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Mais material: um diálogo

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Matheus Spier, 17 Out 2012.

  1. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    Olá.

    Continuando com posts sobre a peça que escrevi ("A Canção do Deserto"), gostaria de citar um trecho um pouco maior. Já citei, nos dois posts anteriores, duas falas, porém acho que seria bom mostrar um pouco do diálogo da obra.

    A próxima passagem citada mostra o duelo verbal entre um jovem e a moça que ele pretende conquistar; é bem interessante, pois mostra a rapidez do humor e do espírito adolescente. É legal também ver a rapidez da inteligência da garota, que faz o rapaz suar para acompanhar sua rapidez mental. O diálogo citado aqui começa após uma discussão, em que o rapaz diz que sabe que não se pode ganhar uma mulher apenas com palavras. A moça responde que é possível, mas que, muitas vezes, a combinação correta de palavras é muito complexa e difícil de encontrar. O rapaz então diz que sua esperança morreu, e eis o que se segue:



    BEDREDIN: Então é simples: morta está a esperança.

    BADURA: Se pensas assim, tudo o que te resta
    É sepultar o corpo da defunta.

    BEDREDIN: Se eu penso assim? Quer dizer que ainda
    É viva a esperança; que possuo
    Esperança sentada sobre os ombros?

    BADURA: Agora já enterraram a coitada;
    Terás que ser coveiro e exumá-la,
    Pois ela agora está comendo terra.

    BEDREDIN: Que língua! Em ti Alá modelou sua
    Ironia mais bela e elegante;
    Como pode maça tão bonita
    Ter um sabor tão amargo?

    BADURA: Que mentira. O senhor não me provou
    Para poder saber o meu sabor.

    BEDREDIN: Permita-me prová-la, e poderei
    Provar tudo o que aleguei.

    BADURA: Oh, não. Não é preciso, pois sabores
    Refinados e exóticos jamais
    Conseguem agradar um paladar grosseiro.

    BEDREDIN: Sua beleza, moça, é um disfarce:
    Por baixo dessa doce casca de anjo,
    Dessa fina crisálida de açúcar,
    Jaz um demônio feito de pimenta,
    Que cospe fogo ao falar.

    BADURA: Pois você é um homem comum, sem
    Imaginação, como os outros todos.
    Querem mulheres mudas e submissas,
    Insossas como arroz sem sal. Casar
    Com uma esposa assim pode até ter
    Certas vantagens, porém elas não compensam,
    Pois muito forte é o peso dos defeitos.
    É como quando uma mulher casa
    Com o tabelião, o chefe do cartório:
    Tabeliães são homens muito ricos,
    Porém dificilmente pôde o mundo
    Gerar seres com mentes tão anêmicas,
    Com imaginação mais morta e fria.
    De que vale passear pelo mercado,
    Com bastante dinheiro para gastar,
    Se se está de mãos dadas com zumbis,
    Com maridos sem vida e sonolentos?
    Só juristas conseguem competir
    Com tabeliães pelo troféu triste
    E mofado de rei entre os insossos.

    BEDREDIN: Pensei que as mentes mais destemperadas
    Pertencessem aos políticos.

    BADURA: Não. A imaginação desses é fértil,
    Mas seus miolos só trabalham para
    Eles próprios: seus cérebros produzem
    Colheitas de projetos egoístas,
    Geralmente adubados pelo esterco
    Da corrupção, o sal da vida pública.

