente às de sua modalidade corporal e terrestre, necessitam frequentemente o emprego, com algumas precauções, de ''imagens verbais'' deste gênero, sem as quais seria inteiramente impossível fazer-se compreender, sobretudo em líguas tão pouco adaptadas à expressão das verdades metafísicas como são as línguas ocidentais.

    [1] O ''Homem Universal'' (emárabe El-Insânul-kâmil) é o Adão Qadmôn da Qabbalahhebraica; e também o ''Rei'' (Wang) da tradição extremo oriental (Tao-te-king, XXV). — Existem, no esoterismo islâmico, umj grande número de tratados de diferentes autores sobre o El-Insânul-kâmil; aqui só mencionaremos, como mais particularmente importante desde o nosso ponto de vista, os de Mohyiddin ibn Arabi e de Abdul-Karîm El-Jîli.

    [2] Já explicamos em outro lugar sobre o emprego que fazemos destes termos, assim como de alguns outros para os quais pensamos não ter de nos preocuparmos mais dos abusos que deles se fizeram às vezes (El Hombre y su devenir según el Vêdânta, cap. II y IV). — Estes termos, de origem grega, tem também seus equivalentes exatos em árabe (El-Kawnul-kebir e El-Kawnuç-çeghir), termos que se tomam na mesma acepção.

    [3] Se poderia fazer uma apreciação semelhante no que concerne à teoria dos ciclos, que é no fundo outra expressão dos estados de existência: todo ciclo secundário reproduz de certo modo, e em uma escala inferior, as fases correspondentes do ciclo mais extenso ao qual está subordinado.

    [4] Cf. o Purusha-Sûkta del Rig-Vêda, X, 90.

    [5] Sobre este ponto, e a propósito do Vaishwânara da tradição hindú, ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, capitulo XII.

    [6] Ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, capitulos I y III.

    [7] Mostramos que isto se encontra expresso muito claramente nos textos citados, alguns dos Upanishads e outros do Evangelho.

    [8] Assinalamos concretamente, a este respeito, a tradição islâmica relativa à criação dos anjos e a do homem. -- Não é necessário dizer que o significado real destas tradições não tem absolutamente nada de comum com nenhuma concepção ''transformista'', ou inclusive simplesmente ''evolucionista'', no sentido mais geral desta palavra, nem com nenhuma das fantasias modernas que se inspiram mais ou menos diretamente em tais concepções antitradicionais.

    [9] A realização da individualidade humana integral corresponde ao ''estado primordial'', do qual já falamos frequentemente, e que é chamado ''estado edênico'' na tradição judaico-cristã.

    [10] Para evitar todo equívoco, recordaremos que sempre tomamos o termo ''transformação'' em um sentido estritamente etimológico, que é o da ''passagem para além da forma'', e, por conseguinte, para mais além de tudo o que pertence à ordem das existências individuais.

    [11] Em um certo sentido, estes dois estados negativo e positivo do ''Homem Universal'' correspondem respectivamente, na linguagem da tradição judaico-cristã, ao estado preliminar à ''queda'' e ao estado consecutivo à ''redenção''; por conseguinte, sob este ponto de vista, são os doois Adões de que fala São Paulo (1ª Epístola aos Corintios, XV), o que mostra ao mesmo tempo a relação do ''Homem Universal'' com o ''Logos'' (cf.Autoridade espiritual e poder temporal, pág. 98, ed. francesa).
     

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