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Leonel

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Pips, 2 Jun 2008.

  1. Pips

    Pips Old School.

    Leonel
    [size=xx-small]
    por Pips[/size]


    No despertar do meu tédio, enquanto o passaredo sobrevoa a praça central, batendo suas pequenas e coloridas asas no abrir e fechar dos meus olhos, e o destemido vento ao chamar as folhas caídas no chão para dançar, clareavam os resquícios de minha fraca memória. Eu passava uma mão na outra para sentir as marcas do tempo: rugas, veias e até as pequenas manchas, as pintas, sentia como um pequeno relevo; se tentasse chegar à palma não sentiria a linha da vida e tão pouco a do coração, sentiria a do meio entrecortada, esculpida no esquecimento. De soslaio observo duas crianças, um menino com cacoete de franzir a testa e uma menina de bochechas rosadas e sorriso escondido, que ainda brincam de amarelinha apesar do céu escuro e turvo anunciar que a brincadeira estava perto do fim, e quem estivesse longe do inferno estaria a salvo. O ponto final da brincadeira era na nova estatua da praça: o busto do escritor local, premiado em algum canto do país por escrever um romance sobre uma cidade sem tempo, sem amores, sem intrigas, enfim, sem vida. Livro tão apático quanto a expressão imortalizada em cobre e bronze levantada no centro da praça.

    O mesmo domingo repetido diversas vezes desde que me tornei um solitário, desde que deixei de apreciar todos esses detalhes de "coisas simples da vida", as belezas momentâneas que duram uma eternidade. Permaneço uma velharia que procura novidades e todos os outros procuram algo cotidiano para se prenderem – se limitarem a si mesmos e seus dias, seus domingos na praça. No entanto o estrondo que ecoou no seus ouvidos claramente, mudou os planos depois de muito tempo, saíram as pressas carregando as crianças como se fossem presuntos. As folhas mantinham um passo agressivo e a chuva que ameaçou irromper a valsa de outono cessou, deixando para trás a praça. Ao longe uma garota aperta o passo para conseguir o lugar vago no banco onde estou sentado. Ela me olhou com aqueles imensos olhos castanhos, passou as mãos na minha mão e depois no meu rosto, fixada de alguma forma pelos meus olhos:

    - São azuis, muito azuis. – ela disse numa mistura de inocência, espanto e curiosidade infantil. – Por que o senhor está triste?

    - Eu não... – gaguejei – estou triste.

    - Então o senhor é triste? – ela me encarou como em um julgamento.

    - Eles são um reflexo do mundo. – soltei um riso abafado e olhei diretamente nos seus olhos. – O mundo é triste por si só. – ela continuou vidrada no meu olhar, parecia um imenso quadro com detalhes que não poderiam ser perdidos e que ela, por ser ela, não deixaria escapar nem a pincelada que foi um erro de desequilíbrio. – Qual o seu nome? – perguntei tentando quebrar o silêncio que pela primeira vez em trinta anos me atormentava.

    - Maria Isabela Rossini de Pádua e Albuquerque. – ela foi tão precisa em responder o nome que eu gostaria de criticá-la e repreender os pais por ensinarem à ela que é feio dar informação a estranhos. Eu poderia seqüestrá-la nesse minuto, achar os pais na lista e pedir um resgate absurdo, entretanto o que faria com tanto dinheiro a essa altura da vida? Pagar prostitutas para fingirem que me dão prazer, sendo que não sinto mais? Ou talvez gastar em remédios para curar a minha velhice, como se ela fosse uma doença com cura e não um câncer de insensatez, loucura e maus hábitos. A chuva debandou para nosso lado finalmente. Maria Isabela continuava estática e compenetrada em subjugar meu olhar, seja lá qual fosse o destino de sua analise minuciosa, ela tinha de ir embora para não se resfriar.

    - Vá para junto dos seus pais, se a chuva apertar você irá ficar resfriada. – tentei ser o mais paciente possível – Não poderei cuidar se você adoecer, não consigo cuidar nem de mim mesmo. – talvez eu devesse explicar a ela que minha consciência de velhice não andava junto com meu senso de independência, e que há tempos eu procurava uma maneira de me reeducar na solidão.

    Maria Isabela tocou na minha mão e deu-me um beijo no rosto. Saiu correndo e sumiu no meio da chuva, no meio da praça, no fim do domingo. Era apenas um aguaceiro de verão e logo passaria, o sol ainda penetrava por entre as nuvens para avisar que não foi embora. Assim que passou a chuva, levantei e fui andando até sair dos domínios da praça. O passaredo voltava à praça para um último cantar, todo seu público já havia desistido do dia - foram passar a noite em seus ninhos.

    Pisei em uma poça d’água e encarei meus olhos firmemente, o reflexo distorcido da minha silhueta denunciava que o domingo foi como outro qualquer: sem graça e triste, meus olhos eram apenas o reflexo. O tempo já não passa comigo, ele me leva, e nenhum sorriso de criança há de mudar as linhas escritas na palma da minha mão.
     
  2. Artanis Léralondë

    Artanis Léralondë Ano de vestibular dA

    Ai que triste, mas muito bonito ^^
    Você escreve muito bem :traça:
     
  3. Pips

    Pips Old School.

    Muito obrigado!! Tem a segunda parte que em breve eu posto por aqui. :)
     
  4. imported_Amélie

    imported_Amélie Usuário

    "Eles são um reflexo do mundo" Awnnnnnnnnnnnnnnnn... nem preciso repetir né?

    Adoro demais! :grinlove:
     
  5. Hérmia

    Hérmia Usuário

    estou esperando a segunda parte.....adorei...
     
  6. Pips

    Pips Old School.

    Eu estava relendo o que escrevi e, aparentemente, não sei se seria possível colocar aqui no Meia, afinal menores entram aqui e não há restrição.
     
  7. imported_Amélie

    imported_Amélie Usuário

    huhuhuhuhuh pipo, pipo! tem que ter uma safe area aqui né? hahahahha
     
  8. imported_Cabal

    imported_Cabal O Poeta Aprendiz

    Caralho, tú mata alguém com isso rapá!!!!
    Show de bola.
     

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