    BEDREDIN: Espécies curiosas cria o mundo:
    O que diriam de ti os zoólogos?
    Temos o rosto da Branca de Neve,
    Testa em que a graça faz seu piquenique,
    Almofadas de leite nas bochechas,
    Onde a inocência senta... Tu, porém,
    Fada, parece ter roído e mascado
    A cabeça feroz da vil medusa,
    Dissolvendo o veneno das serpentes,
    Mastigando os cristais mortais dos olhos
    E poluindo a língua: as palavras
    Que tu falas são facas, o humor cortam;
    Chicoteiam o lombo da alegria;
    São o horror, como a face da medusa.
    Se rude como a fala fosse o hálito,
    Secarias no campo as plantações,
    Quebrarias as pedras das cidades
    E infectarias o mundo como a peste,
    Muitas populações de pulmões corroendo;
    A própria lua fecharia os olhos
    Cozidos em conjuntivite rubra;
    Céus, invadidos, vento amargo espirrariam.
    Mas mesmo para o caos há solução.
    Acredito que tens que ser beijada;
    Teu rosto fala por ti e pede beijos.
    Quem sabe eu possa te ajudar, porém
    Se as palavras temperam língua e lábios,
    Estou morto: a viúva-negra, a mamba,
    A naja, a cascavel, as rãs brilhantes,
    O baiacu, o peixe-leão, o polvo
    De anéis azuis, a vespa do mar: todos
    Os animais mais venenosos desta Terra,
    Químicos mortais, lordes da peçonha,
    Em solene sessão legislativa
    Te elegeram rainha e soberana.
    Serão mortais teus lábios de cereja?
    Arrisco a vida para descobrir.

    BADURA: Vou te responder, porém chega de falar com arte, vamos parar de contorcer a língua com o verso e deixá-la relaxar com a prosa. Quanto a suas acusações, minha defesa é simples: seus ouvidos é que são muito sensíveis, e por isso minhas palavras te machucam. Não se fazem mais homens como antigamente.

    BEDREDIN: Isso é uma verdade. Os homens de antigamente eram muito mais inteligentes do que nós, suas versões atuais. Antigamente os homens sabiam fazer suas esposas ficarem caladas, nem que para isso precisassem amordaçá-las. Nos dias de hoje, porém, as orelhas não têm mais sossego: os tímpanos jamais param de bater seu bumbo. Basta o marido se atrasar cerca de quinze minutos para voltar para casa que já é recebido pela esposa com cusparadas de pregos, todos martelados pela língua feminina dentro do canal e labirinto do ouvido.

    BADURA: É por essa razão que os historiadores concluem que o mundo caminha cada vez mais em direção ao progresso: nós, mulheres, sempre tivemos todas as respostas e soluções, mas os homens jamais nos ouviam, e nossa sabedoria apodrecia sem ser tocada. Nosso silêncio produziu eras de sofrimentos desnecessários.

    BEDREDIN: Vocês sempre tiveram as soluções? Mulheres nunca foram amigas das soluções, apenas dos problemas. Vocês são o elemento que complica nossas vidas; o espinho no dedão da paciência; o número que quebra nossas equações perfeitas e torna todos os nossos resultados nulos. Vocês são a peça eternamente em falta para que nós possamos montar o quebra-cabeça do viver de forma harmoniosa.

    BADURA: E, no entanto, com tantas coisas para se fazer no vasto mundo, com tantas atrações, com tantos prêmios esperando conquista, vocês estão sempre nos orbitando: são nossos satélites; nossas luas salivantes, eternamente famintos.

    BEDREDIN: Devo admitir que Alá jamais produziu algo melhor do que a mulher. Certo dia a divindade foi fazer uma sopa e picou dentro da panela deliciosos ingredientes: dois maravilhosos olhos, pele macia, lábios acolchoados e úmidos, cabelos perfumados, pernas mornas e lisas, além de muitos outros temperos especiais; depois de mexer e ferver, serviu ao mundo a mulher. Existe, porém, um problema: os impostos sobre essa iguaria são muito altos; quando Alá construiu a alma feminina e lhe deu o dom da voz, tornou o prazer muito caro.

    BADURA: Quanto aos homens, nunca descobri o que tem de bom. Acho até que nada; nós, mulheres, é que somos tolas por gostarmos de vocês. Isso é um reflexo de nosso desejo de garotinhas de encontrar um homem que realmente nos ame e que o saiba dizer com cada gesto e palavra; um homem que nos abrace em noites frias; um homem que nos beije todos os dias, muitas e muitas vezes, como se nós fossemos seu alimento; um homem que sente ao nosso lado na varanda de casa, ao amanhecer, tomando café, e que nos diga que a única coisa que deseja são dias iguais a esse, ao nosso lado; um homem que envelheça ao nosso lado mas que acorde todos os dias nos achando mais belas do que antes, descobrindo em nós, eternamente, novos detalhes e maravilhas. Posso chamar essa fantasia de esperança: é uma mácula em nossa mente, pois nos mantém cometendo erros.

