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Lições indianas

Morfindel Werwulf Rúnarmo

Geofísico entende de terremoto
Crescimento da produção científica na Índia, baseado na prioridade à inovação tecnológica e na participação da iniciativa privada, é destaque na revista Science. Para especialistas, o modelo do país asiático tem o que ensinar ao Brasil.

O mundo vive um período de mudanças em que as tradicionais potências mundiais, como os Estados Unidos e a Europa, perdem espaço econômico e político para as chamadas nações em desenvolvimento. Movimento semelhante ocorre no terreno científico, com a Índia podendo ser considerada a "bola da vez". Tanto é que o conhecimento produzido naquele país foi tema recentemente de um especial publicado na renomada revista científica Science. Para especialistas, o florescimento da ciência na Índia - que na última década elevou a quantidade de publicações em periódicos internacionais de 2,2% para 3,4% - pode inspirar o Brasil, que também segue uma trajetória de expansão em suas pesquisas e já foi alvo de atenção da mesma publicação científica.

Parte do sucesso indiano vem dos investimentos em inovação e da participação da iniciativa privada. Em entrevista à Science, o primeiro-ministro Manmohan Singh explica que a meta é direcionar pelo menos 2% do PIB (soma das riquezas do país) para o setor.
"Precisamos gastar muito mais com as áreas de desenvolvimento ativamente ligadas à evolução da ciência, da tecnologia e da inovação",
afirma.
"O que destinamos do PIB para pesquisa e desenvolvimento em ciência e tecnologia é praticamente a mesma porcentagem que os outros países em desenvolvimento. Mas é no setor privado que nosso país tem muito mais a fazer",
completa.

Durante muito tempo, as pesquisas indianas estiveram ligadas principalmente a foguetes e artefatos atômicos. Pesquisadores de outras áreas tinham apenas duas opções: penar para conseguir minguados recursos ou sair do país em busca de melhores condições de trabalho. A maioria preferia o segundo caminho e, assim como o Brasil, a Índia funcionava como celeiro de bons pesquisadores aproveitados por outras nações.

Retorno ao país - Hoje, o país experimenta um movimento inverso. Doutores e pós-doutores retornam para casa, onde sobram recursos para a área tecnológica. A farmacologia e o desenvolvimento de novas drogas, que representavam 4% da produção científica indiana em 1999, passaram para 7% em 2009. Química pulou de 3% para 5%. Em 10 anos, o desenvolvimento de novos materiais, que representavam pouco mais de 2% dos artigos publicados no país, pulou para mais de 4%, segundo a Science. A evolução também é qualitativa. De acordo com a base de dados Thomson Reuters Web of Knowledge, o impacto das pesquisas indianas pulou de 40% para 60% da média mundial.

Para a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, o que a Índia conseguiu enxergar antes do Brasil é que gastos com inovação são, na verdade, investimento.
"Em 2009, no auge da crise, o governo Barack Obama aumentou os investimentos em ciência e tecnologia",
exemplifica a pesquisadora, para quem os impactos desse movimento serão sentidos em médio e longo prazos.
"O resultado não será sentido agora, mas no futuro. Sem ciência e tecnologia, o Brasil será eternamente um país que vive do extrativismo. É como se você estivesse matando o que vai te sustentar daqui a alguns anos",
opina Nader, que lamenta a diminuição de recursos recentemente anunciada no Brasil, que atualmente investe cerca de 1% do PIB no setor.

O governo federal determinou um corte de R$1,48 bilhão, cerca de 22% do que havia sido originalmente proposto na Lei Orçamentária Anual (LOA). "Isso é um verdadeiro crime", afirma a cientista. Procurado pelo Correio, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) respondeu por meio de nota que
"está discutindo e avaliando, internamente e com suas unidades, as possibilidades de readequação orçamentária de modo a preservar as ações prioritárias no contexto da Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia 2012-2015".

Demandas - Diversificar as áreas de excelência, como a Índia vem fazendo, é uma demanda brasileira antiga. Se os indianos, por muito tempo, se preocuparam quase exclusivamente com foguetes, por aqui a agricultura, as pesquisas contra o câncer, as ciências espaciais e o meio ambiente são prioridade. A queixa é que pesquisadores de áreas como linguística, ciências humanas, artes e ciência pura - que estuda questões mais básicas do saber - se sentem abandonados pelos órgãos de financiamento.
"Com o corte nos investimentos em ciência, o problema tende a se tornar generalizado. Nossos investimentos estão muito aquém do necessário",
alerta Helena Nader.

Outro obstáculo que a Índia teve de vencer foi mudar a sua reputação no exterior. Em 1974, quando o país fez seu primeiro teste nuclear, uma série de nações passou a impor sanções ao país e impedir a compra de uma série de seus produtos tecnológicos. Muitos pesquisadores que nada tinham a ver com a questão nuclear viam suas pesquisas paradas por falta de insumos que precisavam ser importados. Um acordo com os Estados Unidos em 2007 apaziguou a comunidade internacional sobre a expansão do armamento nuclear indiano.

No Brasil, alguns episódios negativos nos últimos tempos, embora não tenham manchado completamente a fama do País, como aconteceu com a Índia, geraram insatisfação de líderes de grandes projetos. A dificuldade em enviar os recursos necessários e a demora do Congresso Nacional em aprovar grandes projetos geraram algumas reclamações - públicas ou não - em relação à ação brasileira. Em 2007, o País foi "convidado a se retirar" do projeto da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) por não conseguir entregar os equipamentos cujo desenvolvimento ficou sob sua responsabilidade. Outro exemplo: embora há anos em negociação, o Brasil ainda não ratificou o tratado em que ingressa oficialmente no Observatório Europeu do Sul (ESO). Em janeiro, o presidente do ESO, Tim de Zeeuw, atribuiu à demora brasileira
"uma das razões para o projeto do Extreme Large Telescope (E-ELT) ainda não ter saído do papel".
O MCTI não comentou sobre esses episódios na nota enviada à reportagem.

Episódios como esses mostram que nações em desenvolvimento, apesar de viverem uma expansão significativa, precisam enfrentar muitos obstáculos para alcançar o patamar em que estão Estados Unidos e Reino Unido, como aponta Lytton Leite Guimarães, pesquisador do Núcleo de Estudos Asiáticos da Universidade de Brasília (UnB).
"A corrupção ainda é um problema para todos os Brics [grupo que reúne Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul]. E a burocracia também atrapalha o desenvolvimento de grandes projetos",
analisa.

Além disso, Guimarães vê problemas específicos de cada país que prejudicam a produção do conhecimento e o tratamento dado à ciência.
"O governo indiano ainda investe muito pouco em infraestrutura. As grandes ferrovias do país, por exemplo, são herança do tempo em que a Inglaterra dominou o país",
comenta o pesquisador, lembrando que o problema da pobreza na Índia é ainda maior que o do Brasil.
"Hoje, vejo os dois países de maneira equilibrada. A Índia tem mais problemas sociais e de infraestrutura, mas investe mais. Em longo prazo, se não ampliar os investimentos, o Brasil pode ficar para trás",
completa.

Fonte
 

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