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Autor da Semana O cão sem plumas (João Cabral de Melo Neto)

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Excluído046, 29 Jan 2012.

  1. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Quando o João Cabral :grinlove: foi o autor da semana, prometi mais um tópico, lembram? Era um tópico sobre O cão sem plumas (que, assim como Morte e vida severina, me faz chorar copiosamente :rofl: ). A verdade é que eu até comecei a digitar, na época, o post, mas o PC travou e eu perdi tudo. Ontem, eu estava relendo O cão sem plumas pela 7377273636 vez e criei coragem para digitar o IMENSO estudo sobre o poema que eu queria compartilhar com vocês. Sério, leiam o tópico, fiquei um tempão digitando tudo isso. Pelas minhas unhas de bruxa, leiam! O estudo é bem legal, mesmo.


    Não quotei o trequinho porque acho que fica ruim ler textos gigantescos em itálico.

    ***


    Ser tão social...

    (Por Luiz Carlos Junqueira Maciel/ Gilberto Xavier)

    Escrito em 1950, O cão sem plumas é, segundo Haroldo de Campos,o poema em que João Cabal passa da desalienação da linguagem ao problema da participação poéica. Em uma entrevista, o poema pernambucano afirma que o livro nasceu do choque emocional que experimentou diante de uma estatística publicada num jornal que relatava que a expectativa de vida no Recife era de 28 anos, enquanto na Índia era de 29. Nesse livro, o poeta "enfrenta o monstro" cara a cara, isto é, o tema pernambucano da miséria, recorrendo à sua poesia anterior.

    A privação, a carência, a miséria, o impuro, a "urgência do real" são o denominador comum desse poema, cujos blocos produzem imagens concretas do rio que atravessa o sertão nordestino, sujo, escuro, associado a cão, fruta e homem. A matéria impura que caracteriza o Capibaribe encontra, no rigor poético de João Cabral, o processo racional da depuração, uma máquina do real, para usarmos a expressão do ensaísta Antonio Carlos Secchin. Esse crítico anota que o sertão se comprime não em muitas páginas da obra de João Cabral, que faz uma poesia na contramão dos nordestinos que migram com e como o rio Capibaribe. Assim, o poeta João é um retirante às avessas, pois sobe do Recife de O cão sem plumas (1950) para o Sertão inaugural de O rio (1953). Para Secchin, em Cabral, o sertão nasce para anunciar a morte: Sertão, serthânatos. Lugar de carência e morte, sertão é desertão, mas é, apesar disso, lugar de vida, da afirmação vital nordestina: viver no sertão, apesar do sertão. E o poeta precisa ser preciso, exato e conciso, inserindo, no deserto da página em branco a poesia rarefeita, avessa à cultura do supérfluo. Escreve Secchin: Traduzir o Sertão é traduzir-se nele: deixar-se conduzir com palavras desencapadas para o lado menos confortável da fala, onde nem mesmo exista o consolo de uma pedra no meio do caminho, pela simples razão de a pedra confudir-se com o caminho inteiro.

    O poema O cão sem plumas refere-se a rio Capibaribe. A água, na poesia cabralina, identifica-se com aquela do Sertão, segundo estuda Antonio Carlos Secchin, que considera esse poema como o que exprime com maior consistência as relações entre o discurso poético e o espaço referencial:

    Ossatura do poema

    O cão sem plumas
    é dedicado a Joaquim Cardozo, poeta pernambucano. Para a ensaísta Marta de Senna, a dedicatória já define a perspectiva do poema-livro, pois a ideia geral da composição emana diretamente da precisa localização no espaço do poeta a quem o livro é dedicado. É um poema estruturado em 4 partes, cada uma dividida em diferentes números de estrofes, de variável número de versos, e a dicção geral é de prosa discursiva, de exposição objetiva de dados, como observou Marta de Senna, para quem a tensão poética do texto se articula em outro nível, o das imagens.

    As duas primeiras partes têm o nome, Paisagem do Capibaribe. A terceira intitula-se Fábula do Capibaribe e a última é o Discurso do Capibaribe.

    Tido pela crítica como uma miniatura da arte poética do autor, o poema aproxima-se de Morte e vida severina por apresentar o curso do rio Capibaribe. No auto, o ponto de vista é centrado no retirante; em O cão sem plumas, a ótica é a do poeta, que fala do rio e de seus habitantes, irmanados na carência, interligados pela ausência da leveza, daí o título inusitado, símile e metáfora do despojamento da fantasia, do que é supérfluo. O símile vem a ser um recurso retórico usado obsessivamente ao longo do texto, impregnado de forte denúncia socia. O crítico Benedito Nunes observa que a primeira parte do poema se abre com imagens em que se destaca a relação de trespassamento de seus termos:

    A cidade é passada pelo rio
    como uma rua
    é passada por um cachorro;
    uma fruta
    por uma espada.

    A relação é: cidade: rio; rua; cão; fruta: espada. Não há, nesse rio, elementos associados à clareza ou leveza. Daí ser o rio como um cão sem plumas, e o seu não-saber refere-se a elementos cristalinos, limpos. O rio, despojado até de peixes, Abre-se uma flora/ suja e mais mendiga/ como são os mendigos negros.

