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Mlejnas

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Mavericco, 16 Abr 2011.

  1. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

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    [align=right][size=large]MLEJNAS,[/size]
    ou Feltro e Feltro

    (este texto está sujeito a correções, revisões, mutilações e torturas morfossintáticas)[/align]

    [align=justify](1) Em Tlon, Uqbar, Orbis Tertius, do livro Ficciones do grão contista argentino Jorge Luís Borges, deparamo-nos com esta frase:

    Un solo rasgo memorable: anotaba que la literatura de Uqbar era de carácter fantástico y que sus epopeyas y sus leyendas no se referían jamás a la realidad, sino a las dos regiones imaginarias de Mlejnas y de Tlön…

    Da parte onde o narrador, ao lado de Bioy Casares, pasmava-se com as conjecturas até então misteriosas de espelhos bem como dum volume enciclopédico abracadabrante. Deste tênue retalho textual, podemos extrair uma dúvida extremamente pertinente: que é Mlejnas? Tlon conhecemos, pois que o conto se desenrosca a descrever, superficialmente (uma superfície deveras profunda, devo dizer), os hábitos culturais, históricos, sociológicos, antropológicos (etc) do mundo descrito bem como de sua sociedade criadora.

    Mas nada disso nos interessa, pois Uqbar, terra que abomina espelhos e a cópula, possui uma literatura que se baseia estritamente em dois mundos – e metade dessa fonte criadora Borges simplesmente alaparda…

    O método utilizado para se tentar chegar à resposta será basicamente o que Legrand utilizou-se em The Golden-Bug de Poe (criptografação básica – coloquemos os devidos nomes); as fontes bibliográficas, escassas e embaçadas, serão citadas ao longo do texto.

    (2) A Wikipedia norte-americana diz:

    Mlejnas, and Tlön as it is first introduced, are fictional from the point of view of Uqbar. In the course of the story, Tlön becomes more and more “real”: first it moves from being a fiction of Uqbar to being a fiction of the narrator’s own naturalistic world, then it begins (first as idea and then physically) taking over that world, to the point of finally threatening to annihilate normal reality.

    (http://en.wikipedia.org/wiki/Tl%C3%B6n,_Uqbar,_Orbis_Tertius)

    Desta afirmação, provavelmente impensada por seu autor, podemos supor que Mlejnas seja uma versão tloniana que “deu errado”. Se ela deu errado, é porque existe uma falha; mas identificar esta falha demonstra-se extremamente hercúleo num primeiro relance, visto que as opções tendem ao infinito…

    Um bom passo para se sair desta primeira barreira labiríntica é o de considerar que Mlejnas é antitético à Tlon: primeiro em partes, segundo em sua totalidade. Descrever, porém, a totalidade contrária mlejniana seria reescrever novamente o conto, e não sou Menard para tais façanhas. É mais fácil e mais sabido que identifiquemos quais aspectos opositores são realmente importantes.

    A visão espacial, a teoria quantitativa-numérica e o materialismo são os pilares mesopotâmicos de Tlon. A linguagem que, talvez evidentemente, influenciaria majoritária a literatura cairia novamente num leque de opções muito grande que não daria em nada, pois, como ver-se-á seguidamente, a linguagem por si só nada é… A biblioteca de Babel compendia todas as formas linguísticas mlejnianas e tlonianas, e uma consulta na mesma seria o suficiente para que esta dúvida fosse esclarecida.

    A visão espacial em Tlon é a de que as coisas não perduram no espaço, mas sim sucessivamente no tempo. Uma série heterogênea de atos independentes, uma série de processos mentais, onde o espaço não perdura no tempo: o fato dum cigarro perder sua superfície cilíndrica com a chama é uma mera associação de ideias (pois tudo em Tlon gira em torno de ideias).

