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Melkor representa Lúcifer, O Anjo Caído??

Lembro das aulas sobre história da religião no colégio interno, certa vez lembro do professor (que era padre) falar sobre a figura de Satanás e Lúcifer, pois os mesmos na origem dos ritos dos hebreus mais antigos eram duas entidades diferentes, tendo Satanás posição superior a Lúcifer, porém com o passar dos séculos estas duas figuras foram fundidas em uma só.

Provavelmente os yahudins eram em seu princípio politeístas e com o tempo voltaram sua atenção a um único deus, o monoteísmo veio depois.

(Esperando os crentes me apedrejar, mas enfim...)

Muita coisa do Genesis tinha influência pagã e politeísta, inclusive o termo "elohim" é plural, o termo no singular é "eloah".

Então até msm os arquétipos como Lúcifer (nome latino - veio muuuuito depois da Bíblia onde o termo era "helel ben sharar" em hebraico e referia-se ao rei de Tiro, até hj não se tem certeza se aquele trecho de Ezequiel era pra um rei humano), anjos, deus "todo poderoso", não eram absolutos e imutáveis, eles mudaram muito com o passar dos tempos.
 
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Satanás se refere, originalmente, a um tipo de djinn árabe ou aramaico, uma entidade nem boa nem má, mas com poderes destrutivos e a quem se fazia oferendas para se evitar que prejudicasse as colheitas e a fertilidade das mulheres. Algo comum em tradições tribais e politeístas. Lúcifer já parece se referir a um ser posterior da mitologia hebraica, quando já existia uma versão primitiva de uma angelologia e de uma demonologia, ou seja, de uma hierarquização de seres espirituais colocados entre os homens e Deus. O mito parece tentar dar conta da origem do Mal pela inserção posterior de uma figura poderosa no 'panteão angélico, em um ato de revolta. A estrutura parece ser simples mas ela foi sendo acrescido, ao longo dos séculos, por uma série de formas religiosas, motivos morais, conteúdos de filosofia moral e da liberdade, que foram transformando o mito mais em uma alegoria sobre a liberdade de Deus e dos homens, e a origem do mal metafísico. Foi essa versão a trabalhada pelos mestres e doutores da Lei desde os primeiros reinos israelenses até a época do farisaísmo e do rabinismo, quando da conformação e motivos que engendrariam o embrião do esoterismo hebraico e da tradição rabínica mais antiga, vários motivos de outras religiões helenísticas o foram enriquecendo, como o neoplatonismo, o hermetismo, o maniqueísmo, o origenismo. Etc...

A história do diabo e da origem do mal que os Santos Padres receberam foi o dessa tradição mais posterior, que já imbricava motivos sincréticos e uma filosofia moral. Sabendo que Tolkien era católico e que seu catolicismo influenciou profundamente sua obra, principalmente no Ainulindalë, é mais que plausível que ele tenha se inspirado nessa tradição posterior, cristã, conforme recebido dos Santos Padres à tradição medieval através de Santo Agostinho. É quase certo que a revolta de Melkor e sua 'transformação' em Morgoth esteja estritamente ligada ao mito clássico e, mais do que isso, a preocupação de Tolkien, no Silmarillion, em detalhar as transformações ontológicas pelas quais passa Morgoth revela a compreensão metafísica e teológica que ele tinha do problema do mal e da liberdade. As reflexões do professor sobre o Anel de Morgoth sobre Arda, por exemplo, são uma aplicação direta do conceito patrístico do Mal como uma substância de-hipostatizante, ou seja, como uma não-existência de Bem mas que, mesmo pertencendo ao não-Ser, possui um ativismo, uma atividade crescente, direta e que corroi as estruturas essenciais mesmas do mundo e do homem. É o próprio Anel de Morgoth, que Sauron tenta emular, em circunstâncias menores e mais localizadas, um círculo ôntico de desfazimento e corrupção do Ser, que envolve toda a Criação, a partir da dispersão da vontade maligna do Mal do Sinistro Inimigo do Mundo. São Dionísio, o Areopagita, já o dizia no século VI, bem como São Máximo, na mesma época, e os Padres Capadócios, no século IV. Dentre muitos outros que trabalharam o problema, como teólogos medievais e modernos, a filosofia religiosa russa, escritores como Dostoievski, enfim...
 
