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Autor da Semana Lima Barreto

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Cantona, 25 Jan 2014.

  1. Cantona

    Cantona Tudo é História

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    Afonso Henriques de LIMA BARRETO
    (13.05.1881 - 01.11.1922)

    Afonso Henriques de Lima Barreto deu o berro primordial na cidade do Rio de Janeiro, numa quente sexta-feira de 13 de maio de 1881, sete anos antes da canetada da Lei Áurea; oito, da Proclamação da República.

    Queremos dizer, com isso, que o filho do tipógrafo João Henriques de Lima Barreto com a professora pública Amália Augusta Barreto, que nasceu "sem dinheiro, mulato e livre", à rua Ipiranga, n.18, viveu tempos importantes da História do nosso país. E, destoando de seus pares - e ao contrário da burguesia que pretendia moldar os acontecimentos nacionais ora como frutos da sua clarividência e força moral, quando os desdobramentos se revelavam em avanços, ora culpando a mistura racial e a indolência que daí advém pela precariedade, atraso e miséria, quando o país engasgava e adiava a consolidação de seu grande destino - ao contrário, dizíamos, dos anseios de nossa classe dominante, Lima Barreto levou para suas páginas em contos, crônicas, diários e romances, o retrato e o ângulo de visão dos menos favorecidos, dos negros e pobres dos subúrbios; dos camponeses abandonados à própria sorte, enquanto o latifúndio prosperava. Assim, ler a obra barretiana é entrar em contato com um pedaço da nossa História silenciado por poderes e sutilezas. E é conhecer um homem obcecado pela arte, pela literatura e por sua capacidade de transformação. "Queimei meu navios, deixei tudo por estas coisas de letras", disse. E o fez por acreditar que a Arte "trabalha pela união da espécie; assim trabalhando, concorre, portanto, para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade"; por ter a certeza de que a Literatura "reforça nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, explicando-lhes os defeitos, realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam um dos outros".

    Mas antes de empunhar a pena contra as desigualdades sociais - muito influenciado pelos romancistas russos -, de denunciar o uso da literatura como "sorriso da sociedade", criando um faz de conta de linguagem rebuscada, cujo grande exponente e alvo predileto foi Coelho Neto, o menino teve que crescer, virar homem. E o fez num ambiente acolhedor, na medida do possível: apesar de pobres, os pais cercaram o pequeno Lima de carinho, o instruíram. A vida, mesmo escassa, se mostrou boa para quem ainda descobria o mundo. Nesse clima de fantasia, presenciou a Lei Áurea e registrou nas primeiras memórias seu clima festivo, posteriormente confrontado com a criticidade de suas letras:

    " Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.”


    Neto de ex-escravos (avó materna), vivendo num país que aboliu a escravidão ao mesmo tempo em que conservou seus senhores, e onde a cor da pele, o gênero e a condição social condicionaram - e condicionam - existências, o racismo lhe foi uma obsessão nos anos vindouros e por toda vida e obra. Sem ironias e floreios, mas de forma crua, expondo, apontando, acusando, Lima Barreto foi a voz contrária à toda “inocência ensaiada” abolicionista que teve na canetada da Princesa Isabel a resolução pura, simples e cristã para o negro. Gritando, denunciou as justificativas científicas para superioridade de brancos, o eugenismo, o racismo velado e a “democracia racial” que se fazia vender pela elite daqueles tempos de transição e Primeira República. Atirou contra a intelectualidade que bebia da máxima da expansão imperialista: o fardo do homem branco é levar a civilização aos povos atrasados. De acordo com a antropóloga Lilia M. Schwarcz, o autor de Isaías Caminha se assumiu como escritor negro, nestas terras onde a mestiçagem significava atraso, onde havia todo tipo de “jogo social no sentido de camuflar e não evidenciar a cor”. Do alto de sua acidez, respondeu que “o fardo do homem branco é surrar os negros a fim de trabalharem para ele”.

    Sua obsessão, no entanto, não se restringiu ao racismo. Foi ao cerne em todas as nossas misérias sociais. Não poupou a República que se fez para poucos, que já em 16 de novembro de 1889 havia traído a população, como a ex-escrava Maria Theresa de Jesus:

    " E a vida passou a correr como sempre, até que um dia Manuel Leocádio entrou no nosso rancho que ficava no sopé do morro e me disse que o nosso Imperador tinha sido embarcado num vapor para fora do Brasil; quem mandava agora era a República. Como eu não soubesse o que era República, ele me explicou, dizendo, daí em diante, todos nós éramos iguais, tanto branco como preto. Que preto podia até sê o dono do governo! Acabando de escutar aquilo, eu disse cá comigo: "esse crioulo está ficando louco". Mas não estava não. Era tudo verdade. Nem preciso dizer que houve fandango no Jabaquara".

    O garoto Lima, evidente, nada pensou sobre a Proclamação. Foi o homem, imerso no contexto de miséria e opressão, tão próximo a realidade de Maria Theresa, quem questionou o modelo republicano. Com Policarpo Quaresma, denunciou uma instituição que se prometeu igualitária, mas que antecipou Orwell: "todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que os outros".

