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Na Colônia Penal (Franz Kafka)

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por Lucas_Deschain, 22 Mai 2011.

  1. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    [size=medium][align=center]Na Colônia Penal (1914, Franz Kafka)[/align][/size]

    [align=center]
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    [/align]

    Sinopse:

    [align=justify]Um pesquisador visita uma ilha que serve de colônia penal. O motivo de sua presença nesta colônia é somente observar uma punição a ser aplicada a um soldado que havia falhado em seu serviço, uma vez que fora encontrado dormindo em seu turno de trabalho. O aparelho utilizado na execução foi projetado por um antigo comandante da colônia, cujo legado ficou aos cuidados de um fiel oficial, o mesmo que executará a pena deste soldado. Essa forma de execução penal não encontrava simpatizantes na ilha, para desespero do oficial, que gostaria que houvesse maior aprovação e mais recursos para manter a prática. O método a ser aplicado na pena incluía horas de sofrimento e tortura enquanto agulhas riscavam a pele da pessoa em profundidade cada vez maior, até que suas forças se esgotassem. Acreditava-se que, ao se escrever no corpo do condenado uma mensagem cifrada relacionada à sua atitude, esse compreenderia o seu erro. Porém, a história não é centrada na crueldade da punição, mas principalmente na fé que o oficial deposita no método. Este, ao perceber que o pesquisador era contra a prática e expressaria sua opinião perante o novo comandante da ilha, liberta o condenado e impõe a si próprio o castigo. A impressão que se tem é que todos naquela colônia penal são condenados, seja a pagar por um crime, ou pela sua própria loucura.[/align]

    Fonte: http://pt.shvoong.com/books/novel-novella/1899980-na-col%C3%B4nia-penal/

    [align=justify]Acabei de ler semana passada e ainda estou tentando me recuperar. A frieza e impessoalidade com que Kafka compõe essa obra são de deixar qualquer um arrepiado. Há tanta coisa aí para ser discutida, tantos pontos a serem levantados, o sadismo, a crueldade, a brutalidade, a arbitrariedade jurídica, todo o peso dessa obra em relação ao conjunto de produções de Kafka, a figura da autoridade etc. Vamos lá então?[/align]
     
  2. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    Eu dei uma baita de uma gargalhada quando terminei de ler esse conto. Foi só eu?

    Kafka consegue parecer ser cruel ao detalhar o funcionamento da máquina que dava fim aos prisioneiros. Mas eu gostei como no final ele reverte a situação de modo a torná-la meio ridícula. Ridícula a maneira como as pessoas agiam em frente à essa máquina. Não tem nada de cômico no texto. Eu só achei graça no último parágrafo mesmo. A reação do protagonista em relação à colônia.

    Que fique bem claro que foi um riso de nervoso.
     
  3. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    [align=justify]Sim, aquele final é mesmo enigmático, sei lá, parece desconstruir todo o conceito do livro, mas na verdade é bem como você falou Wilson, é provocar um riso nervoso, como se com aquele final ele quisesse apontar o absurdo que é a celebração da máquina infernal de tortura e execução.

    O próprio fato do oficial ter se submetido ao aparelho para ver se encontrava a suposta "epifania" a que chegavam os condenados é meio bizarro e reforça um pouco essa leitura.[/align]
     
  4. Pips

    Pips Old School.

    É o melhor trabalho do Kafka até hoje me assombro com toda história.
     
  5. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    [align=justify]É de arrepiar mesmo. Acho que esse se diferencia dos demais principalmente por tratar as coisas de forma mais direta, mais aberta, chocando pela crueza com que o procedimento é descrito.

    Kafka, apesar do estilo lacônico, foge dele quando descreve o aparelho. Dá para ver ele se delineando na tua frente. A atenção aos detalhes de como tudo funciona é muito bem estruturado.

