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O espelho do corredor

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Franco, 4 Abr 2010.

  1. imported_Franco

    imported_Franco Usuário

    O espelho do corredor

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    O homem se aproximou do espelho, o medo aumentando a cada passo.

    No fundo do estreito corredor, sob a frágil iluminação alaranjada, existia colado na parede um grande espelho. Parecia uma porta misteriosa para um outro corredor igualmente longo e mal iluminado, onde existia também um homem, parado em frente dele, que se contemplava. Mas havia uma difença. O reflexo dentro do espelho, o reflexo do homem, lhe sorria.

    O sorriso era aberto, carregado de compreensão. Foi como se o reflexo guardasse consigo, dentro do espelho, a chave para entender tudo. As respostas para as perguntas, a paz para o tormento das dúvidas. Foi como se o reflexo fosse homem e o homem fosse reflexo.

    O homem perdeu-se, não sabia mais o que era. Se tinha as olheiras fundas contra o rosto, e sua boca tensa era avessa ao sorriso, como aquilo de dentro do espelho, que tanto lhe parecia, sorria tão naturalmente?

    Na pouca iluminação do corredor, reproduzida fielmente dentro do espelho, o reflexo sorridente deu um, dois, três passos para trás. Parou. Parecia esperar que o homem a sua frente o seguisse. Lentamente deu as as costas e continuou caminhando, se afastando cada vez mais do homem e mergulhando para dentro do corredor.

    Aturdido, o homem gritou para o seu reflexo; chamou seu próprio nome. Mas o reflexo continuava se afastando. Decidido, atirou-se contra o espelho, mas foi como se nada existisse; parecia ter apenas dado alguns passos à frente, como se não tivesse ali nem parede nem espelho. Mas o aquilo que era seu reflexo continuava andando, lá na frente, cruzando o corredor que parecia não ter fim.

    O homem lhe chamava, berrava, pedia que esperasse. Nada. Tentou correr, mas as pernas pesavam, sentiu que suas forças o abandonavam. Pensou em desistir. Foi quando o reflexo, como se escutasse o pensamento resignado, lhe virou apenas a cabeça e o sorriso de antes se intensificou. Era ainda mais aberto, inspirava mais compreensão, trazia toda uma promessa.

    Contra seu próprio corpo, o homem pôs-se a correr tanto quanto podia. Esforço, dor, folego que não aguentava; correr era inimaginavelmente sofrido. Foi então que tudo virou breu. As luzes do corredor apagaram todas. Escuridão. O homem nada via, apenas escutava os passos do seu reflexo que, lá na frente, continuava a caminhar por aquele corredor que parecia sem fim.

    Guiado só pelos sons, o homem continuava a correr, a chamar-se, a se perguntar por que mesmo correndo não alcançava nunca seu reflexo que só caminhava. Tinha até a impressão de que a cada segundo os passos que ouvia ficavam mais e mais distantes. Essa impressão cresceu, parecia que tirava seu alimento daquela escuridão completa. Os passos distanciaram-se até que simplesmente sumiram, como se nunca tivessem existido.

    O homem chamou seu nome algumas vezes, em vão. Parou onde estava. Chamou de novo. Nada. Ficou com medo.Aguçous os ouvidos na esperança de escutar novamente os passos. Nada.

    Tentou tatear as paredes à sua volta, mas não importava o quanto tentava. Nada vinha de encontro ao seu corpo. Quis voltar de onde tinha vindo, mas tentando encontrar as paredes dera tantas voltas em torno de si que já não mais sabia de onde tinha vindo e para onde ia. O silêncio, a escuridão, o medo, tudo o dominava.

    Uns passos foram escutados, subitamente. Depois mais alguns, mais outros, de repente pareciam dezenas. Vinham de longe mas se aproximavam. Caminhavam ruidosamente, apressadamente, até que desataram a correr. Todos corriam na direção do homem. Este gritou, correu para um lado sem saber que lado era. Seus ouvidos ficaram totalmente tomados pela barulheira daquela multidão que o perseguia, completa confusão.

    De repente sentiu algo na cabeça, então em sua barriga, até que tropeçou e caiu. Eram mãos. Centenas de mãos. Todas o apertavam, seguravam, puxavam contra o chão, tapavam-lhe a boca, o nariz. Outras se ocupavam somente de sufocar-lhe o pescoço. Sentia que não tinha o que fazer nem como reagir. Tentou gritar, chamou a si mesmo, queria que seu reflexo do espelho voltasse, cruzasse o corredor e o libertasse daquilo tudo. Mas não havia mais corredor, espelho ou reflexo. O ar lhe faltava, completamente impedido de respirar. Foi quando deu o último grito, com o resto de suas forças, chamando por si mesmo, seu reflexo: Jorge!

    E acordou, encharcado de suor, com a coberta caprichosamente enrolada em seu pescoço.
     

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