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Lembro-me de uma certa casa

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Ivan Moura, 5 Out 2010.

  1. Ivan Moura

    Ivan Moura Usuário

    Lembro-me de uma certa casa

    Costumava bater à porta e aguardar Eliza, mas naquele dia entrei de uma vez, como se estivesse fugindo de alguma coisa. Eliza parecia um pouco assustada ao me ver, mas logo me recebeu como habitualmente, e me perguntou como havia passado o dia: “Bem”, disse-lhe em voz baixa, fixando o olhar para um quadro que eu ainda não havia reparado. Lembro-me de ter dito alguma coisa sobre o quadro para ela, mas eram palavras pouco compreensíveis, o que fez Eliza perguntar se eu estava bem. Dei um sorriso que mais parecia uma careta como resposta, e ela sem entender olhou-me com atenção e me viu “meio perdido”, como ela mesmo mencionou. Tentou encontrar-me com um sorriso e com um beijo, mas ela não sabia que era justamente isso que me atormentava.
    Naqueles momentos eu pensava em coisas aparentemente sem sentido. Fui buscar na infância uma imagem em que meus pais conversavam, fazendo aparecer um ou outro sorriso, mas o que eu sentia era uma angústia sem tamanho, como se soubesse que tudo era uma farsa. Depois me veio a pergunta crucial: mas afinal, o que eu estava fazendo ali? Como quem contempla o vazio, passei os olhos pela casa, pelos móveis, até dar com a cara perplexa de Eliza; tudo parecia diferente das outras vezes que ali estive, cada detalhe me enfurecia e me fazia querer acabar com tudo de uma vez (e não falo de nosso caso). Enfim, não sabia por que estava ali; tentei entender por que Eliza me recebia tão prontamente, e nesse momento me dei conta de que a odiava. Mas então, porque a procurava se a odiava? Veio-me à mente que nós, seres humanos, temos um lado oculto que nos faz caminhar para o abismo, como se este fosse nosso destino. Nesse momento estava a um passo do abismo, mas Eliza parecia querer dar-me o empurrão final: “Como vai sua esposa?” perguntou-me numa voz que parecia despreocupada.
    Acredito que uma pessoa que tenha visto a mãe morrer na própria casa, tenha sobre esta os mesmos sentimentos que eu tenho da casa de Eliza. Sim, porque naquele dia alguma coisa morreu (ou nasceu) naquela casa, não sei explicar bem o que foi, mas ao certo isso aconteceu no instante em que Eliza perguntou-me sobre minha esposa. Ao ouvir essa pergunta de Eliza, como que num estalo de lucidez, levantei-me e caminhei em direção a porta sem me despedir. Antes de sair, porém, olhei Eliza como quem olha uma última vez para o mundo; ela, assustada, ameaçou levantar-se para me acompanhar, mas saí sem lhe dar essa oportunidade.
    Naquele dia, antes de entrar na casa de Eliza, o sol estava se pondo e formava no céu um ar de melancolia que veio unir-se a meu estado de espírito. Quando fui embora, porém, já era noite e percebi que trovejava muito, ameaçando cair uma tempestade. De repente, pareceu-me que as luzes da cidade tinham se apagado; tentei achar um meio de voltar para casa, mas não sabia como fazê-lo. Só via trevas.
     

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