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Como eu disse, em minha primeira postagem neste tópico, Melkor é Satanás devidamente ''tolkienizado'', o pessoal já discorreu, com brilhantismo, sobre o ''Satanás'', portanto acho que seria interessante uma análise sobre o ''tolkienizado'', ou seja, sobre o personagem por si só, sem as influências que ajudaram Tolkien a criá-lo.

Segundo o Professor, a obra mais importante, e nefasta, de Melkor foi a dispersão de sua força vital por tudo o que existe nesta planeta, não havendo o que seja que não tenha sido contaminado por ela (inclusive elfos e humanos) em maior ou menor grau.

Ora, isto revela uma obsessão feroz por Arda. Feroz e infantil (no pior sentido do termo), algo como ''se o brinquedo não for só meu, ele não será de mais ninguém, pelo menos não de forma intacta''.

Mas Melkor mentia com excelência (o que não é raro em spoiled brats poderosos como ele, houve muitos semelhantes ao vala caído ao longo da História Humana), ele mentia até para si mesmo, fingindo-se um dominador, quando na verdade era um mero corruptor que agia por birra. Mentiu para Sauron e para os maiar menores (balrogs e outros que não recebem nomes) que o seguiram. Afinal não creio que estes tenham se unido a ele para que o mesmo pudesse realizar os seus desejos de moleque birrento, mas porque achavam que se associavam a um conquistador. Morgoth não apenas mentiu a eles, Morgoth também os traiu já que passou a usá-los como escudo para que pudesse infectar, com sua essência, tudo o que existia, ou viria a existir, na Terra.

Tal atitude demonstra uma clara descrença em qualquer possibilidade de vitória e quando ficamos sabendo que tal processo de infestação era muito antigo, bem anterior ao surgimento dos elfos, percebemos que, no fundo, ele havia renunciado à conquista de Arda desde o início de sua rebelião, contentando-se com a corrupção daquilo que não poderia ter só para si.

Porém, se formos analisar este tema em profundidade, veremos que Tolkien, talvez inadvertidamente, criou uma das disputas pai/filho mais interessantes da literatura mundial no conturbado relacionamento entre Ilúvatar e seu pirralho insuportável, Melkor.

E isto fica particularmente claro em "O Conto De Adanel".

Talvez daddy issues não sejam uma exclusividade feminina, como Morgoth parece demonstrar.

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Como eu disse, em minha primeira postagem neste tópico, Melkor é Satanás devidamente ''tolkienizado'', o pessoal já discorreu, com brilhantismo, sobre o ''Satanás'', portanto acho que seria interessante uma análise sobre o ''tolkienizado'', ou seja, sobre o personagem por si só, sem as influências que ajudaram Tolkien a criá-lo.ctar, com sua essência, tudo o que existia, ou viria a existir, na Terra.

Isso non ecsiste.

Isso que você propõe é esvaziar um personagem de toda a sua plasticidade estética, de seu sentido mesmo. Não existe 'tolkienização' a não ser na adaptação para determinado universo ficcionalmente mitológico de um símbolo universal e metafísico que transcende aquele mesmo mundo. O Mal em Tolkien é símbolo de uma característica, uma energia e uma vontade real, maligna, corrompida. O valor do Mal nas obras de Tolkien não está nele mesmo, como um boneco que assume as funções de vilão, como em um romance de aventuras qualquer, tipo aqueles do século XVIII, onde através de motivos morais e psicológicos se 'maligniza' um habitante daquele mundo. Ele assume função de encarnação de um valor que o transcende, necessário à ação.

Melkor não é assim, nem Sauron. Eles não são meros habitantes de Arda, preexistem a ela e são, como os Ainur, espécies de condições de possibilidade da realização mesma do Terceiro Tema de Ilúvatar. É dentro do grande drama cósmico-histórico que se insere tanto a liberdade de Eru quanto a dos Ainur, eldar e homens, que se compreende, se intui o Mal como o Bem, como categorias metafísica e axiológicas fundamentais.

