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Little Kafka

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Luciano R. M., 28 Jun 2010.

  1. Luciano R. M.

    Luciano R. M. vira-latas

    Um quarto, totalmente caótico: coisas espalhadas pelo chão, livros em cima de uma escrivaninha, garrafas vazias e vários cinzeiros, alguns cheios, outros vazios, alguns ainda virados e com seu conteúdo espalhado. Sentado em um canto do quarto há um homem e, do meio da sala o Odradek o espreita. O Odradek teve ter a mesma voz do Homem.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Quem sou eu.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Quem sou eu.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Eu. Não. Sei.

    Mas eu queria ser Franz Kafka.

    Odradek

    Franz Kafka? Quem é esse?

    Homem

    Gregor Samsa.

    Odradek

    O homem ou a barata?

    Homem

    O homem-barata.

    Odradek

    Isso parece ser muito solitário.

    Homem

    Não saber quem eu sou é que é. Se eu fosse Kafka-Samsa eu saberia. E eu não estaria tão triste, eu não estaria tão sozinho.

    Odradek

    Você acha mesmo?

    Homem

    Eu teria uma alma. Eu seria uma alma.

    Odradek

    E isso diminuiria a dor?

    Homem

    Quem falou em dor?

    Odradek

    É óbvio que você sente dor. Dá pra ver nas garrafas espalhadas pelo chão, dá pra ver nos cigarros apagados e nunca terminados.

    Homem

    Eu não estava chorando quando você chegou. Não estava.

    Odradek

    É claro que não.

    Homem

    Eu nunca chorei. Só quando eu era criança. Mas é isso que as crianças fazem, não? Elas são felizes e elas choram porque sabem que vão crescer e ser infelizes, mas daí vão esquecer como se chora.

    Odradek

    Você esqueceu como se chora?

    Homem

    Eu acho que tudo isso é uma merda. Eu tomo comprimidos pra não oscilar demais o meu humor. O médico disse que eu posso acabar me matando, numa dessas mudanças. Mas agora eu sou só um saco de guardar comprimidos, um saco de guardar comprimidos que se sente sozinho e que não sabe quem ou o que é, e que só serve pra comer e pra cagar e pra encher de comprimidos. É uma modalidade estranha de infelicidade, essa que nós inventamos pra dizermos que não somos loucos.

    Odradek

    Eu nunca disse uma coisa dessas.

    Homem

    O plural é retórico. O plural é sempre retórico.

    Odradek

    E a sua irmã?

    Homem

    Irmã?

    Odradek

    Se você quer ser Kafka-Samsa, deve ter uma irmã.

    Homem

    Eu tenho uma irmã.

    Odradek

    E?

    Homem

    E. Não sei. Não sei mesmo.

    Odradek

    E tem alguma coisa que você saiba?

    Homem

    Com certeza não.

    Odradek

    Com certeza, não? Ou com certeza não?

    Homem

    Não sei.

    Odradek

    Essa sua mania de ser sempre a pior pessoa da face da terra me irrita as vezes.

    Homem

    Essa minha mania de ser sempre me irrita.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Quem sou eu.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Quem sou eu.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Eu queria me chamar Franz Kafka e morar em Praga. É uma cidade escura, escura e molhada, essa Praga. É uma cidade fria. E tem um rio lá. O Vltava. Parece que as pessoas gostam de se matar pulando nesse rio, no inverno. Eu faria isso. Ou não. Porque o Kafka, o Kafka não se matou. Eu não entendo como uma pessoa como ele não se matou, porque eu acho que eu sou tão infeliz quanto ele e eu queria morar em Praga para poder pular nesse rio, no inverno, e morrer.

    Odradek

    Você não acha que seria um modo muito terrível de morrer?

    Homem

    Acho. Mas eu também acho que esse é um modo muito terrível de viver. Tendo de escolher entre extremos alternados e descontrolados ou então me tornar uma porcaria de Golem movido a comprimidos mágicos que não fazem porra nenhuma a não ser me tornar cada vez mais gordo, cada vez mais gordo, me fazem ter cada vez mais caspa e me tornam cada dia mais indifirente. Isso é terrível. Eu ia pular no Vltava no meio da noite e deixar uma carta dentro de um livro- A metamorfose, provavelmente- e na carta eu ia falar sobre todas as coisas que eu nunca falei, ia desvelar cada uma das minhas mentiras, ia transformar cada uma das minhas mágoas, das minhas garrafas e dos meus cigarros em algo palpável, em dor. E eu ia fazer isso para as pessoas entenderem quanta merda se passa na minha alma- porque se eu fosse Kafka-Samsa e vivesse numa cidade escura e fria, eu teria uma alma- e para elas não ficarem bravas comigo e não me odiarem e não ficarem tristes e na verdade, não sentirem porra nenhuma nem lembrarem de mim quando eu estiver bebendo das águas do Styx- o rio do outro lado- para esquecer de tudo, para me transformar numa tábula rasa, em um teorema não resolvido. Eu ia deixar essa carta nesse livro e eu ia tirar minhas roupas, dobrá-las e colocá-las em um canto, onde não iriam atrapalhar nenhum passante. Eu iria fazer um Kaddish- mesmo que D’us não fosse me ouvir porque eu estaria sozinho e isso não atende o miniam- e então eu ia me deixar cair na água fria. Acho que talvez eu fosse tremer um pouco no começo, e que o frio fosse doer. Mas depois eu iria acabar relaxando e aos poucos, lentamente, eu iria sentir cada parte de meu corpo ficando mais leve e sentindo menos e menos e menos e cada vez menos, até eu desaparecer. E aí no outro dia de manhã talvez fosse um mendigo- o mesmo que pegou minhas roupas mas que de noite estava muito bêbado para me ver na água, no escuro- ou então uma criança- uma menininha loira, amada e querida filha única de um casal de funcionários públicos- quem me encontraria e, na verdade, não me encontraria pois já não seria eu e já não seria mais nada.

