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Má Companhia

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Pips, 20 Jun 2011.

  1. Pips

    Pips Old School.

    Má Companhia

    [size=x-small][align=right]É essencial cultivar sempre um mínimo de má reputação
    Roberto das Neves[/align]
    [/size]

    Ainda que a noite caísse, pouco antes das sete horas da noite, e o céu, encoberto por nuvens carregadas, despencasse num roxo de pura alegria maldosa ela esperava há exatos sete minutos algum sinal conhecido. Ao procurar alguém, aquém do sentido metafórico, observamos àqueles que fumam pelo simples gesto de fugir da muvuca de um bar decorado a maneira de porões da Grã-Bretanha – os famigerados, famosos e incertos pubs, ou que simplesmente, porque sempre o hábito de fumar é simples e singelo, esperam que a nicotina freie seu vício no álcool e detalhamos com a mente cada pessoa que passa. Tayara esperava, agora a nove minutos, por aquele garoto que, não sabia ao certo, convidara para tomar um café e que acabou ficando muito tarde tornando-se um encontro para uma cerveja.

    Ela vestia uma blusa preta, calças jeans azuis e estava com um corte de cabelo em V, permitindo que a franja ficasse num tamanho menor e prolongasse junto com os fios até um pouco abaixo dos ombros. Usava brincos que lembravam um apanhador de sonhos indígenas numa cor imaginária que cruzava entre ferrugem e um marrom terra. Os olhares dentro do bar se voltavam às televisões sintonizadas em um jogo de futebol, pela concentração dos espectadores era uma possível final que levaria rumo a algum título de expressão efêmero que logo se perderia nas memórias de cada torcedor. Algumas garotas de uniforme azul a cumprimentavam e perguntavam se queria lugar para sentar, um pint ou fritas. Tayara ignorou todas as investidas até reconhecer o rosto que não via há mais de um ano e por quem não nutria boas lembranças – algumas risadas talvez, mas sempre com certa insegurança por não saber distinguir se todo aquele disfarce entre insultos e cutucões – esses sim metafóricos – escondia uma espécie de admiração daquele rapaz ou pura descrença em elogios gratuitos.

    O rapaz, homem ou garoto – dependendo de sua atitude na noite, trajava uma camiseta verde, calças jeans escura e parecia não aparar a barba há dois ou três dias (o que a luz fazia questão de camuflar). Seu sorriso seguia uma linha de escárnio e ironia sempre que se encontravam e dessa vez parecia sincero como se realmente estivesse feliz, agradecido ou confortável em encontrá-la após tanto tempo. Quem dera não suspeitasse que ao fechar a boca escondendo a dentição não viria um comentário sobre seu cabelo ou sobre o que conversaram antes de decidirem marcar aquele encontro às cegas – metaforicamente falando, pois os dois se conheciam e apesar de terem mudado o corte de cabelo, as cores ou algo que valha, sabiam muito bem a fisionomia e personalidade que o esperavam. E se assim for, por que não esperar que dessa vez aquelas divertidas investidas para ver quem conseguiria deixar o outro mais constrangido com um comentário, além dos padrões defensivos que as pessoas usam como manobra para parecerem de uma gentileza totalmente forçada que soava feérica em demasia.

    Os dois começaram a conversar sobre coisas triviais, rememorando o que haviam conversado no ano anterior, e tentando trazer a familiaridade para o presente. Sim, o garoto, rapaz ou homem, continuava com aquele jeito de querer testá-la até o limite, contudo toda vez que Tayara abria o seu sorriso que revelava maçãs do rosto saltadas contornando e seguindo o desenho de seu nariz, os dentes superiores e os pré-molares ganhavam espaço, a ponta de seu nariz comprimia e os olhos ficavam pequenos como se olhassem para a luz do sol do meio-dia, o deixava encabulado e as brincadeiras cessaram para uma conversa branda sobre a literatura e a política. Tayara não entendia o rubor no rosto do rapaz e continuava a provocá-lo a sua maneira, deferindo nomes a ele como rude ou esperando um simples ataque verborrágico que ela teria de desviar.