Perde-se isso de vista e se faz exatamente o que você fez, se reduzir o Mal a um personagem malvado de romance de aventuras, um deus ex machina a cumprir função no plot, imanentizar um valor fundamental e esvaziá-lo de todo sentido, bem como destruir a transcendência da própria obra. Se quiser, pode fazer isso com Eru e imaginá-lo como um velhinho, cujas ações são meio misteriosas e de quem se pode fazer tais e tais conjeturas. Mas meio que você não pode, porque é exatamente como Deus, Um, Absoluto em Sua Transcendência que Eru é irredutível a qualquer elemento imanente ao mundo. Ele preexiste a ele e é a suprema condição de possibilidade de toda Ação, Ambientação, História. Não existe Ainulindalë sem a Chama Imperecível como inspiração, e ela ou é criada por Eru (uma visão teológica católico-romana, aristotélico-tomista do Actus Purus) ou Consubstancial com Ele (visão teológica greco-ortodoxa, patrístico-palamita da distinção em Deus de Sua essências e Suas energias incriadas).

Você é livre para fazer o que quiser, claro, mas na minha opinião sequer tentar falar de Melkor, dos Ainur em geral, ainda mais de Eru, da Criação, do Mal, da liberdade de Eru e de Suas criaturas SEM referência a estudos teológicos e filosóficos, como simples 'motivos morais e psicológicos' é destruir a obra do Professor. Isso não é Tolkien. Pode ser Martin, Tolkien não é. Digo o mesmo de C. S. Lewis.
 
Trechos do livro "As cartas de J.R.R. Tolkien".

Carta 294:

[Os Plimmers haviam entrevistado recentemente Tolkien para a Daily Telegraph Magazine e agora haviam lhe enviado um rascunho de seu artigo, cuja versão terminada foi publicada na edição de 22 de março de 1968]

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A Terra-média corresponde espiritualmente à Europa Nórdica...

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Auden declarou que para mim "o Norte é uma direção sagrada". Isso não é verdade. O noroeste da Europa, onde tenho vivido (e a maioria de meus ancestrais viveu), tem minha afeição, como deve ter o lar de um homem. Amo sua atmosfera e sei mais de suas histórias e idiomas do que sei de outras partes; mas não é "sagrado", nem exaure minhas afeições. Por exemplo, tenho um amor em particular pela língua latina, e entre seus descendentes pelo espanhol. Que isso não é verdadeiro para minha história, uma mera leitura das sinopses deve mostrar. O Norte era a sede das fortalezas do Diabo. O progresso da história termina no que é muito mais parecido com o restabelecimento de um Sacro Império Romano efetivo com sua sede em Roma do que qualquer coisa que seria planejada por um"nórdico".


Carta 153:

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O sofrimento e a experiência (e possivelmente próprio Anel) deram a Frodo maior discernimento; e o senhor lerá no Cap. I do Livro VI as palavras a Sam. "A Sombra que os gerou só pode arremedar, não pode criar algo realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que tenha dado vida aos Orcs, apenas os arruinou e deformou." Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos, antes que sequer tivessem ouvido falar dos "deuses", quanto mais de Deus.

...

Claro que dentro de limites e claro que sujeitos a certas ordens ou proibições. Mas caso "decaíssem", como decaiu o Diabolus Morgoth e começou a fazer coisas "para si próprio, para ser Senhor delas", essas coisas passariam então a "ser", mesmo que Morgot tenha violado proibição suprema contra a criação de outras criaturas "racionais" como Elfos ou Homens. Pelo menos "seriam" realidades físicas reais no mundo fisico, por mais malignas que pudessem mostrar-se, mesmo em "zombaria" aos Filhos de Deus. Seriam os maiores Pecados de Morgoth...


Carta 211:

...

Melkor tornou-se o rebelde e o Diabolos dessas histórias, que disputava o reino de Arda com Manwë.

...