    BEDREDIN: Na esperança de um só acerto.

    BADURA: Na esperança de um só acerto.

    BEDREDIN: Eu adoraria tentar ser um acerto em sua vida.

    BADURA: Acredito que posso lhe dar uma chance.

    BEDREDIN: Eu sabia que você tinha gostado de mim.

    BADURA: Você não tem nada de especial: a verdade é que errar no amor também tem seu sabor.

    NUREDIN: Ei, Bedredin! Vamos subir ao palco e tocar, o povo está esperando.

    BEDREDIN: Vamos lá.

    (Bedredin e Nuredin sobem ao palco.)




    Na próxima passagem, cito as canções que os jovens apresentados acima cantam. Eles começam com duas canções de amor melosas, depois cantam uma bem animada e picante, para os bêbados (A cena que vem sendo citada se passa numa Taverna, chamada "O Mel do Ratel", que é propriedade das jovens Gulnara e Badura; Bedredin e Nuredin são dois músicos contratados para animar a noite, mas eles acabam se apaixonando pelas meninas - claro que primeiro eles tem de fazer o serviço para o qual foram contratados e cantar músicas que animem os clientes do bar). Ah! Só para lembrar: as canções fazem referência a nomes árabes, ao Corão e outras coisas típicas da cultura muçulmana. Uma vez que a peça se passa em Bagdá, tive de construir a atmosfera com base no islamismo:





    NUREDIN: Por favor, rapazes, silêncio.

    (Canta) Quando Ali semeia a lama
    Nas margens do rio, e Omar
    Guia o gado em jovem grama;
    Quando Abdul vê seu pomar
    Com tâmaras engordando
    E vovós tricotam cantando;
    Quando é farto o pão,
    Florido o açafrão,
    Quem rege a terra é o verão,
    A doce estação.

    Quando maças Jamal traz
    Para Nádia um bolo assar
    E Camila e seu rapaz
    Vão na quermesse dançar;
    Quando a flor de laranjeira
    Sara põem na cabeleira
    E os jovens se vão
    Sem ler seu corão
    Quem bate lá fora é o verão,
    Que exige atenção.

    Numa dessas noites quentes
    Busquei sozinho o deserto,
    Por frios fogos sorridentes
    E a córnea lunar coberto.
    Busquei no vazio cenário
    Para, qual triste canário,
    Cantar minha dor;
    Na arte de compor
    Vinho foi meu co-autor,
    O doce licor.

    Vendo-me beber tal mel,
    Sedenta, a lua babava
    Seu fogo albino no céu:
    Com prata a sombra molhava,
    A noite em luz afogando,
    Baile de cristais criando.
    O céu pontilhado,
    Leopardo gelado,
    Tremia brilho nevado
    Do pelo estrelado.

    Vendo na noite platéia
    De astros, por vinho sedentos,
    Germinou em mim a idéia
    De aos céus narrar meus lamentos:
    Cantei o amor que perdi,
    Sangrei saudades de ti.
    Mas mágoas salgadas
    Eram odiadas
    Nos céus, como marteladas
    Nos tímpanos dadas.

    Caixão com trevas composto
    Selou a noite dos homens:
    A lua cobriu seu rosto
    Com negras colchas de nuvens,
    Na almofada do oriente
    Deitou a cabeça ardente,
    Com mãos salivadas,
    Por sereno aguadas,
    Foram todas apagadas
    As velas douradas.

    A cósmica serenata
    Naufragou na escuridão,
    Findou-se o baile de prata,
    Vazio ficou o salão;
    Só os mornos céus restaram,
    Onde as estrelas se amaram,
    Pois humanos ais,
    Lágrimas carnais,
    Não agradam jamais
    Celestes carnavais.