    “Oras: o contrário de todas estas ideias desembocaria em nosso mundo…”

    Não. Em Mlejnas as coisas perduram no espaço e não no tempo (aquele perdura neste), em Mlejnas existe uma série homogênea de atos dependentes regidos de processos que não são mentais. O primeiro aspecto exclui a possibilidade de estarmos em nosso mundo. Objetos perduram no espaço e no tempo. Ao dizer que estes perduram apenas no espaço, estamos dizendo que a fumaça, as chamas e o charuto meio apagado são quadros dependentes e homogêneos que sempre existiram. Ou seja, a queimada existe ao mesmo tempo que o homem pensante duma queimada futura… Futura? Como esta ideia pode existir se as coisas existem ao mesmo tempo? Se uma das escolas tlonianas diz que o presente é indefinido, as escolas mlejnianas talvez pressuponham que não existe algo aquém do presente. Basta imaginar uma espécie de “galeria universal” sob uma nova perspectiva: o quadro X representa o homem que pensa em fazer uma queimada; o quadro Y, a queimada realizada: em Tlon, o que liga esses dois quadros são processos mentais, associações de ideias (associar a ideia do homem pensando na queimada e na queimada realizada, mas não associar que o homem pensando na queimada seja antecedência da queimada realizada); em Mlejnas, no entanto, esses dois quadros devem ser vistos a partir duma visão panorâmica onde, enquanto ali o homem pensa, aqui o homem já fez…

    Em Mlejnas, o panoramizar é essencial para que as coisas sejam observadas e estudadas, e o caráter indefinido deste corrobora com a teoria quantitativa-numérica de Tlon, onde a indefinição é regra e onde mede-se coisas a partir de < ou >. A diferença é que Mlejnas não lida com aproximações ou classificações quase que taxionômicas. Em Mlejnas a ideia do infinito é essencial, e esse infinito não pode ser visto como o mesmo infinito de Tlon, que na verdade é infinitamente incompleto (mais especificamente, um setor). Dizer que X > Y em Tlon é concebível, é o máximo que se pode conjecturar; em Mlejnas, o panorama espacial-temporal diz-te que X e Y tendem a uma igualdade: ou melhor, que X e Y são iguais na medida em que o panorama é infinito e a distância entre X e Y é praticamente nula e desprezível ou tende a tal. A separação de 1 e 2 é mais importante em Mlejnas que a determinação 1>2 em Tlon. Mas não é apenas isto a ser raciocinado: a soma 1+2=3 tem implicações continentais na lógica mlejniana, ao contrário da lógica tloniana que é simplesmente associação mental; pois aqui, como 1 e 2 tendem a ser a mesma coisa (A é A), 3 seria, logo, 2A, mas não simplesmente seria 2A – seria 2A ao mesmo tempo que 1 e 2 são A. O caráter panorâmico permite que seu interlocutor crie inclusive um paradoxo: se 1 e 2 são A e 3 é 2A, e se o fato de 1 e 2 serem A se dá ao panorama, então, não é correto pensar que 3 pode ser também A ao mesmo tempo que é 2A? Uma solução bastante coerente para esta pergunta dar-se-ia com a conjectura que o fato de 3 ser 2A ou A é simplesmente uma questão de ponto de vista (afinal de contas, estamos numa “galeria”), uma questão de eu, e se considerarmos 3 como unidade independente, podemos sim classificar que 3 é A assim como 100 também é A. No entanto, se pensarmos esse 3 como sequência ou resultado ou produto, não podemos pensar nele simplesmente como sendo 2A, pois que aí iremos depender exclusivamente dos componentes anteriores: em nosso exemplo, 1+2 sendo 3 com 1 e 2 sendo unidade independentes e de valor igual a A, obtendo-se como resultado final 3A assim como em 0,5+0,5+0,5+0,5+0,5+0,5=3 temos que 3 é 6A. O resultado duma soma determinável é impossível em Mlejnas, na medida em que o número de componentes pode simplesmente espigar ou tender ao infinito o produto. Nós só termos certeza da unidade, pois que esta tende à igualdade.

    A relação entre produto-unidade é o que move a matemática e toda ciência calcular em Mlejnas. Tlon pregava a impossibilidade da exatidão da unidade; Mlejnas prega a impossibilidade da exatidão no produto ou na operação. Se em Tlon é impossível saber com exatidão qual a temperatura dum dia friorento numa montanha escarpada, em Mlejnas é impossível determinar o resultado de uma simples adição ou duma subtração (que são as operações básicas da matemática). Para determinar qual seria a procedência no caso da compra duma banana fálica, é importante primeiro tentarmos traçar como um habitante tloniano se sai na tentativa de resolver um problema de subtração.

