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Metafísica da Guerra (Capítulo III) - Julius Evola

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Paganus, 20 Abr 2014.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    Examinemos de novo as formas da tradição heróica, que permitem à guerra assumir o valor de um caminho de realização espiritual, no sentido mais rigoroso do termo, e também de uma justificação e de finalidade transcendentais. Já falamos das concepções que, deste ponto de vista, foram as do antigo mundo romano. Depois demos uma olhada às tradições nórdicas e ao carácter imortal de toda a morte realmente heróica sobre o campo de batalha. Referimo-nos necessariamente a estas concepções para chegar ao mundo medieval, à Idade Média como civilização resultante da síntese de três elementos: primeiro romano, seguido do nórdico e finalmente o cristão.

    Propomo-nos agora examinar a ideia da sacralidade da guerra, tal como foi concebida e cultivada ao longo da Idade Média. Evidentemente devemos referir-nos às Cruzadas, presos ao seu significado mais profundo, sem as reduzir aos determinismos económicos e étnicos, como o fazem os historiadores materialistas, e muito menos as reduzir a um fenómeno de superstição e de exaltação religiosa, como querem os espíritos “avançados”, enfim, nem a um fenómeno simplesmente cristão. Sobre este último ponto não devemos perder de vista a relação estreita entre meio e fim. Diz-se que nas Cruzadas a fé cristã se serviu do espírito heróico da cavalaria ocidental. É precisamente o contrário que é verdadeiro. A fé cristã e seus fins relativos e contingentes de luta religiosa contra o “infiel”, da “Libertação do Templo” e da “Terra Santa”, não foram mais que os meios que permitiram ao espírito heróico de se manifestar, de se afirmar e de se realizar numa espécie de ascese, distinto da contemplação, mas não menos rica em frutos espirituais. A maioria dos cavaleiros que deram suas forças e seu sangue pela “guerra santa” não tinham mais que uma ideia e um vago conhecimento teológico sobre a doutrina pela qual combatiam.

    Por outro lado, o contexto das Cruzadas era rico em elementos susceptíveis de lhes conferir um significado simbólico, espiritual e superior. Através das vias do subconsciente, os mitos transcendentais refloresciam na alma da cavalaria ocidental: a conquista da “Terra Santa” situada para “além dos mares” apresenta com efeito, infinitamente mais referências reais que poderiam supor os historiadores com a antiga saga segundo a qual “no longínquo oriente onde nasce o sol, se encontra a cidade sagrada onde a morte não reina, mas onde os valorosos heróis que sabem esperá-la gozam de uma celestial serenidade e de uma vida eterna”. Por outro lado, a luta contra o Islão revestiu, por sua natureza, desde o princípio, o significado de uma prova ascética. “Não se trata de combater pelos reinos da terra – escreveu Kluger, o célebre historiador das Cruzadas – mas pelo reino dos céus; as Cruzadas não eram do domínio dos homens, mas sim de Deus – por isso não as podemos considerar como os outros acontecimentos humanos”. A guerra santa devia, segundo a expressão de um antigo cronista comparar-se “com o baptismo semelhante ao fogo do purgatório antes da morte”. Os papas e os predicadores comparavam simbolicamente aqueles que morriam nas cruzadas com o “ouro três vezes ensaiado e sete vezes purificado pelo fogo” e que podia conduzir ao Deus Supremo. “Não esqueçais jamais este oráculo – escreveu São Bernardo – quer vivamos, quer morramos, ao Senhor pertencemos. Que Glória para vós sair da confrontação cobertos de louros. Mas que alegria maior para vós, de ganhar sobre o campo de batalha uma coroa imortal … oh, condição afortunada! poder enfrentar a morte sem temor, mesmo desejá-la com impaciência, e recebe-la com o coração firme”. A glória absoluta estava prometida ao cruzado – glória asolue - em provençal – pois, à parte da imagem religiosa se lhe oferecia a conquista da supra vida, do estado sobrenatural da existência. Assim, Jerusalém, fim cobiçado da conquista, apresentava-se sob o duplo aspecto, duma cidade terrestre e duma cidade simbólica, a Cruzada tomava um valor interior, independente de todos os seus aparatos, seus suportes e suas motivações aparentes.