Claro, pode ser que ele tenha utilizando a palavra "Diabo/Diabolos" apenas como figura de linguagem ao invés de estar fazendo uma comparação direta. Mas creio eu que ao observar os personagens Melkor e Erú existe uma clara alusão a Deus e o Diabo ainda mais sabendo que Tolkien era católico.
 
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A alusão é óbvia, mas prefiro me concentrar em como o Professor desenvolveu os personagens a partir destas influências.

O bom @Caio Alves há de me perdoar mas aspectos de profundidade teológica simplesmente não me falam ao coração. Nada tenho contra eles em princípio, simplesmente não me atraem.

E sou assim não apenas com Tolkien, mas com qualquer autor.

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Compreender o Terceiro Tema sem Santo Agostinho?

:lol:

Good luck with that.

Mas isso vai de cada um querer se aprofundar ou não. Fuja disso e você diminui a obra, a trata como um plano onde se cruzam planos meramente esquemáticos e não plenos de sentido. Antes de perceber, ao tentar compreender a relação entre Melkor e Eru e estará refazendo o trabalho do próprio Agostinho.

Nada te impede de fazer análises psicológicas e freudianas, por exemplo, mannns... conhecendo Tolkien e tendo lido suas cartas, posso te afirmar que isso não tem nada a ver com ele e ele teria um nojo bem carola de alguém se referir a Eru assim. Ele ia pra missa todo domingo se ajoelhar perante Ele na adoração eucarística. :lol:
 
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Talvez eu tenha feito uma má utilização da palavra "alusão". Mas acredito sim que Tolkien tenha no mínimo se inspirado nas entidades cristãs para criar esses personagens. Ele pode ter pensado em Deus e criado o personagem Erú, a mesma coisa com Melkor, o que não quer dizer que os personagens são os mesmos com nomes diferentes.
As histórias de Tolkien são totalmente diferentes da Bíblia cristã, mas é importante pensar de onde ele tirou inspiração para criar os personagens Melkor e principalmente Erú. Será mesmo que ele criou os personagens do zero? Duvido muito.
Afinal já existiam personagens que eram deuses e criadores, antes de Tolkien criar suas histórias mas isso não impede ele de criar seu próprio personagem deus diferente de todos os outros.
 
Ele pode ter pensado em Deus e criado o personagem Erú, a mesma coisa com Melkor, o que não quer dizer que os personagens são os mesmos com nomes diferentes.

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Damn right! :joinha:

Afirmar que Morgoth é Satanás, e não apenas um personagem inspirado nele, equivale a dizer que o Tinhoso, há uns vinte mil anos, foi feito prisioneiro de guerra, que foi julgado e condenado na terra dos anjos (à qual era possível chegar navegando) e levado ao espaço onde seu corpo material foi destruído e que o seu espírito está lá vagando pelas galáxias. 8O

Ou seja, de certa forma, é fazer de Tolkien um profeta. :shock:

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Tar-Mairon , vc já viu aquele comentário do Joseph Campbell de que "todas as religiões são reais mas nenhuma delas é literal"?

Porque já está ficando meio confuso....vc tem algum compromisso com a noção de alguma delas ser interpretada ao pé da letra? Ou é o caso de vc ver a ambas como sendo meras alegorias e ficcionalizações de uma realidade que não tem nada tem a ver com metafísica? E, sendo duas "estórias", vc não gosta de ver nenhum "crossover"?

Acontece que, a bem da verdade, um montão das idéias da Patrística e da Escolástica medieval sobre o Inferno, a natureza dos demônios e de seus líderes não bate mais com as noções contemporâneas do Diabo ao pé da letra. Teologia sobre o Diabo e o Inferno é algo que está sempre caminhando. Então, por exemplo, embora os árabes e os cristãos tenham idéias totalmente diferentes sobre a natureza exata do Demônio, o motivo de sua rebelião e outros detalhes, é notório que Iblis ( Shaitan) e Satã se referem ao mesmo ser. São, sim, tradições variantes sobre o mesmo conceito, onde o nome dele é mudado.