    A primeira coisa a ser pensada e definida é o que chamo de subtração essencial. 1-1 ou 90-90 tem como resultado zero, e este é o único número que pode ser definido lucidamente em Tlon, na medida em que ele nada representa. O zero é inclusive um parâmetro universal em Tlon (e em Mlejnas), pois que ele pode ser comparado com exatidão a qualquer outro número ou pensamento numérico: 0<1 ou 0>-1. É claro que a sequência de comparações tloniana tende justamente ao infinito, pois podemos dizer que 1>0,5, que 1>0,25 da mesma forma que podemos dizer que 1<1,5 ou 1<1,25. A solução disto seria justamente a unidade universal mlejniana… Nem sempre, porém, operamos com a subtração essencial; a operação 2-1, de componentes indetermináveis, tem como resultado outro componente indeterminável. Sabemos, nós, que um destes componentes é igual a um dos componentes da operação, mas isso é dado como impossibilidade em Tlon, e o máximo que pode ocorrer é uma pessoa ou outra ter a noção ou o pequeno assombro de igualdade.

    A solução do problema das moedas teve também grandes impactos matemáticos. Diz que só existe um indivíduo indivisível e que este é cada um dos seres do universo e que estes são os órgãos e máscaras da divindade. Subtrair toda e qualquer coisa é tentar alterar a ordem indivisível do sistema; é tentar desfalcar a divindade que existe em tudo. É uma tentativa, e não passa duma tentativa, na medida em que toda e qualquer subtração, exceto a essencial, que não resulta em nada e logo não altera nada; resulta num resultado que por sua vez é parte da divindade (como nas Ruinas Circulares). A subtração é uma permutação pequena do universo, e o resultado de 2-1 é simplesmente, sob nossa ótica, o alapardamento do 2 e a exposição do 1. Este 2, no entanto, pode aparecer numa determinada outra ocasião, ao passo que este mesmo 1 pode se esconder etc (tal qual um baile de máscaras rubras).

    No Mlejnas antitético à Tlon, temos que primeiro estabelecer uma teoria materialista ou, o que vejo mais acertado, uma solução ao problema das moedas. Em Tlon tivemos o advento da unidade indivisível, pois que Tlon necessitava desta unidade na medida em que as moedas e seus coletadores (X, Y e Z) não eram pensados como unitários ou unidades; em Mlejnas nós já temos esta unidade arraigada, mas simplesmente não conseguimos pensar no que seria uma separação ou simplesmente uma quebra disto. A subtração essencial continua sendo pensada em Mlejnas, pois que ela resulta em nada, e algo não pode ser unidade com não-algo (nem mesmo sob uma ótica panorâmica, pois o não-algo não faz parte do mesmo panorama que o algo; o não-algo não faz parte de panorama nenhum, e o panorama do algo é infinito – ou infinitamente incompleto, na medida em que o panorama do algo não abarca o panorama do não-algo). O problema das três moedas consiste em:

    El martes, X atraviesa un camino desierto y pierde nueve monedas de cobre. El jueves, Y encuentra en el camino cuatro monedas, algo herrumbradas por la lluvia del miércoles. El viernes, Z descubre tres monedas en el camino. El viernes de mañana, X encuentra dos monedas en el corredor de su casa. El heresiarca quería deducir de esa historia la realidad -id est la continuidad- de las nueve monedas recuperadas.

    Se em Tlon o problema residia em como as três moedas existirão durante os três prazos, em Mlejnas se dá em como as nove (como um todo e como partes) podem ser tão facilmente separáveis e também em como pode se pressupor vazio ou falta ao, por exemplo, Y encontrar quatro moedas. Oras: quatro moedas são, panoramicamente, o mesmo que nove moedas!

    A primeira sugestão é a de se adotar um eu aproximador. Este eu teria a forma dum funil infinitamente expansível para quaisquer de suas extremidades, de objetivo separar a unidade existente em Mlejnas. Logo falhou. Como o panorama é infinito, um funil infinitamente expansível jamais conseguiria abarcar toda a infinitude de algo que já é infinito. Uma nova argumentação, impensada, poderia supor que esse funil já é infinito tal qual o panorama; mas logo chegariam à conclusão que o novo panorama que teriam é infinitamente subdivisível e já está infinitamente subdivisível. Um novo eu, infinitamente subdivisível na medida para abarcar o panorama infinitamente subdivisível não resultaria em resultado nenhum; aproximar-se-ia da resposta tloniana, apenas…

