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"O Hobbit" virado do avesso -- ou quase

Tópico em 'Artigos Valinor' iniciado por imrahil, 5 Abr 2016.

  1. Imrahil

    Imrahil Kyknos kyknón

    imrahil enviou um novo Artigo

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    Que o gentil leitor da Valinor me perdoe se pareço colocar o carro na frente dos bois com a primeira parte desta série sobre a história do clássico "O Hobbit". No entanto, convém que começos sejam acompanhados de uma dose considerável de impacto, o que me levou a tomar a decisão de principiar com informações que são do conhecimento de poucos leitores de Tolkien, mesmo os mais fiéis. Estou falando da revisão radical do livro, que o Professor iniciou por volta de 1960 e acabou abandonando tempos depois.

    Essa fase inédita dos textos tolkienianos foi publicada na íntegra por
    John D. Rateliff no segundo volume de sua obra "The History of The
    Hobbit". Na verdade, não estamos falando de manuscritos, mas de textos
    cuidadosamente datilografados que deveriam substituir, apenas em parte,
    pedaços dos primeiros capítulos da aventura de Bilbo, começando com o
    encontro entre o hobbit e Gandalf no Condado e indo até a chegada de
    Bilbo e seus companheiros anões a Valfenda.



    O mais surpreendente nesses textos é o processo de
    "senhordosaneisização" (pusta palavra horrível, eu sei, mas é a melhor
    descrição) de boa parte da linguagem e do clima original de "O Hobbit".
    Basicamente o que acontece é que Tolkien ficou insatisfeito com duas
    coisas do primeiro livro após ter conseguido publicar "O Senhor dos
    Anéis". Primeiro, ele achava que era preciso integrar melhor o mundo de
    "O Hobbit" com a geografia, a história etc. apresentada com mais
    detalhes na Saga do Anel. Em segundo lugar, o Professor achava que o
    estilo narrativo e literário geral da aventura de Bilbo estava leve
    demais, e às vezes meio bobo, em comparação com o que veio depois.



    Por tudo isso, ler a versão de 1960 de "O Hobbit" -- que acabou nunca
    sendo incorporada às edições canônicas do livro -- é como ler um
    prelúdio do SdA que mais parece uma antecipação do capítulo "A Sombra
    do Passado", de "A Sociedade do Anel". Tolkien resolveu dar a essa
    versão um clima sombrio e paranoico que não estaria fora de lugar nos
    apêndices do SdA que explicam como Sauron voltou ao poder na
    Terra-média, por exemplo.



    Bilbo, o mané


    Falando assim, parece um conceito muito legal, e de fato é -- mas
    existem algumas desvantagens também. A primeira delas é que Bilbo
    acabou sendo retratado como um personagem muito mais mané e sem noção
    do que seu amadurecimento, em especial o que se vê no SdA, acaba
    mostrando. Logo no primeiro capítulo, Tolkien diz que Bilbo "se viu
    envolvido em grandes eventos, que ele nunca entendeu; e se tornou
    enormemente importante, embora nunca se desse conta disso".
    Considerando que Bilbo se tornou praticamente um mestre das tradições
    élficas no fim da vida, a afirmação é no mínimo injusta. Os anões
    também tratam Bilbo de forma mais impaciente e condescendente.



    Outra perda que talvez fosse lamentada pelos fãs mais hardcore de "O
    Hobbit" é o fim das conversas e comentários do narrador com os leitores
    -- frases do tipo "como você sabe" e por aí vai, que davam (aliás,
    ainda dão) todo um ar brincalhão e de cumplicidade à narrativa como a
    conhecemos. Décadas depois de escrever o livro, Tolkien passou a achar
    que essa velha técnica dos livros infantis equivalia a desprezar o
    leitor e até chamá-lo de burro. Várias piadas -- como a que diz que os
    dragões têm uma boa noção do "valor de mercado" de seu tesouro -- foram
    retiradas do texto por causa disso.



    Várias passagens foram reescritas e reformuladas do ponto de vista
    estilístico, seguindo a linguagem mais solene e sombria do SdA. Um
    exemplo é quando Gandalf fala sobre sua passagem pelas masmorras do
    Necromante:



    "Não me pergunte! Não à noite", disse Gandalf. "Não falarei sobre isso.
    Mas era minha tarefa vasculhar as sombras, e uma demanda escura e
    perigosa foi. Mesmo eu, Gandalf, mal escapei. Tentei salvar seu pai [o
    pai de Thorin, no caso], embora ele fosse apenas um anão sem nome para
    mim, sozinho, em desgraça. Era tarde demais."



    Guardiões, Bri, pontes e cavalos

    No texto revisado, Tolkien também tentou tomar providências para fazer
    com que o mundo de "O Hobbit" não tivesse discrepâncias com o do SdA.
    Na versão original da história, por exemplo, o nome "Condado" nem
    chegava a ser mencionado, mas aparece no texto de 1960.



    Em sua viagem, Bilbo e os anões passam por Bri (passando uma noite no Pônei Saltitante) e pela ponte sobre o rio
    Mitheithel (Fontegris) na qual, décadas depois, Aragorn acharia a pedra
    élfica deixada por Glorfindel. Gandalf cavalga um corcel élfico chamado
    Rohald, emprestado da casa de Elrond. A ponte aliás, está quebrada por
    causa dos trolls que o grupo encontra mais tarde. Quando os trolls
    finalmente viram pedra, Gandalf conta aos anões que os Guardiões
    estavam caçando outros monstros na região.



    Ao mesmo tempo, é curioso que Tolkien tenha deixado algumas coisas
    passarem nessa revisão. Os nomes dos trolls, por exemplo -- William,
    Bert e Bill, que até serviriam para fazendeiros do Condado, mas não
    para monstrões canibais. E também a cena engraçada da carteira falante,
    já que não há nada parecido no SdA.



    Segundo John Rateliff, Tolkien teria emprestado esse material revisado
    para um amigo (não sabemos exatamente quem), para ter uma avaliação
    independente. A resposta parece ter sido algo do tipo "está muito
    legal, mas não tem nada a ver com O Hobbit", porque Tolkien acabou
    desistindo dessa revisão radical. É até difícil imaginar que livro
    teríamos nas mãos hoje se o projeto tivesse continuado até a última
    página.
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