    Afinal, foram as ordens da Cavalaria quem ofereceram o maior tributo às Cruzadas, com a Ordem do Templo e a dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, compostas por homens que, como o monge ou asceta cristão “haviam aprendido a desprezar a vaidade desta vida; em tais ordens encontravam-se guerreiros fatigados pelo mundo, que tudo tinham visto e tudo tinham provado”, prontos a uma acção total e que não sustentavam mais nenhum interesse pela vida material e temporal nem pela política ordinária, no sentido mais restrito. Urbano II dirigia-se à cavalaria como à comunidade supra nacional daqueles “dispostos a partir até onde rebentasse uma guerra, a fim de levar o terror das suas armas para defender a honra e a justiça” … com mais razão deviam escutar e atender ao apelo da “Guerra Santa”, guerra que, segundo um dos escritores da época, não tinha por recompensa um feudo terrestre, revogável e contingente, mas um “feudo celeste”.

    Mas o desenrolar das Cruzadas, num contexto mais amplo e no plano ideológico geral provocou uma purificação e uma interiorização do espírito de iniciativa. Segundo a convicção inicial de que a guerra pela “verdadeira” fé não podia ter mais que uma saída vitoriosa, os primeiros fracassos militares sofridos pelos exércitos cruzados foram um foco de surpresas e assombro, mas à posteriori serviram, no entanto, para trazer à luz o aspecto mais elevado da “guerra santa”. O resultado desastroso de uma Cruzada era comparado pelos clérigos de Roma ao destino da virtude desgraçada que não é julgada nem recompensada, a não ser em função da outra vida. E isto anunciava o reconhecimento de algo superior tanto na vitória como na derrota, a colocação no primeiro plano do aspecto próprio à acção heróica cumprida independentemente dos frutos visíveis e materiais, quase como uma oferenda transformando o holocausto viril de toda a parte humana em “glória absoluta” e imortal.

    É evidente que desta maneira se devia acabar por atingir um plano, por assim dizer, supra-tradicional, tomando a palavra “tradição” num sentido mais restrito, mais histórico e religioso. A fé religiosa em particular, os fins imediatos, o espírito antagonista, convertiam-se então em elementos tão contingentes como são a natureza variável de um combustível destinado somente a produzir e a alimentar uma chama. O ponto central continuava a ser o valor santo da guerra. Mas se prefigurava igualmente a possibilidade de reconhecer, que aqueles que eram adversários no momento, pareciam atribuir a este combate o mesmo significado tradicional.

    Este é um dos elementos, graças ao qual as Cruzadas serviram, apesar de tudo, para facilitar o intercâmbio cultural entre o Ocidente gibelino e o Oriente árabe (ponto de reencontro, por sua vez, de elementos tradicionais mais antigos), mas o alcance disto vai muito mais longe do que a maioria dos historiadores demonstraram até ao presente. Da mesma forma, as ordens de cavalaria das cruzadas, se encontram diante das ordens de cavalaria árabes, que lhes eram quase análogas no plano da ética, por vezes mesmo dos símbolos, e por isso a “guerra santa” que havia motivado as duas civilizações, uma contra a outra em nome das suas religiões respectivas, permitiu igualmente o seu reencontro e que, partindo de duas crenças diferentes, cada uma acabou por dar à guerra um valor de espiritualidade análogo e independente. É afinal aquilo que se sobressai, quando estudarmos como, forte na sua fé, o antigo cavaleiro árabe se eleva ao mesmo nível supra tradicional que o cavaleiro cruzado pelo seu ascetismo heróico.

    Agora, este é outro ponto que queremos aflorar. Aqueles que julgam as Cruzadas superficialmente, as remetem a um dos episódios mais extravagantes da “obscura” Idade Média, não supõem que o que definem como “fanatismo religioso” é a prova tangível da presença e da eficácia de uma sensibilidade e de um tipo de decisão cuja ausência caracterizava a barbárie autêntica. Já que o homem das Cruzadas sabia todavia afirmar-se, combater e morrer por um motivo, que na sua essência, era supra político e supra humano. Associava-se também a uma união baseada, não sobre o particular, mas sobre o universal. E isto significa um valor, um ponto de referência inabalável.