    A observação atenta do contorno do sol levou mlejnianos a conjecturarem uma segunda sugestão, que seria a da forma deste panorama. Não acreditavam mais num plano cosmológico, mas sim num algo circular que embarcaria o não-algo tal qual um anel abarca o dedo do noivo. Esta teoria teve mais impacto e resultado que a anterior, permitindo o conceito de concentricidade. Dizia que a unidade de todas as formas universais (entenda-se, os números) dá-se pelo fato de todos terem um mesmo centro e um mesmo raio. O raio é o que permite que se seja dito que 1 e 2 são A, e não mais a aproximação resultante do infinito. Mlejnas doma o infinito na medida que o prende num círculo finito e unitário. Este êxtase não dura tanto. A proposição original, solução para o problema das três moedas, dizia: “Suponha-se um anel que possua, em algum local de sua superfície, as três moedas. Sua posição não importa. Se retirarmos estas moedas, obviamente, o círculo irá se desfalcar… Mas até que ponto este desfalcamento é percebido? Nós, espectadores, nada podemos perceber. A imagem continua a mesma… Se nada percebemos, então nada é retirado. O número de moedas, seja ele qual for, poderá ser retirado que nós nada percebemos…”

    Uma contra-argumentação foi logo redigida: “(…) and if we see anything, this does not imply that nothing was removed. A scratch on a piece of art modify the pice of art, as well as a slight color change. The difference is that a scratch can not be noted automatically and easily by a casual observer, especially considering different points of view. A small change in that I observer implies a whole different universe, where failures can be demonstrated. We can not imply that our universe is absolutely absolute (as it is not). It is our universe, only. The universe itself, absolutely absolute, requires an observer who is an absolutely absolute representation of the absolutely absolute. An observer can see the scratch on the table as well as the events generated by a color change with the days. Another solution, perhaps more archaic by actually being archaic, would be to appoint one I which I possess in my hands or a funnel absolutely absolute that enables you to see in detail the innards of the corrupted table; or a periscope to show him a part of the artwork that is being or has been most clearly affected by any external agent.”

    “Proponho, exatamente, duas coisas. (…) a primeira consiste na adição sistemática de representações microscópicas ou simplesmente desprezíveis do absolutamente absoluto. Em outras palavras, temos um absolutamente absoluto dentro de outro absolutamente absoluto, o que pode ser um disparate, é claro. Qualquer subtração deste sistema, que não a essencial, resultaria num desfalcamento absolutamente absoluto… Basta que imaginemos um círculo composto de vários círculos menores, onde a subtração de qualquer um destes círculos menores interferiria na estrutura intrínseca do círculo principal, do círculo mestre (…) Mas se esse círculo menor é representação do círculo mestre, então não é de se imaginar que quando ele for retirado do círculo maior ele passe a ter, em alguma parte de seu sistema, uma falha, uma falta? Não. Nós retiramos o círculo representacional do círculo mestre; nada interferimos do círculo representacional. Sendo assim, X pode ser retirado de Y apenas e somente se X for representação de Y. (…) Nosso universo é uma intrincada cadeia de representações, de simetria perfeita, e isto é a segunda coisa que proponho. Toda e qualquer atividade subtrativa ou adicional é abominável (…)”

    “Se nosso universo é uma cadeia de representações, como posso dizer com certeza que a representação A condiz com uma representação B? A pode fazer parte duma cadeia de representações N anteriormente alterada; A pode ser essa representação alterada… É ilógico pensarmos que todas as representações são iguais ou simétricas, pois temos um eu expectador que modifica esta cadeia a seu bel-prazer. Apenas um eu absoluto pode ter certeza de tais coisas. Mas este mesmo eu pode ser modificável na medida em que o universo é modificado em suas representações. Ora: o eu do passado vê uma representação absolutamente absoluta que não condiz com a representação também absolutamente absoluta que o eu de agora vê. Mas como posso afirmar que tanto a representação passada como a presente e como também a futura são absolutamente absolutas? Nenhum eu é absolutamente absoluto, senão o eu absolutamente absoluto que tem como abrangência o tempo absolutamente absoluto. Mas este eu é tão absolutamente absoluto que consegue abarcar até mesmo o que não é absolutamente absoluto em todas suas acepções. Em outras palavras, ele capta o algo e o não algo; mas este eu nada mais é que um eu captativo. Não é seu dever analisar se o que viu, vê e verá é algo ou se é não algo, tampouco se está no agora, no foi-se ou no virá. Este eu captativo, absolutamente absoluto em todas as acepções possíveis e imagináveis, só pode ser operado a partir dum eu decantador que filtrará suas percepções universais. Este eu decantador é uma representação do eu captativo; mas este eu decantador não é tão absolutamente absoluto quanto o eu captativo, pois este eu é o eu que analisamos anteriormente: é o eu que os pensadores antigos chamavam de absolutamente absoluto (ou eu aproximador); é o eu que consegue ter em sua análise apenas uma época. No entanto, não apenas o tempo deste eu é importante; sua forma é essencial: possui a forma dum funil de extremidades absolutamente absolutas que sejam tão absolutamente absolutas quanto o eu captativo; seu fim, porém, é nulo. (…)”

