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[L][Str1ker][Os Roteiristas]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por str1ker, 20 Nov 2005.

  1. str1ker

    str1ker Usuário

    Os Roteiristas


    Do outro lado da rua do Café Infinito encontramos um velho edifício de tijolos vermelhos, de três ou quatro andares, com janelas gradeadas e vasinhos de cactos nas varandas. Atravessando a rua - e deve-se ter cuidado na travessia desta rua, uma vez que seus limites, correndo paralelos, coalescem pouco adiante, o que é desorientador e induz facilmente o transeunte ao tropeço - nos deparamos com a porta, marrom e de incêndio, e, no mal-iluminado interior do edifício, com uma escada metálica em caracol que nos leva a um corredor estreito, no final do qual, virando à esquerda, a porta da sala 156.

    Abrindo esta porta, nos encontramos em um quarto apertado, com fumaça de cigarro e um ar tenso, elétrico, apinhado de pilhas e calhamaços de papel e dentro do qual cinco homens, sentados ao redor de uma mesa, discutem e escrevem com máquinas de escrever. Eles me reconhecem ao entrar, sorriem e acenam discretamente com a cabeça. Três deles usam bonés, um é careca, dois são morbidamente gordos. Sento silenciosamente numa cadeira no canto, dando a entender que não tenho muito com que importuná-los, e observo eles trabalharem.

    Estes cincos homens são chamados de Os Roteiristas. No Grande Esquema Geral das Coisas, cabe a eles escrever os diálogos, decidir os detalhes das cenas, preencher as lacunas dos esboços dos manda-chuvas lá de cima. Tudo que acontece foi escrito por eles, tanto neste mundo como nos outros; mesmo a atividade do outro lado da rua passa por suas deliberações, e a atividade dentro desta mesma sala; e eles não só escrevem o que se passa aqui dentro, mas escrevem eles escrevendo o que se passa aqui dentro, e escrevem eles escrevendo isso, e assim por diante, até o Infinito. É por isso, especula-se, que eles têm sempre um olhar vidrado por trás das lentes engorduradas dos óculos, como um matemático contemplando abstrações elevadas de Análise Real. É por isso, também, que estão sempre tão irritadiços e fatigados.

    Considero que seria educado puxar um pouco de conversa.

    “Muito trabalho, hein? Como estão as encomendas deste mês, muitas comédias?”
    “Mais que o normal, sim.”, sem desviar os olhos do texto.
    “Hm. Melhor que a onda de dramas e tragédias de uns meses atrás, suponho?”
    Ele dá de ombros. “Depois de um tempo, fica tudo a mesma coisa.” Faz uma pausa, e vendo que não vou ascrescentar mais nada, confidencia: “Além disso, Os Hômi lá em cima tem uma quedinha por humor negro.”

    Fui já bastante simpático, avalio, reclino-me de novo na cadeira e deixo eles voltarem ao trabalho. A história que escrevem agora se passa no país que na Terra chamam de Turquia, e é, pelo que entendo, uma história de amor entre dois jovens. O menino se chama Murat e a menina Arzu, nomes turcos que significam, um deles me confidencia com uma piscadela cheia de auto-satisfação, "Vontade" e "Desejo", respectivamente. Pego e começo a ler uma das folhas soltas, com as instruções gerais de roteiro, tentando me situar. Murat, a descrição começa, é "imaturo e egocêntrico, e se acredita abençoado por uma sensibilidade especial e um entendimento mais aguçado das coisas, mas", a nota acrescenta não sem um pouquinho de maldade, "sem nenhum motivo para acreditar nisso fora a sensação morninha que acreditar nisso lhe dá. Gasta muito tempo na contemplação do próprio umbigo, mas é vazio, egoísta e superficial. Como é comum com pessoas de seu caráter, Murat pretende seguir carreira artística, mas desiste depois de dois ou três tapões cósmicos na orelha. Arzu é tímida e meiga", na superfície, diz uma anotação a lápis, "mas manipulativa e ambiciosa, com oscilações de humor e problemas graves de auto-afirmação. Os dois se traem e mentem um para o outro constantemente. No final da história, Arzu se suicida. Murat fica triste com a notícia, mas racionaliza o que aconteceu em uns quinze minutos, conclui que na verdade é a grande vítima da história, e continua com sua vida normalmente." Reparo que a indicação no topo é que esta história deve ser uma "Comédia".