    Vocês tem alguma teoria ou consideração a fazer acerca do fato de que os personagens não têm nomes próprios? Eles só são descritos como condenado, oficial, soldado, explorador. [/align]
     
  6. Meia Palavra

    Meia Palavra Usuário

    Kafka é sem dúvida uma das figuras mais famosas e perturbadoras da literatura. Seu modo lacônico porém tonitruante, que revela nuances sombrios em cada narrativa, angariou, merecidamente, seu lugar no cânone universal.

    Na
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    é uma de suas obras mais famosas e, talvez, a que mais diretamente entra no terror aberto, no macabro, embora a tensão e a suspense digna de pesadelo encontrem-se inscritas em todas as suas obras. Na Colônia Penal foi uma das primeiras obras que Kafka produziu e segundo Modesto Carone, foi intensamente influenciada por uma obra pornográfica sádico-anarquista de Octave Mirbeau de 1899, intitulada Le Jardin des Supplices, em que flagelos, sadismos e toda a sorte de horrores desfilavam.

    Os personagens dessa obra não têm nome, são chamados simplesmente de: oficial, explorador, soldado e condenado. Somos introduzidos (ou seria melhor arrastados) em uma paisagem desoladora e deserta, onde estão o oficial da colônia penal, um soldado às suas ordens, o explorador estrangeiro e o condenado, todos ao redor do aparelho executor inerte. Visto que o estrangeiro está em visita a colônia penal para conhecer melhor os métodos e procedimentos usuais do lugar, o oficial não poupa detalhes para apresentar o funcionamento do julgamento (completamente injusto) e do aparelho que irá infringir a pena ao condenado.

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  7. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    Ninguém tem nenhuma teoria (ainda que lostiana) sobre o desfecho bizarro do livro?
     
  8. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    [align=justify]Mavericco, vamos fazer um tópico específico para O Veredito, né? Para ficar mais organizado, né? (a idéia da capa no primeiro post ficou meio fora de lógica mesmo, mals ae)[/align]
     
  9. Marc_dell

    Marc_dell Usuário

    Me parece que os personagens não tem nome porque a máquina não precisa deles. Pode parecer simplista, mas a Europa não precisava nem de nomes nem estabelecer os verdadeiros culpados. Qualquer um poderia ser condenado e o crime, ou falta, poderia ser criado depois. Gosto de ver esse texto como uma espécie de revelação (no sentido religioso mesmo, o que dá um tom bem irônico, ao gosto de Kafka) sobre os anos seguintes (nazismo e stalinismo).
    Mas, para quem se interessar, Deleuze e Guattari tem uma interpretação bem interessante sobre essa máquina. Falam da necessidade arcaica de inscrever no corpo o castigo, e que isso foi fundamental para educar o homem, nisso acompanham Nietzsche.

    Estaria Kafka antevendo um retorno dos meios mais violentos associados ao desenvolvimento da tecnologia para castigar o homem de dívidas que ele não contraiu?
     
  10. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Não restringiria a coisa ao nazismo e ao stalinismo; expandiria e diria "ditaduras", simplesmente. Afinal de contas, quem controla e conhece a máquina é um militar de alto posto (o outro, o soldado, sequer conhecia a linguagem falada!)...

    E o condenado também acompanhava a discussão, de forma um tanto quanto tácita e plácida... Como o mundo acompanhou as ditaduras simplesmente entrarem. No Brasil nós fizemos até passeata defendendo a "revolução"!

    Putz. Essa alegoria do Kafka é genial o_o
     
  11. Lucas_Deschain

    Lucas_Deschain Biblionauta

    [align=justify]Não restringiria a coisa nem mesmo a ditaduras somente, pois acho que dá para considerar ainda mais possibilidades de análise. Além das que vocês já falaram até aqui (nazismo, stalinismo e ditaduras) acho que dá ainda para considerar, em nível mais abstrato, a própria existência humana e a série de laços e determinações socialemente construídas pelos homens.

