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Notícias Mistério desmisterioso

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Bruce Torres, 25 Mai 2018.

  1. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Mistério desmisterioso
    Noemi Jaffe
    23 de Maio de 2018 às 10:57

    É engraçado. Quando se pergunta como aprender a tocar violão, a resposta instantânea é: fazendo um curso de violão. O mesmo com desenhar ou aprender a jogar futebol. Mas, para muitos ainda, a resposta para como escrever é: só com inspiração. Como se escrever se localizasse num patamar superior ao das outras artes e práticas; como se a ideia de aprender a escrever diminuísse a própria escrita, ou, o que desconfio mais, o trabalho do escritor. Afinal, se o escritor é movido por inspiração, ou talento, ou dom, aquilo é necessário e incontornável para ele, e inacessível para os outros.

    De onde vem a ideia de inspiração? De sopro e respiração. Na tradição bíblica, Deus soprou a vida em Adão, fornecendo-lhe, com isso, sua alma. As musas gregas sopram os poemas aos poetas e aos aedos, que os declamam, convocando, com sua voz e com as palavras, sua própria presença epifânica. A inspiração, nessas acepções, provém da transcendência e ao poeta nada mais cabe do que cumprir-lhe os desígnios. Os poetas românticos, como se sabe, endossaram e reforçaram essas ideias, convenientes para os localizarem em um espaço privilegiado e inalcançável pelos outros mortais: é o gênio, o asceta, o sofredor, aquele que escreve com sangue e lágrimas, cuja vida se indistingue da obra.

    Mas por que isso perdurou, depois das vanguardas, da queda do gênio e do herói, da passagem da analogia para a ironia (de acordo com Octavio Paz), da consciência do poder do mercado e da reprodutibilidade de tudo?

    Porque a inspiração literária tornou-se um mito e, como todo mito, preservou-se em sua inefabilidade e a escrita, promiscuamente misturada à língua que todos falamos, precisa de um lugar isolado e eleito para discriminar-se de sua "irmã vulgar". Por partilhar com a fala a banalidade do significado, a literatura se arrojou uma dimensão mais elevada.

    Discordo de quase tudo que subjaz a esse pensamento. Creio que a escrita literária acontece por meio da linguagem, que, por sua vez, só se realiza na prática. Se é verdadeira a frase de Picasso "se a inspiração quiser vir, que venha, mas vai me encontrar trabalhando" (que, aliás, lembra a de Rosa, "se Deus quiser vir, que venha, mas vai me encontrar armado"), a inspiração não é mais do que aquilo que se aciona na mente e no corpo quando a vontade literária do escritor se põe a escrever, a pesquisar, a experimentar, a revisar. Depois de períodos, mais longos ou mais curtos de trabalho integrado entre circunstâncias (pessoais e coletivas), informações, memória, conhecimento, pensamento, experiências, sensações, sentimentos, ideias, intuição, imaginação, sonhos e outras coisas que nem sabemos definir, criam-se espécies de combustões instantâneas e, aí sim, misteriosas, para surgirem então aquilo que chamamos de momentos inspirados: grandes frases, ótimas ideias estruturais ou formais, pequenos detalhes reveladores, o que faltava ao personagem ou à cena, o instante em que o substantivo acha o adjetivo que lhe faltava, como no conto "O Cônego ou Metafísica do Estilo". Nesses agoras mínimos, de forma algo inexplicável, ocorre a fusão de várias faculdades mentais e quem passa a escrever não é mais a cabeça, mas a mão e o corpo assumem o exercício, suando e tremendo. É a hora do risco, em que autor e texto são o mesmo e quando a vida lá fora e lá dentro fica menor do que escrever. Concordo que aqui ocorre algo inexplicável e é bom que seja assim. Que, na confluência de trabalho, disciplina, desejo e vontade de escrever, haja aquilo que não se domina; talvez um toque de gênio, talvez um imprevisto, o acaso, algo que não esperávamos conhecer. Mas saiu, está lá, não sei porquê e é bom.

    Por isso, escrever é algo que pode sim ser aprendido. O mais importante é a pessoa querer escrever, querer aprender e ler muito, de tudo, sem parar. E depois se dispor a trabalhar muito até pingar o suor. Ou correr também não pode ser uma atividade inspirada e inspiradora?

    Claro que, como resultado do aprendizado, alguns vão escrever textos melhores e outros nem tanto. O certo, entretanto, é que vão escrever melhor do que sabiam e do que podiam imaginar.

    E todos, sem exceção, vão conhecer o mistério desmisterioso da inspiração, esse monstro e anjo que visita apenas quem quer ser visitado.

    ***
    Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu
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    e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a
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    Fonte:
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