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Meu melhor amigo

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Pips, 27 Mar 2008.

  1. Pips

    Pips Old School.

    Meu Melhor Amigo

    [size=xx-small]por Pips[/size]

    Estou aqui, eu, sentado e sendo chamuscado - ofuscado - e acendendo meu cigarro. O diabo virou para mim com aquele sorriso canastrão, de orelha a orelha como chamam, vestindo seu terno de linho, muito apropriado para a ocasião, me perguntou:

    - Gostou daqui?

    - No inverno é ameno, sabe como é, nada mais agradável. Fico meio entediado, ouvir só um lado da história. - era verdade, ele só contava a versão dele da história. Na primeira vez fiquei até emocionado com tantas descrições, megalomaníacas sim, mas mesmo assim que te prendiam do começo ao fim. Sexo, perversão, mentira, sagacidade eram algumas das palavras que vinham na cabeça a cada passagem. Era a bíblia do diabo e eu não desmerecia, mas ouvir pela eternidade era um porre, como um filme pornô depois que se assiste aqueles dez minutos, no máximo quinze, desliga a televisão e vai fazer outra coisa.

    - E quem aqui vai te contar o outro lado? Não basta ouvir tudo lá em cima?

    - Ah, sabe como é - eu prefiro "sabe como é" do que 'tipo assim' - se eu tivesse prestado atenção nas aulas de catecismo ou tivesse ido mais a igreja com certeza não estaria ouvindo seu lado. Então isso é bom para você. - é claro que eu não esperava alguma reação dele, o pai da mentira, senhor das profundezas, príncipe das trevas, amaldoçoado, coisa-ruim, zero a esquerda e tantos outros nomes que eu já ouvi, sim, claro, ele sempre muda seu nome para a história ficar mais empolgante. - Você sabe que eu não tenho nada contra você. Você é meu melhor amigo. - de fato era o melhor amigo que poderia ter, os outros gritavam e resmugavam. Credo! Pessoas só sabem reclamar, isso é uma coisa que não muda, não importa o mundo.

    Claro que por aqui não há muito do que se orgulhar, é bem difícil ouvir palavras bonitas, por assim dizer aquelas otimistas, que todo mundo gosta de ouvir de vez em quando: amor, carinho compreensão. Eu, por outro lado, tendo meu cigarro nem ligo muito para o que está rolando ao redor. Dizem que sou filho da desgraça mesmo. Quase isso, a dona Graça, que Deus a tenha, porque não a vi por aqui, era uma pessoa muito boa. Aqui por esses lados é quase impossível ter uma boa lembrança, a la Peter Pan para sair voando, mas lembro de coisas que ela me ensinou. Nunca apertar a caixinha do achocolatado pronto (não estou sendo patrocinado por eles para citar nomes, mas eles vão me encontrar por aqui, ahhh se vão) porque espirra e faz sujeira. Não falar palavrão, pelo menos não perto dela, afinal aquele chinelo é mais rápido que o chicote do belzebu. De qualquer forma, a dona Graça era maravilhosa, mas tudo que ela dizia entrava por um ouvido e saía pelo outro, verdade, dizia-me para nunca beber, ser 'galinha' ou fumar. Em todos esses aspectos não cumpri com as expectativas dela. E ainda penso, filho único, meu Deus, parti mais cedo que ela. Perdeu os dois homens de sua vida. Mas fazer o que? Pelo menos não foi de cirrose, nem de aids e muito menos de câncer. Foi uma besteira tão grande que eu tenho até vergonha de lembrar. E quando lembro sem querer, daquele jeito quando alguém fala: "Não pensa em chocolate" e, pronto, vêm todas as marcas, recheios, bolos com chocolates possíveis na sua mente. A mesma coisa quando lembro como vim parar aqui. Ok, eu tinha o passaporte carimbado, mas foi sacanagem o que ocorreu.