    Levanto a cabeça e escuto o que discutem. Aparentemente, fazem uma cena em que Murat conversa com dois amigos.

    "Daí agora assim: 'Vocês não entendem o que estou sentindo, porque que estou fazendo isso'."
    "Não, não. Bote de um jeito bem enfático e cheio de palavrório, para ficar bem óbvio pra todo mundo que é tudo fantasia louca da cabeça dele. Tipo 'Vocês não são capazes de começar a entender, e sei que no fundo adorariam, mas não conseguem, o que eu estou sentindo, porque estou fazendo o que estou fazendo.' Algo assim."


    Faço uma discreta careta ao ouvir isso, que não passa de todo despercebida. É tudo tão grosseiro, sem nenhuma sutileza, conduzido de um jeito tão enfadonho, é tão óbvio que eles não estão sequer tentando. Escreveram histórias como esta milhões e milhões de vezes; qualquer frisson que possa ter tido no começo, quando o primeiro protozoário borderline e antisocial se apaixonou pela primeira protozoária codependente e bipolar (resultando num final trágico, em que a protozoária se suicida à maneira dos protozoários, i.e., escorrendo até um precipício) esvaiu-se com a repetição incessante, e agora eles escrevem mecanicamente, querendo se livrar logo e passar para a história seguinte - que será, eles sabem, tão familiar e batida quanto a presente. Mas não me entendam mal, não é que eles não sejam capazes de cenas melhores, ou estejam sempre assim tão desmotivados. Há momentos em que entram em sintonia perfeita, animados e cheios de boas idéias, e então vê-los em ação é lindo, simplesmente lindo. Semana passada chegou a nova máquina de café, e eles escreveram cenas de amor e reconciliações a manhã inteira, cheias de lirismo e delicadeza, tão felizes que ficaram. ("Ela faz cappuccino!", um deles me contou com um sorriso largo.) A maior parte do tempo estes rapazes, coitados, estão apenas lidando com a estafa e a repetição do melhor jeito que podem.

    Volto a escutar. Agora preparam um diálogo entre Murat e Arzu, em uma lanchonete em Ankara, em que tomam um recorrente e muito simbólico milk-shake. Murat faz as caras mais sensíveis e inocentes que consegue, toca na mão de Arzu com muita calculada hesitação; Arzu olha para os olhos dele, que olha para baixo, imóvel, segurando a respiração, ela se segurando para não chorar. Murat deixa escapar num suspiro e revirar de olhos um pouco de sua impaciência. Segue-se então mais diálogo previsível e açucarado. Não aguento mais ouvir, resolvo sair e ir ao outro lado da rua beber. Vê-los trabalhar costuma me dar muita vontade de beber.

    Me despedindo e seguindo meu caminho de volta, não consigo deixar de imaginar quem, afinal, está encomendando essas histórias todas, para que público, com que desígnios. Quando pergunto, eles não sabem responder; dizem-me apenas que as encomendas chegam periodicamente na caixa de correspondência, as sinopses e instruções xerocadas e datilografadas dentro de envelopes marrons, sem endereço de remetente, e eles nunca têm tempo de consultar O Carteiro por alguma pista. Não se lembram, também, de como era no começo; dizem apenas que as cenas do dia em que começaram a escrever devem estar guardadas em algum lugar no arquivo - apontam para o amarrotado armário de metal no canto da salinha - e que eu posso ir lá e procurar, se prometer deixar tudo no lugar e quero tanto saber. Sempre penso em ir lá olhar, mas vasculhar toda a detalhada história do Universo em busca de uma página sempre me dá, por assim dizer, preguiça. Tenho apenas fé que Deus, ou o comitê responsável, tenha bons objetivos que escapam à finitude da nossa compreensão; mas me incomoda no fundo de minha consciência, sempre, a possibilidade de que Deus seja mesmo apenas um cara muito frustrado.
     
    Última edição: 20 Nov 2005

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