Vc PRECISA necessariamente acreditar que TUDO que Tolkien disse a respeito das tradições dos Eldar ( e ele mesmo como "tradutor") sobre Melkor seja algo com pretensão de ser verdade LITERAL no nosso Mundo Primário para reconhecer que, dentro do Mundo Subcriado pelo Tolkien, Satã e Melkor sejam a mesma "pessoa"? Pq a rigor, o mesmo também se poderia dizer sobre o Satã do Paraíso Perdido já que o John Milton adicionou uma pá de elementos inteiramente "ficcionais" que se tornaram parte do legado e portfolio do demônio tal como imaginamos mas que não eram compreendidos como tal antes dele.

John Milton in Paradise Lost
Until John Milton created the character of Satan for his Paradise Lost, the different attributes of Satan were usually ascribed to different entities. The angel who rebelled in Heaven was not the same as the ruler in Hell. The ruler of Hell was often seen as a sort of jailer who never fell from grace. The tempting serpent of Genesis was just a serpent. Milton combined the different parts of the character to show his fall from near-divine beauty and grace to his eventual skulking role as a jealous tempter. He was so successful in his characterization of Satan as a romantic hero who "would rather rule in Hell than serve in Heaven" that his version of Satan has displaced all others.



Desse ponto de vista, vou dar a minha perspectiva... Se o Tolkien é um artista que medita sobre filosofia e teologia, com mais profundidade do que a maioria, e escreve com uma idéa de descrever um Mundo que é um "protótipo" para o nosso, só recuado no tempo talvez, eu, pessoalmente, não tenho problema nenhum em visualizá-lo como alguém "inspirado" ou um "profeta" nesse sentido mais amplo. Do mesmo jeito que Dante ou Milton o eram.

Pela sua noção, que está dando uma idéia muito estrita de correspondência com uma realidade já posta como dogmática e, portanto, com necessidade de representar o que consideramos "real", então, automaticamente, a Bíblia que visualiza a criação como tendo acontecido só há alguns milhares de anos , entre outras tantas "liberdades" e "inacuidades", também não poderia conter verdade "profética" nenhuma. Ela também estaria longe de ser um "modelo ideal".

E se Tolkien, quanto ao item da passagem de tempo pelo menos, onde ele nunca foi exatamente dogmático mas sugerindo sempre uma idade pra Terra muito mais recuada no tempo do que até mesmo a interpretação mais liberal do texto bíblico ensejaria, estaria, com certeza, muito mais acurado... Aí eu pergunto: se ele está, pelo que a ciência tem condição de aferir, um bocado mais próximo da realidade, quem vai saber no que mais ele não estará correto? Será que se nós tivermos "profetas" ainda em nosso meio, eles serão reconhecidos automaticamente pelo que realmente são? Onde começa o Dogma Religioso e Termina a Arte?

Será que algum de nós aqui espera ter uma resposta fácil pra esse tipo de questionamento? Será que nossas próprias Religiões e os autores que trabalharam produzindo ficção dentro do mainframe Judaico-Cristão iriam gostar que déssemos respostas "fáceis" para isso?Será que VALE mesmo a pena levar a conversa tão longe por aqui onde nenhuma resposta "fácil" vai ser obtida sem representar de forma errada posições e problemáticas complexas? Pq perguntas capciosas podem ser feitas para todo lado e remontar a MUITA coisa do passado que é melhor ficar lá....no passado.
 
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@Ilmarinen,

embora eu seja um cara naturalmente irreligioso, algumas das pessoas que mais amei, e amo, em minha vida, eram/sã0 fortemente religiosas (luteranas e católicas, basicamente). E talvez seja deste amor que brote a estranheza divertida que manifestei em minha postagem anterior.

Abraços.

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Algo um pouco off

Ilmarinen disse:
Pq a rigor, o mesmo também se poderia dizer sobre o Satã do Paraíso Perdido já que o John Milton adicionou uma pá de elementos inteiramente "ficcionais" que se tornaram parte do legado e portfolio do demônio tal como imaginamos mas que não eram compreendidos como tal antes dele

Estou na metade de Paraíso Perdido e considero o Capiroto lá tão atípico... o Capiroto das IURD da vida é bem mais pantomímico.
 
