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Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Uzd, 29 Mar 2005.

  1. Uzd

    Uzd Usuário

    Se muito jovem, conte essa história p/ seus avós; se for ancião, p/ seus netos...

    -----------------------------------
    Suntzé Saimum


    Eis que um dia, o imperador Sun Pu pediu um presente ao grande poeta Ran Tse. O sábio rei queria do poeta um poema sobre as nuvens. O melhor poema sobre as nuvens. A obra entraria nos infindáveis dotes da filha de Sun Pu, a princesa Liu Kie. O poeta Ran Tse aceitou o desafio, mas exigiu 34 rãs de ouro puro. O imperador achou estranho tal pagamento, mas como Ran Tse era um gênio, aceitou o preço pelo poema. Além disso, ficaria na história como mecenas do poeta... A vaidade humana...

    Recebida as 34 rãs de ouro, Ran Tse mandou um mensageiro comunicar o poema ao imperador. Era nenhum. O poeta fugiu para os descampados da Anatólia, onde morreu de fome tentando vender guarda-chuvas aos zero habitantes daquela região. Era um antigo sonho de infância. Ran Tse sempre evocou a fuga em suas poemas. Acusá-lo de sino-romântico não é descabimento... Apreciava-se sem mesuras, adorava a noite, as moças branquelas e a tosse amarela, doença equivalente a tuberculose ocidental. E morreu de morte idiota, como todo bom romântico... Se foi imprudência do imperador Sun Pu dar-lhe tantas rãs de ouro, quem sabe...

    Em 1876, o inglês Alfred Loor achou 28 rãs de ouro num buraco em Jaikha. Afirmou-se descobridor das pererecas, ou melhor, rãs de Ran Tse. Mas elas sumiram novamente depois de Loor comer rolinhos primavera envenenados em Saigon, atual Ho Chi Minh. Na causa mortis, soube-se que o arqueólogo inglês, como todos os inglêses, era meio excêntrico. Tatuou um enorme número 13 em suas costas, para provar aos superticiosos que aquela cifra jamais lhe traria azar. E estava certo. Seu envenenamento foi causado por metódicos ladrões de rãs -- morte premeditada não contém azar.

    Até hoje tais rãs não foram encontradas, e muitos incrédulos duvidam da real existência de Alfred Loor... Pois bem, que cada um acredite no que convir... mas quando a história vier a tona, aviso desde já, convidem-me para comer lagostas!



    Moral da história: não comer rolinho primavera na antiga Saigon.
     
  2. Lordpas

    Lordpas Le Pastie de la Bourgeoisie

    :lol:

    Eu achei engraçado. Uma história que viaja e ainda por cima vc arranjou uma moral pra ela. :lol:

    Eu ía dizer pra vc desenvolver mais, mas acho que iria perder a graça... haja criatividade, 34 rãs de ouro e desejo de vender guarda-chuvas?
     
  3. Excalibur

    Excalibur Hitokiri

    História interessante. Uma continuação ou variações poderia ser legal.

    O q significa o título: "Suntzé Saimum"?
     
  4. Uzd

    Uzd Usuário

    Lordpas, obrigado cara! A história original era mais desenvolvida e eu tentei cortar as parte pouco essenciais -- e chatas -- pra ficar algo mais coeso... Eu fiquei mais contente com esse resultado.

    Excalibur, bom, até onde sei esta história não terá continuação -- ou variações. No entanto, pode ser que eu poste outros pequenos contos no mesmo estilo; ou não. whatever, obrigado pelo 'História interessante' e, ah, 'Suntzé Saimum' significa sem importância num antigo dialeto chinês...
     
  5. Excalibur

    Excalibur Hitokiri

    Valeu por explicar sobre o título.
    Outros pequenos contos seriam legais, já q esse "super herói" não terá continuação.
    Na minha opinião, o título faz sua história passar de interessante para muito boa. A reflexão contida por trás das "piadas" e dos acontecimentos ficam mais explícitos com a idéia de Sem Importância. O título abrilhantou.

    Mas o texto e a sua disposição estão muito bons. Uma qualidade q esqueci de ressaltar: seu texto não ficou exaustivo.

    Se vc escrever outros pequenos contos assim tenha certeza q vou querer ler.
     
  6. Uzd

    Uzd Usuário

    Outro:

    ---------------------------------------------
    Pequena História que Imaginei Durante o Sono ou GLUB GLUB


    1834. Durante um luxuoso cruzeiro entre a Grécia e a Ilha de Creta, Rassam al Hachid deixa o jantar pela metade de tão enjoado que estava do gosto da maionese e dos palpites de sua mulher, e volta para seu quarto, onde veste incongruentes roupas de inverno e recolhe toda sua fracassada tradução das Mil e Uma Noites para atirar-se com ela no escuro mar Mediterrâneo e afundar sem resistência até os 134 metros de profundidade, onde tem a certeza de que é um peixe, ou uma tartaruga, e sai nadando até se dissolver na água. Fim.



    ---------------------------------------------------
    Ps. Como vou postar meus pequenos contos aqui, urge-se que eu mude o nome do tópico. Alguma sugestão?
     
  7. :lol:

    gostei. historias engraçadas e criativas.
     
