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O Hobbit, ou a "História da transformação de Bilbo"

Anwel

Nazgûl Cavaleiro
Acabei de reler o Hobbit agora, e, como todo o livro que eu leio, comecei a repensar na história como um todo. (Um exercício bacana de se fazer, diga-se de passagem).

Fiquei tocado perante a transformação que o Bilbo sofreu. Não só como pessoa, mas transcendendo ao seu redor: modificando sua casa, e mesmo sua relação com seus vizinhos.

Vou colocar alguns trechos aqui pra ilustrar melhor o que estou querendo dizer:

"As pessoas os consideravam muito respeitáveis [os Bolseiros], não apenas porque em sua maioria eram ricos, mas também porque nunca tinham tido nenhuma aventura ou feito qualquer coisa inesperada: você podia saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer assunto sem ter o trabalho de perguntar a ele."

Aqui uma opinião de Gloin, pai de Gimli:

"(...)Na verdade, se não fosse o sinal na porta, eu teria a certeza de que tinha chegado na casa errada. Assim que bati os olhos nesse sujeitinho bufando e esperneando no tapete, eu tive minhas dúvidas. Ele parece mais um dono de armazém que um ladrão!

Bom, na minha opinião essas considerações inicias são bem significativas, principalmente porque é o mesmo Gloin que, no Sociedade do Anel, vai sorrir quando Bilbo se oferece a levar o Anel a Mordor - "lembrando dos velhos tempos". Não vou aqui retratar os perigos e aventuras que o Bolseiro passou no Hobbit (quem quiser saber mais que leia o livro!), mas, pra ajudar minha exposição, vou pular para o final do livro:

Thorin falando sobre Bilbo:

"(...) Há mais coisas boas em você do que você sabe, filho do gentil Oeste. Alguma coragem e alguma sabedoria, misturadas na medida certa. Se mais de nós dessem valor a comida, bebida e música do que a tesouros, o mundo seria mais alegre."

E, finalmente, Gandalf:

"-Meu querido Bilbo! - disse ele [o mago]. - Há algo errado com você! Não é mais o hobbit que era."

Esse último comentário do Istar é bem importante. Ele o faz quando Bilbo compõe sua PRIMEIRA e ÚNICA canção no livro! Engraçado que, como li o SDA antes do O Hobbit, estou acostumado com a idéia do Bilbo, o intelectual escritor de livros e criador de canções.

Porém, o hobbit do O Hobbit é, no começo, um ser enfadonho, boa vida e que não se preocupa com nada. É só com o desenrolar da história que o mesmo vai se desenvolvendo. Transformação que influenciou uma geração posterior de hobbits, que vieram a ser muito importantes na história da TM. O próprio Sam afirma que ficava "encantado" com as histórias sobre elfos e dragões do velho hobbit.

Complemento meu raciocínio com mais algumas observações peculiares. No começo do post eu afirmei que a transformação de Bilbo transcendeu sua pessoa às coisas a sua volta. Vou colocar aqui a descrição da casa do hobbit nos dois livros:

Descrição presente no O Hobbit:

"(...) Nada de escadas para o hobbit: quartos, banheiros, adegas, despensas (muitas delas), guarda-roupas (ele tinha salas inteiras destinadas a roupas), cozinhas, salas de jantar, tudo ficava no mesmo andar, e, na verdade, no mesmo corredor."

Enquanto que, no SDA, fica claro (infelizmente estou sem o livro pra pegar as passagens exatas) que há um novo (isso é percebido só se comparado com a primeira descrição, não há a palavra novo no livro) escritório em Bolsão, contando com a presença de muitos livros (alguns até escritos pelo hobbit). O que proporciona, junto com outras passagens do livro, a nossa visão sobre Bilbo, agora um respeitável intelectual.

Só pra terminar meu longo post, vou colocar aqui uma passagem curta presente nas últimas páginas do Hobbit, na qual gosto muito e me instigou a pensar a transformação do mesmo:

"Na verdade, Bilbo descobriu que perdera mais do que colheres [referência sobre as colheres de prata roubadas por Lobélia no leilão] - perdera sua reputação [no Condado]. É verdade que, desde então, foi sempre um amigo-dos-elfos e teve o respeito dos anões, magos e de todas essas pessoas que sempre passavam por ali; mas não era mais respeitável. Na verdade, era considerado por todos os hobbits da vizinhança como "esquisito" - exceto por seus sobrinhos e sobrinhas do lado Tûk, mas mesmo estes não eram encorajados pelos pais a manter relações com ele."

E aqui, nosso resultado final:
:lol:









Nota de rodapé:
Gostaria de agradecer do fundo do meu coração ao Neoghoster Akira, que me ajudou a recurar esse tópico depois do "Fade memory" da Valinor.
Obrigado Neo!
 
Última edição:

Morgs

Metido a Rei de Arda
Morgoth fala...

Contém spoilers:

Olá Anwel! Gostei do seu raciocínio, com suas citações e tudo o mais... muito bem construído. Não só o Glóin como outros anões (Dwalin e o próprio Thorin), foram extremamente preconceituosos no início de tudo.

Se olharmos no Contos Inacabados isso fica muito claro... o preconceito de Thorin e companhia foi amenizado em "O Hobbit" porque o próprio Bilbo, considerado o escritor de tal livro, não o via com a intensidade que ele realmente tinha: Gandalf diz, em "A Busca de Erebor", que a dúvida e o preconceito de Thorin eram muito maiores do que Bilbo podia compreender... mas também, a idéia do herdeiro de Durin era mobilizar exércitos para encarar Smaug (o que estaria certamente fadado ao fracasso). Sendo assim, a idéia de fazer as coisas em segredo passava longe de suas intenções e pedir a ajuda a um Hobbit estava além de qualquer sentido :)

Mas foi o que aconteceu, Bilbo deu a volta por cima e ganhou o respeito de muitos. Antes de Bilbo tínhamos hobbits à altura, mas esquecidos com o tempo: Urratouro Tûk, por exemplo, deu cabo de vários orcs que invadiram o Condado; e o Velho Tûk tinha seus contatos com o mundo de fora (era amigo de Gandalf). Antes de Bilbo, os Tûks tinham "a fama"... depois de Bilbo isso cresceu, e depois da destruição do Anel e do Expurgo acho que cresceu ainda mais, colocando os hobbits, definitivamente, na história da Terra-média :)

Valeu!
 

Fringway

Andarilho do Norte (187)
Parabéns pelo raciocínio, Anwel, a idéia foi realmente interessante.

Acredito que os Hobbits sempre foram seres potencialmente aventureiros, assim como Bilbo, mas que se deixavam levar por uma certa inércia devido à tradição (o que muitas vezes acontece com nós, seres humanos, no mundo atual). A jornada de Bilbo e sua influência nos Hobbits que depois dele vieram, foram essenciais para a história da Terra Média, eis que delas surgiu um novo ânimo nos Hobbits responsável, inclusive, pelo sucesso na destruição do Anel.

O que acho mais interessante nisso é a forma como Tolkien foi capaz de fazer o personagem de Bilbo evoluir - e modificar-se - de forma natural, como acontece com todo ser humano ao longo de sua vida. Perdeu alguns de seus medos, descobriu novas qualidades e aprendeu a viver de uma forma melhor consigo mesmo. Importante reparar que, dessa forma, Bilbo se tornou um personagem bastante complexo sem que se precisasse forçar a barra.
 

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