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[L] [Skylink] [Sono]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Skylink, 14 Jan 2004.

  1. Skylink

    Skylink Squirrle!

    [Skylink] [Sono]

    Mais um estafante dia de trabalho. Pegar pessoas, dirigir o carro, larga-las, pegar outras pessoas. A mesma coisa o dia inteiro, por uma quantia de dinheiro que mal da para pagar as despesas de casa.
    O dia continua, o trabalho também. Pessoas aqui ou ali, rostos dos mais diversos e inesperados, embora, atualmente, nada mais seja inesperado. Conversas sobre os mais diversos assuntos, com centenas de pessoas. O interesse costuma ocorrer de ambos lados, geralmente. Não é à toa que ele é bastante informado e perspicaz. Ter um bom papo também é necessidade, considerando a atual disputa por clientes que cerca seu ambiente de trabalho.

    Mais um turno está acabando. Enquanto olha para o relógio com um ar de puro cansaço, reflexo de um dia inteiro de trabalho, ele puxa papo com uma velhinha que acabara de entrar. Tem um rosto simpático, voz fina e cabelos pintados, talvez para disfarçar a idade. Sua idéia é agradar a ela para que, depois, nem preste muita atenção no valor a ser cobrado. Assim, ele não perde tempo (e dinheiro) com discussões inúteis e consegue fazer com que a pessoa o prefira, caso um dia tenha de escolher entre ele e um concorrente.

    É, em parte, besteira, como ele mesmo já percebeu. Raríssimas vezes, das quais se conta uma ou duas, isso ocorreu. Quase sempre o rosto de uma pessoa que passa por seu local de trabalho nunca mais é visto. Ele sabe disso, mas não consegue evitar. Preocupa-se em atender bem seus fregueses. Assim, todos acabam mais felizes, inclusive ele.

    A velhinha desce, lhe paga e agradece pela ótima viagem. Raro... Geralmente acaba havendo discussões pelo preço, por melhor que tenha sido o papo.Ela diz que adoraria ter uma nova oportunidade de lhe encontrar novamente e conversar mais um pouco. –Educação desnecessária - ele pensa. Sabe que não vai mais a encontrar. Pontos de espera, celular, todas essas coisas não fazem parte de seu mundo, que consiste em sair errante por todo canto da cidade em busca de clientes. Mesmo assim, não consegue evitar se sentir feliz.

    Tudo isso importa, mas não muda certos fatos. Os rostos são diferentes, assim comas as pessoas. Mas o trabalho continua o mesmo, estafante e cansativo. Infelizmente, tempo aqui é dinheiro. Ele já não se dá ao luxo de parar em algum lugar para descansar graças a atual situação de seu orçamento, que a cada mês fica mais apertado.

    Na verdade, nem teria onde parar, desde que mudaram as leis sobre bebidas alcoólicas. –Qual a graça de ir a um bar e não beber? – diria ele se lhe fossem inquiridos motivos para não aparecer mais por lá. –Não quero ser preso – continuaria ele, terminando por citar aquele ao qual julgava ser o seu mais precioso motivo para não se descuidar em nenhum momento. –Tenho família - diria, por fim.

    E de fato tinha. Eram duas meninas, a quem amava mais do que a si próprio, ele, que ainda estava vivo e feliz, e sua mulher, a quem, aos olhos dele, os anos não pareciam ter efeito. Ela, no entanto, mantinha sempre o estoque de cremes que as contas de casa lhe permitiam ter, e estava sempre atenta ao próprio reflexo no espelho. Eram suas filhas e sua mulher as pessoas mais importantes de sua vida. Ele desejava poder-lhes devotar cada segundo de sua vida que houvesse disponível.

    Seu horário de trabalho finalmente terminava. E fora a velhinha sua última passageira neste turno. O dia também acabava, junto com o horário de seu ganha pão. Enfim hora de ir para casa, lugar onde ficaria realmente feliz. Ele já pensava em tudo o que faria assim que chegasse. E amanhã... Ah! Amanhã era seu dia de folga. Dia no qual haveria zilhões de coisas a serem feitas.

