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Memórias daquela noite de natal - Parte I

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Raphael_Dias, 4 Jun 2012.

  1. Raphael_Dias

    Raphael_Dias Usuário

    Memória daquela noite de natal - Parte I


    É natal mais uma vez. Sete anos depois. Como eu vim parar aqui? Em uma banheira cheia d’água, em um quarto de motel barato, com os pulsos cortados, caminhando lentamente em direção ao esquecimento? Como cheguei a esse ponto?

    Lembro-me da minha infância, a mais velha entre os três filhos de meus pais e a única menina. Como fui a primeira a nascer, fui também uma grande decepção ao meu pai, homem conservador e tradicional, conhecido professor da única universidade de nossa cidade. Vivíamos em uma cidade média, nem pequena nem grande. Em torno de 100.000 habitantes. Os bairros costumavam ser pequenos, então com o passar dos anos, todos os moradores de um bairro acabavam por se conhecer e frequentar as casas um do outro.

    Do nascimento ao fim da infância lutei desesperadamente pela aceitação de meu pai. Tinha quatro anos e nasceu minha primeira irmã. Sim, outra menina, mas essa foi uma menor decepção, pois meu pai já não tinha aquela ânsia por um herdeiro homem, tinha aprendido que não é o feto que decide seu próprio sexo, mas mesmo assim já tinha se acostumado a me desprezar e não queria mudar de atitude.

    Até que, quando eu cheguei aos meus nove anos, nasceu o filho macho que meu pai tanto esperava. Finalmente, eu o ouvia exclamar, extasiado e aos pulos no hospital. A alegria era tanta que os enfermeiros o pediram para que se contivesse ou ele teria que se retirar.

    Tinha inveja de meus irmãos. Envergonha-me dizer isso hoje, mas tinha certo ódio de meus irmãos, chegaram depois e me roubaram o afeto de meus pais. O que é mentira, pois não se pode ter roubado o que nunca se teve. Não sabia na época que o real alvo de meu ódio deveria ser meus próprios pais, pois meus irmãos me ofereceram todo o amor que um dia recebi em minha vida, mas os rejeitava. Achava que me humilhavam, que tinha pena de mim. “Veja a coitada da nossa irmã, o grande arrependimento de nossos pais.” Imaginava que era isso que pensavam, quando na verdade desejavam que os aceitasse, assim como desejava o mesmo de meus pais.

    Meus esforços para conquistar meus pais foram de esforços na vida escolar, até trabalhos domésticos, os quais eu constantemente me oferecia a fazer para ganhar alguma atenção. O tempo passou e meu insucesso levou-me a tentar o contrário. Aos nove anos minhas notas se tornaram as piores, tinha problemas constantes com professores, diretores e colegas de sala. Tornei-me aos poucos agressiva e ao mesmo tempo isolada e depressiva. Contudo ninguém compreendia, pois aparentemente tinha uma família amável, boas oportunidades. Consideravam-me uma ingrata. Com o tempo consegui o desprezo deles também.

    Vivi um fim de infância quase bipolar. Ora era amável e inteligente em excesso, ora agressiva e depressiva. Pensei em suicídio diversas vezes, mas sempre fui covarde, sabia que ia terminar desse jeito, entretanto morria de medo só de pensar. Nunca acreditei em deuses ou vida após a morte, então só de pensar no fim, no nada, apossava-se de mim uma angústia insuportável, mas real. Necessitava dessa angústia, ela me mantinha viva. Continuei nesse vai e volta de emoções, buscando sem sucesso afeto inalcançável e repelindo o alcançável até meus quatorze anos. Foi o natal desse ano o primeiro dia do fim da minha vida.

    Naquela noite, como era costume nessa data a vizinhança se reunia na casa de uma das famílias, revezando anualmente. Esse ano seria a nossa casa, então enfeitamos tudo, preparamos um jantar e deixamos a porta aberta para que aos poucos os vizinhos fossem entrando. Fiz o máximo possível para cooperar e auxiliar nos preparativos, pois os vizinhos já percebiam a indiferença com que me tratavam e sentiam alguma simpatia por mim. Essa eu não queria perder.

    Meu irmão mais novo, Lucas, já tinha cinco anos e estava naquela época terrível de “quase onipresença”, corria de um lado para o outro parecendo estar em todos os lugares e lugar nenhum ao mesmo tempo. Extremamente curioso e explorador. Como as portas estavam abertas, meu pai me encarregou de vigiá-lo para que não saísse de casa, do contrário “eu morreria”. Provavelmente não era uma ameaça vazia, pensava eu na época, pois recebia surras constantes durante minhas fases difíceis. Queria hoje dizer que não gostava delas, mas era único momento em que ele não era completamente indiferente, então de certo modo até procurava por elas e as “pedia”.

    Estava me revezando entre a vigília de meu irmão e a chegada dos vizinhos que me cumprimentavam com aquela velha história: “Como você cresceu!” “Mas que bela moça você está se tornando!”. Posso arriscar dizer que essas pessoas me viam todo o dia, mas era sempre a mesma expressão de surpresa.

    Entre esses cumprimentos, percebi a chegada de... Não me recordo mais seu nome, depois dele vieram tantos que já não importa. Foi a minha primeira paixão adolescente. Mal posso lembrar-me de sua aparência, nem sei dizer o que me atraía nele, mas naquela época para mim ele era perfeito. O bastante para me distrair por uns minutos e perder o pequeno Lucas de vista.

    Procurei, pela casa toda, por entre os visitantes que nesse momento eram vários, no momento que ia sair de casa para procura-lo na garagem ou na rua, fui puxada pela minha irmã. Faltava um minuto para meia-noite e ela queria que eu participasse da contagem. Minuto mais longo da minha vida. Suava frio de preocupação com aquele moleque, só podia ser brincadeira que ele iria sumir em plena noite de natal, logo depois do aviso que recebi de meu pai. Tinha até esperanças de que se caso realizasse bem aquela tarefa ele poderia vir a me aceitar. Começava a contagem regressiva, “5...4...3...2...1. Feliz Natal!” Todos exclamavam em coro, enquanto se abraçavam. Restava-me torcer para que em meio a todos esses abraços alguém o encontrasse. Foi quando ouvi um carro passar em alta velocidade bem ao lado de casa.

    Cumprimentei alguns vizinhos, meus pais não me procuraram, e sai correndo as pressas para a rua, com esperança de encontra-lo sentado brincando. Doce ilusão. O encontrei, mas não foi brincando. Estava estirado no meio da rua, ensanguentado. Corri em sua direção para tentar resgatá-lo de alguma forma, mas era tarde. Ainda não estava morto, mas só teve tempo de segurar as minhas mãos, com suas mãozinhas trêmulas e um olhar agonizante, que em menos de dois segundos se dirigiu para o vazio e parou. Lucas estava morto.

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    Raphael Dias

    Obs.: Parte II em andamento, deve ser postada assim que possível. No entanto gostaria de algum comentário, coisas que eu poderia melhorar, detalhar, cortar, estender, qualquer coisa porque esse texto ainda não foi revisado nenhuma vez. Escrevi hoje assim que acordei e durante algumas oportunidades que tive durante a tarde. Por incrível que pareça a ideia geral desse conto me veio em um sonho as quatro horas da manhã de hoje, só adaptei para dar coerência e criei uma história de fundo que surgiu após uma análise sonolenta desse sonho, nunca tinha me acontecido nada assim.
     

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