    Assim voltei a estar só
    No mundo: o abismo infinito;
    Meu peito era flor de pó,
    Minha alma mudo grito.
    Nos vagalumes do ar
    Desejei reencarnar,
    E buscar assim
    A lua pr’a mim,
    No seu rosto de marfim
    Dormindo por fim.

    GULNARA: Até que o rapaz possui uma bela voz: não é áspera e cortante, arranhando os ouvidos como se porcos-espinho assustados estivessem os cavando para se abrigarem; também não é sibilante e doce demais, como esses sussurros suados de saliva com os quais os falsos românticos deixam nossas orelhas meladas com mel pegajoso. Apenas a canção que ele escolheu é um tanto vagarosa, caminhando lentamente como uma noiva cristã na igreja. Não é ideal para dançar, e a vontade de me movimentar está fazendo cócegas de desejo em minha mente.

    BADURA: Você não engana ninguém com esse comentário, minha querida. Sei muito bem que estás sempre com vontade de dançar; o anjo da dança jogou suas pulgas em ti e elas vivem te mordendo.

    GULNARA: Isso é verdade, tenho de admitir. Mas vamos prestar atenção, é a vez do teu admirador.

    BADURA: É um jovem feliz e muito simpático. Sempre gostei de sorrisos, e o dele pertence àquela espécie de sorrisos chamados sorrisos sinceros: essa é a melhor qualidade de uma vitrine de dentes. Por essa razão vou fazer o favor de escutá-lo com atenção.

    BEDREDIN: Que os diabéticos deixem a sala, pois eis aqui alguns versos açucarados em homenagem a senhorita Badura, a dona do bar O Mel do Ratel.

    (Canta) Venha amor, pois o dia desfalece,
    Na agonia da sombra a luz mergulha,
    Suspira o calor, o sereno desce,
    E o sol morre em crepuscular fagulha.
    Gelada é a noite, quero teu carinho,
    Amada, por favor, venha ao meu ninho.
    Frio, frio, frio, faz a noite sibilante;
    Frio, frio, frio, assobia a todo instante.

    Venha meu amor, ficaremos unidos,
    Em pele de carneiro agasalhados,
    Afogando em prazer nossos sentidos,
    Bebendo o calor mútuo, abraçados.
    Gelada é a noite, quero teu carinho,
    Amada, por favor, venha ao meu ninho.
    Frio, frio, frio, faz a noite sibilante;
    Frio, frio, frio, assobia a todo instante.

    Temo a manhã, que traz separação;
    Teu calor nos lençóis vai esfriar,
    A aridez comerá meu coração,
    E os teus perfumes vão se dissipar.
    Por favor, amor, por favor, não vá:
    Ardor como o teu no mundo não há.
    Ri, ri, ri: assim sorri a manhã,
    Ao ver-me, sem ti, viver vida vã.

    Em minha cama teu suor pingou:
    Hoje gotejam lágrimas de amor;
    Tua cabeça em meu peito pesou:
    Hoje a leveza é um peso e uma dor.
    Por favor, amor, por favor, não vá:
    Ardor como o teu no mundo não há.
    Ri, ri, ri: assim sorri a manhã,
    Por ver que sem ti minha vida é vã.

    Mas, se vais, colhe a rosa em meu jardim:
    Flor branca, como o amor imaculado,
    E pinta sua face com carmim
    No sangue de meu peito machucado.
    Estavas junto a mim na noite fria,
    Mas foste embora ao florescer do dia,
    Deixando-me o sol como companhia:
    Um sol pálido, anêmica alegria.

    1º BÊBADO: Esses sujeitos estão brincando conosco! O barco da alegria naufragou por que esses dois palhaços de melado e açúcar derrubaram uma âncora de tristeza em seu casco!

    2º BÊBADO: Esses caras pisaram no palco para chorar, e vestiram suas fungadas e soluços com palavrinhas floridas.

    1º BÊBADO: Vamos embora, ouvi dizer que hoje é noite de briga de galos na taverna do Jafar.

    2º BÊBADO: Vamos lá! Vou apostar no Moela de Ferro, é campeão!

    1º BÊBADO: Que nada! O Crista de Pimenta é muito melhor.