    Naturalmente não se deve confundir nem pensar que a motivação transcendente possa ser uma desculpa para tornar o guerreiro indiferente, para o fazer negligente aos deveres inerentes à sua fidelidade a uma raça e a uma pátria. Não se trata disso. Pelo contrário, trata-se essencialmente, de significados profundamente diferentes segundo os quais, acções e sacrifícios podem ser vencidos, embora observados do exterior, possam ser absolutamente os mesmos. Existe uma diferença radical entre quem faz simplesmente a guerra, e quem pelo contrário, na guerra faz também a “guerra santa”, e vive uma experiência superior, desejada e desejável para o espírito.

    É preciso acrescentar que, se esta diferença é, antes de tudo interior e sob o impulso de tudo o que interiormente tem uma força, traduz-se também no exterior, provocando efeitos sobre outros planos e, mais particularmente nos termos seguintes: antes de mais, termos duma “irredutibilidade” do impulso heróico: quem vive espiritualmente o heroísmo está carregado de uma tensão metafísica, animado por um estimulo cujo objectivo é “infinito”, e superará sempre aquilo que anima quem combate por necessidade, por oficio ou sob impulsos naturais ou sugestões.

    Em segundo lugar, quem combate numa “guerra santa” situa-se espontaneamente, para além de todo o particularismo, vive num clima espiritual que, num dado momento, pode muito bem dar origem a uma unidade supra nacional dentro da acção. É precisamente isto o que se verificou nas Cruzadas, quando príncipes e chefes de todos os países se uniram para a expedição heróica e santa, para além dos seus interesses particulares e utilitários e das divisões políticas, realizando pela primeira vez uma grande unidade europeia conforme a sua civilização comum e ao próprio princípio do Sacro Império Romano Germânico.

    Se soubermos abandonar o “pretexto”, se soubermos isolar o essencial do contingente, encontraremos um elemento precioso que não se limita a um período histórico determinado. Conseguir conduzir a acção heróica sobre um plano “ascético”, justificá-la também em função desse plano, significa desimpedir o caminho para uma nova e possível unidade de civilização. Isto significa também, separar todo o antagonismo condicionado pela matéria, preparar o espaço das grandes distancias e as amplas frentes, para dimensionar, pouco a pouco, os objectivos externos da acção no seu novo significado espiritual: tal como se verifica quando não é só por um país ou por ambições temporais que se combate, mas em nome de um princípio superior de civilização, de uma tentativa de, por ser metafísico, nos faz ir para a frente, para além de todo o limite, para além de todos os perigos e para além de qualquer destruição.



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    titolo: Metafísica da Guerra (Capítulo III)
    autore/curatore: Julius Evola
    fonte: Metafisica della guerra, capitolo III
    tratto da:
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    lingua: portoghese
    data di pubblicazione su juliusevola.it: 04/04/2007
     
  2. Paganus

    Paganus Visitante

    Capítulo IV

    Não se deve achar estranho, que depois de se examinar um conjunto de tradições ocidentais, relativas à guerra santa, quer dizer, à guerra com valor espiritual, nós nos propomos agora examinar este conceito como foi formulado pela tradição islâmica. Com efeito, nosso objectivo, como já o sublinhamos muitas vezes, é de pôr em relevo o valor objectivo de um princípio, pela demonstração da sua universalidade, da sua conformidade ao quod ubique, quo ab omnibus e quod semper. Somente assim, podemos ter a sensação que certos valores têm uma conotação absolutamente diferente do que podem pensar uns e outros, mas também, na sua essência, eles são superiores às formas particulares que assumiram para se manifestar nas duas tradições históricas. Quanto mais reconhecermos a correspondência interna das formas, e seu princípio único, mais aprofundaremos a própria tradição, até a intuir integralmente e a compreender partindo de seu ponto original e metafísico.

    Historicamente, devemos sublinhar que a tradição islâmica, na parte que nos interessa, é de certa maneira herança da tradição persa, uma das mais altas civilizações indo-europeias. A concepção mazdeísta original da religião como milícia sob o signo do “Deus de Luz” , e da existência na terra como uma luta incessante para arrancar seres e coisas de um poder anti-Deus, é o centro da visão persa de vida. Deve-se considerar esta visão como a contrapartida metafísica e o fundo espiritual das lides guerreiras, cujo apogeu foi a edificação do império persa do “Rei dos reis”. Depois da queda da grandeza persa, alguns resquícios desta tradição subsistiram no ciclo da civilização árabe medieval, sob formas mais materiais e algumas vezes exageradas, mas sem nunca anular efectivamente o motivo original de espiritualidade.