    Esterilidade, impotênci, infecundidade, crescimento sem explosão: eis o esquelético curso fluvial, a lembrar a estagnação de um louco, associado a tudo o que lembra penúria, miséria, doença, hospital, penitenciária, asilo... Em oposição a isso, há os caricaturados elementos da abundância, as grandes famílias espirituais, de costas para o rio miserável, enquanto chocam os ovos gordos/ de sua prosa. / Na paz redonda das cozinhas. As estrofes/parágrafos relacionadas aos ricos vêm entre parênteses, assinalando a diferença irreconciliável entre os dois mundos e pontuando também, como observa Secchin, a tática do desvio, a suspensão momentânea do curso do rio.

    De acordo com Marta de Senna, o fim da primeira parte traz o espanto ante a incoerência entre a realidade do rio (negativa) e sua representação nas cartas geográficas (positiva). O poeta sabe que a representação do real costuma ser traiçoeira, por isso imiscui-se na narrativa, conferindo-lhe verossimilhança.

    A segunda parte do poema recupera os símiles iniciais, agora mais condensados, com destaque ao termo espesso, paronomásia de espada, que será o símbolo fundamental na terceira parte. A imagem do cachorro, associdada à humildade, prevalece nessa segunda parte, em que a tessitura semântica e sintática nos apresenta versos como estes:

    Um cão sem plumas
    é quando uma árvore sem voz.
    É quando de um pássaro
    suas raízes no ar.

    Segue-se um grande número de versos sobre os excluídos, os carentes, homens plantados na lama, a lembrar os anfíbios meninos de Morte e vida severina. Secura e umidade são antíteses que se conciliam na relação homem/rio. Escreve Antonio Carlos Secchin que o seco e o úmido se harmonizam na lama, cuja natureza engloba ambas as categorias.

    A segunda parte, toda centrada no elemento humano, fala do homem sem plumas, que se identifica com a lama - no início, sem artigo, depois com artigo indefinido, ao fim, definido:

    Na água do rio,
    lentamente,
    se vão perdendo
    em lama; numa lama
    que pouco a pouco
    também não pode falar:
    que pouco a pouco
    ganha os gestos defuntos
    da lama;
    o sangue de goma,
    o olho paralítico
    da lama.

    A terceira parte, Fábula do Capibaribe, aborda o duelo entre o rio e o mar. O poeta considera essa parte uma espécie de fábula da formação do Recife pelo rio. É por obra do rio que aumentou a área da cidade. A imagem do cão humilde cede vez à espada. Os parênteses são usados para demarcação do mar, visto sob a imagem da bandeira dentada, em oposição ao rio, úmida gengiva. Há irônicas imagens relativas ao poeta asséptico, polindo esqueletos, / como um roedor puro, / um polícia puro. O mar é corrosivo, o rio é dissolvente. A personificação é explorada, assim como a oralidade poetizada da repetição:

    O rio teme aquele mar
    como um cachorro
    teme uma porta entretanto aberta,
    como um mendigo,
    a igreja aparentemente aberta.

    O mar assume atitude de defesa e de ataque em relação ao rio. A solidariedade dos rios que se juntam remetem para uma alegoria revolucionária. A imagem da fruta é retomada, com sua força / invencível e anônima / (...) trabalhando ainda seu açúcar / depois de cortada.

    As estrofes da quarta parte, Discurso do Capibaribe, retomam aspectos referenciais das partes anteriores. Aqui, o poeta considera fazer uma autocrítica de sua poesia anterior. Depois do encontro entre o Capibaribe e o mar, o poeta avalia, sobretudo eticamente, a dolorosa permanência do rio na memória coletiva. Há, portanto, a valorização do coletivo através do discurso individual do rio. O cão vivo / dentro de uma sala, ou, mais ainda, cão vivo debaixo da camisa, / da pele, mordendo a nossa consciência. O poeta efetiva o processo da intensificação do símile, interiorizando-o. Assim, a contundência imagística triunfa sobre o caráter sentimental. Os versos são releituras de outros versos, aprofundamento e tomada de consciência da espessura do sofrimento humano:

    Como todo o real
    é espesso.
    Aquele rio
    é espesso e real.
    Como uma maçã
    é espessa.
    Como um cachorro
    é mais espesso do que uma maçã.
    Como é mais espesso
    o sangue do cachorro
    do que o próprio cachorro.
    Como é mais espesso
    um homem
    do que o sangue de um cachorro.
    Como é muito mais espesso
    o sangue de um homem
    do que o sonho de um homem.

    Para o poeta, O que vive fere. O espesso é agudo e contundente, incomoda de vida, rejeitando o nebuloso, o vago, porque é mais espessa / a vida / que se luta / cada dia. O símile final, a (... ave / que vai cada segundo / conquistando seu vôo), colocado entre parêntesis, demarca o espesso que preenche o espaço, ave-palavra superando batalhões de secretas / e íntimas formigas da fome. Segundo Marta de Senna, o surgimento de uma imagem "alada" no fim do poema confere, em definitivo, a dignidade poética que Cabral reconhece na vida espessa e terra-a-terra do homem sem-plumas.

    Para Benedito Nunes, o discurso poético desse poema


    Referências bibliográficas:

    ATHAYDE, Félix. Ideias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/ UMC, 1978.
    MELO NETO, João Cabral. Poesias completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
    NUNES, Benedito. João Cabral de Melo Neto: poetas modernos do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1971.
    SECCHIN, Antonio Carlos. João Cabral: a poesia do menos. Rio de Janeiro: Tpbooks/UMC, 1999.
    SENNA, Marta de. João Cabral, tempo e memória. Rio de Janeiro: Antares, 1980.
     
    Última edição por um moderador: 7 Nov 2012
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