    Enquanto se aproximava de casa, seu pensamento já fitava a si mesmo brincando com suas duas filhas, antes de elas irem dormir. Sua esposa e ele haveriam de ficarem sozinhos no quarto, após isso, para então se amarem. Talvez até o amanhecer. Amanhã era sua folga. Ele podia aproveitar esta noite. Tantas coisas por fazer neste pequeno espaço de tempo. Milhares delas que o deixariam extremamente feliz. Bastava agora estacionar o carro, descer e caminhar até a porta.

    E foi isso o que fez. Mesmo trôpego e cansado, foi até a porta com seus passos já vacilantes. Abriu-a e adentrou para sua morada. Ali estavam suas duas filhas, seus tesouros, sorrindo e brincando. Sua mulher, já deixando claro que esta noite seria deles, após as crianças dormirem. Ela o tentava profundamente com seu olhar, o qual já o havia inebriado tantas outras vezes. Aquelas por quem tanto ansiara estavam ali, bem em sua frente. Mas ele não as notou.

    Passou através delas com os olhos já se fechando. Era com grande esforço que abria as pálpebras de segundo em segundo. Suas pernas já cambaleavam e quase não o sustentavam mais. Sua mente não percebia nada, além do caminho que levava até seu quarto. Lá haveria de encontrar sua cama e, por fim, se jogar diretamente nela. Sua mente ainda se forçava a seguir atrás do fascínio que o quarto lhe despertava. Era onde finalmente poderia dormir, descansar sua exausta mente de uma semana inteira de trabalho. Era seu instinto prestando seu último trabalho antes de sua mente se apagar, enquanto ele se atirava em cima da cama.

    Não ouvira sua mulher, que dizia que o jantar estava pronto nem suas filhas o chamando para brincar. Não se lembrou que amanhã teria folga e nem pensou em nada. Apenas foi-se a dormir em sua cama.

    Não sabia, porém, que aquele seria o último sono que teria. Não acordaria mais uma vez para ver sua mulher e suas filhas, nem aproveitaria a folga que tanto desejara durante toda aquela semana. Não mais amaria sua mulher quase todas as noites, nem mais veria o sorriso de suas filhas, não brincaria com elas novamente. Aquele era o fim, do qual tinha apenas uma vaga idéia, pois deliberações sobre ele não ocupavam seu cotidiano. Não pensava em quando nem em como. Apenas tinha a fé de que iria para o céu, por suas boas ações e por ter sido um homem digno.

    Talvez, se soubesse da fatalidade que o acometeria, não tivesse ido dormir. Teria dedicado todo aquele momento para brincar com suas filhas, enquanto pensaria em todas as vezes que o fizera no passado. Amaria sua mulher pela última vez, com toda a intensidade do mundo. Pensaria em seu passado com ela, pensaria em seu desejo de ter menino a quem ensinar a jogar bola. E, talvez, pedisse a Deus um pouco mais de tempo, para poder aproveitar mais a vida que tinha. Mas apenas talvez. A possibilidade de isso ser feito naquele momento era quase nula. Se realmente soubesse, sua provável reação seria ir para cama e dormir, com apenas um único e último desejo. O de que Deus lhe concedesse mais algumas horas de sono lá no paraíso, antes de enfim acorda-lo.
     
  2. heheh fala verdade eu comecei meio desanimado...(tb olha a hr q eu fui ler )

    mas o texto e muito bom....gostei mesmo..e e akele negocio de q se soubesse q ia morrer todo mundo ai querer mais pokim de tempo neh!
     
  3. Skylink

    Skylink Squirrle!

    Nah... ele não ia fazer isso... iria querer mesm é dormir :mrgreen:
     
  4. Lord Meneltar

    Lord Meneltar Argerich

    Muito bom! :mrgreen:

    Sem retoques que eu possa sugerir (se é que eu posso sugerir alguma coisa)!

    :D Muito bom meeeeeeesmo.Não cansa a mente com QUESTIONAMENTOS EXISTENCIAIS PESADOS E CANSATIVOS

    :assobio:
     

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