    Se considerarmos o que o marc_dell:

    talvez possamos expandir a compreensão da "alegoria" (eu realmente não gosto desse termo) para além da Europa e colocá-la como uma condição da espécie humana. Não acho que isso fique muito claro se olharmos somente para Na Colônia Penal, mas para a obra de Kafka como um todo: ela está permeada de aporia, de becos sem-saída, de fatalismo, derrotismo, desesperança. Para Kafka todos estamos a mercê de sermos condenados a todo instante (creio que esse seja o mote de O Processo, embora eu só saiba por ouvir outros falando, não li a tal obra), de podermos ser esmagados, aniquilados e trucidados a todo o momento, essa é a tensão que a experiência humana criou. E é a mesma na qual se enredou, condenando-se a si própria em sua própria rede.

    ***

    Sobre a questão dos nomes ainda, uma frase do marc_dell resume o que eu penso (embora eu não saiba se foi isso mesmo o que ele quis dizer. Me corrija se eu estiver colocando palavras na sua boca, OK, marc?):

    A impessoalidade dos personagens é uma das características mais interessantes de Kafka, na minha opinião. Em suas obras mais longas, ele costuma dar nome aos seus personagens, quem sabe por questão de conveniência ou quem sabe porque eles já adquiriram maior personalidade e particularidade na cabeça do autor (não temos como saber isso de forma absoluta), mas em obras menores como Na Colônia Penal e as pequenas narrativas da edição Um Médico Rural, por exemplo; a falta de nomes é sintomática e, a meu ver, não é feita a revelia de algum propósito.

    O fato do autor ter convivido e estudado as leis por conta de sua formação na área do Direito o pôs em contato com os meandros jurídicos, o funcionamento e a lógica legal, o que fez com que Kafka percebesse, entre outras coisas, como o mundo moderno estava organizado impessoalmente, fora de parâmetros humanos, digamos assim. O que imperava nesse "mundo de leis" é uma lógica férrea e fria, que enxerga os homens não como seres humanos, mas como engrenagens ou qualquer outra coisa que não humanos. Esse mundo condenou o homem, como se tivesse se tornado uma entidade autônoma, de vontade própria, cuja existência e consciência colocassem o homem sob o signo da fatalidade.

    Assim, a impessoalidade dos personagens provém do fato de que eles nada mais eram para esse sistema gélido do que dados, informações, estatísticas, e não seres pensantes, com sentimentos, expectativas, peculiaridades, cuja integridade ou identidade deveriam ser respeitados. Se ampliarmos o termo "máquina" que tu usaste, para "sistema de leis" ou "parâmetros de regulamentação" ou mesmo "organização jurídica", concordo contigo, esse sistema definitivamente não precisava saber o nome deles, até porque, a partir de sua lógica de funcionamento, isso é completamente irrelevante.[/align]
     
  12. Marc_dell

    Marc_dell Usuário

    Concordo com vocês. O único ponto que vou divergir é o seguinte: não se pode associar ditaduras a totalitarismos. É verdade que essa situação se prolonga a muito mais que o nazismo e o stalinismo, mas o que os faz serem totalitarismos é essa capacidade de englobar tudo, de ter domínio sobre a vida depois de reduzir as pessoas a números, vide as tatutagens nos campos de concentração. Assim, elas não precisam de nomes, eles são inúteis. E as ditaduras, apesar de toda a violência que causam, não conseguem dar esse aspecto totalizante.

    Claro que Kafka não previu os campos de concentração, nem os expurgos sóviéticos (com seus irônicos "campos de trabalho"). Mas o que me chama demais a atenção nele é que previu essa dominação desumanizadora através da autonomia do "direito" (vale a pena ver como a Alemanha nazista era extremamente cuidadosa com a questão do direito). A metamorfose é a primeira fase desse desumanizamento, deixando de ser homem. Mas ainda preserva algo, tanto que ele não morre naturalmente, como se respeitassem algo nele ainda. Mas o processo e a colônia, são nesse sentido, me parece. O que era de humano já desapareceu, foi-lhes retirado.

    E o castelo, parece um homem que ainda não se deu conta que o mundo mudou. Que ainda está trabalhando com as velhas medidas (valores).