    BEDREDIN: (À parte para Nuredin) Nuredin, nós precisamos fazer alguma coisa para esses cachaceiros não irem embora. Prometi para Badura que iríamos deixar o bar animado.

    NUREDIN: (À parte para Bedredin) Lembra daquela música que o tio Beto e seus amigos costumavam cantar quando voltavam para casa, ao amanhecer? É rústica e grosseira, mas acho que vai dar bons resultados.

    BEDREDIN: (À parte para Nuredin) É verdade. É uma canção bastante animada. Vamos lá.

    BEDREDIN e NUREDIN:
    (Cantam)
    No amplo palácio do rei
    Esta noite corre o vinho;
    Cerveja é molho esta noite
    Em nosso bar, seu vizinho.

    Velhos condes e duquesas
    (passas em terno e vestido),
    Cheirando a ameixa e laxante,
    Vão honrar seu rei querido.

    Já na taverna do Zé
    Dançam Duda, Nina e Clarissa,
    Com perfume de capim,
    Tetas de vaca e lingüiça:

    São flores rudes da roça,
    Moças da cervejaria
    (que por velhas do palácio
    Homem algum trocaria).

    Na janta sem sal do rei
    Delicado flui o vinho,
    Porém em danças explode
    A cerveja em nosso ninho.

    No salão real tilintam
    Garfos de prata e cristais,
    No bar quem geme são tábuas
    Sob baile de ébrios casais.

    Como dentes custam pouco,
    Por brigas somos sedentos;
    Temos cartas, dança e música,
    Não discursos sonolentos.

    Caviar é gosma azeda;
    Preferimos molhar pão
    No alho, couve e pé de porco
    Do panelão de feijão.

    Na festa morna do rei
    Beiços gentis sorvem vinho,
    Já a cerveja, em cachoeiras,
    Tem nestas goelas caminho.

    As princesas são rosas
    Que até podem ser colhidas,
    Porém terá de gastar
    Quem quiser vê-las despidas:

    Gastar pés dançando valsas,
    Gastar língua com discursos,
    Gastar beijos nos sapatos
    De sogros, idosos ursos.

    No entanto as damas do bar
    Por algumas moedinhas
    Prometem amor eterno
    E vendem horas docinhas.

    Na festa morta do rei
    Traz sono aos lordes o vinho,
    Mas cerveja, em nossos cérebros,
    Corre e salta qual ratinho.

    Na cansada cama o rei
    Sob lençóis de tédio dorme;
    A rainha ronca ao lado,
    Tem pés frios, barriga enorme.

    Já o bêbado cai na esquina,
    Faz seu colchão da calçada,
    Na lua tem sua esposa,
    Lençol na noite estrelada.

    Se homens nobres tem cavalos
    Bêbados tem cães fiéis,
    Que em corais pulguentos cantam
    A lua em frente aos bordéis.

    Como as pulgas somos nós:
    Pequenos, mas existimos;
    Por vezes o reino coça
    Seus pobres, mas resistimos.

    No frio palácio do rei
    Já se esgotou todo o vinho,
    Porém não nossa cerveja:
    Venha, venha, majestade,
    Não apodreça sozinho.

    2º BÊBADO: Esses camaradas são filósofos, e entendem o significado de nossas vidas.

    1º BÊBADO: É bom encontrar pessoas cultas que conseguem nos entender. Podemos dizer que agora este bar voltou a ser um bar.

    (Entram alguns casais, todos alegres e animados)

    CASAIS: É daqui que vem essa música! Tem espaço para mais gente nessa festa de vocês?

    BADURA: Claro que sim. Por favor, senhoras e senhores, podem entrar, sejam bem vindos. Peçam qualquer coisa para os garçons que serão atendidos.

    GULNARA: Agora sim! Como a música é forte, bastam poucas notas animadas para nos incendiar. É como se um sussurro se alastrasse pelo esqueleto e o incentivasse a pular. (Para um garçom) Ei, rapaz! Por favor, me traga um chope gelado: é o mais eficiente assassino do calor.




    Obrigado, amigos e amigas do fórum, por toda a atenção e carinho.

    Abraços, Matheus:traça:
     

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