    Era inverno ou outono, poderia até dizer que foi primavera, mas aí seria mais mentiroso que o pai da mentira e é meio chato desbancar o pai em sua própria casa. Quando sair dela, ainda vai, mas como tenho no minimo uma eternidade de anos para gastar por aqui, acho melhor não fazer isso. Foi mulher sim, mas não na primavera, devia ser outono ou inverno, coisa e tal. O.k., sem vícios de linguagem. Eu já estava mais para lá do que pra cá de bêbado e tossindo, possivelmente estava com começo de tuberculose, que é coisa de perdedor, nesses tempos ninguém morre disso e quem me dera ser um escritor famoso ou algo assim de uns dois séculos atrás para depois darem aula sobre mim. Esquecendo esse ponto de aulas, mesmo porque eu nem sei como são aulas, eu juro que fui à aula até a sexta ou sétima série que foi quando comecei a fumar, cabular aula, etc. Não que nenhuma dessas coisas me fizessem desistir dos estudos, mesmo com tantas palestras sobre errado, 'bah! sou careta' e coisa e tal, não mesmo, era porque nada melhor do que estar meio chateado no meio da aula e ir fumar em um canto. Não era grande para a minha idade então não ia na casa das primas, entre aspas por favor, não ia dar mais esse desgosto para minha mãe. Conheci Amélia, sim que nem a música, no meio da noite e ela me socorreu. Foi algo surreal: pensar que um ser humano, no meio da noite, socorreria outro assim tão voluntariamente e sem ninguém estar olhando. Era mais fácil os ratos dividirem o lixo comigo do que alguém da minha espécie me pegar e me curar. Curar é forte - cuidar de mim naquele estado. Já estava com trapos cobrindo minhas partes intimas e o trapos não estavam salvos do sangue que tossi, das cinzas que derrubei e muito menos dos cachorros! Malditos, sério, não tenho cara de poste, nem estatura e nem sou território. De qualquer forma, Amélia me levou até o flat dela! Sim, aqueles que você aluga quando é um magnata. Ela me deu um banho, algumas roupas, um pacote, não maço, um pacote de cigarros novinhos e um tênis. Nem sapato era.

    - Qual o lance? - eu perguntei com toda a inocência que ainda me restava e claro, ela era bonita. Tinha aquele par de olhos castanhos, os cabelos loiros de alvorecer na poluição, sim aquele amarelo com tons vermelhos, é culpa da poluição. É bonito, não? Então, eu ajudei com meu cigarro, com os meus. E ela tinha um corpo que era de dizer muitas coisas impróprias e que estavam contidas nas histórias do diabo.

    - Sexo.

    - Direta você. - e era mesmo. Uma vestal. Filha do diabo, só pode. Querer deitar com um cara doente que estava na rua a pouco tempo? Faça mil favores, mas fazer o que? Ninguém é de ferro e sou a prova viva que isso não sou mesmo. Já passei por drogas pesadas e outro vícios e talvez Deus estivesse me recompensando, porque meu primeiro papelote de cocaína fui eu que tirei do guri! Muito de boa! Dei um tapão nele e o mandei estudar, na boa, para que acabar com a vida? - Deus existe, só se você for o diabo me testando.

    - Você fala demais.

    Ela me beijou e fizemos sexo, sem camisinha claro, quem iria pensar em algo assim naquela hora. Mas a filha da mãe me chamou para a sacada e me jogou de lá. Assim muito rápido, nem deu tempo de fumar nem nada. Não deu tempo de rezar - não que eu saiba. E ainda o próprio Lu foi me pegar! Acendeu um cigarro.

    - Era você lá em cima? - eu tinha que perguntar.

    - Não. - ele riu.

    - Ufa, então não estava tão confuso para confundir. - maldito vício de linguagem.

    - Eu sou um quase anjo, não tenho sexo, não faria diferença.

    - Verdade. - e ele tinha razão mesmo, cara esperto. Era meu melhor amigo, certeza. Mas e a Amélia? O 'pés-sujos' me disse que ela está no céu. Vai entender, né? Queria saber o outro lado da história. Por que ela me empurrou? Mulher louca é assim mesmo. Mas o chifrudo me confessou: - Ela morreu na hora do parto, isso é salvação. - eu acreditei, né.

    Todo mundo me pergunta o por que de sempre contar essa história e eu sempre esqueço o por que e vou lá conversar com o Lu, ele me entende e é meu melhor amigo. Mas acho que tem algo a ver com o que um beato falou uma vez: "Não importa a arma que carrega, ou os seios, a maldade do homem não tem razão.". O que importa mesmo aqui embaixo é eu ter meu cigarro no canto da boca e uma prosa para ouvir, por isso não sou amigo Dele, até gostaria, mas dizem que ele é caladão. O problema é que só o vermelhão é meu melhor amigo e único, mas eu gostaria de ser mais sociável.

    (texto postado originalmente no dia 17 de Setembro de 2007)
     
  2. imported_Amélie

    imported_Amélie Usuário

    Não sei se é proposital, mas ficou um jogo interessante de sexo dos anjos e gêneros do eu lírico... :)
     
  3. Marco

    Marco may the force be with... wait

    'A Igreja do Diabo' meets Hellblazer!
     
  4. Fernando Giacon

    Fernando Giacon [[[ ÚLTIMO CAPÍTULO ]]]

    "Não importa a arma que carrega, ou os seios, a maldade do homem não tem razão."

    Mtooo bom Pips!!! Essa conversa com o Diabo, deixa claro já que vc se identifica mais com ele...pela prosa que ele te propõe..., o dito pelo não dito, onde ele se espelha em você, deixando esse ar de amizade, mas nós sabemos as intenções né..."prosa boa, intenções a parte" rsrs
     

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