    Aqui, nós nos referimos às tradições deste género principalmente porque elas colocam em evidência um conceito muito útil para esclarecer posteriormente a ordem de ideias que nos propomos a expor. Trata-se dum conceito da grande guerra santa, distinto da “pequena guerra”, mas, ao mesmo tempo ligada a esta última de acordo com uma correspondência especial. A diferencia baseia-se num hadît (verso) do Profeta, que ao retornar duma expedição guerreira declarou: - ” nós voltamos da pequena guerra santa para a grande guerra santa”.

    Aqui a pequena guerra, corresponde à guerra exterior, à guerra sangrenta e que se faz com armas materiais contra o inimigo, contra o “bárbaro”, contra uma raça inferior diante da qual reivindicamos um direito superior, ou então, quando a expedição é dirigida por um motivo religioso contra o “infiel”. Por mais terríveis e trágicos que possam ser os acidentes, por mais monstruosas que possam ser as destruições, nada mais resta a esta guerra, metafisicamente é sempre a “pequena guerra”. A “grande guerra santa”, é pelo contrário, de ordem interna e espiritual, é o combate que se trava contra o inimigo, ou o “bárbaro”, ou o “infiel” que cada um abriga em si, e que vai surgir em si mesmo, no momento que se quer submeter todo o seu ser a uma lei espiritual. Tanto quanto preconceito, desejo, paixão, instinto, fraqueza e cobardia interior, o inimigo que habita dentro do homem deve ser vencido, quebrado na sua resistência, encarcerado e dominado ao homem espiritual: tal é a condição para se atingir a libertação interior, a “paz triunfal” que permite participar naquilo que está além da vida e da morte.

    È simplesmente ascetismo - dirão alguns. A grande guerra santa é a ascese de todos os tempos. E qualquer um estará tentado a acrescentar: é a via daqueles que fugiam do mundo e com a desculpa de uma luta interior transformam-se em rebanhos de pacifistas. Não é nada disto. Depois da distinção entre as duas guerras, expomos agora a sua síntese. È próprio das tradições heróicas prescrever a “pequena guerra “ , ou seja, a verdadeira guerra, sangrenta, como um instrumento para a “Grande Guerra Santa”, até ao ponto em que, finalmente, as duas não terminam sendo mais que uma só e mesma coisa.

    È assim que no Islão, “guerra santa” – jihâd e “caminho de Deus” – são indiferentemente utilizados por uns e por outros. Quem se bate pelo “caminho de Deus”: um célebre hadîth, muito característico desta tradição diz : - “ o sangue dos Heróis está mais perto do Senhor que a tinta dos sábios e as orações dos devotos”. Aqui, e também nas tradições que já falamos, como a ascese romana da potência e a clássica mors triumphalis, a acção assume o exacto valor de uma ultrapassagem interior de acesso a uma via livre de obscuridade, do contingente, de dúvidas e da morte.

    Em outros termos, as situações, os riscos, as provas inerentes às expedições guerreiras provocam a aparição do “inimigo” interior, que enquanto instinto de conservação, crueldade ou covardia, compaixão ou furor cego, surge como aquele que deve ser vencido, precisamente no momento exacto de vencer o inimigo exterior. Isto mostra que o ponto decisivo é constituído pela orientação interior, a permanência inabalável que é o espírito na dupla luta: - sem precipitação cega, nem transformação em brutos desconcertados, mas pelo contrário, total domínio das forças mais profundas, controle para nunca ser ludibriado interiormente, mas ficar sempre senhor de si mesmo, e este domínio permite de se afirmar acima de qualquer limite.

    Mais à frente abordaremos uma outra tradição, onde esta situação é representada por um símbolo muito característico: - um guerreiro e um ser divino impassível, que sem combater, sustém e conduz o soldado, ao lado do qual ele se encontra, e estão no mesmo carro de combate. È a personificação da dualidade dos princípios do verdadeiro herói, cujas emanações têm sempre qualquer coisa de sagrado, e do qual ele é portador.