Outro autor que considero 'profético': Dostoievski.

Foi o autor que me trouxe à Ortodoxia mas mesmo desconsiderando todo o aspecto teológico da obra dele ele continua sendo profeta. Não precisa concordar com ele pra ver que ele descreve e revela perfeitamente a falência do projeto moderno ocidental de civilização.
 
embora eu seja um cara naturalmente irreligioso, algumas das pessoas que mais amei, e amo, em minha vida, eram fortemente religiosas (luteranas e católicas, basicamente). E talvez seja deste amor que brote a estranheza divertida que manifestei em minha postagem anterior.

Abraços.

Então, @Tar-Mairon ...sugestão.... deixe a discussão da adequação da ortodoxia teológica do Legendarium a qualquer noção canônica, cristã ou judaica e delas entre si, para quem é fortemente "teísta" ou "religioso"....Não corra o risco de dar a impressão de ser o porta-voz de uma ideologia com a qual vc nem parece subscrever ao pé da letra por questão de empatia com quem a perfilha sem o engajamento intelectual correspondente. Isso não vai dar muito certo nem pra vc nem pra ninguém aqui.

Ou esse assunto é debatido de uma posição aberta "ecumênica" ou então é melhor evitar discorrer sobre ele. Engajar o assunto, ir lá, incitar o debate e, depois, se entricheirar num dogmatismo ortodoxo paternalista, que se ajusta mais ao profundamente fundamentalista, não é o modo de se abordar o tema num fórum para "leigos" feito pra discutir a ficção do Tolkien e suas implicações (teológicas, psicanalíticas, antropológicas, musicais, literárias ou o que for).

Pq, se for pra gente discutir a questão da aplicabilidade e verossimilhança de cânones tolkienianos e religiosos, vai ficar cada vez mais parecendo que a gente é que tem que fazer preleção e pregação para explicar como e porque um e outro podem não ser tão mutuamente excludentes assim. E é você que falou que não gosta de discutir a sério teologia inferida em cima de literatura.

E, nesse assunto, tem muita gente, luterana e católica, evangélica e o que for, que NÃO tem condição de opinar e julgar adequadamente o tema, principalmente pq já começam de uma perspectiva meio monolítica que descura da noção de Cristianismo dentro de uma evolução histórica, do ponto de vista teológico e epistemológico. Pessoas que nunca se aprofundam, por questões de ideologia, na relação, profundamente simbiótica, que a criação literária, a teologia e a religião tem entre si e na forma como elas evoluíram e continuam evoluindo por causa disso. E não dá pra fazer boa teologia sendo só "crente". Esse pode ser o ponto de partida mas não o de chegada.


Nada te impede de fazer análises psicológicas e freudianas, por exemplo, mannns... conhecendo Tolkien e tendo lido suas cartas, posso te afirmar que isso não tem nada a ver com ele e ele teria um nojo bem carola de alguém se referir a Eru assim. Ele ia pra missa todo domingo se ajoelhar perante Ele na adoração eucarística. :lol:

@Caio Alves ...admiro seu entusiasmo...mas vamos baixar um pouco a vazão do lança-chamas.... Psicanálise e Teologia não são de modo nenhum incompatíveis como vc deve saber já que mencionou Dostoiévski aqui no tópico. O que o Tar Mairon falou a respeito das mentiras auto-infligidas por Melkor a si mesmo e o fato dele ter mentido para seus subordinados maiar é totalmente correto do ponto de vista teológico e psicológico... O Demônio cristão não é o "Príncipe das Mentiras"?

E John Milton não sugeriu brilhantemente que a tragédia dele não é mentir mesmo para si próprio (e, no fundo, SABER que faz isso)? E isso, o tal do "recalque" freudiano, não é a base das enfermidades mentais? Pois é....Teologicamente, a mentira auto-infligida, aquilo que é inumado no inconsciente do Demônio se torna o Mal....não só para ele mas para todos nós.