    O fato de ser uma pessoa com formação que controla a máquina, me parece ser mais um indício dessa tecnização a "serviço do mal". Porque o domínio foge das pessoas comuns (e é bem interessante ver que o próprio militar termina se castigando, numa idéia de que todos serão atingidos).

    Mas, ao mesmo tempo, acho que buscar essa revelação do futuro próximo em Kafka é perigosa. Porque tendemos a destacar apenas os aspectos que corroboram o que pensamos. Acredito que ele pode ter percebido muitas coisas através dos indícios que recolhia em sua atividade profissional no direito, mas não tinha como prever os campos e expurgos...

    Ninguém tinha, infelizmente.
     
  13. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Ou seja, os limites da convivência em sociedade, sejam estes limites a procriação própria e a procriação social (usando termos de Marx): o trabalho, a família. O trabalho como vínculo com a sociedade (Gregor Samsa, por exemplo, o oficial e a máquina e a sociedade [que antes aceita e depois condena]); a família também como vínculo com a sociedade, mas com um vínculo multiplicativo e de relações internas.


    Em O Processo K. é preso do nada; mas preso em liberdade condicional... O que é uma enorme contradição. Pois esta liberdade que K. vive é a mesma da qual vivemos: uma liberdade permeada de infinitas condições....

    Em "O Processo" e "O Castelo", suas duas maiores obras (corrijam-me se estiver errado), o nome do protagonista é resumido a K. ....

    Interessante você citar engrenagens... Pois pela leitura que eu pude ter do conto, são as engrenagens que fazem com que o oficial seja morto pela máquina enlouquecida! (morto de forma calma e com um semblante neutro). Uma nova alegoria (porque não gosta do termo? XD Aprendi a gostar dele depois da Divina Comédia) que demonstra sublimemente a máquina jurídica nos meandros que só um Kafka poderia conceber... Uma máquina que está sempre colocando punições (as mesmas, segundo esta lógica) nas pessoas até que as mesmas morressem (e de forma tão indiferente... As pessoas chegam até mesmo a serem alimentadas durante O Processo!). Até que um dia, um belo dia, esta mesma máquina destruirá seus constituintes, seus criadores, como uma espécie de dilema satânico em Paradise Lost do Milton ou no Frankenstein da Shelley....

    É exatamente a mesma lógica que a Constituição faz ao classificar um determinado grupo X de indivíduos como cidadãos: e excluir um outro determinado número, criando uma dualidade excludente e feita de condições: uma liberdade condicional: se você fizer isto e aquilo, és cidadão e tens direito a isto e aquilo; se não fizeres, serás não-cidadão e não terás direito a isto e àquilo.

    E se tivesse, que diferença faria? A Alemanha estava naufragada após a primeira guerra mundial; a Rússia estava naufragada no czarismo. A sociedade precisava pular no primeiro barco que encontrasse: e como ninguém estava tentando impedi-los de pular... A mesma sociedade que apoiava e que levava crianças para assistir a Justiça sendo feita simplesmente abandonou a máquina e a deixou à mercê do tempo...

    De um tempo que, de forma um tanto quanto nefasta, ressuscitará debaixo da mesa de um bar. Ou simplesmente vai embora sem sabermos se conversou, se deu sua opinião, se disse isto, se disse aquilo...
     
  14. -Jorge-

    -Jorge- mississippi queen

    [align=justify]Interessante, eu tinha entendido que o oficial foi o último executado por ele ser um carrasco e saber que com o fim das execuções ele seria julgado e condenado pelos crimes que cometeu, logo, o último a ser executado. Por isso que o narrador diz que aquela seria uma consequência "lógica" do fim das execuções e não tenta impedi-lo e ninguém o ajuda também. Ajudá-lo seria ser co-partícipe do crime.

    É uma história bastante perturbadora em vários sentidos e há mesmo muito a comentar, mas por enquanto fico com esse ponto.[/align]
     

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