    Nunca é demais dizer, embora o Laurentino Gomes reduza tudo a um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado, que a República foi proclamada e fundada sobre o alicerce de um projeto modernizador. Desde as estruturas políticas, passando pelas sociais e alcançando as econômicas, as coisas se pensaram e planejaram com o principal intuito de inserir o Brasil no cenário mundial como um país civilizado e robusto. Tudo conseguido com afluxo de capital, mão de obra e tecnologia estrangeira. Esse era o consenso entre positivistas e liberais - duas correntes que dominaram a cena na pré e pós Proclamação. E esse movimento modernizador, entreguista e segregacionista - com todos os adereços civilizatórios, urbanísticos, educacionais e o cacete a quatro - foi levado a cabo e a pulso firme por presidentes, governadores e prefeitos.

    Um exemplo pronto dessa mentalidade, foi a reforma da cidade do Rio de Janeiro, por Pereira Passos, que num processo de aburguesamento da capital, expulsou as populações de baixa renda para os subúrbios e as vacinou na marra, resultando na Revolta da Vacina. Os jornais aplaudiram ambas as iniciativas. Realmente a cidade se embelezava, mas a que custo? Poucos nadaram contra, divergiram das opiniões gerais. Dentre eles, Lima Barreto, que se colocou, desde o primeiro momento, ao lado do povo. A reforma, imposta de cima à baixo, maquiava e condenava os subúrbios cada vez mais à própria sorte; sobre as vacinas, combatia o paliativo vendido como solução definitiva: pra se libertar das epidemias, é necessário se libertar primeiro da pobreza.

    Por conta destas posições, e foram muitas - quando aproveitamos o momento para deixar algumas:

    - I Guerra Mundial (1914-1918) - sua posição, influenciado pelos anarquistas, é da defesa da paz. Escreve artigos criticando o militarismo alemão, advogando pela neutralidade do Brasil e vendo o perigo, no caso de participação, de uma submissão ainda maior aos Estados Unidos. Nos artigos deixa transparecer, também, seu sentimento anti estadunidense, criticando a perseguição aos negros norte-americanos e sua sanha imperialista;
    - Revolução Russa de 1917 - ainda influenciado por ideias anarquistas, acompanha com interesse os desdobramentos da revolução soviética. Voltando para a realidade brasileira, empunha bandeiras socialistas em que defende a abolição das relações capitalistas na agricultura e a divisão do latifúndio em pequenas propriedades em benefício dos que neles trabalham;
    - Greve Geral de 1918, RJ - Doente e recolhido ao Hospital Central do Exército, escreve para o jornal ABC um artigo de solidariedade aos grevistas. "A teimosia dos burgueses só fará adiar a convulsão que será então pior, e eles se lembrem, quando mandam cavilosamente atribuir propósitos iníquos aos seus inimigos, pelos jornais responsáveis; lembrem-se que, se dominam até hoje a sociedade, é à custa de muito sangue da nobreza que escorreu da guilhotina em 93, na praça da Grève, em Paris. Atirem a primeira pedra..."


    Por conta, dizíamos, destas posições, nunca foi visto com bons olhos. Acusavam-no de pouco criativo, pois seus personagens eram desdobramentos de si mesmo, seja Isaías, seja Policarpo, seja Clara dos Anjos. Literatura panfletária, diziam. Apontavam-no os erros de português. De sua parte, se defendia como podia. Rebatia em contos e crônicas, além dos romances. Dizia dos erros serem propositais, pois o pré-modernista já trazia para seus textos a oralidade. Aos que o acusavam de militante, concordava. Literatura é militância, é política. O panfletário era com intuito de desqualificar a escrita que esnobava os floreios da linguagem e a vida artificial dos salões para apontar as gentes do subúrbio.

    Lima viu o pai enlouquecer, entregou-se à bebida, também teve surtos neurológicos, viveu na pindaíba e veio a falecer em 1 de novembro de 1922, no Rio de Janeiro, à Rua Major Mascarenhas, n. 26, às 17 horas, por causa de gripe torácica e colapso cardíaco. Em 3 de novembro, faleceu o pai do escritor.

    Bibliografia completa e biografia com outros detalhes,
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    Alguns contos,
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    Um vídeo, abaixo:

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    E finalizo com Sevcenko:

    “Durante todo esse mergulho vertiginoso na sombra da miséria, da insegurança, da abominação social, Lima Barreto deixou seus colegas da boemia e academia pelos companheiros de bar ou de desfortuna. Pôde encarar a ciência não como cientista, mas com paciente. Ver o centro da cidade embelezar-se durante suas idas e vindas para o subúrbio. Encarou o crescimento da concorrência da perspectiva do derrotado. Percebeu a vitória do arrivismo como quem perde uma situação duramente alcançada. Assistiu ao crescimento do preconceito social e racial como um discriminado. Sentiu a repressão e o isolamento dos insociáveis como vitima. Nasceu dessa situação geral a inspiração de sua doutrina humanitária de construção de uma solidariedade autêntica entre os homens, que pusesse fim a toda forma de discriminação, competição e conflito, e a todos reconhecesse a dignidade mínima do sofrimento e da imensa dor de serem humanos.”