  8. Uzd

    Uzd Usuário

    ------------------------------------

    Tião sempre foi um bom sujeito. Sempre sempre. Trabalhador, honesto, piedoso e nem um pouco fofoqueiro. No entanto sua reputação destruiu-se depois que arranjou briga com alguém da vizinhança. Difícil dizer se era alguém, ou algum algo. Certamente era uma coisa, e esta coisa era um poodle.

    100% puro e legítimo, o poodle morava na rua e jamais teve dono ou protetor. Vivia de comer a ração dos cachorros que não eram de rua. O animal, apesar de sua numerosa família, tinha esperteza acima da média. Sabia como e quando entrar nas casas. Onde havia ração fajuta. Onde havia arroz com carninha. Também era ilustrado nas artes do cortejo e flerte, além de mestre na mecânica do amor. Depois de alguns anos de reinado, o poodle de rua largou vasta prole entre as boas cadelas de família da região.

    Pelo exposto, percebe-se que era uma praga. Em pouco tempo, tornou-se inimigo número um do bairro. E Tião, bom homem, decidiu eliminar aquele totó da vizinhança. Sua intenção nunca foi maldosa: daria um bom susto no bicho e, se possível, levá-lo-ia para outra cidade. Talvez Campinas, que foi, é e sempre será a cidade dos poodles sacanas.

    Depois de noites insones, Tião concebeu seu plano de ataque. Preparou uma isca: carne moída com dramin. E deixou num canto do quintal. Canto escolhido pela estratégia, pois havia muro alto e nenhuma chance de fuga para objetos encurralados. Tião botou lá no vértice a poção encantada e ficou escondido atrás da lava-roupa. Depois de algum tempo, chegou o poodle.

    Se o poodle não fosse esperto, teria comido a carne. Se Tião fosse esperto, teria medido as probabilidades. Depois de cheirar a gororoba, o poodle fez meia volta e partia. Tião notou o deslize e saiu do seu covil como um raio, colocando-se entre o poodle e a liberdade. Furioso, o homo sapiens atirou uma bolinha de tênis contra o canis poodlens, que devido ao corpo exíguo, nem precisou se esquivar do projétil.

    Assustado, o poodle tentou driblar Tião, mas este agarrou o animal e a luta cruenta se iniciou. O poodle tentava se soltar e conseguia morder o braço de Tião, que, por sua vez, apertava as finas costelinhas do bicho e não conseguia livrar-se das presas do inimigo. Seria um combate equilibrado, com gritos dos dois lutadores.

    Depois de alguns longos segundos nesta atracação, ocorreu a Tião que ele poderia atirar o cachorro por cima do portão e, assim, de volta à rua. Contava com o susto para traumatizar o cão safado e deixaria barato... Mas o poodle também teve uma boa idéia, que além de mais sórdida, não possuia nenhum dos bons sentimentos de Tião. Bastava morder o ponto frágil do humano que ele lhe largaria. Deste modo, enquanto Tião corria até o portão de sua casa, o poodle ajeitava-se nas garras do seu agressor para ferir-lhe nos órgãos reprodutores. E então nhac! Cravou no bilau e não soltou...

    Tião berrou um palavrão que prometera a sua mamãe querida que jamais repetiria. Era insolência demais. Ultrajado, vítima deste golpe vil, o homem decidiu que criatura tão ínfima e pusilânime não mais viveria neste planeta. De mera petica de quintal, a luta passou para as esferas épicas. Ou o poodle matava Vladimir, ou Vladimir matava o poodle. Tipo aquelas coisas do velho oeste. Ou desenho japonês.

    Espumando de ódio, Tião enfiou seus dedos na encaracolada pelagem do cão, que urrou de modo especial, talvez prevendo que seu ataque havia ferido o tal "eu mais profundo" do oponente. O bom homem, puto da vida ao quadrado, aproveitou-se do portão para terminar o combate. Com uma mão, pegou o poodle pelo rabo, com a outra mão agarrou o irrisório pescoço. Mirou o pequenino traseiro do cão numa lança do portão e, com um movimento vigoroso, fez a perfurante ponta de metal atravessar as estranhas do cão, até sair ensangüentada pela boca do animal. Tião empalou o poodle. O corpinho magrelo do cão não morreu na hora, mas não teve sobra de tempo para as últimas palavras. Mesmo se tivesse, creio que ele não saberia muito bem o que dizer. Primeiro pelo susto de morte tão tétrica, e segundo porque jamais conheci cão que fala. Ainda mais da raça poodle. Pois bem, fato é que o poodle faleceu...

    Ferido nas cuecas e na honra. Com as mãos sujas de sangue. Salivando de terror pelo que havia feito. Eis Tião, o homem de passado irrepreensível... Ficou algum tanto olhando a morte do inimigo, mas logo foi em busca de socorro e não esperou o suspiro final do poodle. Mas, enquanto o homem fora atrás de curativos e band-aids, a vizinhança não ignorou o fato e colocou-se a praguejar contra aquela enorme injustiça. Velhas católicas e cinqüentões desocupados esbravejavam: "Mas como pode fazer isso?! Um bichinho tão inocente?!.. Que maldade, que judiação, que homem horrível!...Eu vou denunciar! Eu vou denunciar!... Covardia! Por que não briga com alguém do mesmo tamanho?!".

    Então pronto. Tião, o empalador de poodles, teve de vender sua casa e mudar-se pra algum outro bairro que ninguém soubesse de seu passado de fúria e sangue.
     

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