    “(…) dizer que o fim é nulo é dizer que o eu captativo, mesmo com o advento do eu decantador, nada continuará a ver. O eu captativo não pode ser absolutamente absoluto, pois isto implicará na nulidade de seu fim. Temos que ter em mente que este eu decantador tem, ou melhor, falta, em seu final, uma microrreprodução absolutamente ínfima de si mesmo; e a falta desta microrreprodução é o que permite duas coisas: que o universo absolutamente absoluto se encaixe com este eu decantador e que o eu captativo consiga usar normalmente o eu decantador. Afinal de contas, a única função do eu decantador é simplesmente a de intermédio, a de vetor entre o eu captativo e o universo absolutamente absoluto.” “A antítese do dr (…) não condiz com o que fora primeiramente dito por minha pessoa. A função do eu decantador não é simplesmente a de uso, a de objeto. O eu decantador existe por si só e absolutamente por si só. O advento do eu captativo é simplesmente e absolutamente mera ocasião…”

    “Nada pode ser absolutamente ocasião ou ocaso. O eu captativo e o universo absolutamente absoluto nada mais são que fixos. Trata-se dum sistema composto de infinitas representações absolutamente absolutas, e onde o eu decantador nada mais faz que trasladar uma representação A, por intermédio de seu funil absolutamente absoluto, para uma área primordial (a área das operações essenciais) de um e de outro (do eu captativo ou do universo absolutamente absoluto). Esta representação interage com outras representações, altera suas propriedades, altera seus elementos. Toda e qualquer representação, sendo assim, é absolutamente alterável na mesma medida que o todo, pois uma pequena representação que sai de lá cai cá e altera todo o sistema de forma homogênea e tendendo ao equilíbrio. O lado de lá, no entanto, não perde em nada. Afinal de contas, cá deveria ter uma representação a mais que lá. Mas isto não ocorre, pois sempre que uma representação cá cai, uma representação lá vai, num eterno e simétrico sistema de trocas mútuas. Perder não significa perder na acepção tosca da palavra; perder é perder aqui e ganhar, automaticamente, algo de lá aqui. Nós, simplesmente, sentimos o assombro da perda… Mas quem dirá que este assombro é absolutamente desprezível ou absolutamente relativo? Não se sente o assombro da perda; sente-se o assombro de perder algo cá e ter ganho algo lá. Nós não somos a mesma coisa que lá; somos tão representação de lá como lá é cá. Em outras palavras, se lemos o que cá é escrito, perdemos a oportunidade de criar uma representação harmônica e sempiterna do universo lá, no mundo, nas pradarias virentes, nas lágrimas cristalinas e translúcidas duma criança mal-ajambrada, de levantar nossos rifles enferrujados e nossas armas reluzentes, de procurar a igualdade de trocas mútuas e absolutamente absolutas, absolutamente beneficentes… Tolos! Tolos, somos! Somos! Como ler é tão aprazível, como ler é construtivo, se ao ler, não ajo? Ajo comigo mesmo, absolutamente com meu eu; tolo!, se poderia está-lo com o eu absolutamente comum a todos nós, se poderia com a mulher que nunca amei, com o homem que nunca abracei, com a árvore que nunca subi, com a enxada que nunca usei, com meus irmãos que nunca presenteei…”

    Pós-Escrito 2012: Êita! Mas quem garante que os resultados do eu decantador serão usados pelo eu captativo que nada mais é que representação estática do universo absolutamente absoluto…? Como podemos ter certeza que existe dinâmica? Somos, afinal, seres dinâmicos?…[/align]

    [align=right]Matheus de Souza Almeida,[/align]
     

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