    Na tradição islâmica, podemos ler num dos textos mais importantes: “ Combatei no caminho de Deus (quer dizer na guerra santa), aquele que sacrifica o caminho terrestre por aquele do além: pois aquele que combate no caminho de Deus e seja morto, ou vencedor, nós daremos uma imensa recompensa”. A premissa metafísica segundo a qual é dito: “combatei segundo a guerra santa aqueles que vos fazem a guerra””. “ Matai-os onde quer que os encontreis e esmagai-os. Não vos mostreis fracos nem os convideis à paz ” pois “ a vida terrestre é somente um jogo e um passatempo”, e “ quem se mostra avarento, só é avarento consigo mesmo”. Este ultimo principio é evidentemente relacionado com o fac-simile do evangelho: quem quer salvar sua própria vida a perderá, e quem a perde, a vive realmente”, confirmado por esta outra passagem: “ E a vós que credes, quando vos for dito: “vinde à batalha, pela guerra santa” vós ficastes imóveis? Vós preferistes a vida deste mundo à vida futura”, porque “ vós esperais de nós uma coisa, recompensa e não os dois supremos, vitória ou sacrifício?”.

    Esta outra passagem é digna de atenção: “ a guerra vos foi ordenada, embora vos desagrade. Mas, qualquer coisa que seja boa para vós pode vos desagradar, e agradar-vos aquilo que é mau para vós: Deus, disse, então vós nada sabeis”, que é muito próximo de “eles preferem ficar entre aqueles que sobram: uma marca é gravada em seus corações, assim eles não o compreendem. Mas o apóstolo e aqueles que crêem com ele e combatem com aquilo que têm e com a sua própria pessoa, a eles a recompensa – e serão eles que prosperam – na grande felicidade.”


    Aqui temos uma espécie de amor fati, uma intuição misteriosa, uma evocação e cumprimento heróico do destino, dentro da intima certeza que, quando existe a “intenção justa”, quando a inércia e a covardia são vencidas, o estimulo vai além da própria vida e da vida dos outros, além da felicidade e da aflição, guiado no sentido de um destino espiritual e duma sede de existência absoluta, dando então nascença a uma força que não falhará o objectivo absoluto. A crise de uma morte trágica e heróica passa a contingência sem interesse, e que, em termos religiosos é assim exprimida: “ Aqueles que forem mortos no caminho de Deus (aqueles que morrem em combate na guerra santa), a sua realização não será perdida. Deus os guiará e disporá de suas almas. Ele os fará entrar no paraíso que lhes revelou.”

    Então o leitor se encontra envolvido por ideias expostas no mais alto e que são baseadas nas tradições clássicas e nórdico-medievais, no que se refere a uma imortalidade privilegiada e reservada aos heróis, os únicos que, segundo Hesiodo, habitam as ilhas simbólicas e onde levam uma existência luminosa e inatingível, à semelhança daqueles do Olímpio. Na tradição islâmica, encontram-se frequentes alusões ao facto que certos guerreiros, mortos na “guerra santa”, na verdade nunca morreram, dissertação somente simbólica, e muito menos a criticar certos estados sobrenaturais, separados das energias e destinos dos vivos. Não é possível entrar neste campo, que é muito misterioso e que exige referências que não interessam à natureza deste estudo.

    Na verdade, hoje em dia, e precisamente em Itália, os rituais encontram uma força singular, pela qual uma comunidade guerreira declara “presente” os camaradas mortos no campo de honra. Parte de uma ideia que tudo que contem um processo evolutivo, e nos nossos dias, dotado de um carácter alegórico e de máximo de ética, tem na sua origem um valor de realidade (e todo o ritual é acção e não simples cerimónia), deve-se pensar que os rituais guerreiros actuais possam ser matéria de meditação e aproximação do mistério contido nos ensinamentos que acabamos de falar: a ideia que os heróis não estão verdadeiramente mortos, ou como aqueles vencedores que, à imagem do César romano, permanecem “vencedores perpétuos” no centro de uma linhagem.

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  3. Calib

    Calib Visitante

    Não tem o livro inteiro? :think:


    Esquece; achei aqui no Google; vou ler com calma depois. :joinha:
     
    Última edição por um moderador: 22 Abr 2014
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  4. Paganus

    Paganus Visitante

    O livro é bem curto, só cinco capítulos, não dá nem 50 páginas. É uma súmula do pensamento evoliano sobre a guerra, bem mais detalhado que o capítulo de 'Revolta contra o mundo moderno', e com bem mais referências diretas ao mundo da Tradição sobre a questão da metafísica da guerra.
     

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