Eu acho que, na longa postagem onde Tar Mairon discorreu sobre isso, ele estava, justamente, fazendo o que eu aconselhei aí em cima no meu post....Abstraiu o conteúdo intrinsecamente teológico, com o qual ele não se sente à vontade pra debater, e se focou nas implicações, logísticas e psicanálíticas, das ações dos Senhores das Trevas na relação de um com o outro e de ambos com as suas respectivas "agendas"....Uma dia eu falei para o @César exatamente o que ele falou.

O próprio Tolkien não disse, de forma meio misteriosa, que Melkor temia os homens pq eles eram parecidos com ele? Isso é Tolkien falando, em termos poéticos, de dois conceitos freudianos....Negação ( que Tolkien correlacionou com o Niilismo de Nietszshe) e Projeção.

A própria Ungoliant não resulta, talvez, de uma projeção de Melkor ( ou, quiçá, de Eru, gerando a Noite Primordial (como parece sugerir a teologia da cabala hebraica em relação a Jeová-Elohim e sua conexão com a origem do Mal para aquele "sistema") para fora de si que, sendo ele o que é, não produz algo com dimensão ontológica?)

Então, de boa....deve ter excelente literatura e até teses a respeito disso...Psicanálise, Freud, Teologia, Cristianismo e Legendarium do Tolkien não são incongruentes. E Tolkien e C.S. Lewis, embora meio avessos a admitir a aplicabilidade da Psicanálise ( eles, também, malhavam a análise de fontes literárias, contanto que não fossem eles mesmos que a fizessem e não mexesse nos seus calos e soft spots ideológicos), respeitavam Freud e Jung ( tem até uma excelente tese recente comparando as implicações dos dois "Livros Vermelhos de Tolkien e Jung) mesmo que os textos onde eles tenham discorrido mais a respeito deles não sejam muito debatidos ou não sejam publicados justamente pra se evitar alguns debates mais acirrados a respeito disso tudo.

Mas vamos sempre realçar....o que é entrave pra qualquer debate produtivo não é a disparidade de crenças ou ideologias....é a falta de Caritas ("caridade", uma das formas de amor, obrigação para nós cristãos) e de civilidade para com o interlocutor.

 
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Outro autor que considero 'profético': Dostoievski.

Foi o autor que me trouxe à Ortodoxia mas mesmo desconsiderando todo o aspecto teológico da obra dele ele continua sendo profeta. Não precisa concordar com ele pra ver que ele descreve e revela perfeitamente a falência do projeto moderno ocidental de civilização.

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Considero a alucinação de Ivan Karamázov com o Capeta, além de uma das passagens mais tétricas da literatura mundial, um tremendo de um alerta contra a visão hegeliana (herdada de "Fausto", de Göethe) de que a negatividade é a força motriz da História.

E, após o catastrófico Século XX, percebemos o quanto o bom e velho Dostoiévski estava correto.

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@Lindoriel ...se for muito polêmico e vc achar que a hora não é propícia....segura e bloga....precisava de ver a minha cara quando eu fazia o Ensaio da Ungoliant e comecei a topar com algumas das teses e suposições que surgiam a partir dele.
 
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É polêmico não por causa do Capiroto em si, mas pq o vilão da história seria o deus judaico-cristão.

E como muitos ainda adoram a esse deus, tretas sairiam.

Em tempo, sou politeísta e por isso esses temas são tratados por mim com mais naturalidade do que por um monoteísta que leva essas questões a sério.
 
Numa palavra para vc Lindoriel: Gnosticismo. Isso não é novidade, mesmo pra quem é Teísta e Monoteísta.

Esse ítem da TV Tropes existe por um motivo: God is Evil-TV Tropes

E, se vc já ouviu falar do Livro Negro de Arda(que acabou de ser traduzido por iniciativa da Dúvendor), já deve saber que isso não é inédito dentro do âmbito Tolkienismo.

black_book_of_arda111.jpg


Pode não ser ortodoxo mas não deixa de contar com nossa admiração intelectual ou estética, ainda que não seja da minha estima do ponto de vista emocional e teológico.

 
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