    O que acontecera de tão diferente nesse espaço de trezentos e setenta e quatro dias que ele não estava à altura dela para confrontar suas provocações? Claro que ela notava gestos quase imperceptíveis dele ao querer mexer as mãos pela mesa como um cego procurando seu copo. Uma insegurança? Talvez. Todavia, um palito para prender cabelo estava em suas mãos. Um palito com desenhos orientais em madeira de carvalho. Tayara lembrou a última frase que o rapaz havia dito na última vez que se encontraram e ela, já atrasada, estava a caminho de outro compromisso. “É sempre bom ter perto coisas para lembrar”, e recordou ainda que aquele palito era dela. Tayara se endireitou na cadeira, posta ao lado dele, e amenizou o tom até ter certeza que pisara no lugar certo e não fosse um plano dele para constrangê-la. Ora ela mostrava um lado doce ora revelava que as farpas intrínsecas em suas palavras estavam prontas para ficarem debaixo da personalidade dele, daquele discurso rebelde de quem não precisa agradar para conquistar. “Até quando ficaremos nesse tipo de provocação barata?“ ele perguntou, “Não existe provocação barata...”, ela respondeu em um tom provocativo.

    Tayara sempre soube que o ritmo de uma relação é para os sem-talento, quem desritimava a vida matava o tédio. Uma cartilha de bons costumes e frases feitas, desfeitas e de efeito era a morte de um bom diálogo. Ela acreditava que travar discussões com aquele rapaz, de cabelos emaranhados e castanhos claro, era a melhor forma de executar fantasmas à queima-roupa. Apenas ela não percebeu que ao responder em um tom provocativo, ele já abrira um sorriso. Outra vez a provocava de maneira sucinta para silenciá-la – dessa vez por um tempo incalculável que sua mente se recusava a aceitar.

    “O silêncio é fácil.”, ele disse, “Usamos palavras por luxo e conforto”, ela completou sorrindo e sabendo que dessa vez foi sincera, como toda megera deve ser ao despertar sentimentos incertos, antes que o rapaz saísse da mesa, enquanto todos no bar gritavam gol, para fumar o primeiro cigarro de uma longa noite.
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Hoje mesmo estava pensando em como retratar as personagens fisicamente. A falta desse retrato deixa o leitor muito livre pra imaginá-las, às vezes perdido. Então analiso seu conto e percebo os detalhes do cabelo, da barba, das roupas, e até dos acessórios. Palitos e brincos são coisas que não sei descrever. Brincos entre ferrugem e marrom terra. Uniformes azuis. O foco é Tayara mesmo. A única personagem com nome próprio revelado.

    O enredo é simples. Um encontro às cegas durante a final de um campeonato de futebol ambientado num pub à moda inglesa. O rapaz, homem ou garoto é a personagem mais definida. Tayara é uma personagem passiva, apesar da narrativa se dar pelos olhos e impressões dela. Mas... análises são chatas.

    Fiquei pensando no antes, num tempo a 364 dias atrás. O jeito provocador do rapaz era apenas um costume. Ele era acostumado com ela e a tratava sempre da mesma forma, talvez por não saber lidar com ela de outra forma ou nem mesmo nutrir segundas intenções. Um ano desligado faz sim um encontro às cegas. A intimidade regride muito. E um encontro é algo que esse rapaz nunca teve antes com ela. E ao vê-la como um potencial par, sua velha personalidade se desfaz.

    E ela foi fatal. "Não existe provocação barata..."

    "Usamos palavras por luxo e conforto". Pelo menos ele se sentia desconfortável ao usar e ouvir aquelas palavras. As palavras que Tayara usa pra pensar. As palavras que eu uso pra ler.
     
  3. Pips

    Pips Old School.

    Acho que cada texto tem deixar o leitor livre para imaginar de uma maneira. Seja as roupas que as pessoas usam em uma final de campeonato ou suas personalidades.

    O foco pode ser a Tayra.

    A brincadeira é justamente apresentar um narrador onipresente que joga com a palavra talvez. Ele sabe ou não o que a Tayara quer ou deixar de querer?

    A personalidade TALVEZ não mude, o que muda é a abordagem para ela perceber algo mais.

    Valeu pelos comentários :sim:
     

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