    Odradek

    Mas Kafka-Samsa nunca fez isso.

    Homem

    Não, nunca fez.

    Odradek

    E então?

    Homem

    Eu também não moro em Praga. Nenhum rio é tão frio quanto o Vltava. Seria uma traição: comigo e com o rio.

    Odradek

    Como vai ser?

    Homem

    Não sei. Talvez eu tenha tuberculose. Ou talvez eu só definhe, de tristeza.

    Odradek

    Quem é você?

    Homem

    Quem sou eu.
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    eram dias noturnos aqueles. as nuvens de fumaça tampavam o sol de um jeito que nenhum eclipse faria. era uma peneira acima de outra peneira. e tinha aquela multidão na face da terra. a terra de ninguém, um fim de mundo onde judas tinha batido as botas. podia ser springville, ou o município de presidente kennedy. não importa

    HOMEM: escondido atrás de um carro
    - ... não quero morrer aqui... não aqui. meu deus! ai meu deus! não tenho mulher ou filhos! eu sou jovem demais pra morrer!

    ROGELEI: pula o carro e se junta ao HOMEM
    - putzgrila! fudeu!

    HOMEM:
    - AHHHHHHHHHHHH!!!

    ROGELEI:
    - calma! calma!

    enquanto isso a multidão rugia lá fora. os poucos policiais daquela cidade não conseguiam contê-la. a praça do coreto estava toda ocupada. cacos de vidro. pedaços de cérebro pelo chão. e os vira-latas assistiam aquilo tudo, com uma distância segura, cheirando uns aos outros, parados com suas línguas de fora

    HOMEM:
    - ok. ok (ainda estou vivo. não foi dessa vez)

    ROGELEI:
    - hmmm... bom dia?

    HOMEM:
    - bom dia pra se morrer? amanhã! hoje não! hoje não!!!

    ROGELEI:
    - cara, cê sabe o que tá acontecendo aqui? ouvi esse barulhão todo aí e vim aqui dar uma olhada. que que tá acontecendo?

    HOMEM:
    - você é besta ou o quê? os partidários do Mãe Preta estão enlouquecidos! acabaram as balas... não tinha bala pra todo mundo... eles estão se matando no braço... no dente...

    ROGELEI: dá uma espiada por cima do carro pintado de vermelho
    - puta que pariu! isso aí tá pior que Rambo! não é todo dia que isso acontece! NUUUUUHHH! o pau tá comendo!

    HOMEM: puxa o homem pra segurança, atrás do carro
    - você é louco?! quem você acha que é? por que raios você não veio morrer aqui, seu débil mental!?

    o HOMEM não via, mas muitos estavam curiosos, muitos vinham ver. esses dois eram só dois atrás do carro. na verdade, não tinha como se esconder. apenas o anonimato os escondia

    ROGELEI:
    - débil mental é a puta sua mãe! quem é que cê acha que é pra me xingar, filho duma quenga!

    HOMEM:
    - sou um revolucionário! sou um líder! sou...

    um soco

    um homem morto

    assim começou mais uma briga no meio daquela briga toda. Mãe Preta agora era um pedaço carbonizado. Mãe Preta era um prefeito qualquer, eleito pelo voto popular, o voto cesta básica. Mãe Preta estava em pedaços, da mesma forma que um punhado de vereadores. a bomba caseira funcionou muito bem. o botijão de gás ajudou um pouco. a falta de munição dos policiais também. a revolta dos vendedores de dvds piratas também. os caras que vestiam de preto com nomes de bandas de metal, aquelas bandas, sabe, Evanescence, Pink Floyd, Dart Vader, Botafogo, Limão com Mel, Dvo?ák etc. os partidários da lei seca que não foi aprovada. estava todo mundo lá. porque a torre do sinal da tv caiu. porque era feriado nacional, final da copa do mundo. um bando de gente e suas pacatas vidas bestas, provincianos do interior. do interior. de dentro. toda aquela ira. dizendo

    faça a coisa certa
    faça a coisa certa
    faça a coisa certa

    o HOMEM e a sua bomba. parou de se preocupar e começou a amar a bomba. apenas um pacato cidadão, um zé ninguém. uma vida inteira pela frente. uma vida que não queria. o zé ninguém queria ser um HOMEM. queria a revolução. queria o nome gravado nas páginas dos livros de história. o nome nas manchetes dos jornais, o nome nos blogs, no twiter, na psicografia e nos vedas. Mãe Preta tinha um nome e não merecia. era um corrupto como qualquer outro político. e aquele rebanho de idiotas não fazia nada. aquele rebanho de idiotas só queriam viver e morrer velhos, pagando pensão e ganhando aposentadoria. o que poderia ser mais indecente que viver em paz e ser esquecido? quem gostaria de viver em paz e morrer esquecido? quem gostaria de viver sem querer morrer sem saber o que fazer da vida? quem? HOMEM, quem é você?
     
  3. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    q erva é essa, minha gente?
     

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