    Bibliografia utilizada:

    Lima Barreto: Prosa Seleta, Editora Nova Aguilar.

    A edição tem inúmeros prefácios e artigos sobre Lima Barreto e seus romances. Foram utilizadas: Nota Editorial, por Eliane Vasconcellos; Lima Barreto, por José Veríssimo; Lima Barreto, por Tristão de Ataíde; e Lima Barreto: pingente, por João Antônio.

    Lima Barreto: o rebelde imprescindível, de Luiz Ricardo Leitão.

    Coleção Rebeldes Brasileiros, publicado pela revista Caros Amigos, verbete Lima Barreto, por Maria Salete Magnoni e Alexandre Blaitt.

    Literatura como missão, Nicolau Sevcenko.

    História da Vida Privada no Brasil, edição 3, organizada por Nicolau Sevcenko.

    Lima Barreto: termômetro nervoso de uma frágil República, introdução de Contos Completos: Lima Barreto, por Lilia M. Schwarcz.
     
    Última edição: 25 Jan 2014
    • Ótimo Ótimo x 10
  2. Lynoka

    Lynoka Like a lady, ya!

    E assim ele mata minha esperança de começar a chama-lo de Clô :no:
     
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  3. Clara

    Clara O^O Usuário Premium

    Ótimo tópico, Clô Cantona.
    Principalmente por mostrar que Lima Barreto era o escritor da maioria dos problemas brasileiros, o racismo é o principal mas não o único.

    Só fiquei sem saber de quem é a citação final, quem é "Sevcenko"? =/
     
    • Mandar Coração Mandar Coração x 2
  4. Cantona

    Cantona Tudo é História

    Eu só jogo pra ganhar, meu bem. :dance:

    Clara, Nicolau Sevcenko é um historiador. Dentre muitas coisas, escreveu Literatura como missão, onde, através de Euclides da Cunha e Lima Barreto, dá um panorama da Primeira República.

    Eu botei um monte de citação e não dei a bibliografia. Vou corrigir.
     
    Última edição: 27 Jan 2014
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  5. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Preciso ler Lima Barreto em 2014. Fui deixando a curiosidade crescer até o nível dela ficar insuportável. E é assim que eu gosto. Lima Barreto é um autor essencial, e isso eu falo sem nem ter lido direito...

    Sinto muita vontade de ler o
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    . Do tipo de livro que você namora. Olha a capa, olha o título, olha pras fotos do autor...

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    , por Lilia Schwarz. Li recentemente alguns artigos falando de literatura moderna brasileira contra literatura modernista. Não no sentido de rixa ou gangorrinha literária; no sentido de que a modernidade veio à nossa literatura muito antes da semana de 22, ora essa, bastando que se veja nomes como o próprio Lima Barreto, ou um Machado de Assis, um Raul Pompeia, um Cruz e Sousa, um Sousândrade, um Sapateiro Silva, um Qorpo-Santo.

    Aí você lê a biografia do Lima Barreto. Vê a foto. Esse olhar... Entendiado? Enfadado? Descrente? Esse olhar de Raul Pompéia se suicidando em pleno Natal? Esse olhar de um homem diagnosticado com alcoolismo que será tratado com ópio, a mesma droga que devastou MAIS AINDA durante a Primeira Grande Guerra?

    Não dá pra passar por 2014, ano de Copa, ano de vai-dar-tudo-certo, e não passar por Lima Barreto.

    Indico outros textos que muito me agradam sobre a obra do Barreto:

     
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  6. Atyarwen

    Atyarwen A Hobbit-size Elf Usuário Premium

    acho que não li nenhuma obra dele, quais recomendam de inicio?
     
  7. Spartaco

    Spartaco James West

    Há uma boa biografia de Lima Barreto, escrita em 1952, escrita por Francisco de Assis Barbosa (Editora Itatiaia). Essa biografia foi celebrada e consagrada por críticos do gabarito de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Antonio Candido e também por escritores como José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira.

    Segundo Tristão de Ataíde essa obra foi destacada como a melhor biografia de um escritor brasileiro já publicada em nossa língua. Foi escrita com um cuidado, uma objetividade, uma paciência, uma elegância de estilo, um critério de relação documental e acima de tudo com um amor, sem desvario, que realmente fazem dessa biografia qualquer coisa à altura do biografado.

    Tenho essa biografia e, realmente, é muito boa.
     
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  8. Liv

    Liv Visitante

    Eu adorei Clara dos Anjos.
     
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  9. Cantona

    Cantona Tudo é História

    Também indico Clara dos Anjos. Se puder, a edição da Penguin Companhia, que tem uma bela introdução.
     
  10. Liv

    Liv Visitante

    ...ou a graphic novel. :grinlove:
     
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  11. Fúria da cidade

    Fúria da cidade ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ

    O homem que sabia Javanês é a minha obra preferida de autoria dele.
     

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